Capítulo 103: Que grande homem, Xu Lingjun!

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 4273 palavras 2026-04-01 16:30:09

Naquela noite, Tao Yushu voltou para casa segurando algumas revistas e as entregou a Lin Zhaoyang como se estivesse lhe oferecendo um tesouro.

O que ela trouxera era a revista *Teatro Estrangeiro*, publicada pela primeira vez em 1962. Naquela época, ainda se chamava *Materiais de Teatro Estrangeiro* e era uma publicação de circulação interna da Associação de Teatro, que mais tarde teve sua publicação suspensa devido aos tumultos da época.

Tendo sido retomada apenas este ano, contava com apenas três edições lançadas. Tao Yushu as encontrara à tarde, quando foi com Wu Yingfang e outras colegas de classe à agência de correios de Liubukou. Custavam setenta e seis centavos de iuan cada, totalizando dois iuans e vinte e oito centavos pelas três.

Esta revista, focada principalmente na introdução de atividades teatrais estrangeiras, possuía um conteúdo rico e variado. Não apenas publicava artigos de pesquisa nacionais e internacionais sobre teatro estrangeiro e notícias sobre intercâmbios acadêmicos entre os meios teatrais chineses e externos, mas também trazia, a cada edição, um ou dois roteiros de peças teatrais ou dramas televisivos estrangeiros importantes da atualidade. Era de grande ajuda para muitos chineses que desejavam compreender e estudar o teatro estrangeiro.

No entanto, como a revista fora anteriormente de circulação interna, quase não tinha influência entre o público geral. Por isso, mesmo após mudar de nome, retomar a publicação e passar a ser distribuída publicamente, as vendas não eram ideais.

Essa era a razão pela qual Tao Yushu conseguira garimpar aquelas edições na agência de correios.

— Você quer mesmo que eu me torne roteirista? — brincou Lin Zhaoyang.

— Estudar um pouco não faz mal a ninguém. Você escreve, e muitas técnicas e experiências da criação teatral também podem ser aproveitadas. Geralmente, os bons escritores também são bons编剧 dramaturgos, veja o senhor Lao She.

Sempre que o assunto era estudar, Tao Yushu tinha uma infinidade de argumentos na ponta da língua. Contudo, ler mais materiais de referência de fato ajudaria Lin Zhaoyang a escrever o roteiro.

Em meados de novembro, a primeira versão do roteiro ficou finalmente pronta. Ao terminar de ler a obra completa, Tao Yushu demonstrou mais alegria do que o próprio Lin Zhaoyang.

— Zhaoyang, mesmo se você não escrever romances, poderia muito bem ser roteirista, e certamente seria um dos grandes!

O elogio de Tao Yushu continha, claro, a admiração e o orgulho de uma esposa pelo marido, mas vinha principalmente de um julgamento racional.

— Desde que você esteja satisfeita, está ótimo. — Lin Zhaoyang sentiu o coração se aquecer ao ver o sorriso de Tao Yushu.

Radiante, Tao Yushu folheava o roteiro repetidas vezes, achando tudo perfeito, não importava quantas vezes lesse.

Na manhã seguinte, bem cedo, ela levou o roteiro para a faculdade, ansiosa para que seus colegas de classe vissem a obra do marido.

Naquela manhã, o Departamento de Literatura Chinesa tinha uma aula de "Estudos de Teatro Moderno", ministrada pela professora associada do departamento, Huang Huilin.

Quando a aula finalmente terminou, enquanto os alunos se apressavam para sair da sala, Tao Yushu reuniu os principais entusiastas do teatro da turma.

— O roteiro está pronto!

Bastou essa única frase para que todos, como formigas atraídas pelo cheiro de mel, se aproximassem dela imediatamente.

Assim que Tao Yushu puxou as páginas, Wu Yingfang foi a primeira a arrancá-las de suas mãos. Ela gritou depressa: — Cuidado para não rasgar!

Wu Yingfang nem deu ouvidos à preocupação da amiga. Seus olhos estavam fixos no manuscrito, que consistia em folhas de papel de rascunho comuns, mas seu olhar foi imediatamente capturado ao ler o título na primeira página:

*O Pavilhão Número Um do Mundo*.

Esse título...

— Que título imponente!

Um colega ao lado expressou em voz alta o que passava pela mente de Wu Yingfang.

— Yushu, o grande escritor da sua casa realmente não é comum! Só por esse título, com certeza vamos superar a Yanda. — disse o colega Li Luyang em tom exagerado.

Suas palavras provocaram risadas gerais. Os oito entusiastas do teatro estavam reunidos ao redor do roteiro de Lin Zhaoyang e, antes mesmo de começarem a ler, já conversavam sem parar.

Havia apenas uma cópia do manuscrito e todos queriam ser os primeiros a ler. O empurra-empurra acabou chamando a atenção de Huang Huilin, que estava arrumando suas coisas no púlpito.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou ela, descendo do púlpito.

— Não é nada, Professora Huang — disse Tao Yushu.

Wu Yingfang, sempre rápida no gatilho, respondeu: — Professora Huang, nós queremos encenar uma peça. A Yushu pediu para o marido dela escrever um roteiro para nós. Ela acabou de trazer o texto hoje e todo mundo quer ler.

Huang Huilin riu ao ouvir aquilo. Ela já tinha ouvido falar da onda teatral iniciada recentemente pelos estudantes da Yanda. Como professora de literatura dramática, ela própria prestava muita atenção a esse movimento.

Os estudantes já tinham até um roteiro em mãos; a capacidade de execução deles era impressionante. Ela disse: — Temos um mimeógrafo no escritório do departamento. Posso rodar algumas cópias para vocês. Por que ficar disputando o papel desse jeito?

Suas palavras foram recebidas com gritos de alegria por todos.

— Vamos, vamos. Primeiro vamos almoçar, e depois eu rodo as cópias para vocês.

Caminhando com os estudantes, Huang Huilin sentiu que recuperava um pouco da sua própria vitalidade juvenil.

Todos a acompanharam para almoçar e depois foram ao escritório. Passaram a tarde inteira mimeografando várias cópias do roteiro.

Agora que cada um tinha sua própria cópia, a disputa cessou, e todos começaram a folhear as páginas ali mesmo no escritório, impacientes.

Enquanto todos silenciavam para ler, Huang Huilin perguntou a Tao Yushu: — Yushu, poderia me emprestar uma cópia deste roteiro?

O fato de o marido de Tao Yushu ser o escritor Xu Lingjun já não era segredo na Universidade Normal de Pequim. Huang Huilin também estava muito interessada naquele roteiro vindo das mãos de um autor renomado.

— O roteiro dele ainda está um pouco bruto. Se a senhora tiver tempo, seria ótimo se pudesse nos dar algumas orientações. — Tao Yushu entregou-lhe uma cópia.

Com as cópias prontas, Tao Yushu disse a todos: — Muito bem, os roteiros já foram impressos e o expediente está quase terminando. Não vamos mais incomodar a professora. Levem o texto para ler com calma em casa e amanhã discutiremos o assunto.

Os estudantes estavam fascinados com a leitura. Interrompidos por Tao Yushu, não tiveram escolha senão fechar as páginas e sair do escritório.

O grupo se despediu em frente ao prédio. Tao Yushu pegou sua bicicleta e voltou para a Yanda, enquanto os outros se entreolharam.

— Vamos jantar? — perguntou Wu Yingfang.

— Tenho dois pãezinhos no vapor no meu quarto, basta aquecê-los no aquecedor. Não vou ao refeitório. — Um deles colocou o roteiro debaixo do braço e seguiu para o dormitório.

— Eu também não vou. Zhenyu, traga um prato de comida para mim. — Li Luyang também queria voltar logo para o dormitório e delegou a tarefa de buscar comida a seu colega de quarto.

Com a iniciativa dele, os outros também começaram a fazer pedidos.

— Zhenyu, traz uma para mim também.

— Traz para mim também.

Li Zhenyu ficou ali, carregando quatro ou cinco marmitas de metal, prestes a chorar de desespero.

*Vocês estão com pressa para voltar e ler o roteiro, e eu não estou?*

Wu Yingfang olhou para Li Zhenyu com certa simpatia: — Esse pessoal é terrível!

Li Zhenyu assentiu: — Você tem toda razão, Yingfang.

Ela olhou para as marmitas penduradas em Li Zhenyu e acrescentou: — Traga menos comida para eles. Não os deixe comer até ficarem cheios demais.

Dito isso, ela agarrou seu roteiro e afastou-se com passos leves.

Li Zhenyu balançou a cabeça, conformado. Não se salvava um.

Como de qualquer forma não conseguiria se apressar, ele simplesmente relaxou. Caminhou sem pressa até o refeitório, comeu até se fartar, depois pegou a comida de cada um e voltou lentamente para o dormitório.

Aquele pequeno grupo de oito entusiastas do teatro consistia em cinco rapazes e três moças. Os rapazes moravam espalhados no terceiro andar do Prédio Sudoeste. Li Zhenyu e Li Luyang dividiam o quarto 322.

Depois de entregar a comida para todos, ele retornou ao seu quarto e colocou a marmita na cabeceira da cama de Li Luyang.

— Luyang, hora de comer.

Naquele momento, Li Luyang parecia ter toda a sua atenção voltada para o roteiro em suas mãos, sem esboçar qualquer reação à sua voz.

Li Zhenyu não ficou surpesado. À tarde, quando o grupo folheava o roteiro no escritório, he próprio não havia terminado de ler nem a primeira cena, mas sua mente já fora completamente capturada. Se não tivesse que trazer comida para os outros, ele realmente não teria ido ao refeitório.

Agora que finalmente estava livre, tirou os sapatos, deitou-se na cama, pegou o roteiro e mergulhou novamente no mundo cheio de altos e baixos da peça.

— Excelente!

Não sabia quanto tempo havia se passado quando, ainda absorto na leitura, uma voz explodiu ao seu lado, assustando-o.

Ao virar a cabeça, viu Li Luyang sentado na cama — não sabia desde quando —, com os olhos arregalados, o rosto vermelho de excitação e batendo na cama com entusiasmo.

— "Que belo pavilhão imponente, quem é o dono e quem é o hóspede? Apenas três cômodos antigos, propícios à lua brilhante, propícios ao vento!" Que extraordinário, Xu Lingjun!

Sua voz era veemente e apaixonada. No ápice da emoção, ele não resistiu e desceu da cama descalço. Segurando o roteiro com as duas mãos, com um olhar cheio de devoção, murmurou para si mesmo:

— Mesmo se Lao She estivesse vivo, não faria melhor! Mesmo se Lao She estivesse vivo...

Li Zhenyu assustou-se com a reação de Li Luyang, mas no fundo conseguia compreendê-la. Se não tivesse sido interrompido por ele, a essa altura também estaria perdido na melancolia e na alegria daquela época retratada por Xu Lingjun.

Balançou a cabeça e preparava-se para continuar a leitura, quando Li Luyang, talvez achando insuficiente falar sozinho, aproximou-se e o agarrou pelo braço.

— Zhenyu, pare de ler por um instante, vamos conversar sobre o roteiro!

Conversar o caramba!

*Você já terminou, mas eu ainda não!*

Ele olhou furioso para Li Luyang: — Fique calado. Se ousar dar o menor spoiler do que acontece a seguir, nunca mais trago comida para você!

A atitude feroz de Li Zhenyu finalmente fez Li Luyang recuperar um pouco da razão. Ele voltou a se sentar na beira da cama, resmungando, e calçou os sapatos.

Só então ele notou a comida na cabeceira da cama. Sem se importar se estava fria ou não, começou a devorá-la às pressas.

Enquanto comia, mantinia os olhos fixos em Li Zhenyu, esperando ansiosamente que ele terminasse para que pudessem compartilhar suas impressões.

Antes mesmo de terminar de comer, a porta do dormitório foi escancarada com um estrondo. Alguns dos colegas de antes estavam parados ali, erguendo suas cópias do roteiro.

— Uma obra-prima! É uma verdadeira obra-prima!

Os grãos de arroz grudados nos lábios de Li Luyang não o impediram de abrir um grande sorriso. Todos tinham bom gosto, afinal.

Ele deixou a marmita de lado e exclamou: — Exatamente! Esta é, sem dúvida alguma, uma obra-prima!

Como agentes secretos que acabavam de confirmar uma senha confidencial, eles se reuniram num instante, conversando em voz alta sobre o roteiro, com os olhos brilhando e semblantes radiantes.

Li Zhenyu, atrapalhado pelo barulho, não conseguia se concentrar de jeito nenhum. Ouvindo os spoilers constantes de trechos que ainda não lera, sua expressão era de puro desespero.

*Se eu soubesse, não teria trazido comida nenhuma. Devia ter deixado esses desgraçados morrerem de fome!*

Na Universidade Normal de Pequim, no Prédio 6 dos funcionários, um dos edifícios residenciais para docentes e funcionários da universidade, o estilo ainda era o de prédio de corredor compartilhado.

A noite caíra antes mesmo do jantar terminar. Quando Huang Huilin terminou de lavar a louça, o lado de fora já estava completamente às escuras.

Ela voltou da área de lavagem externa com as mãos vermelhas de frio, segurando as tigelas. Depois de aquecer as mãos no aquecedor por um momento, notou que o marido estava sentado na beira da cama, inteiramente concentrado na leitura do roteiro que ela trouxera.

Após se recuperar do frio, ela se aproximou e perguntou: — O que está achando?

Seu marido, Shao Wu, também era professor na Universidade Normal de Pequim e já havia publicado alguns contos, possuindo considerável talento na criação literária.

Shao Wu ergueu a cabeça, atônito: — Quem escreveu isso?

— O cônjuge de uma aluna do Departamento de Literatura Chinesa.

— O cônjuge de uma aluna? — A resposta deixou Shao Wu confuso. Como isso envolvia o companheiro de uma estudante?

— Você se lembra da Tao Yushu?

Shao Wu lembrou-se imediatamente da aluna que sua esposa costumava mencionar. No entanto, o que mais o marcara fora a notícia que ela trouxera recentemente: o marido de Tao Yushu era ninguém menos que Xu Lingjun, o autor de *O Pastor de Cavalos* e *Os Sapatinhos*.

— Você quer dizer... Xu Lingjun? — perguntou Shao Wu, surpreso.

Huang Huilin assentiu e explicou: — Lembra que os estudantes da Yanda encenaram uma peça há alguns dias? Isso gerou uma onda de entusiasmo nas universidades de Pequim, e agora todas querem montar suas próprias peças.

Shao Wu sorriu e perguntou: — Mas você não disse que o Xu Lingjun é da Yanda? Se os nossos estudantes da Universidade Normal de Pequim o convidam para escrever, não estaríamos promovendo o prestígio dos outros?

Huang Huilin riu com leveza: — Dos trinta e seis estratagemas, há um chamado "o estratagema da bela mulher".

O casal trocou provocações divertidas e caiu na gargalhada.

Passada a brincadeira, Shao Wu comentou seriamente: — Só li o primeiro ato do roteiro até agora, mas tem muita substância. Lembra-me bastante *A Casa de Chá*.

Huang Huilin mostrou-se surpresa. Conhecia muito bem o temperamento do marido, que raramente elogiava uma obra de forma tão direta.

Além disso, *A Casa de Chá*, sendo a obra-prima do senhor Lao She nos palcos, representava um dos ápices insuperáveis do teatro moderno chinês, consagrada como um clássico na mente de inúmeros leitores e espectadores.

O fato de Shao Wu fazer tal comparação tendo lido apenas o primeiro ato naturalmente espantou Huang Huilin.

— Tanto elogio assim?

— Eu disse apenas que lembra. Em termos de estrutura, vejo que a introdução e o desenvolvimento deste roteiro foram muito bem executados. Se ele conseguir manter esse nível até o fim, será realmente algo extraordinário!

Huang Huilin ficou curiosa com as palavras do marido: — Deixe-me ver primeiro!

Dizendo isso, ela tomou o roteiro dele. Shao Wu olhou para a esposa, dividido entre o riso e a resignação.