Capítulo Trinta e Seis: Carvão de Fera
Os dois saíram da casa e, instintivamente, encolheram-se diante do frio. Li Qing parecia aguentar melhor, pois, depois de tanto tempo se exercitando, sua resistência ao frio era maior do que a de Lu Yiming, um típico estudioso. Assim que passaram pela porta, o vento soprou forte, e Lu Yiming, de compleição já franzina, estremeceu imediatamente. A neve caía cada vez mais intensa, o vento soprava os flocos em todas as direções, e a visibilidade já não passava de dez passos. Cercados por Yang Dao, Tang Hu e outros guardas pessoais, os dois avançavam contra o vento, quase sem conseguir abrir os olhos. O vento inflava as roupas em seus corpos como velas de navio, fazendo-as se erguer para trás.
— General, hoje o vento e a neve estão demais. Melhor voltarmos e esperar que o tempo melhore para sair — gritou Yang Dao para Li Qing.
Li Qing balançou a cabeça:
— Não faz mal. Quanto maior a tempestade, mais devemos ir ver. Se houver algum problema lá, podemos resolvê-lo de imediato. Se esperarmos que aconteça alguma coisa para então ir, que sentido teria?
Vendo que não poderia convencer Li Qing, Yang Dao e Tang Hu colocaram-se à frente dele, tentando proteger o general com seus próprios corpos do vento e da neve. Ao ver isso, Li Qing ralhou, sorrindo:
— O que é isso? Acham que sou uma donzela frágil? Saiam da frente! — E, afastando os dois com as mãos, avançou a passos largos.
Lu Yiming, que vinha logo atrás, observou a postura resoluta do general e pensou consigo mesmo: “Que gesto eficaz para conquistar o apoio do povo!” Imaginou o impacto que teria, em um dia de tempestade como aquele, o mais alto oficial aparecer diante dos cidadãos. Mesmo um burocrata que nunca tivesse feito nada pelo povo ganharia elogios; quanto mais Li Qing, que era o salvador de dezenas de milhares de habitantes do condado de Chong. Li Qing era realmente diferente dos jovens das famílias nobres. Se fosse outro, em um dia como aquele, estaria deitado sob cobertas de seda, ao lado de um fogareiro, vinho quente e bela companhia, recitando poesias. Certamente, isso se devia à sua origem: o general deixara a família ainda jovem e, tendo experimentado as agruras do mundo, compreendia a dor do povo.
De repente, Lu Yiming sentiu um sobressalto: pensou em grandes figuras da história, assustou-se com o próprio pensamento e tratou de apagá-lo. Contudo, ao olhar para as costas largas de Li Qing, seus olhos ficaram mais ardentes.
Apesar da tempestade, havia muita gente no acampamento; eram, em sua maioria, anciãos das aldeias, organizando os moradores para limpar a neve acumulada com grandes vassouras de bambu. Mas a neve dos dias anteriores já estava dura como pedra, e apesar do esforço, só conseguiam remover a camada mais recente.
— Senhor, há perigo? As casas vão aguentar? — Li Qing aproximou-se de um velho de cabelos e barbas brancos, que comandava a limpeza, e perguntou em voz alta, junto ao ouvido dele.
— Não se preocupe, general. As casas que seus homens construíram são muito sólidas. Se a neve não continuar caindo sem parar, não teremos problemas! — respondeu o ancião, igualmente em voz alta. Ao verem Li Qing, os que limpavam a neve ficaram atônitos, parando sem perceber.
O velho, ao perceber, ficou furioso:
— O que foi? Já estão cansados depois de tão pouco? Vocês só têm o que comer porque o general lhes dá trabalho duas vezes ao dia... — E, no meio da bronca, notou o olhar estranho de todos, virou-se e só então viu Li Qing sorrindo ao seu lado, ficando espantado.
— Senhor subcomandante, com essa neve toda, por que veio até aqui? — disse, ajoelhando-se de imediato. — Saudações, senhor! — Vendo o velho ajoelhar-se, os moradores despertaram, largaram suas ferramentas e ajoelharam-se também: — Saudações, general!
— Levantem-se, levantem-se! — Li Qing ajudou o velho a erguer-se e exclamou para todos: — Vamos, voltem ao trabalho! Se a neve acumular demais, teremos problemas!
— Senhor, a casa está boa para morar? — perguntou Li Qing, sorrindo.
O velho estava emocionado. Para eles, Li Qing era uma figura distante, um alto oficial, mas também seu salvador. Muitos já haviam colocado um altar com o nome de Li Qing em suas casas, em agradecimento. Agora, vê-lo de tão perto parecia um sonho.
— Obrigado, general, a casa está ótima, ótima! — respondeu o ancião, sem conseguir articular. — Este inverno está mais frio que todos os outros. Se não fosse o senhor, teríamos morrido de fome ou de frio.
Li Qing aproximou-se das construções rústicas de madeira e, ao examinar, franziu o cenho: para correr com a obra, as casas estavam sólidas, mas havia frestas demais entre as madeiras, por onde o vento e a neve entravam. Era fácil imaginar o frio lá dentro. Entrou rapidamente; estava um pouco melhor do que fora, mas ainda assim gelado. Havia uma fogueira acesa, mas era insuficiente.
Vendo Li Qing com o cenho franzido, Lu Yiming explicou:
— Fizemos as casas às pressas, pensando que seriam provisórias. Não nos atentamos a detalhes, nem previmos um inverno tão rigoroso. Erramos, mas vamos organizar reparos e não deixaremos ninguém morrer de frio.
— Certo — assentiu Li Qing. — Cuide para que os reparos aconteçam logo. Se faltar gente, peça a Shang Haibo para mandar soldados do acampamento. Com a neve desse tamanho, eles não podem treinar mesmo; assim, terão o que fazer.
O velho, ouvindo tudo, não conseguia conter as lágrimas de gratidão. Havia quanto tempo não via um oficial tão bom? Só sabia curvar-se e agradecer:
— Obrigado, general! Agradeço em nome de todos!
Li Qing sorriu:
— Não precisa agradecer, senhor. Nossa obrigação como oficiais é garantir que o povo viva em paz. Caso contrário, de que serviríamos?
O velho enxugou as lágrimas, assentindo, mas pensava: “Diz isso, mas em tantos anos, nunca vi um oficial agir assim. Mesmo o senhor Xu, quando estava aqui, ainda não era o magistrado...”
Enquanto refletia, ouviu-se uma algazarra do lado de fora. Yang Dao, alarmado, avançou até a porta, bloqueando a entrada com seu corpo largo. Viu então, através da tempestade, um grupo correndo em desespero, gritando alto.
— O que aconteceu? — Yang Dao, já com a mão no cabo da espada, ficou alerta.
— Senhor, aquele que grita é do nosso vilarejo, conheço ele! — O velho, vendo a espada meio desembainhada de Yang Dao, ficou tenso e se apressou.
— Yu Lao San, está uivando por quê? Pegou fogo ou desabou sua casa? Que desespero é esse? O general Li está aqui, cuidado para não ofender! — ralhou.
Yu Lao San, ao ouvir, assustou-se. Olhou e reconheceu Li Qing atrás do guarda, ajoelhando-se de imediato:
— Ancião, algo terrível aconteceu na casa da senhora Wu Si Niang.
— O que foi? — O ancião, vendo que Li Qing não se irritara, perguntou.
— O senhor sabe que Wu Si Niang trabalha na cozinha do vilarejo, mas hoje, na hora de preparar a comida, ela não apareceu. Mandaram chamá-la, mas ela não respondeu. Pelo contrário, sentiram cheiro de carvão animal do lado de fora da casa.
— O quê? — O velho empalideceu. — Carvão animal? Como ela pôde usar aquilo? É venenoso! — exclamou, pulando.
— Wu Si Niang é mulher sozinha, não tem força para cortar lenha. Deve ter sentido muito frio e juntou carvão animal para queimar.
— Carvão animal? O que é isso? — perguntou Li Qing a Lu Yiming.
— É uma pedra preta que pega fogo, mas a fumaça é venenosa. Ninguém se atreve a usar para se aquecer — explicou Lu Yiming.
O coração de Li Qing disparou: “Pedra preta? Carvão animal? Não será carvão mineral?” Saiu apressado:
— Rápido, leve-nos até lá!
Guiados por Yu Lao San, chegaram à casa de Wu Si Niang. A pequena cabana de madeira estava bem trancada, cercada por uma multidão, mas todos mantinham distância. Ao verem o subcomandante chegar, abriram caminho de imediato.
Li Qing aproximou-se a passos largos. As frestas da parede estavam todas tapadas. Ao cheirar a porta, sentiu um odor familiar e não conteve a alegria: era mesmo cheiro de carvão mineral.
— Abram a porta! — ordenou Li Qing.
— Senhor, carvão animal é venenoso! — Yang Dao estava tenso.
— Abram, sei bem se é venenoso ou não! Abram, salvar vidas é mais importante! — gritou Li Qing, autoritário.
Yang Dao, vendo a severidade do general, não ousou hesitar. Curvou-se e arrombou a porta com o ombro. Com um estrondo, a porta se abriu e o cheiro forte invadiu o ar. Yang Dao tapou o nariz e recuou, mas, para seu espanto, Li Qing entrou de imediato.
— Senhor, não entre! — tentou segurar, mas Li Qing já estava no interior.
— General! — exclamaram os moradores do lado de fora, alarmados, de olhos arregalados.
O cômodo era pequeno, ainda impregnado pelo forte cheiro do carvão mineral incompletamente queimado. No fogareiro improvisado, feito de pedras, havia cinzas e pedras meio pretas, meio brancas. No canto, um monte de pedras pretas, sem queimar — era mesmo carvão mineral! Li Qing sentiu-se eufórico, mas logo o coração apertou: sobre a cama, uma criança de meia-idade jazia imóvel; ao pé, uma mulher de meia-idade caída. Ao aproximar-se, viu que os rostos estavam arroxeados: sinais claros de intoxicação por monóxido de carbono.
Sem hesitar, pegou a criança nos braços e correu para fora, depositando-a no chão, sob os olhares atônitos dos presentes. Voltou e trouxe a mulher também.
— Alguém chame o doutor Huan! Eles ainda estão vivos! — ordenou Li Qing em voz alta, vendo todos paralisados.