Capítulo Treze: Relato do Treinamento Militar
No interior do Acampamento dos Invencíveis, mais de duzentos soldados feridos já estavam todos recuperados; entretanto, entre as dezenas de gravemente feridos, cerca de uma dúzia não resistiu. Para surpresa de Li Qing, dois casos que ele julgava impossíveis de sobreviver, dadas as condições rudimentares de tratamento, mostraram uma tenacidade impressionante e conseguiram se salvar. Um deles era Tang Hu, que perdeu um olho e virou um verdadeiro “ciclope”; o outro, Yang Uma Faca, levou um golpe no abdômen tão profundo que suas entranhas chegaram a escapar. Quando Li Qing ouviu esse nome pela primeira vez, não conteve o riso: Yang Uma Faca, de fato, havia levado uma facada. Só depois soube que o sujeito era açougueiro antes de se alistar, famoso por abater porcos com um só golpe, razão do apelido. Não apenas sobreviveram, mas dia após dia demonstravam mais vigor, como se fossem gatos com nove vidas, o que levou Li Qing a admirar ainda mais a força vital do ser humano.
“Se fosse em outro batalhão, eu já teria levado o golpe de misericórdia do time dos executores. Foi o Capitão Li quem me deu uma nova chance. Agora, minha vida pertence ao Capitão,” declarou Tang Hu, cheio de convicção.
“É verdade!” concordou Yang Uma Faca. “Se não fosse o Capitão Li trazer o Doutor Huan, eu jamais teria sobrevivido. De agora em diante, quem faltar com respeito ao Capitão Li vai provar o fio da minha faca.”
Li Qing caiu na gargalhada ao ouvir isso: “Muito bem, assim que se recuperarem, venham ser meus guardas pessoais.” Sobreviver a tais ferimentos fazia dos dois homens excepcionais; e se eram excepcionais, mereciam estar perto dele.
Os dois, renascidos, sentiram-se honrados. Ainda não estavam completamente curados, mas forçavam-se de pé atrás de Li Qing, assumindo na prática suas novas funções.
Agora, a reorganização do Acampamento dos Invencíveis estava quase concluída. Restavam cerca de trezentos homens; o flanco esquerdo, sob comando de Wang Qinian, ficou com mais da metade, o que deixou o barbudo eufórico. Mas, onde há alegria, há também descontentamento. Jiang Kui ficou com menos de cinquenta, e Feng Guo, com pouco mais de trinta; o restante ainda convalescia entre os gravemente feridos.
“Jiang Kui, por que essa cara amarrada? Quer mais homens? Pra quê? Você é da cavalaria, mas olhe: temos cavalos agora? Os cem homens que lhe dei sabem montar. Os que não sabem, de que lhe serviriam? Mais tarde, quando tivermos cavalos, não faltarão soldados para você,” ralhou Li Qing.
“E você, Feng Guo, esse semblante fechado é pra quem? Apesar de só ter trinta homens, são os melhores do nosso flanco esquerdo. Montados, são cavalarianos; desmontados, são guerreiros. As dez únicas montarias que restaram foram todas para você. Não viu que até eu, Capitão dos Falcoes, agora preciso pedir cavalo emprestado? Os seus homens são a elite, entendeu?”
Depois de repreendê-los e traçar perspectivas para o futuro, Li Qing voltou sua atenção para Wang Qinian. Por ora, não podia contar com Jiang Kui nem Feng Guo, então concentrou o treinamento nos duzentos homens de Wang Qinian.
Mas a alegria de Wang Qinian durou pouco. Ele logo caiu em desespero, pois nada sabia das técnicas de treinamento que Li Qing propunha. Sempre ouvira que soldados deviam treinar habilidades individuais, como ele mesmo fizera sob orientação de seus antigos superiores. Agora, porém, Li Qing insistia em treinar primeiro as formações: manter o alinhamento, saber os lados, virar à esquerda, à direita, à frente, às costas, até ficarem tontos.
“Capitão, pra que soldados têm de treinar essas coisas? Ficar em linha não enche barriga! Não somos guarda de honra do imperador! Queremos treinar kung fu, kung fu!” Wang Qinian gesticulava, exaltado diante de Li Qing.
Sem paciência para explicar, Li Qing apenas murmurou um palavrão e tomou as rédeas do treinamento. Em tempos de armas brancas, o mais importante para a infantaria era a disciplina: obedecer ao comando sem hesitar e avançar com coragem. De que adiantava dominar artes marciais no campo de batalha, se centenas de lanças e sabres te cercam? Até um imortal acabaria perfurado e despedaçado.
A disciplina é o que se treina primeiro, para criar reflexos automáticos nos soldados. No campo, ao menor comando, respondem sem pensar. Habilidade é útil, claro, mas só funciona aliada à disciplina. Não tendo recursos para treinar especialistas, que esses poucos habilidosos sirvam como exploradores noturnos; para a infantaria de Li Qing, bastava disciplina.
Li Qing sabia que, naquele tempo, formar uma tropa de elite levava anos, até mais de uma década. Mas, com o exército de Dingzhou esfacelado, de onde tiraria tal força? Mesmo que, no futuro, preenchesse as vagas, a maioria seria de camponeses. Ainda assim, sob seu treinamento, seriam tão bons quanto as tropas de elite, pensava Li Qing, orgulhoso de sua vantagem.
O chefe do flanco esquerdo, agora Capitão da Bandeira de Nuvens, Wang Qinian, estava no início da fila com expressão resignada. Li Qing, chicote em punho, circulava: se alguém se desalinhasse, levava um golpe; se relaxasse, outro. Nem os mais desleixados ousavam reclamar, pois até Wang Qinian apanhou duas vezes. Em pouco tempo, todos estavam eretos, olhos retos, postura impecável.
Jiang Kui, com seus cinquenta homens, formava com dificuldade um quadrado. Feng Guo, mais à vontade, treinava seus trinta no canto, trocando socos e olhares solidários para o outro lado.
Depois de dez dias alinhando as fileiras, os duzentos soldados já apresentavam alguma disciplina. Li Qing iniciou então os exercícios de virar à esquerda e à direita. Coitados, nunca tinham ouvido ordens assim: trombavam uns nos outros, se embaralhavam, dois frequentemente acabavam frente a frente. O chicote não perdoava. Tang Hu e Yang Uma Faca, já recuperados, também pegavam seus chicotes e se uniam à punição.
Ao fim do dia, estavam exaustos como nunca, mais do que nos treinos de artes marciais. Mal saíam do campo, devoravam a comida e desabavam nas esteiras, roncos trovejando pelo acampamento, tirando o sono de Li Qing.
Um mês depois, Li Qing, satisfeito, disse a Wang Qinian e Jiang Kui: “Agora está melhor. Escolham líderes de grupo, cada um com sua equipe. Vocês supervisionam. E podem treinar armados.”
Wang Qinian, ainda traumatizado pelo mês de sacrifício, perguntou com cautela: “Senhor, e agora, qual será o treino?” Suspeitava de novas ideias mirabolantes do capitão.
“Qual a arma mais comum em nosso acampamento?” questionou Li Qing.
“A lança, claro. É mais barata. Depois, os sabres curtos,” respondeu Wang Qinian.
“Então, os lanceiros vão treinar um golpe: estocada. Os sabristas, um: golpe de cima!” Li Qing respondeu sem hesitar.
“Como?” Wang Qinian e Jiang Kui se entreolharam, confusos.
“Isso mesmo: estocada e golpe!” confirmou Li Qing. “Mas, ao mesmo tempo, o alinhamento não pode se perder!”
Ambos suspiraram em uníssono. Pensaram que a tortura tinha acabado, mas ainda restava mais sofrimento. Manter a ordem já era difícil sem armas; agora, com elas, o desafio aumentava muito.
“Aliás, vocês três sabem ler?” Li Qing lembrou-se de perguntar. Os três coraram. Wang Qinian respondeu: “Senhor, as letras me conhecem, mas eu não conheço elas.” Jiang Kui disse: “Só sei escrever meu nome.” Feng Guo, envergonhado, confessou: “Senhor, uma vez sequestrei um estudioso, ele me ensinou umas poucas dezenas de caracteres.”
Li Qing balançou a cabeça: seriam esses seus oficiais? “Vocês três: treinam de dia, à noite venham até minha tenda, vou ensinar a ler.”
“Senhor!” exclamaram em coro. “Pra que soldado precisa ler?”
“Três idiotas!” Li Qing revirou os olhos. “Antes vocês eram soldados rasos, não importava. Agora são oficiais, entenderam? Se quiserem ser generais, precisam saber ler! Ou querem que eu desenhe as ordens pra vocês?”
Wang Qinian riu: “Ser general? Nunca imaginei!”
“Sem ambição!” Li Qing bateu-lhe na cabeça. “É preciso ter sonhos, barbudo, sonhos!”
Jiang Kui ficou pensativo; Feng Guo, cheio de esperança, perguntou: “General? Eu também posso ser?”
Hoje entrego três capítulos, faço uma reverência e me despeço.