Capítulo 33 – Surgiu na China um Xu Lingjun
Falar sobre o processo criativo não é algo profundo; é como as entrevistas dos meios de comunicação com os grandes nomes do empreendedorismo nos tempos modernos: quando alguém já alcançou o sucesso, tudo o que disser estará certo.
Após dedicar três dias para escrever quatro mil palavras, quando Zhang Dening veio, discutiram juntos o texto e, assim, o ensaio sobre o processo criativo ficou pronto. Naturalmente, o artigo foi assinado com o pseudônimo de Xu Lingjun.
Por esse trabalho, Lin Chaoyang recebeu mais vinte e oito yuans de honorários.
Naquela noite, Tao Yumo veio novamente pedir à irmã que lhe emprestasse uma revista. Desta vez, era precisamente a “Arte e Literatura de Yanjing”. Aproveitou também para perguntar o que Tao Yushu achava de “O Cavaleiro dos Pastos”.
Segundo ela, “O Cavaleiro dos Pastos” havia se tornado extremamente popular na escola secundária afiliada à Universidade de Yanjing, com alunos disputando para ler o romance, que estava sendo amplamente elogiado. Muitas estudantes, inclusive, passaram a considerar Xu Lingjun, o personagem da obra, como o parceiro ideal.
Tao Yushu, por sua vez, menosprezava essas fantasias das garotas, mas, ao ser questionada pela irmã sobre o romance, não se furtou a comentar abertamente. Ultimamente, ela estava escrevendo um artigo crítico sobre “O Cavaleiro dos Pastos”.
— Para entender “O Cavaleiro dos Pastos”, é preciso perceber os temas que a obra aborda. Revelar os danos causados pelo regime opressor ao povo é apenas o aspecto mais superficial.
— Tomemos como exemplo a relação entre pai e filho: o pai de Xu Lingjun é carregado de simbolismo. No passado, por amor e liberdade, ele abandonou Xu Lingjun e sua mãe; agora, já idoso, procura reencontrar o filho. Quanto disso é afeto genuíno? Quanto é culpa? E quanto é o desejo egoísta de encontrar um herdeiro?
— Outro tema é o dilema entre partir e ficar. Xu Lingjun sofreu inúmeras dificuldades no país; a aparição do pai deveria ser como um farol, uma promessa de vida próspera do outro lado do oceano, cheia de esperança.
— O contraste entre esses dois mundos não é descrito diretamente pelo autor, mas através das descrições do pai e de Miss Song, o leitor consegue perceber a diferença.
— Essa diferença tão marcante faz com que a decisão de Xu Lingjun de ficar seja ainda mais preciosa.
— E ressalta ainda mais o carisma desse protagonista…
Com isso, Tao Yushu pôde satisfazer seu desejo de ensinar enquanto a irmã, Tao Yumo, ganhou material novo para conversar com as colegas no dia seguinte. As duas irmãs se divertiram muito com a conversa.
Até mesmo nas horas vagas de Tao Yushu e sua irmã, “O Cavaleiro dos Pastos” era tema de discussão, o que atesta o sucesso estrondoso do romance.
Em 10 de dezembro, foi publicada a edição mais recente da “Arte e Literatura de Yanjing”, trazendo o ensaio de Lin Chaoyang sobre o processo criativo de “O Cavaleiro dos Pastos” — “Sobre a Construção de Personagens”. Assim que a revista chegou às bancas, foi recebida com entusiasmo pelos leitores.
No último mês, “O Cavaleiro dos Pastos” provocou grande repercussão entre o público leitor; o interesse crescente formou uma onda difícil de conter.
Isso pôde ser comprovado pelas vendas da edição anterior da “Arte e Literatura de Yanjing”: mesmo após um mês, a décima primeira edição continuava vendendo muito bem. Um único romance fez disparar as vendas da revista, elevando também sua influência.
Dessa vez, publicar um ensaio sobre o processo criativo de “O Cavaleiro dos Pastos” atendeu exatamente à curiosidade dos leitores.
Poucos dias depois, foi publicada a nova edição do “Jornal de Literatura e Arte”.
Um artigo intitulado “Com Xu Lingjun” foi lá estampado, trazendo elogios elevados tanto ao romance quanto a seu autor:
A literatura chinesa ganhou um Xu Lingjun!
Com “O Cavaleiro dos Pastos”, ele não só herdou e desenvolveu a “literatura da cicatriz”, mas também rompeu as amarras do tema, oferecendo à literatura chinesa um protagonista rico e vívido como Xu Lingjun. Embora não tenha tido o privilégio de conhecer pessoalmente o autor, sinto como se enxergasse o ardor de seu coração.
Seu coração está voltado para os humildes e bondosos, para a terra que lhe deu sustento, assim como o protagonista do romance.
Mais de um mês após a publicação de “O Cavaleiro dos Pastos”, o livro já conquistara inúmeros admiradores e atraía grande atenção. Diversos jornais e revistas haviam publicado críticas sobre ele, mas esse texto tinha um peso diferente.
Primeiro, porque o autor do artigo, Yan Gang, não era apenas escritor, mas também havia sido editor do “Jornal de Literatura e Arte” e da “Literatura Popular”. Sua reputação no meio crítico era considerável.
Tao Yushu, por exemplo, já havia publicado um artigo sobre “Cicatriz” no “Jornal de Literatura e Arte”, mas, mesmo assim, a influência de textos semelhantes varia enormemente segundo o autor.
A posição de Yan Gang no meio literário não podia ser comparada à de Tao Yushu, ainda uma estudante pouco conhecida.
Em segundo lugar, o periódico em questão, o “Jornal de Literatura e Arte”, era o mais importante e influente do setor no país; sua autoridade era indiscutível.
O artigo “Com Xu Lingjun” ter sido publicado ali indicava o reconhecimento e a validação do romance pelo meio literário estabelecido, especialmente pelas organizações oficiais.
Quando “Cicatriz” foi publicado no meio do ano, havia ainda muito debate em torno do romance; agora, com “O Cavaleiro dos Pastos”, tanto o meio literário quanto o público em geral já aceitavam o surgimento da “literatura da cicatriz” — até mesmo os conservadores mais relutantes tiveram de se render aos fatos.
Esse cenário fez com que “O Cavaleiro dos Pastos” conquistasse leitores e ocupasse o centro dos debates de opinião pública ainda mais rapidamente do que “Cicatriz”.
Tudo parecia seguir seu curso naturalmente.
O artigo de Yan Gang, “Com Xu Lingjun”, sem dúvida, adicionou ainda mais lenha à fogueira do sucesso de “O Cavaleiro dos Pastos” nesse inverno, tornando a festa literária ainda mais intensa e vibrante.
Enquanto “O Cavaleiro dos Pastos” incendiava o mundo literário nacional com sua primeira grande chama daquele inverno, uma nova agitação começava a tomar forma no meio cultural de Yanjing.
Num dia do final de dezembro, um grupo formado por poetas e estudantes universitários surgiu diante do portão da Universidade de Yanjing.
Munidos de revistas, pincéis e cola, eles passaram primeiro pelo Muro da Democracia em Xidan, depois foram até um grande painel de madeira ao leste da Praça da Paz Celestial, à entrada da loja de Wangfujing, à porta da Editora Literatura Popular e da redação da “Revista de Poesia”…
Por onde passavam, deixavam um exemplar de uma revista chamada “Hoje”.
Quando chegaram à Universidade de Yanjing, os seguranças, já avisados, não ousaram confrontá-los diretamente; tiveram de esperar que o grupo colasse a revista e partisse para, só então, arrancar os exemplares.
Ainda que os seguranças removessem a revista na hora, o movimento iniciado por aqueles jovens e sua publicação se espalhou irresistivelmente entre os universitários.
Em poucos dias, o número inaugural de “Hoje” vendeu 2.500 exemplares. Organizada por poetas independentes e estudantes, essa revista alternativa conquistou rapidamente os campi universitários de Yanjing, sendo considerada por muitos, no futuro, o início de uma nova onda poética.
Tanto o furor provocado por “O Cavaleiro dos Pastos” no meio literário quanto a tempestade causada por “Hoje” nas universidades de Yanjing não afetaram em nada Lin Chaoyang.
Ele seguia sua rotina de trabalho e vida, preocupado apenas, de vez em quando, com a possibilidade de sua identidade ser revelada.
Foi nesse momento que finalmente chegou a resposta para o texto que enviara à “Arte e Literatura de Xangai”.