Capítulo Setenta e Um: A Fera Humanoide
Ao ver os sinais transmitidos pela unidade de Wang Qinian, Li Qing estremeceu por dentro. Tal contra-ataque envolvia riscos enormes: o número de soldados lançados ao ataque não poderia ser grande, pois era necessário manter uma guarnição suficiente na posição, para não dar ao inimigo nenhuma brecha. Caso os que partissem fossem envolvidos pelas forças adversárias, a chance de retorno seria mínima. Em especial, a tropa de Wang Qinian era composta apenas por infantaria; mesmo que o local do combate estivesse relativamente distante para ambos os lados, a cavalaria da estepe tinha uma capacidade de investida curta notável — em duzentos metros, as probabilidades eram equilibradas.
— General, um contra-ataque pode aliviar a pressão sobre o Forte Wei. Não seria melhor preparar a tropa de Jiang Kui para apoiar a de Wang Qinian? — sugeriu Feng Guo em voz baixa.
Li Qing ponderou por um momento e balançou a cabeça.
— A verdadeira batalha ainda não começou. Os cavaleiros de Jiang Kui ainda não devem entrar em ação. Wang Qinian terá de contar apenas consigo. Diga-lhe para não se deixar levar pela sede de glória: avance rápido, recue com decisão. Estarei de olho nele.
Ao perceber os sinais do comando principal, Wang Qinian lambeu os lábios excitado, alisou sua barba farta e disse:
— Irmãos, atenção! O ataque precisa ser rápido, preciso e feroz. Assim que fizermos nosso trabalho, corremos de volta. Nada de avançar demais ou se empolgar no combate, senão ninguém volta.
Jiang Heniou, com o rosto avermelhado, respondeu:
— Fique tranquilo, general. Cada um cuida da própria vida, ninguém vai brincar aqui.
— Avançar!
Os trezentos homens se abaixaram e, seguindo o muro, avançaram até a primeira linha destruída no dia anterior, escondendo-se atrás das paredes ainda de pé. Wang Qinian ergueu a cabeça: a duzentos metros, os soldados bárbaros carregavam sacos pesados, ofegantes, em direção à rampa diante do Forte Wei, que agora estava elevada. Assim que lançavam os sacos, viravam-se e corriam. Alguns, menos afortunados, eram atingidos por flechas ao alcançar o topo e rolavam rampa abaixo — alguns morriam na hora, outros, feridos, ainda conseguiam se erguer e fugir, enquanto os que não podiam apenas gemiam pedindo socorro. Ninguém ia ajudá-los, pois ali, a qualquer momento, qualquer um poderia ser o próximo a cair.
— Avançar! — bradou Wang Qinian. Como uma pantera, avançou a grandes passadas, cabeça baixa, com os trezentos homens atrás, gritando em uníssono, varrendo como um vendaval a lateral esquerda do forte.
O contra-ataque de Wang Qinian surpreendeu Wanyan Bulu — ele não conseguia entender por que, estando em vantagem numérica e tática, o adversário abandonaria suas fortificações para atacar, o que, em sua visão, era puro suicídio.
Mas, experiente guerreiro que era, após um breve espanto, logo deu ordens e uma tropa de cavaleiros avançou velozmente para o campo de batalha.
Wang Qinian e seu destacamento avançaram com extrema rapidez, cientes de que o tempo era curto. Causar o máximo de baixas e retornar em segurança era o objetivo.
Com o avanço da cavalaria inimiga, as catapultas e as poderosas bestas do forte passaram a bombardear o trajeto dos cavaleiros, tentando atrasar sua chegada. Mas, devido à velocidade e dispersão dos cavalos, não era possível causar baixas significativas — apenas ganhar tempo.
Os soldados bárbaros, exaustos após correr quase dois quilômetros carregando sacos pesados, ao verem o ataque feroz dos homens de Wang Qinian, largaram tudo e fugiram. Não tinham mais forças para lutar.
O alvo de Wang Qinian, porém, não eram esses, mas os que haviam acabado de descer a rampa após largar seus sacos. Os trezentos homens entraram na lateral do campo, cortando a rota de fuga de centenas de inimigos. Com um grito, ergueram as lanças e avançaram. Mesmo após a corrida, rapidamente organizaram-se em duas linhas, como nos treinamentos, só que correndo em vez de marchar, pois o tempo urgia. A formação não era perfeita, mas não importava: os inimigos, exaustos, estavam longe de ser uma tropa descansada e feroz; eram mais como cães sem fôlego. Mesmo que a linha dos atacantes serpenteasse como uma cobra, mantinha seu poder letal.
Os bárbaros, ao verem a ameaça à frente, alguns voltaram a fugir, mas muitos, por instinto, sacaram as cimitarras e tentaram resistir — mas que força lhes restava?
Wang Qinian não se preocupou com formação. Girando sua poderosa lâmina, atirou-se no meio dos inimigos. Nas mãos dele, a arma, pesada para a maioria, girava leve como um brinquedo, abrindo caminho por entre os adversários.
Por onde passava, Wang Qinian deixava um rastro de sangue e membros decepados. Jiang Heniou, embora não tivesse a força de Wang Qinian, liderava seu grupo à base de gritos, pois ainda não dominava o apito de comando. Felizmente, o grupo era pequeno e os homens estavam juntos, então seus gritos guiavam a todos, ainda que se cansasse mais que os outros, que só precisavam avançar e atacar.
Alguns bárbaros tentaram subir de volta pela rampa, mas os defensores do Forte Wei, agora avisados, surgiram do alto em um ataque fulminante, lançando chuva de flechas, lanças e espadas, bloqueando a subida e descida dos inimigos.
Wang Qinian, avançando sem parar, logo chegou ao sopé da rampa. Os bárbaros perseguidos preferiram subir e tentar a sorte com os defensores do que enfrentar face a face a fera humana que os caçava.
Num relance, Wang Qinian viu a cavalaria inimiga romper o bloqueio e correr em sua direção. Soltou um brado:
— Todos, recuar imediatamente!
Jiang Heniou, atento a Wang Qinian, gritou:
— Virar à esquerda, correr!
Wang Qinian, irritado:
— Que esquerda nada! Esqueçam a formação, corram o mais rápido possível!
Jiang Heniou percebeu o erro — agora, só importava correr. Berrou:
— Cada um por si, corram de volta!
Na ida, Wang Qinian liderara à frente; na volta, ficou para trás.
Os defensores do forte, no topo da rampa, disparavam flechas contra a cavalaria bárbara, tentando ganhar tempo para seus companheiros.
Porém, eram poucos e as flechas dispersas pouco podiam fazer, a não ser atingir algum ponto vital por acaso.
Soou o apito estridente, e os defensores do forte, sem alternativa, começaram a recuar, pois, logo atrás da cavalaria, uma multidão de soldados inimigos subia a rampa.
Wang Qinian calculou perfeitamente o tempo: sua tropa corria de volta desesperada, ainda mais rápido que na ida — quem ficasse para trás morreria, pois enfrentar a cavalaria com aquela formação seria suicídio. Um simples avanço dos cavalos e seriam atropelados.
Em segundos, estavam de volta ao triângulo defensivo; o som dos cascos já ressoava atrás, mas, ao comando de Li Qing, pedras, virotes e projéteis de escorpião cobriram a área, derrubando a vanguarda dos cavaleiros.
Wang Qinian, que cobria a retaguarda, estava radiante — havia sido um sucesso total. Mas, no momento em que se regozijava, Jiang Heniou, já distante, olhou para trás e gritou:
— General, cuidado!
Antes que compreendesse, Wang Qinian ouviu um estrondo às suas costas. Veterano de inúmeras batalhas, reagiu de imediato: jogou-se ao chão, rolando por vários metros, e saltou de volta em pé, justo a tempo de ver um bárbaro corpulento girando o cavalo e erguendo a cimitarra, vindo em sua direção.
Aquele cavaleiro bárbaro, sobrevivente do bombardeio, vira os companheiros caírem e, vendo os inimigos já de volta à sua linha, decidiu recuar. Tornou-se um lobo solitário.
Wang Qinian curvou-se, apertando firmemente sua lâmina, encarando o cavaleiro que avançava a galope. Jiang Heniou e alguns soldados corriam e gritavam, mas não chegariam a tempo. Era um duelo solitário.
O cavalo relinchou, erguido nas patas traseiras, e o bárbaro desceu a lâmina com toda força, aproveitando o impulso. Do alto dos muros, Li Qing e Wanyan Bulu assistiam, tensos, a esse inesperado confronto. Ninguém ousava atirar.
Wang Qinian rugiu, endireitou o corpo e, de baixo para cima, num golpe ascendente, cortou o pescoço do cavalo. O animal, atingido em cheio, tombou com estrondo para o lado; Wang Qinian, com um estalo, teve os braços deslocados.
O cavaleiro, pego de surpresa pela manobra, foi derrubado junto com o animal. Uma perna ficou presa sob o corpo do cavalo, esmagada. Ainda assim, o bárbaro não gritou, apenas fitou Wang Qinian, incrédulo diante da coragem do rival.
Jiang Heniou chegou por fim, esbaforido:
— General, está bem?
Wang Qinian, sem reagir de imediato, só resmungou depois de ouvir a pergunta de novo:
— Ora, acha que algo me aconteceu? — E do outro lado, soldados cercaram o bárbaro caído, acabando com ele a golpes.
Com os braços pendendo, Wang Qinian caminhou de volta para suas linhas. Assim que entrou em posição, o forte, as torres e o comando principal explodiram em aplausos:
— Viva o comandante Wang!
Wang Qinian ergueu o olhar e sorriu, o orgulho evidente no rosto. Mas, ao pisar de volta em sua linha, caiu de bruços:
— Maldição, que dor! Chamem logo o médico Huan!
Do outro lado, Wanyan Bulu e seus oficiais estavam atônitos:
— Quem diria que o Da Chu teria guerreiros como esse!