Capítulo Cinquenta e Cinco: A Batalha Sangrenta de Fuyuan (1)
Sobre o Forte de Fuyuan, a poeira que se erguia ao longe e as tropas que apareciam pouco a pouco no campo de visão fizeram o coração de Feng Jian gelar de medo. Não havia apenas cavalaria; o que mais o aterrorizava eram os grandes grupos de soldados e as enormes máquinas de cerco que avançavam protegidas por eles. Feng Jian fechou os olhos, tomado pelo desespero. Só de olhar para as forças inimigas, calculava que não seriam menos de vinte ou trinta mil homens.
No fim, caíra mesmo na armadilha de Wanyan Bulu. Feng Jian voltou-se na direção de Yixing, sabendo que, naquele momento, o general Lü Dabing estaria por lá. “General, oh general, será que sabe que já caiu na armadilha do inimigo? Se, depois desta batalha, você sobreviver, talvez então possa se tornar um verdadeiro general.”
Ao abrir novamente os olhos, Feng Jian já não demonstrava qualquer emoção negativa. Em seu olhar só havia uma determinação absoluta. Ao seu lado, o capitão de armas Zhenwu, Sun Guoqing, ainda não se recuperara do choque; olhava, atônito, para os inimigos que se aglomeravam aos pés da muralha, segurando as pedras do parapeito com tanta força que as unhas rangiam contra o tijolo.
“Capitão Sun, prepare-se para lutar, os inimigos vão atacar!” Feng Jian pegou, sem hesitar, uma lança do suporte ao lado. Os soldados na muralha estavam igualmente atônitos diante do súbito aparecimento das tropas inimigas. O silêncio era sepulcral.
Enfurecido, Feng Jian correu até a torre, apanhou os malhos do tambor e começou a soar o alarme com toda a força. “Guerreiros, o inimigo chegou, preparem-se para o combate!” Brandia os braços e batia o tambor; seus cabelos brancos esvoaçavam ao vento. Os soldados, despertados pelo estrondo, olharam para a torre, onde Feng Jian, com barba e cabelos brancos, chamava-os à luta, insuflando-lhes coragem e fervor.
“Matar os inimigos!”
“Matar os inimigos!”
Todos gritavam em uníssono.
“Guerreiros, o Forte de Fuyuan é alto e imponente. Que sejam vinte, trinta, ou até cinquenta mil inimigos, não conseguirão nada além de humilhação. O general Lü está a caminho, e o marechal Xiao também enviou reforços. Se resistirmos por um dia, a vitória será nossa!” Feng Jian subiu à torre e bradou com o braço erguido.
Sun Guoqing sentiu-se envergonhado. Ele, um militar, mostrava menos coragem que um velho estudioso de cabelos brancos. Correu até Feng Jian e murmurou: “Senhor Feng, precisamos retirar os homens dos postos avançados. Lá só há pouco mais de uma centena em cada um, deixá-los ali é mandá-los para a morte. Se recuarem, ainda podem ajudar a defender a fortaleza principal.”
Feng Jian não respondeu de imediato, olhando para os dois postos avançados próximos, cheio de pesar. “Não podemos recuar. Eles são nosso escudo. Se permitirmos que os bárbaros os tomem, poderão dominar nossas alas pela altura dos postos. Com a perícia dos bárbaros em arco e cavalo, sofreremos grandes baixas. Além disso, os homens podem recuar, mas as bestas de oito bois, não. Imagine se eles voltam essas bestas contra nós, o que faremos?”
Sun Guoqing sabia da importância dos postos avançados, mas ali estavam seus irmãos de armas, seus subordinados diretos. Deixá-los ali era condená-los à morte certa, isolados. Era como enviá-los direto ao inferno.
“Vamos apenas assistir à morte deles?” protestou, exaltado.
Feng Jian fechou os olhos. “Diga aos irmãos nos postos que quanto mais resistirem, maiores as nossas chances de vitória. Que lutem até o fim, pela pátria, pelo povo de Fuyuan!”
O rosto de Sun Guoqing empalideceu como a morte.
“Guardas!” gritou Feng Jian. Um soldado correu ao seu chamado. “Avise ao magistrado do condado de Fuyuan. Informe todos os habitantes da fortaleza: quem não quiser ser degolado como os que estão empilhados do lado de fora, que suba à muralha para lutar, sem distinção de idade ou gênero!”
“Envie mensageiros ao general, aos aliados próximos e a Dingzhou. Os bárbaros estão nos atacando!”
Wanyan Bulu, sob a fortaleza, contemplava-a com orgulho. Fuyuan seria sua. Em pouco tempo reunira vários clãs vizinhos, como Duoluo, Yehe e Feiyu, formando um exército de trinta mil homens. Com mais cinco mil guerreiros Bai sob seu comando, tomar Fuyuan, defendida por pouco mais de mil homens, era uma questão de tempo.
“Para conquistar Fuyuan, é preciso primeiro tomar os dois postos avançados. Cada um deles tem pouco mais de cem soldados de Dingzhou. Qual dos chefes deseja a glória deste feito?” perguntou Wanyan Bulu aos líderes tribais ao redor.
O destino é mesmo estranho. Não muito tempo atrás, Wanyan Bulu era apenas mais um entre eles. Quando seu clã foi destruído, todos pensaram que ele estava acabado, mas tornou-se o Rei de Ala Esquerda dos Bai. Os antigos companheiros logo se curvaram a seus pés. Assim, desgraça e sorte são impossíveis de prever.
“Rei de Ala Esquerda, nosso clã irá!” Dois chefes se adiantaram, o de Niutou e o de Feiyu, ambos seguidores fiéis dos Bai.
“Ótimo!” exultou Wanyan Bulu. “Quem conquistar os postos terá a glória do feito. Após a tomada de Fuyuan, cada um receberá o dobro do saque!” falou generosamente.
Os outros chefes não esconderam o arrependimento. Atacar um posto defendido por cem homens era tarefa simples, mas vacilaram e perderam a chance para os rivais.
Halernut, líder dos Niutou, e Agu Zhan, dos Feiyu, correram cheios de orgulho para suas tropas. Logo, os guerreiros das duas tribos avançaram como um enxame. Como a investida era contra posições elevadas, deixaram os cavalos e seguiram a pé, com armas e escadas de cerco, urrando em direção aos postos. Enquanto isso, a força principal de Wanyan Bulu avançava lentamente, bloqueando qualquer auxílio da fortaleza central.
Os soldados dos postos, ao verem os sinais da fortaleza, já estavam preparados para morrer. O chefe da guarda da esquerda, Li Chun, olhou e gritou: “Irmãos, chegou nossa hora. Antes de morrermos, vamos levar alguns juntos!” Mais de cem homens urraram, rostos ferozes. Já que estavam condenados, ao menos não iriam sozinhos. O mesmo acontecia no posto da direita. Os soldados, decididos a morrer, corriam para suas posições, olhos cheios de fúria, fitando os bárbaros que se aproximavam.
O assobio das bestas de oito bois rompeu o silêncio antes da batalha. As flechas enormes, grossas como um braço e com quase um metro e meio de comprimento, abriram clareiras nos grupos compactos dos Niutou, trespassando vários de uma só vez e derrubando outros com o impacto.
“Ótimo!” gritaram os soldados dos postos, recarregando as bestas com esforço conjunto. Havia duas dessas armas em cada posto, com alcance de quase um quilômetro. Dentro desse raio, só restava aos bárbaros receber os disparos.
Algumas dezenas de cavaleiros velozes irromperam das fileiras inimigas. As bestas, uma vez fixas, eram difíceis de ajustar, então ignoraram os cavaleiros, que avançaram até algumas dezenas de metros dos postos, disparando flechas de precisão. Os arqueiros bárbaros eram exímios; um descuido dos defensores e uma flecha podia atingir pontos vitais, matando-os mesmo através das armaduras. Logo, começaram a aparecer feridos nas muralhas.
O poder das bestas era imenso, mas disparavam lentamente. Após apenas dois disparos, os atacantes já haviam alcançado a base dos postos, erguido as escadas e começado a escalada como formigas.
“Soltem as toras!”
Os defensores puxaram as cordas, e as toras penduradas caíram com estrondo, varrendo os inimigos das escadas como folhas ao vento. Quem era atingido diretamente morria na hora; quem caía de grandes alturas dificilmente escapava sem ossos quebrados. Em instantes, o solo diante do posto se enchia de cadáveres e feridos em agonia.
“Preparem as pedras!” gritou Li Chun. “Lancem!” Havia tantos inimigos que bastava atirar as pedras para acertar alguém. Os soldados apanhavam pedras e corriam para as muralhas.
“Arqueiros, arqueiros! Suprimam a cavalaria inimiga!”
Após esse furioso assalto, os Niutou e Feiyu estavam exaustos; não só não tomaram os postos, como nem sequer alcançaram o topo das muralhas.
Ao ver a retirada em massa dos inimigos, Li Chun suspirou de alívio e sentou-se exausto no chão. Aquilo era só o começo, e batalhas ainda mais duras viriam. Olhando ao redor, viu que mais de uma dezena de soldados jamais se levantariam. A maioria fora atingida por flechas no rosto, morrendo na hora.
“Malditos bárbaros, atiram bem demais”, resmungou Li Chun, espiando por entre as ameias. Os inimigos já se reagrupavam, desta vez com grandes escudos à frente. “Droga, voltaram rápido!”
Os Niutou e Feiyu haviam subestimado demais a defesa. Achavam que bastava uma investida para tomar um posto defendido por cem homens, mas não sabiam que essas fortalezas haviam sido reforçadas durante séculos em Da Chu, com defesas preparadas para todo tipo de ataque. Com bravatas, só encontrariam a morte.
Ao ver a defesa dos postos resistir tão facilmente, a fortaleza central explodiu em gritos de euforia. Mas Feng Jian e Sun Guoqing sabiam que aquele ataque era apenas um teste; o verdadeiro sofrimento estava por vir. Ainda assim, o moral precisava ser mantido.
“Todos viram? Nos postos, com pouco mais de cem irmãos, já impedimos o avanço inimigo. Aqui, temos mais de mil e milhares de civis de apoio. Tomar Fuyuan? Nem pensar!” bradou Feng Jian, cheio de ardor.