Capítulo 74: A Obra Não Define o Caráter
Pelo tom de voz de Hu Heping, todos ao redor perceberam claramente que ele admirava muito Xu Lingjun, o escritor que havia surgido recentemente. No entanto, justamente nesse momento, Cha Jianying fez aquela pergunta, deixando-o sem saber como responder.
Hu Heping não compreendia de onde vinha tanta má vontade de Cha Jianying em relação às obras de Xu Lingjun, mas ponderou antes de responder:
— Creio que entendi o que você quis dizer. A literatura chinesa precisa de pessoas como o senhor Lu Xun, mas também precisa da senhora Bing Xin. Não apenas eles, mas todo escritor que possui um estilo próprio e profundidade intelectual é parte fundamental da literatura chinesa.
Podemos criticar certas falhas das obras, mas não devemos olhar apenas para seus defeitos; é preciso reconhecer suas qualidades e virtudes. Se a literatura se resumisse apenas à crítica, seria mero moralismo.
Enquanto respondia à pergunta de Cha Jianying, Hu Heping manteve o tom sereno, mas sua postura era firme e intransigente.
Cha Jianying, tendo encontrado resistência, quis retrucar, mas Wang Xiaoping, ao seu lado, a interrompeu.
— Já chega, Jianying. Vamos voltar para a discussão.
Wang Xiaoping puxou Cha Jianying, que estava prestes a rebater, de volta para dentro da casa. Hu Heping coçou a cabeça e perguntou a Yang Lian:
— Essa colega parece ter uma opinião bem forte sobre Xu Lingjun, não?
Yang Lian sorriu:
— Ela é Cha Jianying, da Universidade Yan. Da última vez, Zhenkai foi à Yan tentar pedir um texto a Xu Lingjun, mas ele recusou, aparentemente com certa indiferença. Cha Jianying estava presente, talvez por isso esteja ressentida.
Hu Heping não sabia bem o que dizer. Pensou consigo mesmo: "Melhor ofender um senhor do que um vilão; melhor ofender um vilão do que uma mulher. As mulheres, de fato, guardam rancor!"
— Você disse que Zhenkai foi à Yan falar com Xu Lingjun sobre um texto? — perguntou Hu Heping de repente.
— Você não sabia?
— Saber o quê?
— Xu Lingjun é da Yan, parece que trabalha na biblioteca.
— Ah! — Hu Heping ficou surpreso. — Xu Lingjun é da Yan?
— Também só soube disso por Zhenkai — explicou Yang Lian.
Nesse momento, alguém chamou todos para entrar e continuar a discussão, e os dois seguiram com os demais para dentro.
Após mais de duas horas de debate sobre poesia, Cha Jianying e Wang Xiaoping saíram da rua Dong Si Shi Tiao pedalando suas bicicletas.
— Jianying, você...
O tom de Wang Xiaoping era hesitante.
— O que foi?
— Não seja tão mesquinha.
Ao ouvir isso, Cha Jianying se irritou de imediato:
— Como assim, mesquinha?
Wang Xiaoping olhou para ela, sem saber o que dizer:
— O texto de Lin Chaoyang não pode ser considerado moralista ou hipócrita, não é?
O episódio em que Zhao Zhenkai foi à Yan pedir um texto e foi recusado por Lin Chaoyang deixou Cha Jianying indignada. Não se irritava tanto pela recusa, mas pela maneira como Lin Chaoyang tratou Zhao Zhenkai, como se não gostasse dele. Apesar de admirar o casal lendário Lin Chaoyang e Tao Yushu na universidade, essa admiração não chegava aos pés do que sentia por Zhao Zhenkai, seu ídolo.
Ela já havia comentado sobre isso com Wang Xiaoping mais de uma vez, então ele conhecia suas verdadeiras opiniões melhor do que ninguém.
— Mil leitores, mil Hamlets, não é mesmo? — disse Wang Xiaoping. — De manhã, quando estava lendo "Os Sapatos Pequenos", chamei você e nem respondeu...
— Uma obra não equivale ao caráter! — rebateu Cha Jianying, mas sua voz mostrava insegurança.
Wang Xiaoping quase riu de sua resposta. "Obra não equivale ao caráter!" Só mesmo os intelectuais para dizerem coisas assim.
Apesar de carregar o nome de Yan, "Arte Literária de Yanjing" tinha uma influência nacional. Especialmente nos últimos seis meses, desde que Li Qingquan assumiu, ele inovou radicalmente na seleção de textos, arriscando para publicar boas obras, o que trouxe resultados notáveis para o desenvolvimento da revista.
Nos últimos meses, a reputação de "Arte Literária de Yanjing" disparou entre os leitores do país, com várias obras de alta qualidade recebendo amplo reconhecimento, elevando rapidamente a influência da publicação.
Para uma revista, a qualidade e o impacto das obras nela publicadas determinam sua própria influência.
Em outubro passado, "O Cavaleiro das Estepes" surgiu de repente e tornou-se referência da literatura de cicatrizes no país. Agora, meio ano depois, Xu Lingjun retorna com "Os Sapatos Pequenos", atraindo imediatamente a atenção de centenas de milhares de leitores de "Arte Literária de Yanjing".
Mas, devido à velocidade da comunicação naquela época, essa atenção e os efeitos dela demoravam a se manifestar.
Na noite seguinte à publicação de "Arte Literária de Yanjing", Tao Yumou chegou em casa e se gabou para Lin Chaoyang sobre ter comprado a revista, só para apoiar o cunhado.
Normalmente, ela pegava emprestado os livros e revistas da irmã, Tao Yushu, e era raro gastar dinheiro com revistas. Era claramente uma tentativa de agradar o cunhado.
— O vestibular está chegando. Deixe a revista de lado e concentre-se nos estudos.
Tao Yumou respondeu manhosa:
— Só estou apoiando você, cunhado, mas que desanimador!
Ouvindo a conversa, a mãe de Tao franziu levemente a testa:
— Seu cunhado está certo. Falta pouco mais de um mês para o vestibular. Este é um momento crucial em sua vida. Ler isso vai ajudar você a melhorar sua nota? Só vai atrasar seus estudos!
Depois de ouvir a repreensão da mãe, Tao Yumou culpou Lin Chaoyang, lançando-lhe um olhar irritado.
No dia seguinte, enquanto Lin Chaoyang trabalhava, Du Rong apareceu correndo no andar de cima, querendo discutir com ele suas impressões sobre "Os Sapatos Pequenos".
Lin Chaoyang achou graça do pedido. Com o elevador indo e vindo constantemente, não tinha tempo para conversar com Du Rong sobre isso.
— Falamos durante o almoço.
— Certo. Lao Tu e Hu Jie também querem conversar com você!
Pois bem, vieram em grupo.
Ser escritor, para o público, é sempre um status admirável. Mesmo no futuro, quem se apresenta como escritor será visto com respeito, ainda mais agora, com a literatura florescendo.
Os colegas da biblioteca, independentemente da personalidade, tinham alto nível cultural e, em sua maioria, gostavam de ler.
Agora que todos sabiam que Lin Chaoyang era Xu Lingjun, e com a publicação de sua nova obra, todos queriam ouvi-lo falar sobre ela.
Após o almoço, Lin Chaoyang ficou conversando com alguns colegas na porta da biblioteca; estavam ali não só funcionários do empréstimo de livros, mas também jovens apaixonados por literatura, curiosos sobre seu processo de escrita.
Diante dos olhares ávidos de todos, Lin Chaoyang só podia improvisar, falando com confiança.
Afinal, era ele quem escrevia; qualquer explicação fazia sentido!
Recebendo olhares de admiração dos colegas, Lin Chaoyang tomou um gole de água para refrescar a garganta.
Du Rong comentou:
— Chaoyang, gostei muito de "Os Sapatos Pequenos", mas achei que a mãe do Cachorrinho ficou um pouco apagada, como se tivesse pouco destaque.
Na obra, a mãe do personagem Cachorrinho era uma dona de casa com doença crônica, com poucas cenas e pouco brilho. Du Rong não estava equivocada em sua percepção.
Lin Chaoyang assentiu:
— De fato, optei por retratar a mãe do Cachorrinho de forma discreta. O olhar da narrativa está sobre o Cachorrinho e sua irmã. Se desse muito destaque à mãe, o texto ficaria desbalanceado.
Além disso, escrever sobre mães e amor materno pode facilmente cair no sentimentalismo. Apesar do tom quente e positivo de "Os Sapatos Pequenos", não quis apelar para emoções. A cena em que ela cuida do pai já transmite tudo que eu queria. Qualquer coisa além disso seria excesso, prejudicando o efeito.
Du Rong assentiu, convencida. De fato, a reflexão do escritor era muito mais completa do que a do leitor. Ao imaginar a situação descrita por Lin Chaoyang, percebeu que, no estilo de "Os Sapatos Pequenos", essa era mesmo a melhor escolha.
Os colegas ao redor também mostravam admiração.
Nesse instante, uma voz feminina ressoou firme na entrada da biblioteca:
— Eu discordo!
Todos se surpreenderam e olharam na direção da voz. Uma estudante de aparência delicada, roupas simples e óculos, segurava um livro e expressava seu descontentamento, não muito distante deles.