Capítulo 117: Será que não dou conta de você?

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 4680 palavras 2026-04-01 16:30:17

Faltando apenas dois dias para o Ano Novo, o campus da Universidade de Yanda estava imerso em uma atmosfera tensa de estudos, pois o exame final se aproximava rapidamente. Mesmo em Yanda, conhecida por seus estudantes brilhantes, o momento exigia revisão e dedicação.

Nas últimas duas semanas, Tao Yushu e seu grupo haviam percorrido quase metade das universidades de Yanjing com o elenco da peça teatral "O Primeiro Salão do Mundo". A peça tinha sido calorosamente recebida pelos estudantes, tornando-se a tendência mais popular daquele inverno nas instituições de ensino superior da cidade.

No entanto, com a proximidade dos exames finais, as apresentações tiveram que ser suspensas. Embora essa interrupção tenha causado certa insatisfação entre os estudantes das universidades ainda não visitadas, "O Primeiro Salão do Mundo" já havia sido encenado por mais de duas semanas, satisfazendo em grande medida a demanda do público estudantil.

Os integrantes da peça eram todos estudantes e não podiam dedicar todo o seu tempo às turnês. Sem a pressão das apresentações, Tao Yushu começou a voltar para casa mais cedo e mergulhar nos estudos, enquanto Lin Chaoyang ia ao trabalho, mas se distraía facilmente; às vezes jogava xadrez com o velho Zhu, outras vezes subia para conversar com o velho Wu.

Numa noite, durante uma conversa com Wu Zuxiang, este mencionou espontaneamente "O Primeiro Salão do Mundo". Ele havia assistido à peça quando foi apresentada em Yanda e comentou:

— Dizem que seu roteiro tem um pouco do estilo de “O Chá da Tarde”, mas, na minha opinião, ainda falta muito para chegar lá.

— São só opiniões alheias, eu não disse nada — respondeu Lin Chaoyang, curioso para saber exatamente onde estava a diferença.

— Quando Lao She escreveu “O Chá da Tarde”, ele tinha um motivo político, coisa que você não tem. Essa é a grande diferença.

Lin Chaoyang gostava de ouvir o velho contar histórias antigas, então perguntou:

— Que tipo de motivo político tinha Lao She?

Wu Zuxiang lançou um olhar de desprezo para sua expressão curiosa.

— Por que você é tão bisbilhoteiro?

— Que bisbilhoteiro? Eu paguei para saber.

Lin Chaoyang disse isso com tanta naturalidade que o velho quase tampou sua boca, olhando nervosamente para o cômodo ao lado, demonstrando claramente o efeito de "quem come na mão dos outros fica com a boca presa".

— Nos anos 40, Lao She escreveu muitas peças de teatro, mas seu maior mérito foi “O Chá da Tarde”. Em 1949, quando voltou para Yanjing, ele estava cheio de entusiasmo pelo novo país. Ele se dedicou intensamente à dramaturgia porque acreditava que, para a maioria dos trabalhadores, a leitura ainda era difícil, mas assistir a uma peça era menos complicado.

— Então, de 1950 a 1965, ele escreveu 23 roteiros. A qualidade variava, mas “O Chá da Tarde” foi seu auge.

— Seu “O Primeiro Salão do Mundo” claramente se inspira na estrutura e no tom de “O Chá da Tarde”, mas, embora seja muito organizado, falta atenção aos detalhes.

— Os escritores contemporâneos adoram narrativas grandiosas e resumos históricos, mas isso quase sempre envolve uma expressão política.

— A genialidade de “O Chá da Tarde” está em ampliar, nos pequenos detalhes, as turbulências e mudanças da sociedade da época, mostrando, por trás do “pequeno mundo”, o “grande mundo”.

— Seu “O Primeiro Salão do Mundo” tem muitas cenas com a polícia, oficiais e agentes, mas a caracterização é superficial. O destino de Lu Mengshi acaba centrado nas emoções pessoais, o que diminui a força da peça.

— Que pena usar um nome tão bom para isso! — concluiu Wu Zuxiang.

Ele elogiou “O Chá da Tarde” e depreciou “O Primeiro Salão do Mundo” com argumentos sólidos, deixando Lin Chaoyang sem espaço para contra-argumentos.

— E não tem nenhum mérito?

— Tem, já disse: é bem estruturado.

— Os personagens são bem construídos, a dramaturgia é engenhosa, a percepção histórica clara, as características culturais marcantes e o tema destacado.

Wu Zuxiang olhou para Lin Chaoyang e perguntou:

— O que acha? Vai tentar superar Lao She com um único roteiro?

Lin Chaoyang negou rapidamente, com um ar tímido:

— Não foi isso que eu quis dizer, não invente.

— Que falta de ambição! Tem vergonha de superar Lao She?

O velho o olhou com desprezo, e Lin Chaoyang respondeu com firmeza:

— Eu chamo isso de humildade.

— Quando tem muita gente, tudo bem ser humilde, mas só estamos nós dois, do que você tem medo?

Pensando bem, Lin Chaoyang falou abertamente:

— Os roteiros de Lao She são realmente bons, mas eu acho que ele poderia ter feito ainda melhor. Naquela época, poucos escritores sabiam escrever direito.

Wu Zuxiang riu e falou:

— Sempre achei que você era medroso, mas hoje a sua fala está diferente.

— A gente está só conversando, sem ninguém ouvindo — Lin Chaoyang se animou.

— Desde o Movimento de Quatro de Maio, poucos escritores sabiam escrever. Pra mim, Lao She, Lu Xun, Shen Congwen são exemplos, e Zhao Shuli... meio que também.

Wu Zuxiang conhecia Lin Chaoyang há mais de um ano e finalmente via nele um pouco da irreverência dos literatos, sorrindo satisfeito.

Mas ele mal terminou de rir e viu Lin Chaoyang olhar de lado para ele:

— Quanto a você... nem vale a pena mencionar.

— Seu maluco! — Wu Zuxiang bateu na mesa. — Nem meio eu sou, mas pelo menos um quarto eu tenho!

— Um quarto? Você só sabe se elogiar — Lin Chaoyang riu, provocando o velho.

— Vamos embora! — disse Wu Zuxiang irritado, expulsando Lin Chaoyang de casa.

Lin Chaoyang não se ofendeu; a irritação do velho mostrava que ele havia vencido aquela pequena disputa. Ele voltou para casa cantarolando feliz.

Dois dias depois, nas férias de Ano Novo, apesar dos exames finais estarem próximos, era hora de relaxar. Muitos estudantes passaram a patinar no Lago Weiming, especialmente os do sul, que mostraram grande entusiasmo.

Porém, eles também trouxeram muito trabalho para o hospital universitário. Desde que o gelo do lago congelou bem, era comum ver estudantes com braços ou pernas engessados na cantina ao meio-dia — a maioria deles do sul. Sem habilidades, mas querendo se arriscar, as quedas eram inevitáveis.

Logo após o Ano Novo, Zhang Dening veio a Yanda com duas notícias para Lin Chaoyang. A primeira era que a Secretaria de Publicações tinha lançado um regulamento provisório sobre direitos autorais para livros, aumentando os valores para autores e tradutores, além de restaurar o pagamento baseado em tiragem além do valor básico. Agora, os valores estavam praticamente no nível prévio à crise, embora ainda inferiores aos dos anos 50.

A segunda notícia era que a direção do departamento editorial concordou em aumentar o pagamento por “O Primeiro Salão do Mundo” para nove yuans por mil caracteres.

— Só nove? A nova regra permite até dez! — reclamou Lin Chaoyang.

— Seja grato, a regra acabou de sair, não tem como aumentar tão rápido — respondeu Zhang Dening.

— Se fosse pelo “Outubro”, eles dariam os dez com certeza! — murmurou Lin Chaoyang.

— “Outubro”? Isso não se compara ao nosso “Arte e Literatura de Yanjing”. Somos uma revista quase trinta anos mais antiga.

— Isso não importa, vocês pagam pouco!

Zhang Dening ficou irritada, mas teve que aceitar para garantir futuros pagamentos.

— Da próxima vez, vou pedir os dez para você.

— Está bem — Lin Chaoyang concordou relutante.

Zhang Dening então perguntou se ele realmente não queria organizar uma mesa-redonda para “O Sapatinho”, pela segunda vez.

Desde que “O Pastor de Cavalos” foi publicado, a equipe editorial queria organizar uma mesa, mas Lin Chaoyang recusara. Após a publicação de “O Sapatinho”, a obra causou grande impacto no meio literário e foi muito bem recebida pelos leitores. A revista alcançou vendas recordes, e o livro vendido separadamente já somava 200 mil exemplares em dois meses.

Era, portanto, outra obra com influência nacional da “Arte e Literatura de Yanjing”, depois de “O Pastor de Cavalos” e “O Infiltrado”.

Ter uma boa obra exigia boa divulgação, que beneficiava tanto o autor quanto a revista. Zhang Dening já havia mencionado isso em julho, mas Lin Chaoyang recusara.

— Vocês são persistentes — comentou ele, lembrando da atmosfera rígida da última reunião na Academia de Artes Dramáticas de Yanjing. Imaginava que, se a revista fizesse um evento, seria ainda mais pomposo, com tambores e fogos de artifício.

— Eu posso conversar à vontade, mas sentar e ouvir elogios mútuos me incomoda — disse ele.

— Você tem um problema de mentalidade. Uma mesa-redonda é para unificar a avaliação da obra e facilitar sua divulgação futura.

Lin Chaoyang acabou cedendo um pouco diante da insistência dela.

— Se quiserem fazer, façam sozinhos. Por que me chamar?

— O autor nunca falta nessas mesas. Você acha que é para fingir que a cidade está vazia? Os autores adoram que façam essas reuniões, mas para você parece um castigo.

— Porque não pagam e eu tenho que pedir licença no trabalho, senão uso meu tempo de descanso.

Zhang Dening ficou frustrada:

— Só pensa em dinheiro. E ainda quer ser literato?

— Literato também precisa comer e dormir. Tenho trabalho durante o dia, escrevo à noite, e ainda vou à escola para assistir aulas. Colegas me cobrem no trabalho. Se eu pedir licença para uma mesa-redonda, o que vão pensar?

— Este ano, escrevi dois romances curtos e uma peça. Quando Tao Yushu fez a peça, eu escrevi o roteiro e participei dos ensaios. Ah, foi puxado...

Lin Chaoyang reclamava descaradamente, deixando Zhang Dening sem argumentos, mas ao ouvir o nome de Tao Yushu, ela teve um estalo.

— O que sua companheira Tao Yushu está fazendo ultimamente?

— Está estudando para os exames finais — respondeu ele, mas logo se mostrou desconfiado. — Por que pergunta?

— Só curiosidade.

Zhang Dening falou descontraída, mas Lin Chaoyang ficou cada vez mais inquieto.

— Já está tarde, deveria voltar ao trabalho! — ele a apressou.

— Não, já avisei ao chefe Li, hoje trabalho na edição, não preciso voltar.

Lin Chaoyang apontou para ela:

— Não é de se admirar que a influência da revista não cresça, com essa falta de empenho.

Ele mudou de tom:

— Vai descansar, então.

— Eu vou para sua casa jantar assim que sair do trabalho!

Zhang Dening disse isso com intenção clara, e Lin Chaoyang a encarou furioso, mas ela permaneceu firme, não saindo.

Quando o expediente terminou, Lin Chaoyang relutou em ir embora, mas Zhang Dening saiu na frente. Ele correu atrás, preocupado:

— Já escureceu, é perigoso para uma moça voltar tão tarde!

— Moro na casa dos meus sogros. Se eu levar uma mulher para jantar lá, como vão me ver?

Durante o caminho, enquanto caminhavam vagarosamente, Lin Chaoyang desistiu e voltou para casa com um rosto carrancudo.

Naquele momento, Tao Yushu acabara de chegar, e Zhang Dening, sem perder tempo, falou sobre a mesa-redonda para “O Sapatinho”, acrescentando detalhes das duas recusas anteriores de Lin Chaoyang.

— Isso é uma coisa boa! — disse Tao Yushu animada.

Ao ouvir isso, Lin Chaoyang ficou pálido.

— Viu? Eu disse que é bom! Mas seu companheiro aí é cabeça dura, quase se recusa até morrer!

Zhang Dening parecia a aluna exemplar que entrega o colega para o professor.

Tao Yushu sorriu:

— Ele é assim mesmo, meio desligado. Só se importa com o trabalho, a escrita e os estudos, não liga para mais nada.

— Eu entendo, mas essa é uma boa oportunidade para ele e para a obra. É só um dia, pelo menos deveria ir.

Ouvindo Zhang Dening, Tao Yushu concordou:

— Deveria ir. Quando pretendem fazer a mesa-redonda?

— Na próxima semana. O chefe Li queria organizar após “O Pastor de Cavalos”, mas... — Zhang Dening lançou um olhar astuto para Lin Chaoyang.

Tao Yushu olhou para Lin Chaoyang:

— Chaoyang, se tiver tempo, vai lá. É uma coisa boa.

Lin Chaoyang respondeu com um sorriso inocente, sem sinal da resistência que mostrara antes na biblioteca.

Zhang Dening examinou sua expressão, satisfeita.

— Pequeno, acho que ainda te pego!

Assim terminava mais um capítulo daquela história.