Capítulo 75 - E ainda tem um temperamento admirável

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 4247 palavras 2026-01-30 14:22:17

— Eu não concordo! — exclamou a colega, repetindo a afirmação com firmeza ao notar os olhares atônitos ao redor.

Lin Chaoyang ficou completamente confuso. “Eu só estava compartilhando minhas ideias, com o que exatamente você não concorda?”

Os presentes também estavam perplexos. Alguém aqui estava propondo casamento agora? Por que esse desagrado todo?

Enquanto todos permaneciam atônitos, a colega caminhou até ele, fitando-o seriamente:
— Não posso concordar com a sua interpretação.

Lin Chaoyang, tomado pelo instinto, perguntou:
— Com o que exatamente você discorda?

— Na minha opinião, na obra “Os Sapatinhos”, a figura da mãe do Cachorrinho carrega um simbolismo fortíssimo. Ela representa o arquétipo da mãe chinesa desde tempos imemoriais — sempre sacrificando-se silenciosamente, sem jamais receber reconhecimento ou ser devidamente valorizada.
Ao contrário da exaltação ao poder patriarcal e imperial, os chineses sentem vergonha de enaltecer o amor materno.
Tanto em “O Pastor de Cavalos” quanto em “Os Sapatinhos”, você ignora instintivamente a mãe. Em “Os Sapatinhos”, ela é frágil e doente; em “O Pastor de Cavalos”, a mãe de Xu Lingjun é abandonada pelo pai rico e morre de tristeza.
Isso revela o seu subconsciente.

Alvo de uma crítica tão direta, Lin Chaoyang ficou atordoado.
“Eu escrevi, mas nem sabia disso?”

Colega, fazer interpretação de texto tudo bem, mas fazer isso na minha frente, autor do texto, não é demais?
Olhando para a colega à sua frente, Lin Chaoyang sentiu-se entre divertido e constrangido, e quando estava prestes a responder, de repente reconheceu uma certa familiaridade em seu rosto.

Trinta anos mais jovem, Lin Chaoyang quase não a reconheceu.
É você, Professora Dai?
Já era assim tão ousada aos vinte e poucos anos?

Aquela face era bem conhecida entre quem acompanhava microblogs ou vídeos curtos no futuro: era Dai Jinhua, famosa por suas críticas cinematográficas e por seu feminismo.
Brincadeiras à parte, o feminismo de Dai Jinhua era, ao menos, muito mais consistente do que o pseudo-feminismo que surgiria mais tarde.

— Hã... Colega, como você se chama? — perguntou Lin Chaoyang.
A jovem professora Dai era conhecida por seu talento em debates — melhor não provocá-la.

— Turma de 78, Letras, Dai Jinhua! — respondeu ela, mostrando personalidade desde o segundo ano.

— Parece que você gosta mesmo das minhas obras? — Lin Chaoyang achou melhor tentar um tom conciliador.
Dai Jinhua percebeu que talvez tivesse sido ríspida demais e, diante da atitude gentil de Lin Chaoyang, sentiu-se um pouco constrangida.

— Suas obras são boas, mas ainda há espaço para aprimorar.

Lin Chaoyang sorriu, olhos semicerrados:
— Na escrita, sou apenas um principiante.

Diante dessa postura, Dai Jinhua ficou sem saber o que dizer.
Ela queria debater, mas Lin Chaoyang não entrava no jogo — e nada assusta mais quem gosta de discutir do que alguém assim.

Após alguns segundos de hesitação, Dai Jinhua murmurou secamente:
— De fato, está bem escrito!
— Obrigado!

Dito isso, ela assentiu para Lin Chaoyang e se afastou.
Que temperamento peculiar!

Assim que ela sumiu de vista, os colegas que haviam acompanhado a discussão explodiram em gargalhadas.
— Ai, não aguento! Que situação engraçada!
— “Eu não concordo, eu não aceito!” Hahaha!

Interpretar um texto na frente do próprio autor — isso, sim, é uma verdadeira performance artística.
Enquanto Dai Jinhua estava presente, todos se contiveram, mas agora riam à vontade.
Não era para menos: ver o autor sem resposta diante das questões da leitora era uma cena, de fato, hilária.

Du Rong, rindo, perguntou a Lin Chaoyang:
— Chaoyang, você acha que a colega tinha razão no que disse?
A pergunta, claro, era uma provocação bem-humorada.

Lin Chaoyang deu de ombros, indiferente:
— Uma obra, uma vez publicada, pertence aos leitores. Mil leitores, mil Hamlets. Como ela interpretar, está certo para ela.

Essa postura, de não querer discutir, só fez aumentar o respeito dos colegas, que logo ergueram o polegar em sinal de aprovação.
— Que grandeza de espírito, Chaoyang!

O tempo livre do almoço passou rápido. À tarde, Lin Chaoyang ficou na biblioteca, atendendo eventuais pedidos de livros para alunos e professores e, no restante do tempo, escrevendo a obra que prometera a Du Feng.
Não tendo experiência com temas de guerra, nem contato direto com o exército, sua escrita dependia totalmente dos relatos e materiais fornecidos por Du Feng e seus companheiros.
O ritmo era lento, mas o progresso satisfatório, já que ele tinha boas referências na mente.

Ao sair do trabalho ao entardecer, Lin Chaoyang mal deixara a biblioteca quando foi abordado por um conhecido.
Era Zou Shifang, que havia ajudado Chen Jiangong a fundar o Grêmio Literário 4 de Maio. Ao seu lado, um rosto desconhecido.

Graças à apresentação de Zou, Lin Chaoyang ficou sabendo que era Guan Qingsong, editor da revista da Universidade de Yanjing.
Vieram para entrevistá-lo em nome do periódico.

— Eu só escrevi dois textos, não vejo motivo para uma entrevista — recusou Lin Chaoyang, educadamente.
Mas Guan Qingsong insistiu:
— Camarada Chaoyang, isso é modéstia em excesso. Sua produção pode não ser tão volumosa quanto a dos veteranos, mas sua influência é notável.

Lin Chaoyang acenou com a mão, minimizando:
— Está exagerando.
— Não estou brincando, é sério...

Então, o olhar de Lin Chaoyang passou por eles e fixou-se ao longe, acenando para alguém naquela direção.
A bicicleta de Tao Yushu parou ao lado do grupo e ela perguntou:
— Aconteceu alguma coisa?
— O editor Guan da revista da universidade e o colega Zou do Grêmio querem me entrevistar — explicou Lin Chaoyang, apresentando-os: — Esta é minha esposa, Tao Yushu.

Ao ouvir isso, os olhos de Tao Yushu brilharam.
A revista da universidade queria entrevistar Lin Chaoyang?

— Não vamos ficar conversando aqui fora, vamos para casa! — convidou ela.
E o grupo seguiu em direção ao Lago Langrun, com Guan Qingsong lançando olhares disfarçados para Tao Yushu de quando em quando.

Desde o ano anterior, corria pela Yanda a notícia de que a filha do professor Tao do Departamento de História havia se casado com um rapaz do campo e o trouxera para a cidade.
Este ano, a novidade era que o genro do professor Tao, vindo do interior, era justamente Xu Lingjun, autor de “O Pastor de Cavalos”.
Professores e alunos da universidade sentiam enorme curiosidade pela filha do professor Tao, considerada uma mulher de sentimentos nobres e visão aguçada.

Em casa, Tao Yushu recebeu os visitantes com toda a hospitalidade.
Seu pai, naquela noite, tinha compromisso com amigos. Tao Yushu, temendo que a mãe preparasse pouca comida, foi até a cozinha:
— Mãe, faça mais alguns pratos esta noite!
— Por que tanto? — estranhou a mãe.
— O pessoal da revista da universidade veio entrevistar Chaoyang, pode demorar, não podemos deixar as visitas com fome — respondeu Tao Yushu, modesta.

Revista da universidade?
A mãe de Tao Yushu demonstrou surpresa.
Sem se importar com a reação materna, Tao Yushu voltou à sala.
— Uma simples revista universitária, que exagero... — murmurou a mãe, sabendo que a filha tinha dito aquilo de propósito para provocá-la.
Apesar do resmungo, ela pôs-se a cozinhar mais.

Enquanto isso, Tao Yushu conduziu Guan Qingsong e Zou Shifang ao quarto dela e de Lin Chaoyang, serviu chá, ofereceu cigarros — sem sequer perguntar ao marido se ele aceitava dar entrevista.
— Yushu... — Lin Chaoyang tentou protestar.

Tao Yushu, atarefada, ergueu o olhar para ele; em seus olhos brilhavam apenas quatro palavras: “Desejo que meu marido brilhe”.
Diante disso, Lin Chaoyang calou-se e olhou para Guan Qingsong com um ar destemido:
— Venha!
Tao Yushu, satisfeita, assentiu.

Embora fosse “apenas” um periódico universitário, a revista da Universidade de Yanjing tinha uma história mais rica do que a maioria dos jornais e revistas do país.
Fundada em 16 de novembro de 1917 como “Diário da Universidade de Yanjing”, por iniciativa do então reitor Cai Yuanpei, foi de grande impacto para o movimento da Nova Cultura e para a história da imprensa moderna na China.
Entre os editores originais estavam Shen Yinmo, Hu Shi, Chen Duxiu e outros gênios da época; a seção “Seleção de Canções Populares” era editada por Liu Bannong, mostrando o alto nível do corpo editorial.
Ao longo dos anos, devido às turbulências históricas, a revista mudou de nome, interrompeu e retomou suas edições várias vezes.
Em 1978, voltou a ser publicada como “Revista da Universidade de Yanjing”.
Desde os tempos da Nova Cultura, da Muralha da China, passando pela Guerra da Coreia, a reconstrução socialista, até as reformas e abertura, a revista registrou os grandes eventos da universidade e do país.
Apesar de não ser um grande jornal de circulação nacional, sua influência entre as universidades era única.
A revista abrangia temas acadêmicos, artísticos, discursos, crônicas e englobava todas as áreas do saber de Yanjing.
Diversos mestres da modernidade — como John Dewey, Grip, Zhang Taiyan, Jiang Menglin, Hu Shi, Lu Xun, Ji Xianlin, Feng Zhi — publicaram ali textos e opiniões em múltiplas formas.
Lin Chaoyang, claro, não podia ser comparado a esses gigantes, mas a revista registrava não só os grandes nomes, como também as experiências e textos de professores e alunos comuns.
Guan Qingsong queria entrevistá-lo, sobretudo porque, como simples bibliotecário, Lin Chaoyang causara um rebuliço no meio literário.

A entrevista começou de modo descontraído, até que, após um tempo, Guan Qingsong lançou a primeira pergunta:
— “O Pastor de Cavalos” foi seu primeiro texto? E já saiu numa revista de projeção nacional como a “Yanjing Literária”?
— Sim, escrevi sem grandes expectativas, só para experimentar. Sendo o primeiro, nem cogitava que seria publicado logo de cara.
Minha ideia era: se “Yanjing Literária” não aceitasse, tentaria outra revista estadual; se não desse, mandaria para uma de nível regional.

Guan Qingsong sorriu:
— Então você não era exigente.
— Para quem já tem nome, importa onde publicar. Para mim, um iniciante, o que importava era ser publicado, receber o pagamento e ajudar nas despesas de casa.

Guan Qingsong assentiu, impressionado. Viu em Lin Chaoyang a simplicidade e a confiabilidade típicas do homem do campo, além de uma humildade rara para alguém de pouco mais de vinte anos.
Na Yanda, estava acostumado a jovens arrogantes, cheios de si. A modéstia de Lin Chaoyang o cativou instantaneamente.

— Dizia que escrevia para ajudar nas despesas. Esse foi o seu objetivo ao começar?
Sob o olhar atento de Tao Yushu, Lin Chaoyang assentiu com dificuldade:
— Você conhece nossa situação. Yushu ainda estuda, eu sou temporário na biblioteca, ganho pouco e moramos com meus sogros, que nos ajudam muito, especialmente a mãe de Yushu...

Tao Yushu arqueou as sobrancelhas, surpresa por ele mencionar a mãe naquele momento.
Ela sabia exatamente como a mãe tratava Lin Chaoyang: desde o início, foi contra o casamento, recebendo-o com frieza e palavras duras.
Meses depois, ao perceber que ele era um bom homem, diminuiu as críticas, mas continuou distante.
Quando o sucesso dele veio à tona, a mãe mudou um pouco de postura, embora sem admitir.
De qualquer forma, Lin Chaoyang suportara muito por ela, nunca reclamara, e ainda a consolava quando ela discutia com a mãe.
Sabia bem das injustiças que ele sofrera por sua causa — e isso a emocionava profundamente.
Agora, ao vê-lo elogiar a sogra numa entrevista, Tao Yushu sentiu as faces arderem.
Pensando nas palavras frias da mãe, amou ainda mais o marido — e guardou maior mágoa da mãe.
“Com um genro tão bom, como pode não valorizar?”