Capítulo Quarenta e Um: Ondas Ocultas
Com o final do ano se aproximando, a cidade de Dingzhou, que por meses estivera tomada pelo medo, finalmente podia respirar aliviada. O povo começava a se preparar para as festividades, os refugiados haviam em sua maioria partido, retornando a seus lares já há muito destruídos, e as quatro fortalezas militares na fronteira estavam reconstruídas, com tropas já instaladas. Embora não fossem mais tão imponentes ou sólidas como antes, a bandeira do Grande Chu ainda tremulava sobre elas, dando aos habitantes da fronteira mais um motivo para viver em paz e prosperidade.
No entanto, na residência do comandante militar de Dingzhou, Xiao Yuanshan estava longe de se sentir festivo. Embora, por um golpe do destino e graças à aliança com a família Li, tivessem conseguido superar a última crise, ele não acreditava que teriam tanta sorte da próxima vez. Xiao Yuanshan não era um simples homem de armas; nos últimos dias, vinha refletindo sobre uma questão: por que problemas tão graves haviam surgido? Por que Ma Mingyuan, normalmente tão obediente e leal, escolhera, no momento decisivo, ignorar suas ordens e agir por conta própria?
Após tantos dias de reflexão, finalmente compreendera: era uma questão de comando militar. Ma Mingyuan tinha autoridade independente sobre suas tropas, controlando totalmente os três batalhões do Esquadrão Esquerdo. Na verdade, essas tropas estavam mais para um exército particular da família Ma do que para as forças de Dingzhou. Depois de tantos anos à frente do Esquadrão Esquerdo, Ma Mingyuan tornara aquela unidade sua propriedade privada.
Xiao Yuanshan sentiu um calafrio de alerta. Haveria outro Ma Mingyuan? Era impossível não pensar nisso. O Esquadrão Central não preocupava, pois estava sob seu controle direto, e o subcomandante Dai Che era de total confiança, incapaz de traí-lo. Mas e Lü Dalin, do Esquadrão Direito? Xiao Yuanshan sabia que precisava tratar desse assunto com extremo cuidado.
Lü Dalin era um excelente oficial, corajoso e astuto, ponderado e cheio de recursos, alguém que Xiao Yuanshan admirava profundamente. Atualmente, entre os três esquadrões de Dingzhou, apenas o Direito, sob comando de Lü Dalin, mantinha sua força intacta, pois havia ficado de guarnição durante a grande batalha. Agora, era o esquadrão mais poderoso de todo o exército. O Esquadrão Esquerdo estava praticamente destruído, e os batalhões reconstruídos eram compostos quase inteiramente por recrutas, cuja capacidade de combate era, por ora, irrelevante. Se conseguissem se tornar eficazes antes do próximo outono, quando os povos bárbaros voltassem a atacar, já seria uma bênção. O Esquadrão Central, sob seu comando direto, também sofrera grandes perdas e fora reabastecido de novos soldados; em comparação com o Direito de Lü Dalin, estava em clara desvantagem. Por isso, Xiao Yuanshan enviara o Esquadrão Direito para guarnecer as quatro fortalezas militares: precisava desses veteranos para estabilizar o moral das tropas e resistir a um novo ataque dos bárbaros.
Lü Dalin estava no Esquadrão Direito havia cinco anos, desde a reorganização do exército de Dingzhou, e, tal como Ma Mingyuan fizera com o Esquerdo, era natural supor que ele tivesse consolidado o controle de sua unidade.
Isso não podia continuar. Era preciso mudar esse quadro; o exército de Dingzhou só podia ter um senhor, ele próprio. Precisava que seus comandos fossem seguidos sem hesitação, sem repetições de desobediência velada como a que acabara de ocorrer, ou seria certo que a calamidade voltaria a bater à sua porta.
— Mingchen, vou reformar a estrutura do exército! — declarou Xiao Yuanshan de forma decisiva ao seu principal conselheiro, Shen Mingchen.
Ouvindo o plano de Xiao Yuanshan, Shen Mingchen expressou preocupação:
— Comandante, em tempos como estes, uma medida tão drástica pode abalar o moral das tropas.
Ele percebeu de imediato que a reforma do comandante visava claramente Lü Dalin, que, no momento, era o oficial mais poderoso do exército de Dingzhou.
— O subcomandante Lü certamente ficará insatisfeito!
Xiao Yuanshan sorriu:
— Mingchen, o que acha que Lü Dalin fará? Vai se rebelar contra mim?
Shen Mingchen balançou a cabeça.
— Não chegaria a tanto, mas certamente ficará contrariado, e isso pode causar instabilidade no Esquadrão Direito.
Xiao Yuanshan respondeu prontamente:
— É justamente por isso que escolho agir agora. Com o ano novo se aproximando, os soldados facilmente mudam de foco. Darei a eles soldos generosos, prêmios em dobro nestas festas e, pessoalmente, irei ao Esquadrão Direito distribuir as recompensas, para que saibam de quem recebem o pagamento e para quem devem servir.
— E os povos bárbaros só voltarão, no mínimo, no próximo outono, quando seus cavalos estiverem fortes e gordos. Temos quase um ano para ajustar qualquer problema.
Xiao Yuanshan continuou, em tom frio:
— Além disso, não deixarei o subcomandante Lü sem recompensa. Vou trazê-lo para o quartel-general e promovê-lo a vice-comandante. Seu irmão, Lü Dabing, já foi nomeado subcomandante do batalhão de elite. O que mais poderia desejar?
Shen Mingchen assentiu:
— Assim, tudo estará sob controle. Mesmo que o subcomandante Lü fique insatisfeito, a promoção deve acalmá-lo. Mas, comandante, Lü Dalin é um talento raro. O senhor deve se empenhar para conquistá-lo.
Xiao Yuanshan concordou:
— Naturalmente. Aqui ele será valorizado.
— Essa grande reforma militar, abolindo os três esquadrões e colocando os batalhões sob seu comando direto, pode de fato aumentar a lealdade das tropas, mas será que o Ministério da Guerra e a corte não verão isso como provocação?
Xiao Yuanshan sorriu com desdém:
— Primeiro, é uma medida interna, não será divulgada. Segundo, mesmo que saibam, podemos alegar que aprendemos com a última derrota e estamos experimentando em Dingzhou. O imperador está longe, não vão se incomodar com um detalhe desses.
— E quanto aos oficiais de cada batalhão? O senhor já pensou?
— Justamente queria discutir isso com você. Precisam ser capazes e totalmente leais a mim. Não é fácil escolher.
Enquanto Xiao Yuanshan preparava uma verdadeira cirurgia em suas tropas, além da fronteira, na cidade de Longcheng, o grão-cã dos bárbaros, Bayar, também se via atormentado.
A tribo Angu fora completamente exterminada — e justamente durante o festival de Mulan, quando todos os clãs celebravam juntos a vitória sobre o exército de Dingzhou. Embora pequena, a tribo Angu sempre fora leal, seguindo Bayar fielmente. Sua aniquilação repentina enfureceu o líder, mas o mais estranho era que não havia qualquer pista: todos presentes foram mortos sem deixar rastros, num golpe limpo e eficaz. Agora, o velho chefe Wanyan Bulu e seu filho Wanyan Jitai vinham dia sim, dia não, chorar diante de Bayar, deixando-o à beira do desespero.
A destruição da tribo Angu, em si, não era grande coisa: tinham pouco mais de dez mil pessoas, dois mil guerreiros, e mais de mil dos melhores escaparam por estarem com Wanyan Bulu no festival. Contudo, o impacto no restante das estepes foi enorme. Tribos de tamanho semelhante estavam tomadas de medo, especulando sem parar quem poderia ter sido o autor do massacre.
Entre os grandes clãs bárbaros havia cinco principais: Amarelo, Branco, Azul, Verde e Vermelho, todos com forças equilibradas. Por décadas, esses grupos alternavam o poder, mas, nos últimos tempos, o clã Branco, comandado por Bayar, mantinha-se dominante, conquistando sucessivas vitórias militares sobre o Grande Chu, obrigando-os a sempre agir na defensiva. Agora, no auge de seu poder, via-se surpreendido por esse golpe, o que o deixava furioso.
A primeira suspeita de Bayar era de que algum dos outros quatro clãs tivesse tramado o ataque, tanto para enfraquecer seu poder quanto para roubar as riquezas de Angu. Mas quem, afinal? Não podia se precipitar.
Bayar tinha ambições grandiosas: sonhava em unificar todas as tribos das estepes sob sua liderança, formando um império capaz de rivalizar por muito tempo com o vizinho Grande Chu. O momento era favorável: o reino de Chu estava enfraquecido, cheio de senhores da guerra e famílias poderosas que desafiavam abertamente a corte. Se conseguisse unificar as estepes, sua força seria incomparável. Poderia, até, subjugar as tribos de Shiwei a oeste e, quem sabe, avançar sobre o resplandecente reino de Chu. Se deixasse passar a oportunidade e o império vizinho se recuperasse, as tribos das estepes jamais teriam força para resistir.
Justamente por isso, Bayar hesitava. Um passo em falso poderia provocar guerra interna, arruinando anos de esforço.
— Papai, que dia lindo! O sol finalmente apareceu, por que está tão preocupado? — Uma voz delicada soou, e Bayar não precisou se virar para saber que era sua filha caçula, a joia das estepes, Naf.
Esforçando-se por sorrir, Bayar se voltou:
— Minha filha inteligente e bonita, o que faz aqui hoje? Com esse tempo, deveria estar caçando e dançando com os jovens guerreiros. Por que veio me ver?
Naf fez uma careta:
— Papai, é um tédio estar com eles. Nas corridas, deixam-me ganhar de propósito; na caça, empurram as presas até mim. Assim não tem graça. Prefiro conversar com você!
Bayar riu. Sabia que sua filha era disputada por todos os jovens valentes das estepes, mas, conhecendo seu temperamento, via que os pretendentes usavam a estratégia errada: Naf era uma moça de opinião forte.
— Papai, ainda está preocupado com o caso dos Wanyan? Vi Wanyan Bulu e o filho quando entrei — perguntou Naf, sentando-se ao lado do pai.
Bayar sabia que não podia esconder nada daquela filha esperta. Suspirou:
— É um dilema, filha. Não sei que resposta dar a eles. Enquanto não encontrarmos o culpado, é uma espada pendente sobre todas as tribos, a qualquer momento pode nos trazer desgraça. As pequenas tribos já estão inquietas, temendo serem as próximas.
Naf torceu o nariz:
— Papai, nem precisa pensar. Foi o exército de Dingzhou, claro!
Bayar se espantou:
— Por que tem tanta certeza, Naf? Descobriu alguma pista?
Naf riu preguiçosamente, girando o chicote enfeitado de ouro e jade:
— Que pista eu teria? Se nem você tem... Mas, mesmo que não tenha sido o exército de Dingzhou, vamos dizer que foi. Papai, convoque todas as tribos e anuncie que já descobriu o culpado. Quando os cavalos estiverem gordos e prontos, no próximo outono, marche para vingar o clã Angu!
O chicote estalou no ar, sonoro.
Bayar ficou paralisado, subitamente iluminado. Sim, se não havia pistas, bastava culpar Dingzhou. Eram inimigos antigos, e, mesmo que fosse injusto, não teriam como se justificar. Assim, poderia reunir as tribos, lançar nova ofensiva no próximo ano e consolidar a supremacia do clã Branco, preparando o terreno para unificar as estepes.
— Hahaha! Minha filha, você abriu meus olhos. Claro, foi obra do exército de Dingzhou!
Bayar gargalhou.
Naf se levantou, girando o chicote:
— Papai, venha caçar comigo!
Bayar, animado, ergueu-se:
— Claro! Hoje vou caçar com você até cansar. Vamos, à caça!