Capítulo Trigésimo: Todos os banquetes são de pratos secos
No décimo ano da dinastia Tianqi, a neve chegou não apenas mais cedo, mas também com maior intensidade. No caminho de volta, Li Qing avistou o solo já completamente coberto por um manto branco, enquanto a neve caía do céu cada vez mais densa. Entre os mais de mil soldados, apenas estes estavam devidamente agasalhados; já os camponeses de Chongxian, encarregados do transporte das riquezas, vestiam roupas leves. No entanto, após saquearem o clã Angu, passaram a exibir mantos e vestes de toda sorte e cor. Vistos de longe, pareciam um grupo de pastores das estepes em migração. Os escravos libertados, apesar das roupas em farrapos, encontravam alegria incontida na esperança da liberdade e do retorno à terra natal. Mesmo com os rostos azulados e as mãos enegrecidas pelo frio, a excitação era visível.
O exército avançava em júbilo, celebrando a abundância de grãos e de gado, o que garantiria que Chongxian não mais passasse por necessidades. Montado em seu cavalo, Li Qing observava os rostos radiantes de seu povo e, em silêncio, lamentava: a ascensão de um grupo significa a queda de outro no abismo. Perguntava-se se, um dia, teria o mesmo destino trágico de Wanyan Buhua. Ao recordar a loucura do fim de seu antigo rival, um calafrio percorreu sua espinha. Para sobreviver, era preciso ser ainda mais poderoso. Neste tempo, apenas a força garantia respeito, proteção própria e dos que se ama.
Enquanto cavalgava lentamente, ponderava sobre os próximos passos ao chegar em Chongxian. Tang Hu e Yang Yidao, à frente e atrás, ladeavam Li Qing com os guardas pessoais, recebendo aclamações calorosas por onde passavam.
Quando se aproximavam do Pântano do Canto do Galo, Li Qing já traçara seus planos. Shang Haibo e Guo Shanfeng também se aproximaram. O cheiro forte de sangue que vinha de Guo Shanfeng fazia Li Qing pensar nos corpos espalhados pela neve, e um enjoo o tomou, deixando-o pálido.
"General, está bem?" Shang Haibo perguntou, preocupado. "Adoeceu por causa do frio?"
Li Qing balançou a cabeça e disse a Guo Shanfeng: "Desta vez você se saiu muito bem. A partir de hoje, será capitão de armas do Batalhão Invicto. Qual é mesmo seu nome verdadeiro? Preciso registrar em Dingzhou."
Guo Shanfeng ficou radiante. Finalmente havia alcançado o que almejava, e logo como capitão de armas, um posto acima do de capitão da Vanguarda, podendo agora comandar centenas de homens. Sabia que Wang Qinian e outros, que seguiam Li Qing desde o início, ocupavam posição apenas ligeiramente superior à sua.
"Muito obrigado, general. De hoje em diante, serei Guo Shanfeng. O passado, deixo para trás."
"Muito bem," assentiu Li Qing. "Vá à frente e organize a travessia do exército pelo Pântano do Canto do Galo. Somos muitos, temos muito gado. Não quero problemas ou perdas desnecessárias."
"Pode deixar, general!" Guo Shanfeng bateu no peito. "Garanto que nenhum animal será perdido."
Desde que Li Qing partira à frente do exército, Xu Yunfeng vivia inquieto, despachando mensageiros em busca de notícias após cada expediente. Antes de receber informações sobre Li Qing, uma boa nova chegou: Lu Yiming retornara.
Junto com Lu Yiming, veio uma longa caravana de carros, carregados em sua maioria de grãos. Cumprindo a missão, Lu Yiming trocara as cinquenta mil taéis de prata por grãos em Fuzhou e ainda conseguira diversas toneladas de apoio da família Li, de Yizhou. Vendo Lu Yiming chegar exausto, Xu Yunfeng lamentou: "Ah, Senhor Lu, se ao menos tivesse chegado alguns dias antes..."
Lu Yiming, visivelmente cansado, estranhou: "O que quer dizer, Excelência? Aconteceu algo em Chongxian?"
Xu Yunfeng olhou ao redor, balançou a cabeça e só contou o ocorrido após estarem a sós: Li Qing, impaciente com a demora de Lu Yiming, atravessara o Pântano do Canto do Galo e saqueou os bárbaros. Antes mesmo de Xu Yunfeng terminar, Lu Yiming já estava alarmado: "E então? Há notícias? O general voltou?"
Xu Yunfeng balançou a cabeça. "Já se passaram mais de dez dias, e nada!"
Ambos trocaram olhares preocupados. Lu Yiming sentia-se inquieto e irritado com Shang Haibo. Se algo acontecesse a Li Qing, todo seu esforço teria sido em vão.
O povo, alheio às preocupações dos dois, celebrava a chegada ininterrupta de caravanas de alimentos ao acampamento. Ao ouvir os festejos do lado de fora, Lu Yiming apenas sorriu amargamente: "O general tem estrela, Excelência. Façamos o que está ao nosso alcance. Armazene os grãos."
Passaram o dia em suspense. No dia seguinte, uma notícia extraordinária chegou: um cavaleiro galopou até o acampamento, desmontou de um salto e correu, gritando: "O general venceu! O general voltou vitorioso!"
Xu Yunfeng e Lu Yiming, tomados pela alegria, esqueceram toda compostura e arrastaram o soldado para dentro, bombardeando-o com perguntas.
O soldado, confuso, piscou várias vezes antes de dizer: "O general conquistou uma grande vitória, trouxe incontáveis mantimentos, animais, armas e... incontáveis mulheres!"
Sem noção precisa de quantidades, o soldado só sabia dizer "incontáveis".
Os dois oficiais se entreolharam, intrigados com a menção às mulheres. Logo, porém, a felicidade prevaleceu — uma grande vitória, enfim! Deram-se as mãos em comemoração. "Excelência, teremos de preparar mais armazéns!", riu Lu Yiming.
"Sem dúvida," Xu Yunfeng também ria. "Quando o general chegou, prometeu que em Chongxian ninguém mais morreria de fome. Na hora, duvidei, achando que era só consolo para o povo. Agora vejo o quanto estava enganado. O general é realmente extraordinário."
Após despedirem o soldado, ambos apressaram-se em preparar a recepção ao retorno de Li Qing.
Instrumentos de percussão já estavam prontos. Em pouco tempo, organizaram uma equipe de dezenas de pessoas, avisaram as lideranças das aldeias para que o povo recebesse o exército nas ruas, e ergueram um grande arco triunfal com pinheiros e ciprestes. Vasculharam baús e encontraram fitas vermelhas para enfeitar o portão. Embora simples, era o melhor que Chongxian podia oferecer. Os dois oficiais, eufóricos, tomaram banho, vestiram-se com esmero, fizeram a barba e foram até o arco triunfal aguardar Li Qing.
Quando a patrulha de vanguarda enviada por Xu Yunfeng encontrou Li Qing, relataram as preparações do acampamento. Guo Shanfeng, agora experiente, fez o comboio parar: o primeiro a cruzar o arco e receber os aplausos do povo deveria ser o líder, Li Qing.
O som dos cascos se aproximava. Surgiram as primeiras tropas, e o barulho dos tambores e dos sinos se espalhou. Dezenas de milhares de pessoas celebravam. Li Qing, à frente, apareceu diante de todos, seguido por um cortejo que parecia não ter fim.
Ao cruzar o arco triunfal, Li Qing olhou para os lados, viu o povo exultante e, com um simples gesto das mãos, fez com que o silêncio se instalasse. Todos aguardavam suas palavras. Xu e Lu, certos de que o general faria um discurso emocionante, também prepararam seus cumprimentos.
Li Qing, pronto para palavras inflamadas, deparou-se com a multidão de rostos amarelados e corpos magros, sinais claros da desnutrição. Abriu a boca, e bradou: "A partir de hoje, meus amigos, teremos comida de verdade em todas as refeições!"
Por um instante, dezenas de milhares ficaram atônitos. Xu e Lu quase caíram de surpresa. Nunca antes, na história, alguém proferira palavras tão singulares ao retornar vitorioso.
Hoje ofereço três capítulos.
Com humildade, peço votos e que adicionem à sua coleção.