Capítulo 116: Pai e Filho
O aviso dizia que a atualização sairia de madrugada. A princípio, eu também pensara em guardar o capítulo para tentar subir no ranking, mas, refletindo melhor, aqueles lugares pertenciam aos grandes mestres; gente de origem modesta como nós não devia se meter naquela disputa. Por isso, preferi atualizar agora, para que todos pudessem ler e descansar. Amanhã haverá duas atualizações, como de costume.
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Os acontecimentos do mundo mudam de maneira imprevisível e quase sempre escapam às expectativas humanas. Diante dos oito grandes portões vermelhos da Mansão do Marquês de Weiyuan e dos leões de pedra de aparência feroz que guardavam a entrada, Li Qing não conseguiu conter um suspiro.
Nas profundezas de sua memória, o antigo Li Qing quase não deixara ali lembranças felizes. Tudo o que havia eram humilhações, mágoas e sofrimento. Quando partira daquele lugar com passos resolutos, rumo ao vasto mundo que tanto desejava conhecer, fora enganado, espancado, passara fome e chorara. Em pouquíssimo tempo, experimentara todas as amarguras da vida. Ainda assim, jamais se arrependera. Apenas continuara avançando.
Sob esse aspecto, o antigo Li Qing também era um homem de vontade extraordinariamente firme, incapaz de permitir que as circunstâncias externas lhe roubassem a determinação. Mais tarde, ao ingressar no exército, também levara consigo a intenção de construir sua posição por meio de feitos militares. Não lhe faltara o desejo de um dia retornar gloriosamente à terra natal. Contudo, o destino era, afinal, insondável. Agora, seis anos inteiros haviam se passado. Ele retornava à mansão dos marqueses de Luoyang, mas tudo já mudara.
Do lado de fora da mansão, lanternas e enfeites festivos cobriam tudo, espalhando uma atmosfera de celebração. Um grande número de criados da residência formava duas filas, curvados em saudação para receber o jovem herdeiro abandonado que regressava em triunfo. A banda contratada tocava com todas as forças uma melodia alegre, e o som se elevava até o céu. Havia também nisso uma clara intenção de anunciar e intimidar as inúmeras famílias poderosas de Luoyang.
Afinal, Li Qing continuava sendo membro do clã Li. Por mais profundos que fossem os ressentimentos e conflitos entre ele e a mansão dos marqueses, ainda teria de retornar ao seio de seus ancestrais.
Li Qing permaneceu imóvel diante do portão, fitando sem piscar as quatro palavras escritas pessoalmente pelo imperador: Mansão do Marquês de Weiyuan. O canto de seus lábios se moveu, formando uma expressão que não era exatamente um sorriso, mas tampouco deixava de sê-lo.
Qingfeng, parado ao seu lado, lançou-lhe um olhar preocupado. Temia que aquele homem, tão cheio de ressentimento contra a mansão, perdesse o controle ali mesmo. Aproximou-se discretamente e puxou de leve a barra de sua roupa.
Li Hua também olhou para o jovem marquês, que parara subitamente diante da entrada, e curvou-se ligeiramente.
— Jovem marquês, o marquês ainda o espera lá dentro.
As sobrancelhas de Li Qing se moveram de leve.
— Seis anos... É realmente estranho voltar. Quando saí daqui, eu era apenas um garoto que nada entendia da vida. Agora cresci. E você também envelheceu bastante, administrador Li. Só não sei quantas pessoas ainda reconheço dentro desta mansão, nem quantas ainda me reconhecem.
Percebendo o significado oculto daquelas palavras, Li Hua sentiu um frio percorrer-lhe as costas. Naquele momento, o jovem marquês, que já fora tão voluntarioso e indomável, não podia causar nenhum problema.
Bastava olhar para os criados das diversas famílias que haviam saído às pressas para as duas margens da Rua do Perfume das Laranjeiras. Todos estavam ali para investigar a situação. Se algo acontecesse, dos portões cuidadosamente fechados certamente surgiriam altos funcionários e nobres, ansiosos para assistir à desgraça dos Li.
Quem poderia imaginar que o rapaz que fugira anos atrás alcançaria uma posição tão elevada? Agora, até o próprio clã Li precisava agradá-lo.
Naquela época, até Li Hua acreditara que, depois de deixar a família, Li Qing morreria ou acabaria na miséria. Mais cedo ou mais tarde, pensava ele, a pobreza o obrigaria a retornar. Mas agora o homem havia voltado — e de uma maneira que ninguém, em seus mais ousados sonhos, poderia imaginar.
Li Qing já estava diante do portão, mas continuava relutante em entrar. Era provável que, naquele momento, o marquês lá dentro estivesse tomado pela fúria, embora não pudesse demonstrá-la. Li Hua conseguia imaginar perfeitamente o quão terrível devia estar o rosto enfurecido de seu senhor.
— É verdade, jovem marquês. Agora o senhor cresceu e já não é aquele menino mimado de antigamente. Veja só quantas pessoas ao redor nos invejam por a família Li ter criado um filho tão notável! Entremos, jovem marquês. Se continuarmos aqui, temo que aquelas pessoas não resistam ao sol.
Li Qing soltou uma risada.
Li Hua realmente se tornara mais astuto com a idade. Aquelas palavras haviam sido escolhidas com uma inteligência admirável.
Ainda sorrindo, Li Qing avançou a passos largos em direção ao portão vermelho. Li Hua soltou discretamente o ar que prendia, enxugando o suor frio da testa.
Aquele jovem marquês não era nada fácil de servir.
Quando viram Li Qing atravessar calmamente o portão, quase metade da multidão que assistia ao espetáculo do lado de fora se dispersou imediatamente.
Depois de passar pelo muro decorativo junto à entrada, Li Qing deparou-se com um pátio espaçoso. Diante da porta principal do grande salão, o marquês de Weiyuan permanecia em uniforme oficial, com as mãos cruzadas atrás das costas e o corpo ereto. Ao ver Li Qing diante de si, a ira em seu rosto foi desaparecendo aos poucos, mas não surgiu sequer o menor vestígio de sorriso.
Li Qing parou outra vez.
Aquele homem era seu pai.
Sem ter a intenção deliberada de demonstrar nada, ainda assim permanecia ali com a postura adquirida durante os longos anos de vida militar: a cintura reta, o rosto quadrado impondo respeito mesmo sem que ele precisasse se enfurecer, os olhos penetrantes percorrendo o corpo de Li Qing. O bigode cuidadosamente aparado tremia levemente conforme os cantos de sua boca se moviam.
Li Muzhi também observava o filho que alcançara tamanho sucesso.
Aos vinte e um anos, era a primeira vez que realmente o examinava com atenção. Durante os quinze anos anteriores, não lhe dera o carinho que um pai deveria oferecer. Deixara-o sobreviver por conta própria e, pressionado pela esposa, chegara a impedir que seu nome fosse incluído no registro ancestral.
Ele conhecia perfeitamente os pequenos cálculos da esposa. Se Li Qing entrasse no registro, o herdeiro do título seria aquele primogênito diante dele. No Grande Chu, sempre se valorizara o mais velho em vez do filho legítimo, o virtuoso em vez do legítimo; respeitava-se a primogenitura e honrava-se o mérito. Essa era uma das razões mais importantes para a ascensão duradoura das grandes famílias do império. Em geral, nenhum chefe de clã pertencia à linhagem dos inúteis.
Mas agora Li Qing parecia já não precisar de nada da família.
Tinha apenas vinte e um anos e já ocupava o posto de comandante supremo do exército de Dingzhou. Com o clã Li como apoio, seu futuro seria ilimitado. Talvez a família Li viesse a produzir um segundo duque. Isso seria o acontecimento mais glorioso de toda a história do Grande Chu: uma única família com dois duques e três marqueses. Além dos Li, que outro clã poderia realizar algo assim?
Ao pensar nisso, Li Muzhi sentiu o peito inflar-se de orgulho.
Este é o meu filho.
Os dois permaneceram frente a frente, separados por vários passos, sem que nenhum deles demonstrasse intenção de falar primeiro.
Ao presenciar aquela estranha reunião entre pai e filho, Li Hua voltou a enxugar o suor. Yang Yidao e Tang Hu, que haviam entrado logo atrás de Li Qing, mantinham os olhos fixos nele, sem sequer lançar um olhar de soslaio. Para eles, só existia Li Qing. Quanto à forma como deveriam tratar o marquês, naturalmente dependeria da vontade do general.
Yang Yidao ainda parecia relativamente tranquilo, mas, no olho único de Tang Hu, lampejos ferozes surgiam de tempos em tempos. Naquele momento, ele pensava que, se o general e o marquês começassem a lutar, sem dúvida ajudaria o general.
Qingfeng mantinha-se silenciosamente um passo atrás de Li Qing, observando-o com atenção, temeroso de que ele perdesse o controle ali mesmo.
O pátio estava silencioso a ponto de sufocar.
Como pai, Li Muzhi não tinha motivo algum para tomar a iniciativa de falar. Mesmo que tivesse feito inúmeras coisas erradas contra Li Qing, jamais pronunciaria uma palavra de desculpa. Soberano, súdito, pai e filho: aquela era uma regra rígida, imutável desde os tempos antigos.
Li Qing também parecia ter razões para permanecer calado.
Quando eu lutava pela vida, você alguma vez se importou comigo? Alguma vez pensou se eu estava vivo ou morto, se tinha comida suficiente ou roupas para me aquecer? Agora que conquistei um território próprio, vocês se apressam em querer que eu volte. Se eu ainda fosse o antigo Li Qing, talvez dissesse com orgulho a Li Muzhi: Pai, voltei.
Mas o Li Qing de agora não sentia nada disso.
Os dois permaneceram em confronto durante algum tempo. Não foi muito, mas todos no pátio tiveram a impressão de que um século havia passado.
Por fim, o canto dos lábios de Li Qing moveu-se novamente, formando um sorriso que Qingfeng conhecia bem. Ele sabia que, quando Li Qing fazia aquela expressão, significava que havia chegado a alguma conclusão. Qingfeng respirou aliviado.
Como esperado, Li Qing avançou a passos largos. Parou diante de Li Muzhi, ajoelhou-se, apoiou as duas mãos no chão e bateu a cabeça contra o solo.
— Pai, eu voltei!
Li Muzhi finalmente deixou escapar um sorriso raro.
— Sim. Levante-se. Essa longa viagem deve tê-lo deixado exausto. E, depois de passar metade do dia no palácio, certamente está ainda mais cansado. Vamos conversar lá dentro.
Depois de dizer isso, virou-se e caminhou para o interior da residência. Li Qing se levantou e o seguiu até o grande salão.
No pátio, todos soltaram um longo suspiro de alívio. A ferocidade finalmente desapareceu do olho único de Tang Hu.
Yang Yidao lançou-lhe um olhar atravessado. Os outros talvez não conhecessem aquele sujeito, mas os dois haviam trabalhado juntos por tempo demais. Bastava Tang Hu mover o traseiro para Yang Yidao saber exatamente que tipo de coisa ele estava prestes a fazer.
Li Hua também enfim relaxou. O conflito que tanto temera não acontecera. Contanto que pai e filho se sentassem juntos e conversassem com franqueza, que problema entre eles não poderia ser resolvido? Além disso, no que dizia respeito ao marquês, não havia tantos motivos para culpá-lo. A principal responsável fora a marquesa, que na época exagerara demais.
Ao lembrar-se da marquesa Qiu, Li Hua não pôde deixar de suspirar. Aquela mulher, nascida em uma família nobre e que deveria ser uma das figuras centrais daquele dia, não estava na mansão. Enfurecida, retornara à casa de seus pais.
A marquesa realmente não tinha visão.
Será que não conseguia enxergar o futuro grandioso de Li Qing? Seu filho legítimo, Li Feng, era um completo libertino. Mesmo que herdasse o título um dia, seria incapaz de sustentar a Mansão do Marquês de Weiyuan. Com um irmão consanguíneo mais velho como apoio, contudo, tudo seria completamente diferente.
Por que ela não podia ceder diante de Li Qing? Mesmo que fizesse apenas um gesto simbólico, Li Qing não seria mesquinho a ponto de exigir cada mínimo detalhe. Li Hua acreditava que um homem capaz de construir uma carreira tão grandiosa partindo do nada jamais poderia ser alguém de coração estreito.
Dentro do grande salão, Li Qing falava, enquanto Li Muzhi escutava. Ambos mantinham expressões serenas. Não pareciam pai e filho que haviam se reencontrado depois de uma longa separação, mas apenas dois superiores conversando de maneira formal.
— Suas últimas campanhas foram todas dignas de elogio. Você empregou suas táticas com bastante propriedade. No entanto, o ataque surpresa contra An’gu, saindo do Pântano do Canto do Galo, foi arriscado demais. Você tinha pouco mais de mil soldados remanescentes. Se fracassasse, estaria condenado à ruína completa. Sabia disso?
— Eu sabia. Mas, naquela situação, dificilmente teríamos sobrevivido ao inverno de outra maneira. Colocar-se em um beco sem saída para encontrar a sobrevivência... foi apenas isso.
— Seu segundo tio lhe deu cem mil taéis de prata. Com esse dinheiro, você poderia ter comprado provisões suficientes para resistir.
Li Qing permaneceu em silêncio por um instante.
— Estou acostumado a depender de mim mesmo, não a depositar meu futuro nas mãos de outras pessoas. E se não conseguíssemos comprar os mantimentos? Ou se algum outro imprevisto surgisse?
Li Muzhi ficou em silêncio.
Li Qing dissera aquilo de maneira espontânea, talvez sem qualquer intenção oculta, mas aquelas palavras haviam atingido diretamente a ferida que mais o atormentava. Seu rosto mudou de expressão.
Mais uma vez, os dois permaneceram calados.
Depois de algum tempo, foi Li Muzhi quem rompeu o impasse.
— Quero perguntar-lhe uma coisa.
Li Qing inclinou-se ligeiramente.
— Pode falar, pai.
— Quero saber o que você teria feito se, no fim, não tivesse conseguido convencer Lü Dalin a mudar de lado. Teria desistido ou se apoiado na Fortaleza de Fuyuan para travar uma batalha decisiva contra Xiao Yuanshan?
— Eu faria Xiao Yuanshan derramar até a última gota de sangue sob os muros da Fortaleza de Fuyuan — respondeu Li Qing, friamente.
— Mas, nesse caso, os dois lados certamente sofreriam perdas terríveis. Os bárbaros das estepes aproveitariam a oportunidade para invadir novamente. Depois de tal golpe, Dingzhou perderia todas as suas tropas de elite e não conseguiria se defender. Você não pensou nas consequências? Dingzhou abriga um milhão de civis!
Li Qing se levantou e caminhou algumas vezes de um lado para o outro no salão.
— Quando Xiao Yuanshan tomou essa decisão, ele alguma vez considerou que Dingzhou abrigava um milhão de civis?
Fez uma breve pausa. Então ergueu a mão e pronunciou cada palavra com clareza:
— Depois que eu morrer, que o mundo seja inundado!
Li Muzhi fitou Li Qing, atônito. Parecia que só naquele momento havia finalmente enxergado o verdadeiro homem diante de si.
Depois que eu morrer, que o mundo seja inundado.
A frase golpeou seus nervos como um trovão.