Capítulo Oitenta: O Grande Espetáculo Tem Início
Náfia caminhou até o assento principal, sentando-se de lado na cadeira, as botas de couro de cervo apoiadas sobre a mesa, segurando um delicado chicote de montar em uma mão, enquanto com a outra batucava levemente. “Noquiar, pelo seu tom há pouco, parece que não ficou muito satisfeito com a minha vinda aqui, não é?”
Noquiar esboçou um sorriso amargo. A filha do grande Cã era famosa por sua teimosia e caprichos, destemida diante de tudo e de todos, provocando muitos dissabores na tribo. Até mesmo o senhor Tuhe, diante de suas traquinagens, só podia rir e relevar. Afinal, o grande Cã tinha vários filhos, mas apenas uma filha, que naturalmente era mimada pelo pai e protegida pelos irmãos. Noquiar sabia que os filhos do grande Cã viviam em constante disputa, mas todos tinham em comum o cuidado e a devoção pela irmã. Quem ousasse ofender a princesa, estaria mexendo num vespeiro. Contudo, de todos os erros, o maior era ela ter vindo a Shanglin nesse momento.
“Podem sair todos!” Noquiar ordenou com um gesto para os demais presentes na tenda. Seus subordinados saíram imediatamente, mas os guardas de Náfia não se moveram. Noquiar franziu o cenho: “Vocês também, saiam.”
Os guardas hesitaram, olhando para Náfia, que imediatamente saltou da cadeira como uma fera ferida. “Noquiar, o que quer dizer com isso? Tem coragem de expulsar meus guardas?”
Noquiar balançou a cabeça. “Princesa, confia em mim?”
Náfia hesitou por um momento, mas acabou assentindo.
“Então, por favor, peça aos seus guardas que aguardem lá fora. Preciso lhe dizer algo em particular.”
Náfia fitou Noquiar por um instante. Com um aceno de chicote, os guardas desapareceram sem deixar vestígios.
“Princesa, saiu às escondidas, não foi?” Noquiar foi direto ao ponto, sem rodeios.
O rosto de Náfia corou levemente, mas logo recuperou a postura. “Noquiar, do que está falando? Meu pai autorizou especialmente minha vinda para inspecionar Shanglin.”
Noquiar negou com a cabeça. O grande Cã jamais permitiria que uma princesa inexperiente em assuntos de Estado viesse inspecionar Shanglin. “Princesa, por favor, parta o quanto antes com seus guardas, o mais rápido possível.”
Náfia se enfureceu. “Noquiar, o que quer dizer? Não pense que, só porque meu pai gosta de você, pode me desafiar. Cuidado, ou conto ao senhor Tuhe, não, melhor, conto aos meus irmãos, e eles vão lhe aplicar uma bela surra.” Embora Tuhe a amasse, era um homem que separava bem o público do privado. Já seus irmãos, esses sim, sempre tomavam o partido dela, com ou sem razão.
“Princesa, não estou brincando.” Noquiar falou com seriedade. “Logo seremos atacados por inimigos, e esse inimigo provavelmente é o exército de Dingzhou.”
Náfia ficou atônita, depois saltou da cadeira: “Noquiar, está me subestimando por ser mulher? Aqui é a estepe; as tropas de Wanyan Bulu estão sitiando Dingzhou, não há exército de Dingzhou na estepe.”
“Princesa, dos dezenas de batedores que enviei ontem, nenhum retornou até agora. Certamente foram eliminados.” O semblante de Noquiar era grave. “Neste momento, quem mais além dos soldados de Dingzhou? Não sei de onde vieram, mas estou certo de que o inimigo está a caminho. Tenho apenas dois mil defensores, não consigo garantir sua segurança. Sua posição é valiosa; se algo lhe acontecer, quem arcará com a responsabilidade?”
Ao ver a seriedade de Noquiar, Náfia percebeu que ele não estava apenas tentando expulsá-la. Ficou nervosa; afinal, era uma mulher criada na estepe, sempre ao lado do pai, acostumada a situações de perigo. Uma situação tão anormal só podia significar uma coisa: o inimigo estava mesmo à porta, e seus próprios batedores já haviam sido eliminados.
“Mas trouxe mais de cem pessoas comigo, pelo menos posso ajudar de alguma forma…” Náfia disse, um pouco incerta.
“Princesa!” Noquiar quase ria de nervoso. “Se isto for uma armadilha cuidadosamente planejada pelo exército de Dingzhou, o inimigo será numeroso. Mesmo que seus cem homens sejam valentes, de que adiantaria? Antes que cheguem, fuja! Se Shanglin não puder ser defendida, o máximo que perderemos são alguns mantimentos e escravos. Este ano não poderemos atacar Dingzhou no outono, mas se algo acontecer com a princesa, o que será de nós?”
“Então partirei imediatamente! General Noquiar, você conseguirá defender Shanglin?” Náfia perguntou, preocupada.
“Defendendo ou não, precisamos resistir.” Noquiar fechou os olhos, já decidido a morrer ali.
Do lado de fora, de repente, soou uma corneta aguda e lúgubre. Noquiar saltou até a beira da tenda e viu seu guarda pessoal correndo em desespero. “General, estamos perdidos! Um grande contingente inimigo se aproxima!” Ao som das cornetas, os soldados do acampamento se agitavam freneticamente, colocando armaduras e equipando seus cavalos em meio ao caos.
O rosto de Noquiar empalideceu; tinham chegado rápido demais. Olhou para Náfia e sentiu como se o céu estivesse prestes a desabar. Engoliu em seco e perguntou com dificuldade: “Quantos são?”
“No mínimo, mais de dez mil!” O guarda pessoal, veterano de muitas batalhas, estimou o número ao observar a poeira no horizonte.
“Vamos, precisamos conferir!” Noquiar partiu a passos largos em direção à torre de vigia. Subiu rapidamente e, ao longe, já era possível distinguir os cavaleiros inimigos. Sob a bandeira com o caractere Lü, tremulando ao vento, estavam os generais de Dingzhou. “É Lü Dalin!” O coração de Noquiar gelou ainda mais. Lü Dalin era um veterano das regiões fronteiriças, experiente e conhecedor das tribos da estepe, um adversário formidável.
Os cavaleiros do outro lado se aproximavam cada vez mais, milhares de cascos retumbando no solo, fazendo a terra tremer. Náfia nunca tinha visto tamanha força; estava pálida de medo.
“General Noquiar, precisamos escoltar a princesa para fora imediatamente!” O capitão da guarda de Náfia falou, trêmulo.
Noquiar, furioso, chicoteou o capitão no rosto, derrubando-o no chão. “Seu imbecil! Sair agora seria suicídio! Mesmo se todo o exército escoltasse a princesa, seríamos como peixes na tábua de corte. Quem te mandou trazer a princesa para cá? Prepare-se para ser esfolado pelo grande Cã!”
O capitão se levantou, limpou o sangue do rosto e respondeu: “Se eu puder proteger a princesa e tirá-la daqui, que o grande Cã arranque minha pele, não me importo!”
Noquiar suspirou profundamente. “Protejam a princesa na minha tenda e aguardem!”
Teri se aproximou correndo. “General, o que faremos? Não conseguimos defender o acampamento! Temos só dois mil homens; mesmo alinhando todos, não cobrimos nem os muros de Shanglin!”
Noquiar pensou rápido. “Teri, reúna os escravos para defender os muros. Quero ver se os soldados de Dingzhou terão coragem de atacar os próprios compatriotas!”
“Sim, senhor!” Teri saiu correndo.
O exército de Dingzhou já estava a poucas centenas de passos de Shanglin, diminuindo a velocidade até parar. Sob a bandeira de Lü, alguns generais discutiam algo. Noquiar sabia que estavam apenas dando tempo aos cavalos para recuperar o fôlego. Logo, o ataque devastador começaria. Olhou para dentro da cidade: várias colunas de fumaça subiam ao céu. Mas quando chegariam os reforços? O mais próximo era Wanyan Bulu, sob as muralhas de Fuyuan; mesmo ele levaria horas para chegar. Será que poderia resistir tanto tempo?
“Façamos nossa parte e deixemos o resto ao destino.” Noquiar olhou novamente na direção em que a princesa havia sido levada. Se ao menos pudesse garantir a segurança dela, já seria o suficiente.
Do outro lado, no exército de Dingzhou, Lü Dalin lançou um olhar de desprezo para as muralhas improvisadas de Shanglin. “Com tais muros, poderíamos derrubá-los num só ataque. Quem se atreve a liderar a primeira investida?”
“Eu me ofereço!” Dois responderam ao mesmo tempo: Lü Dabing e Guoshanfeng.
Lü Dabing, que sofrera uma grande derrota em Fuyuan, estava sedento de vingança, os olhos flamejando, fixos nas frágeis muralhas de Shanglin, louco para atravessá-las e exorcizar sua raiva acumulada. Vendo Guoshanfeng disputar com ele, gritou, vermelho de fúria: “Você, um simples capitão, ousa competir comigo?”
Guoshanfeng encheu o peito: “Destruir bárbaros e libertar escravos não depende do posto. Por que não posso disputar?”
Lü Dalin riu satisfeito; a moral estava alta. “Capitão Guo, seus homens já eliminaram vários batedores inimigos, já têm méritos suficientes. Não precisa disputar com o subcomandante Lü.”
Guoshanfeng respondeu contrariado, pensando que, de fato, em momentos como este, sempre dão a prioridade aos irmãos de sangue.
Enquanto discutiam quem lideraria o ataque, uma confusão irrompeu no acampamento de Shanglin. Lü Dalin percebeu o tumulto, gritos de morte e chamas se espalhando. Olhou para Guoshanfeng.
Guoshanfeng, animado, exclamou: “General Lü, nossos companheiros começaram o levante, devemos atacar agora!”
Lü Dalin se alegrou e deu o sinal de ataque.
Lü Dabing rugiu, disparando à frente dos demais.
No acampamento de Shanglin, a confusão tinha origem: Teri, à frente de mais de cem homens, tentava forçar os escravos a subir nos muros como escudo humano.
Três ou quatro mil escravos encaravam Teri friamente, sem mover um músculo. Teri, furioso, sacou a lâmina e foi se aproximando dos desarmados. “Querem morrer? Você aí, venha!”
O escolhido recuou, mas se recusou a sair da fila.
Vendo os escravos, normalmente submissos, ousarem desafiar, Teri explodiu de raiva, saltou como uma águia sobre o escolhido e, sem hesitar, ergueu a lâmina para abatê-lo.
Foi quando Hudong saltou à frente, bloqueando o golpe com um só braço. Com a outra mão, puxou de sua cintura uma pequena faca de vários centímetros e, num movimento rápido, cravou-a na cintura de Teri, gritando: “Companheiros! Esses bárbaros querem nos matar. Lutem! Nossas tropas estão lá fora; se conseguirmos sair, viveremos!” Enquanto gritava, golpeava Teri repetidamente com a faca.
Naquele momento, os companheiros de Hudong, junto com outros previamente combinados, começaram a incitar o tumulto. O campo de escravos virou um caos, uns correndo para trás, outros avançando.
Teri, apesar de habilidoso, jamais imaginou que os escravos ousariam reagir. Para piorar, Hudong era um especialista selecionado do Departamento de Investigação e Estatísticas, pronto e determinado, enquanto ele, pego de surpresa, não teve tempo de reagir. O duelo durou um instante, e Teri perdeu a vida.
Ao ver o centurião transformado num cadáver ensanguentado, e Hudong ainda esfaqueando sem parar, os subordinados de Teri ficaram paralisados por um momento, mas logo sacaram suas armas, partindo para cima. Facas e lanças ceifaram várias vidas num piscar de olhos.
“Companheiros, derrubem-nos! Tomem as armas deles, senão todos morreremos!” Hudong bradou, pegando a espada de Teri. Com um giro, derrubou outro bárbaro.
“Matem os bárbaros!” Um rugido ensurdecedor ecoou entre os escravos. Milhares avançaram como uma onda, engolindo em segundos o grupo de soldados inimigos.