Capítulo Quarenta e Três: A Identidade de Mingyan
O Salão Tao Ran ficou radiante ao ver Li Qing retornar. Da última vez, Li Qing havia passado como uma aparição e depois desaparecido sem deixar rastros; Mingyan aguardou ansiosamente, mas em vão. Só quando ouviu que o Acampamento da Vitória Permanente havia partido, desistiu de esperá-lo, entendendo enfim que aquele refinado general, de eloquência e cultura admiráveis, viera ao salão apenas por causa de Huan Ji. Restou-lhe um vazio melancólico e, ao mesmo tempo, uma curiosidade ainda maior por Li Qing. Normalmente, oficiais jovens e impetuosos como ele raramente demonstravam tamanha indiferença a mulheres como ela.
Recebeu o grupo calorosamente. Em contraste ao banquete farto de carnes e peixes oferecido por Xiao Yuanshan, ali a mesa era simples e elegante: algumas iguarias da estação, pequenos e delicados petiscos, jarros de vinho cuidadosamente aquecidos e, para completar, a melodia clara e refinada do guzheng de Mingyan. O ambiente era elevado e pleno de charme sutil.
Lü Dalin e Li Qing entendiam-se sem palavras; apenas bebiam e comiam, conversando sobre amenidades e, ocasionalmente, sobre histórias pitorescas do exército, sem jamais tocar em assuntos sigilosos. O clima era descontraído, repleto de risos. Quanto ao robusto Lü Dabing, não dava importância à relação com Li Qing — bastava-lhe seguir o irmão. Sentado à mesa, seus olhos bovinos não paravam de fitar Mingyan, intrigado: ela, afinal, nem era tão bela quanto se dizia. Por que, então, exercia tamanho fascínio em Dingzhou, a ponto de os eruditos locais se orgulharem de compartilhar um brinde com ela?
Para Lü Dalin, manter alguma ligação com Li Qing era vantajoso. Aproximar-se dos Li não trazia mal algum, já que, sem tropas ou poder, Xiao Yuan não mais o via como ameaça. Contudo, embarcar de vez no navio dos Li seria precipitado enquanto Xiao Yuanshan não caísse em desgraça.
Já para Li Qing, cultivar a relação com Lü Dalin era uma jogada estratégica, uma peça oculta para o futuro — útil ou não, o tempo diria. Preparar-se era essencial; laços bem costurados poderiam servir em momento oportuno.
Assim, ambos estavam à vontade. Lü Dalin, de fato, excedeu-se no vinho. Por volta da segunda vigília, ao final da noite, já não se aguentava em pé sem o auxílio do irmão.
Ao saírem do salão, prestes a se despedir, foram surpreendidos pela criada pessoal de Mingyan, Qing’er, que se aproximou apressada, curvou-se diante de Li Qing e anunciou em voz clara:
— Senhor Li, a senhorita pede que permaneça.
Li Qing ficou surpreso, olhando inquisitivo para Qing’er. Lü Dalin, meio embriagado, gargalhou:
— Irmão Li, está com sorte! Dizem que, embora Mingyan seja famosa, jamais recebeu alguém em seus aposentos. Parece que você é o escolhido desta vez! Que tenhas uma noite prazerosa, ahahah!
Rindo alto, saiu cambaleando.
Li Qing, intrigado, retornou ao salão. O quarto estava limpo e arrumado. Qing’er conduziu-o ao interior do pequeno edifício, fechou a porta cuidadosamente e partiu em silêncio. No ambiente vazio, velas vermelhas ardiam altas, incensos perfumavam o ar. O coração de Li Qing bateu mais forte — será que finalmente lhe sorria a sorte nas artes do amor? Estaria Mingyan prestes a acolhê-lo?
A porta rangeu suavemente. Li Qing voltou-se e viu Mingyan já mudada: o traje de seda rosa dera lugar a uma túnica azul simples; o rosto, livre da maquiagem, revelava a naturalidade e a graça de uma jovem vizinha. Sem o glamour de antes, parecia outra mulher.
“Que mestra das máscaras!” pensou Li Qing, admirado. “Tamanha capacidade de transformação!”
Mingyan curvou-se diante dele e, em tom respeitoso, apresentou-se:
— À disposição do jovem mestre, Mingyan, chefe da filial de Dingzhou da Sombra Oculta da Casa Li, presta-lhe reverência.
Li Qing ficou atônito, sem saber o que dizer. As palavras “espiã”, “agente secreta”, “informante” não combinavam com aquela mulher diante dele. Vendo-a prostrada, seu cérebro entrou em curto-circuito.
Sem ouvir resposta por longo tempo, Mingyan, temendo ofender as rígidas hierarquias dos Li, permaneceu de cabeça baixa. Agora que havia revelado sua identidade, não ousava encará-lo diretamente. Sabia que, por mais popular que fosse, nada poderia contra o poder dos Li; sua vida, seu destino, dependiam inteiramente daquela família.
Esperou mais um pouco. Sem resposta, não resistiu e levantou o rosto. Li Qing a olhava de modo estranho, quase como uma estátua, atônito.
— Jovem mestre? — indagou em voz baixa. — O que houve?
Li Qing estremeceu, sacudiu a cabeça para despertar e, encarando Mingyan ainda ajoelhada, esforçou-se por assimilar aquela revelação. Com voz estranha, pediu:
— Levante-se. Conte-me direito o que está acontecendo.
Mingyan obedeceu:
— Por favor, sente-se. Sei que fui abrupta, mas peço-lhe que me deixe explicar.
Li Qing sentou-se junto à mesa, apoiando o cotovelo e tamborilando ritmicamente. Resmungou:
— Não me chame de jovem mestre. Não sou isso. Chame-me de general, se preferir.
Mingyan sorriu de leve. Embora o título de jovem mestre fosse tabu entre os Li, para ela aquilo não era segredo. Vendo o incômodo de Li Qing, replicou:
— Sou serva dos Li. Chamar de general seria estranho. Se o senhor não gosta de jovem mestre, posso chamá-lo de senhor.
Enquanto falava, serviu-lhe uma xícara de chá.
Li Qing a observou de perfil. Mesmo sem maquiagem, anos de experiência nas artes da sedução deixavam sua fala e gestos impregnados de encanto natural. Ao pronunciar “senhor”, inclinou-se ligeiramente, a voz melodiosa e, no rosto, um toque de melancolia, tornando difícil recusar-lhe o pedido.
Recuperado do choque, Li Qing sorriu:
— Chame como quiser. Mas entenda que, a partir de agora, você não é mais a antiga Mingyan.
Ao ouvir isso, Mingyan se recompôs, compreendendo imediatamente a mensagem. Recolheu qualquer vestígio de sedução.
— Sente-se e explique tudo — ordenou Li Qing, batendo na beira da mesa.
— Sim, senhor — respondeu Mingyan, sentando-se corretamente e limpando a garganta. — Sou a chefe da filial da Sombra Oculta dos Li em Dingzhou, responsável por coletar informações e transmitir relatórios secretos.
No relato pausado e claro de Mingyan, Li Qing enfim entendeu toda a verdade. A Sombra Oculta era, em essência, uma rede de espionagem dos Li, ramificada por todo o império. Outras famílias certamente tinham algo semelhante, mas talvez não com tamanho rigor e alcance. O sistema era vasto, recolhia informações de todo tipo e as enviava para Yizhou e para a capital; Dingzhou era apenas uma filial pequena, pois ali os Li nunca haviam investido muito. Os agentes da Sombra Oculta assumiam múltiplas identidades e estavam infiltrados em todos os setores de Da Chu. Qualquer ocorrência no império chegava rapidamente aos ouvidos dos Li.
— Você já sabia quem eu era. Por que só agora me revela isso? — perguntou Li Qing.
— Só fui informada após a visita do Marquês Shouning a Dingzhou. Desde então, recebi ordens para prestar atenção em seus movimentos. Mas ainda assim, sem permissão da sede, não podia revelar minha identidade.
Li Qing arqueou as sobrancelhas.
— Então agora você recebeu autorização para me contar?
— Recebi ordens há poucos dias. A filial de Dingzhou foi colocada sob seu comando direto. A partir de agora, não mais responde à sede da Sombra Oculta. Eu estava justamente preocupada em como fazer contato com o senhor, quando o senhor veio ao Salão Tao Ran. Facilitou meu trabalho — Mingyan sorriu.
— Sob meu comando? — Li Qing franziu o cenho.
— Sim, senhor. A partir de hoje, a filial de Dingzhou pertence ao senhor, sem qualquer ligação com a sede. Todas as linhas secretas serão cortadas.
Li Qing não pôde deixar de refletir sobre o real significado daquele movimento da Casa Li. Uma rede como a Sombra Oculta seria, sem dúvida, de grande utilidade para ele, mas era preciso ponderar as implicações. A Sombra Oculta era dos Li; a filial de Dingzhou também. Pela postura de Mingyan, a lealdade absoluta à família era evidente. Isso seria bom ou ruim para ele? Por que os Li estavam entregando a filial de Dingzhou a seu comando direto?