Capítulo Noventa e Oito: Visita e Advertência
Ousadia nas palavras de Li Qing vinha não só de sua autoconfiança inabalável, mas também da convicção de que o sistema e a cultura do interior eram muito mais avançados do que os das estepes. Lá, predominava ainda uma estrutura próxima da escravidão, enquanto o Grande Chu já vivia a maturidade do feudalismo, com produtividade e outros aspectos muito à frente. Segundo suas memórias de outra vida, casos em que civilizações menos desenvolvidas venceram as mais avançadas em cinco milênios de história eram raríssimos. Paradoxalmente, sempre que isso aconteceu, sua nação regrediu profundamente, amargando as consequências por séculos, e ainda agora, ao atravessar as eras, ele sentia o peso dessa perseguição constante ao progresso perdido.
Agora que estava ali, jurava a si mesmo impedir que isso se repetisse. Vencer, aniquilar, sufocar qualquer ameaça logo em seu surgimento. É verdade que o Grande Chu parecia adormecido, enquanto as estepes viviam seu auge — Bayaer estava certo nisso —, mas mesmo um leão adormecido não pode ser provocado impunemente: basta despertá-lo e, ainda que grogue e enfraquecido, sua fúria jamais será equiparada à de um lobo. Li Qing queria ser aquele que despertaria o leão.
Pelo caminho, o espanto de Noqiá só fazia aumentar. Como comandante da invasão do último inverno, conhecia bem a situação em que havia deixado o condado de Chong — basicamente dizimado. Protegido pela Fortaleza de Fuyuan, raramente sofrera ataques das estepes, por isso seu povo era próspero, mas, após o saque, restara apenas a pobreza extrema. Em menos de dois anos, porém, a terra devastada pulsava de novo com vida e energia. Essa capacidade de regeneração, Noqiá sabia, era algo que o povo das estepes dificilmente possuiria. Um clã, ao sofrer uma tragédia, levava anos ou gerações para se reerguer.
No interior, porém, isso não se dava assim. A imensa população permitia rápida recuperação. Ele já vira, pelo caminho, muitas famílias migrando, e Li Qing, orgulhoso, lhe dissera: eram refugiados de outras províncias, que haviam perdido terras e bens, mas agora, tanto Chong quanto, em breve, Dingzhou, lhes dariam terras e casas, permitindo recomeçarem. Assim, vinham em massa.
Noqiá ficou alarmado. A população era sempre um fator decisivo nas guerras: mais gente significava mais soldados, mais riqueza. Bayaer, o grande khan, dizia que o avanço do latifúndio no interior geraria legiões de camponeses sem terra, tornando-se refugiados e, cedo ou tarde, provocando a implosão do gigante Chu. Não demorou até que a previsão se cumprisse, com rebeliões estourando no sul e enchendo os generais das estepes de esperança.
“O Grande Chu jamais resolverá isso”, proclamava Bayaer com audácia. “Para tanto, teria de derrubar os clãs. E, sem eles, o império continuaria a existir? É um nó cego, que só se desata com a troca de dinastia. Por que não seremos nós a encerrar esse ciclo?” Noqiá, então, era um dos jovens generais inflamados por esse sonho.
Agora, porém, via que Li Qing, em Dingzhou, começava a desfazer o nó. O fluxo populacional lhe dava potencial crescente, tornava-o cada vez mais forte. Noqiá sentia o amargor de reconhecer que, se Li Qing podia repartir terras com facilidade, era porque as invasões das estepes haviam exterminado os grandes proprietários. Não era, afinal, um tiro no próprio pé? Era preciso avisar o grande khan: Li Qing era um flagelo, precisava ser eliminado antes de crescer demais, senão as estepes sofreriam.
Ao ver o perfil calmo de Li Qing cavalgando ao lado de Naf, Noqiá chegou a cogitar matá-lo ali mesmo. Sabia que, a essa distância, mesmo desarmado, talvez conseguisse quebrar-lhe o pescoço, embora isso custasse a vida dele e de Naf. Talvez valesse a pena, se a vitória das estepes dependesse disso.
Foi então que Li Qing disse algo que fez Naf rir, com um som cristalino como sinos de prata. Toda a intenção assassina de Noqiá dissipou-se num instante. Baixou a cabeça, envergonhado: “O que há comigo? Estou com medo de Li Qing e, por isso, penso em matá-lo assim? Não devo temê-lo. Não estou aqui por incompetência, mas para proteger Naf. Não, preciso vencê-lo de frente, no campo de batalha — só assim lavarei minha vergonha. Isso é dignidade de um herói da estepe”.
Ergueu o rosto, com novo brilho no olhar. Yang Yidao, à frente, pareceu notar algo estranho e lançou-lhe um olhar desconfiado. Tang Hu, sempre atento, aproximou-se um pouco mais, alerta.
“O que essas pessoas estão empurrando?” Naf, curiosa, apontou para grupos que empurravam carroças de uma roda. Esquecera por um momento que era prisioneira.
“Ah, isto é carvão”, respondeu Li Qing, paciente. “Serve para aquecer as casas.”
“Não é carvão animal?”, perguntou Noqiá, menos ingênuo que Naf. “Isso não é venenoso? Como podem queimar?”
Tang Hu riu: “Não sabiam? Esse carvão realmente é tóxico, mas nosso general encontrou um jeito de eliminar o veneno. Agora, em Chong e Fuyuan, todos usam esse carvão em vez de lenha, é muito mais eficiente.”
“Carvão animal, de fato?”, Noqiá estava surpreso. Sabia que ninguém no Grande Chu usava tal coisa justamente pelo veneno. Tang Hu virou o rosto, desdenhoso; se não fosse possível, por que minerariam tanto?
Havia muitas dessas carroças pelo caminho. Li Qing explicou: “A maioria dessas pessoas acabou de chegar a Dingzhou. Ganharam terras, mas perderam a época do plantio, então vendem carvão ao governo ou a quem precisa de mão de obra. Assim sustentam suas famílias”.
“É permitido minerar à vontade?”, admirou-se Noqiá. Se o carvão era útil, devia ser considerado riqueza mineral, controlada pelo governo ou pelos clãs.
“Por ora, sim”, sorriu Li Qing. Notava que Noqiá realmente se informara sobre o interior. “Dingzhou vive um período especial: depois do ataque de vocês, todos passam fome, então abrimos exceção. Quando tudo se estabilizar, aí sim haverá restrições.”
Noqiá calou-se, mas a mente fervilhava. Para ele, Li Qing era claramente um destruidor das tradições do Grande Chu, alguém que acabaria mal visto pelos seus próprios compatriotas, talvez antes mesmo das estepes o eliminarem. Assim desejava, em silêncio.
Após um almoço simples numa choupana, seguiram viagem. Embora pobres, os anfitriões prepararam pratos saborosos, vegetais da horta que deliciaram o grupo, além de carne de coelho caçada por Tang Hu com arco e flecha.
“Quando se trata de comer, não há como competir com vocês do interior”, riu Naf, satisfeita. Era a primeira vez que provava algo tão diferente — mesmo uma família humilde sabia dar sabor à comida.
Li Qing sorriu: “Princesa Naf, talvez um dia você possa viajar como convidada por todo o interior e descobrir muitas novidades. Comer é só um detalhe. Eu mesmo gostaria de provar o carneiro de vocês, o chá de manteiga, o leite de égua fermentado... Cada um tem seus encantos.”
Naf respondeu, olhos brilhando: “Se um dia meu pai te capturar, prometo que você vai comer tudo isso, todos os dias, sem parar!”
Li Qing deu uma gargalhada. Essa jovem, afiada e teimosa, jamais o capturaria. Mas imaginou, divertido, se capturasse Bayaer e o fizesse assar carneiro para si, com Naf servindo leite de égua ao lado — seria uma bela cena.
Seguiram mais um trecho até que Naf, de súbito, exclamou, maravilhada: “Meu Deus, que lugar lindo!” Diante deles, um vasto lago se estendia, cortado ao meio por um dique largo. Margens cobertas de grandes árvores, e, em sua direção, fileiras de salgueiros cujos ramos verdes balançavam ao vento, formando ondas na água. Patos e gansos nadavam, enquanto barquinhos conduzidos por homens com longas varas guiavam as aves, entoando cantigas.
Nas margens, montanhas imponentes se espelhavam nas águas, fazendo do lago uma joia oculta entre montes. Perto da margem, casas grandes alinhadas, e ao longe, campos verdejantes subindo morro acima, até sumirem da vista.
“Aqui é o Lago do Canto do Galo”, disse Li Qing, sereno. Hoje, era um dos principais celeiros e criadouros de carne de Chong, além de servir de base militar — embora isso ele não revelasse. Sabia, porém, que Noqiá perceberia, ao ver tantos jovens trabalhando com disciplina militar. Não temia que soubesse; talvez até fosse bom.
“Foi daqui que você saiu, ano passado, para atacar de surpresa Angu Wanyan Bulu?”, perguntou Noqiá, apontando o dique.
“Exato”, confirmou Li Qing. “Na época, era só um pântano. Tive sorte de conhecer um caminho secreto e conduzi minhas tropas até as estepes. Se não fossem os saques ao clã Angu, eu não teria sobrevivido até hoje, nem alcançado estas conquistas.”
“Tudo isso à custa de vidas inocentes”, retrucou Noqiá, indignado.
“Inocentes?”, Li Qing sorriu, amargo. “Antes da guerra, Chong tinha mais de cem mil habitantes; depois, restaram menos de cinquenta mil. Onde estavam os inocentes? Quem portava armas? De onde vieram as riquezas do clã Angu? Foram pilhadas daqui, de nosso povo, general Noqiá. Não há inocentes, apenas vítimas.”
Noqiá não respondeu. Nesse ponto, jamais chegariam a um consenso.
“Eu escavei este lago, transformei pântanos em campos férteis, ergui fortalezas. Se tentarem invadir por aqui, basta um sentinela para fazer correrem sangue e não avançarem um passo. Mas vocês, sim, terão de temer um ataque nosso por este caminho. Conhecer a vida em constante alerta é algo que seus clãs das estepes começam a aprender agora; nós, porém, sempre vivemos assim.”
“É uma ameaça, então?”, cortou Noqiá.
“Pode considerar assim, se quiser.”
Hoje passei na prova teórica de direção, com nota máxima! Mais um capítulo em comemoração! Mas semana que vem estarei vulnerável — lágrimas de um escritor!