Capítulo Trinta e Nove: A Família Li

Cavaleiros Dominam o Mundo Atirador Número Um 3691 palavras 2026-02-07 18:29:08

Com a aproximação do fim do ano, a capital imperial, Luoyang, estava ainda mais animada que de costume. O espírito festivo já tomava conta das ruas; tanto os plebeus quanto os nobres aproveitavam para, em meio à algazarra, sair com toda a família em busca dos mantimentos necessários para o Ano Novo. Os comerciantes, por sua vez, davam tudo de si para atrair a clientela. Lanternas vermelhas pendiam por toda parte, e os mais apressados já afixavam os dísticos da primavera nas portas. Em todos os rostos havia sorrisos: afinal, o Ano Novo se aproximava.

No décimo ano do reinado de Tianqi, todo o Grande Chu havia passado por tempos difíceis. Primeiro, uma seca devastadora assolou o sul, as colheitas foram perdidas, e a população, sem ter o que comer ou vestir, quando não recebeu auxílio do governo, acabou por se revoltar, assassinando oficiais e saqueando mantimentos. O tumulto começou em aldeias isoladas, mas logo se espalhou como incêndio, atingindo grandes províncias. Três delas foram completamente envolvidas pelo caos. Apesar do envio imediato de tropas imperiais para reprimir as revoltas, os líderes insurgentes, Lü Xiaobo e Zhang Wei, desapareceram sem deixar rastro, tornando-se uma ameaça latente. Não demorou para que, em seguida, tribos bárbaras invadissem as fronteiras e o exército de Dingzhou fosse derrotado. Quando, com grande custo, o império começava a se recuperar, foi surpreendido por um inverno rigoroso, o mais severo em cem anos. Uma onda de frio engoliu o império, e dos gabinetes das províncias chegavam incessantemente súplicas por socorro, deixando o imperador Tianqi à beira do desespero.

Finalmente, ao sobreviver a esse ano de adversidades, todos suspiraram aliviados. Não importava o que viesse, o importante era celebrar o Ano Novo com alegria; talvez o júbilo das festividades pudesse dissipar a má sorte acumulada ao longo do décimo ano de Tianqi.

Para os habitantes da capital, os sofrimentos do resto do império eram uma realidade distante. As informações que recebiam vinham dos editais oficiais ou de rumores imprecisos. Para eles, o décimo ano de Tianqi não havia sido tão ruim: a renda não diminuíra, não houve aumento de impostos, e a ordem se mantinha.

Diferente das demais áreas da capital, que exalavam entusiasmo com a chegada do festival, a Rua do Perfume de Tangerina mantinha-se especialmente silenciosa. Enquanto outros lugares fervilhavam de gente, ali o movimento era escasso, quase nenhuma loja permanecia aberta. De vez em quando, via-se uma casa de tecidos ou uma taverna, mas bastava notar os guardas postados nas entradas para que qualquer curioso se afastasse.

Na Rua do Perfume de Tangerina viviam apenas funcionários do alto escalão — não qualquer funcionário, mas verdadeiros dignitários. O dono de qualquer mansão ali, ao bater o pé, era capaz de fazer tremer os alicerces do império.

A família Li de Yizhou, cujo patriarca era o Duque An, Li Huaiyuan, residia nos confins dessa rua. Não havia ostentação dourada nem guardas ameaçadores na entrada; na verdade, o portão vermelho já mostrava sinais de desgaste, os anéis de bronze estavam manchados de verde e a tinta em alguns pontos descascava. Ainda assim, qualquer um que por ali passasse se detinha, reverenciando a entrada, não por outro motivo senão pelo ancião que, embora decrépito, ainda emanava respeito e poder.

Com o inverno, Li Huaiyuan sentia o corpo enfraquecer e o frio parecia lhe penetrar os ossos, apesar do aquecimento do carvão perfumado e do manto de pele de raposa que o cobria.

— A velhice é implacável, de fato. Ano após ano, este corpo só decai — murmurou, aceitando o aquecedor de mãos da criada e sorrindo melancolicamente.

— Pai, o senhor está mais forte do que nunca! — disse Li Sizhi, o Marquês de Yining, sentado ao lado do patriarca. Ele, que comandava o clã em Yizhou, viera à capital para saudar o velho, levando consigo os suprimentos necessários para o inverno.

— É verdade, pai! O senhor está mais vigoroso que nós! — concordaram Li Tuizhi, o Marquês de Shouning, e Li Muzhi, o Marquês de Weiyuan.

Li Huaiyuan riu alto: — Vocês só sabem como me agradar! Olhem, Zheng, Feng e Jun já estão crescidos. Como posso não estar velho? — apontou para os três jovens atrás deles, sorrindo.

Li Sizhi rapidamente replicou: — O senhor ainda não chegou aos setenta! Nossa família ainda precisa de sua força e sabedoria, pai. Com sua saúde, daqui a vinte ou trinta anos ainda estará montando cavalo, manejando a espada e bebendo vinho!

Li Huaiyuan suspirou, um tanto melancólico: — Sei que falam por carinho, mas é preciso prevenir o futuro. Já não sou o que era. É raro estarmos todos reunidos; depois das festas, talvez o terceiro tenha de ir ao sul reprimir rebeliões. Soube ontem que Lü Xiaobo e Zhang Wei, os fugitivos, voltaram a causar problemas.

Li Muzhi respondeu: — Não se preocupe, pai. Esses baderneiros serão contidos sem dificuldade.

Li Huaiyuan balançou a cabeça: — Não subestime esses homens, Muzhi. Da última vez, Lü Xiaobo e Zhang Wei sofreram uma derrota, mas agora voltam com força. Além disso, as tropas que você levará não são as de Yizhou, mas sim de Huaizhou e Binzhou, soldados indisciplinados e pouco confiáveis. Cuidado com eles!

Li Muzhi assentiu: — Pode deixar, pai.

Li Huaiyuan aprovou: — Sei que és experiente, confio em ti. Vocês três, o mais velho mantém Yizhou, o segundo serve na corte, o terceiro, embora militar, é astuto. Com vocês, nossa família pode não conquistar mais, mas tampouco ruirá.

Li Tuizhi sorriu: — Pai, temos talentos de sobra na família. Veja Zheng, nem trinta anos tem e já é vice-comandante em Yizhou, com grande prestígio. Jun acaba de passar nos exames, Feng, embora jovem, é muito inteligente, e ainda há Li Qing em Dingzhou… — notando a expressão do terceiro irmão mudar, interrompeu e riu: — Nossa família só tende a prosperar!

Li Huaiyuan sorriu: — É verdade. Este Li Qing… — após uma pausa, pegou um maço de papéis sobre a mesa. — Vocês souberam do que ele fez em Dingzhou?

Os três assentiram.

— Realmente, que coragem! — suspirou Li Huaiyuan. — Com apenas mil soldados remanescentes, ousou atacar de surpresa os bárbaros, exterminando o clã An'gu — quase dez mil vidas, não poupou ninguém. Uma carnificina completa!

Os irmãos já estavam informados e não se espantaram, mas Li Zheng, Li Feng e Li Jun, atrás deles, empalideceram.

— Exterminou quase dez mil, sem poupar mulher, velho ou criança? Avô, como Li Qing pôde ser tão cruel? — perguntou Li Jun, chocado.

Li Zheng, cerrando os dentes, esboçou um sorriso estranho, seus olhos, contudo, brilhavam de expectativa.

Li Huaiyuan lançou-lhes um olhar de decepção, ao que Li Tuizhi interveio, sério: — Jun, sem conhecer os fatos, não julgues apressadamente.

Li Huaiyuan sacudiu a cabeça. Dos três da geração mais jovem, Li Zheng vivia no exército, era impetuoso, valente, mas pouco refinado. Li Jun, doente desde pequeno, dedicou-se aos estudos, passando nos exames ainda jovem, mas era um tanto inflexível. Li Feng, o mais novo, era mimado pela mãe, mostrando-se mais como um dândi.

— Sizhi, explique a eles!

Li Sizhi levantou-se e, dirigindo-se aos jovens, disse: — Prestem atenção. Li Qing é mais novo que Zheng, quase da idade de Jun, mas sua audácia me impressiona. Está em Chongxian, longe da fronteira com os bárbaros; quando ouvi a notícia, não acreditei. Só depois descobri uma passagem secreta de Chongxian até os bárbaros, e foi por ali que Li Qing marchou. Com pouco mais de mil soldados, fez algo impensável e teve êxito. Quanto ao motivo de exterminar todo o clã An’gu, Zheng, pense: Dingzhou acabara de ser tomada pelos bárbaros, o imperador os odeia. Se Li Qing relatasse esse feito, o que aconteceria?

Li Zheng refletiu: — Com um feito desses e a situação atual, ganharia pelo menos o posto de vice-comandante.

Li Sizhi bateu palmas: — Exato! Mas por que Li Qing ocultou tudo, sem informar nem ao comandante-chefe de Dingzhou, Xiao Yuanshan?

— E o que isso tem a ver com o massacre? — perguntou Li Feng, alheio à dimensão do derramamento de sangue.

Li Muzhi balançou a cabeça, desapontado. Seu filho legítimo já tinha quinze anos; Li Qing, à mesma idade, já enfrentava o mundo sozinho, e ele fazia perguntas ingênuas.

— Se Li Qing relatasse o feito, perderia a vantagem da passagem secreta — explicou Sizhi. — Os bárbaros, ao saberem, se vingariam. Com suas tropas, Li Qing não resistiria, seria destruído. Por isso, ocultou o feito e exterminou todos, para garantir o segredo.

Li Jun discordou: — Tio, muita gente em Chongxian sabia da expedição, e ele salvou muitos escravos. O segredo dura pouco, logo virá à tona.

Li Zheng, por sua vez, exclamou: — Esse irmão é mesmo formidável! Mandou matar tanta gente de uma vez, até eu teria medo! Matar inimigos em batalha é uma coisa, mas ordenar a morte de velhos e crianças… isso me arrepia.

— Tens razão, mas o que Li Qing precisa agora é tempo. Quanto mais ocultar, melhor para ele. Tenho certeza de que, com sua inteligência, saberá como agir, mesmo que o segredo venha à tona. Ao menos garantirá a segurança de Chongxian.

— Há outro benefício — acrescentou Li Tuizhi —: ao exterminar o clã An’gu, criou um mistério, lançando os estepes ao caos interno. Com os bárbaros em desordem, Dingzhou ganha tempo e segurança.

— Exato! — concordou Sizhi. — Mais ainda, Li Qing está reorganizando as terras, distribuindo lotes, promovendo irrigação, garantindo o sustento do povo. Suas iniciativas são dignas de nota. Tu, Muzhi, tens um bom filho! Em poucos meses consolidou-se em Chongxian, sua influência só cresce. Seu exército já está completo e, segundo informes, os soldados, mesmo com pouco tempo de treinamento, mostram grande capacidade de combate. Quem diria que ele seria tão bom na arte militar! Ou será que recebeu ensinamentos secretos enquanto esteve em nossa casa?

Li Muzhi apenas tossiu, sem responder.

Li Huaiyuan continuou: — Dias atrás, Li Qing enviou um pedido por artesãos, especialmente ferreiros. Sizhi, atenda-o. Quero ver o que ele é capaz de criar.

Depois, ponderou: — Sizhi, entregue também a ele nossa rede secreta de Dingzhou.

Sizhi hesitou: — Pai, não seria isso…

Li Huaiyuan resmungou: — O que teme? Nas mãos de Li Qing, a rede será ainda mais útil. Além disso, ele é da nossa linhagem; por que recear que nos prejudique?

Li Tuizhi riu: — Pai tem razão. Se Li Qing tem talento, por que temer que cresça? Quanto mais forte ele for, melhor para a família. Quem sabe esse agente que plantamos em Dingzhou não nos traga surpresas?

Hoje entrego três capítulos, peço votos e favoritos — meu agradecimento antecipado!