Capítulo 61: Eu Vou Aproveitar de Graça de Vocês

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 3714 palavras 2026-01-30 14:22:06

Quando o expediente estava prestes a terminar, Hu Wenqiong percebeu que havia alguns estudantes rondando o saguão ensolarado, parecendo esperar por alguém, mas seus olhares se voltavam constantemente para o balcão de empréstimos de livros.

Após algum tempo, todos começaram a guardar seus pertences para ir embora e Hu Wenqiong viu aqueles estudantes interceptarem Lin Chaoyang.

Como Lin Chaoyang costumava manter bastante contato com alunos do Departamento de Letras, Hu Wenqiong não se incomodou.

— Você é mesmo Xu Lingjun?

Os que barraram Lin Chaoyang eram rapazes e moças, todos se apresentando como colegas do curso de Economia de 1978.

Nesses dois dias, a revista Lago Sem Nome, fomentada por Chen Jiangong e seus amigos, começou a circular oficialmente entre os estudantes de Yan, e muitos reconheceram um nome familiar na lista de consultores: Xu Lingjun.

Nos últimos seis meses, "O Cavaleiro dos Pampas" provocou um enorme debate entre os leitores, com impacto igualmente grande. O fenômeno se devia em parte ao auge da Literatura das Cicatrizes, mas também à qualidade indiscutível da obra.

Aparentava ser apenas mais um romance do movimento, mas destacava-se como um verdadeiro fenômeno, estilo “Gary Stu”. Entre as obras que protagonizaram a tempestade da Literatura das Cicatrizes no último ano, “O Cavaleiro dos Pampas” possuía um estilo único, especialmente entre os leitores jovens, superando até clássicos como “O Orientador de Classe” e “Cicatriz”.

Ao ver o nome Xu Lingjun aparecer em "Lago Sem Nome", era natural que os estudantes de Yan ficassem curiosos.

Alguns alunos próximos ao Departamento de Letras ou ao Clube Literário Quatro de Maio logo descobriram de quem se tratava.

Ele era, afinal, funcionário da Biblioteca de Yan?

Lin Chaoyang já esperava por esse dia e respondeu com serenidade:

— É um pseudônimo.

Então era mesmo?

Os estudantes, ao confirmarem que Lin Chaoyang era o autor de “O Cavaleiro dos Pampas”, ficaram ainda mais surpresos e desconfiados.

— Por que estão me olhando assim? — Lin Chaoyang, diante de tanta desconfiança, não sabia se ria ou se chorava.

— É sério? — outro rapaz perguntou.

Lin Chaoyang balançou a cabeça.

— Se não precisarem de mais nada, vou indo. Já terminei o expediente!

— Ei!

Antes que os estudantes pudessem reagir, Lin Chaoyang já se afastava.

— O que foi isso? — ficaram ali, olhos arregalados.

Uma moça de tranças grossas e rosto arredondado comentou:

— Ouvi a Xia Xiaohong, do Departamento de Letras, dizer que ele é muito discreto e não quer que saibam que escreve.

— Tem gente que não quer ser famoso? — alguém questionou.

— Deve ser por causa do passado...

A imaginação dessa pessoa era poderosa e todos pareceram convencidos.

A conversa seguiu enquanto saíam, sem que ninguém se apressasse para alcançar Lin Chaoyang.

Eram leitores entusiastas, mas os estudantes de Yan tinham seu próprio orgulho.

Naquela universidade nunca faltaram celebridades: Ji Xianlin, Ma Yinchu, Li Yining, Fei Xiaotong, Jin Kaicheng, Zhu Guangqian, Wang Yao, Wang Li...

Qual departamento não tinha um mestre? Qual mestre não era renomado em toda a China?

Vieram à biblioteca por curiosidade e, agora que viram como era Xu Lingjun, a curiosidade se dissipou.

Ninguém imaginava que o autor do tão comentado “O Cavaleiro dos Pampas” se escondia entre eles.

Yan era mesmo um lugar de talentos ocultos!

Em casa, Lin Chaoyang entregou a pomada de neve para Tao Yushu, que resmungou:

— Esbanjando dinheiro de novo!

Apesar das palavras, aplicou a pomada no rosto, satisfeita.

Ela usava desse creme normalmente, mas o frasco estava no fim há dias; sempre precisava escavar o fundo para retirar um pouco.

— Ainda tem dinheiro? Se não tiver, posso te dar mais — perguntou, enquanto massageava o rosto.

— Tenho, sim.

Lin Chaoyang acreditava firmemente: um verdadeiro homem nunca pede dinheiro à esposa.

Tao Yushu se olhou no espelho, observando seu rosto bonito, e lançou um olhar para Lin Chaoyang.

— Você realmente economiza.

Lin Chaoyang esforçou-se para parecer resoluto:

— Sim, até no refeitório, evito pegar comida demais.

Tao Yushu limpou os resquícios de pomada das têmporas e não disse mais nada.

Depois do jantar, Lin Chaoyang trouxe os biscoitos de pêssego. Tao Xiwen e Tao Xiwu, os pequenos, ficaram eufóricos.

Era pouco mais de meio quilo, não dava para cada um comer muito.

A cunhada Zhao Li deixou sua porção para os pequenos, e o cunhado, que comia com entusiasmo, ao receber o olhar dela, entregou o restante aos meninos. Tao Yumo comeu sua própria parte.

Lin Chaoyang percebeu que os doces do avô não foram tocados. Quando os pequenos terminaram os deles, já miravam os do avô, mas, estranho, o avô, sempre tão carinhoso, fingiu não ver.

Mais tarde, enquanto a mãe arrumava a mesa, Lin Chaoyang viu o pai levar discretamente sua parte para o quarto.

— O doce do pai é para a mãe, não é? — perguntou Lin Chaoyang.

— É sim, minha mãe sempre gostou de doces. Quando eu era pequena, nunca faltava doce em casa.

— Agora entendo, seu pai realmente a mima.

— E você também não é ruim.

Tao Yushu, saboreando a porção de Lin Chaoyang, elogiou.

Depois da higiene noturna, deitaram-se. Lin Chaoyang comentou:

— Yushu, hoje alguns estudantes de Yan foram me procurar na biblioteca.

Tao Yushu olhou para ele.

— Os estudantes já sabem?

— Provavelmente. Antes só se falava disso no Departamento de Letras, mas logo todos saberão. Não vamos contar para seus pais?

— Se você contar, ela vai achar que você está se exibindo. Melhor esperar ela perguntar.

Lin Chaoyang entendeu que “ela” era sua sogra.

Já haviam discutido se deveriam contar ou não.

— E os outros?

— Todos já sabem, só falta ela? — Tao Yushu revidou, deixando Lin Chaoyang sem resposta.

Ele imaginou a sogra sem saber de nada, descobrindo por terceiros e, ao chegar em casa, percebendo que todos sabiam menos ela.

Provavelmente ficaria furiosa!

— Ah, da próxima vez que você for à "Arte e Literatura de Yanjing", pergunte se já revisaram minha crítica? Será que reprovaram de novo? — lembrou Tao Yushu antes de dormir.

— Pode deixar.

Na manhã seguinte, enquanto Lin Chaoyang se lavava, ouviu Tao Yushu reclamar irritada.

— O que houve? — perguntou.

— Olha só! Com certeza foi a Yumo!

Tao Yushu mostrou o pote de creme novo que Lin Chaoyang havia comprado: no meio, faltava um grande pedaço.

Geralmente, Tao Yumo aproveitava para usar escondido o creme da mãe e da irmã; hoje, antes de ir para a escola, viu o pote cheio e não resistiu.

— Essa menina! Quando ela voltar, vou dar uma lição! — esbravejou Tao Yushu.

Lin Chaoyang riu, já acostumado às brigas das duas.

Ao chegar à biblioteca, mal começou o expediente e já notou mais estudantes espreitando do canto do saguão.

Provavelmente todos já sabiam sobre “O Cavaleiro dos Pampas”; a revista “Lago Sem Nome” circulava pelo campus e, bastava perguntar a alguém do Departamento de Letras ou do Clube Quatro de Maio, o segredo era revelado.

Imaginando o motivo desse interesse, Lin Chaoyang sentiu sorte por a reputação de Yan fazer os estudantes serem tão contidos; de outro modo, receberia muito mais assédio.

Perto do meio-dia, Lin Chaoyang se preparava para almoçar quando Chen Jiangong e Wang Xiaoping chegaram juntos.

— Chaoyang, tem tempo hoje à tarde? Vamos conhecer um amigo?

— Quem?

— Zhao Zhenkai!

Lin Chaoyang ficou surpreso.

— Por que ele quer me ver?

Wang Xiaoping explicou:

— Da última vez, mencionei você num encontro com o pessoal da “Hoje”. Eles querem te conhecer.

No Departamento de Letras de Yan, alguns mantinham contato próximo com o meio literário, incluindo Wang Xiaoping. Ela e Zha Jianying, por exemplo, frequentemente iam de bicicleta até o bairro literário da Dongsi para participar das atividades da revista “Hoje”. Não era segredo para ninguém.

Lin Chaoyang não queria se aproximar desse grupo, mas, com o convite insistente dos dois, seria indelicado recusar.

— Tudo bem, depois do expediente encontro vocês.

— Estaremos no gramado do Triângulo esperando.

Faltando meia hora para sair, Lin Chaoyang avisou Hu Wenqiong e saiu antes do horário.

Ao sair, avistou um grupo de jovens reunidos no gramado.

Wang Xiaoping apresentou Lin Chaoyang ao jovem elegante e articulado que discursava entre eles.

O rosto de Zhao Zhenkai era magro, o olhar um tanto frio e melancólico, encaixando-se perfeitamente no estereótipo de poeta.

Após rápidas apresentações, Zhao Zhenkai mencionou “O Cavaleiro dos Pampas” com cortesia:

— Li sua obra. Ao mesmo tempo que ecoa os clamores da época, revela uma visão muito pessoal do autor. É realmente original.

— Obrigado.

Desde o lançamento da revista “Hoje” no último inverno, Zhao Zhenkai, Mang Ke e outros tornaram-se figuras centrais na cena cultural de Yanjing, especialmente nas universidades, onde contavam muitos admiradores.

Mas, sendo um grupo um tanto à margem do mainstream e de estilo peculiar, eram bem diferentes de Lin Chaoyang.

Após as formalidades, Zhao Zhenkai foi direto ao ponto:

— Minha vinda hoje é, na verdade, para convidar autores de Yan a colaborar conosco.

— Antes de você chegar, comentei com Xiaochá, Xiaoping e Ziping. Nossa revista se destaca em poesia, em prosa e, principalmente, precisa melhorar em crítica.

Li seu “O Cavaleiro dos Pampas”, “A Primeira Estrela Cadente” de Xiaochá, e a crítica de Ziping. Todos excelentes, exatamente o que precisamos.

Por isso, venho convidá-los sinceramente a se unir à família “Hoje”...

Zhao Zhenkai era refinado, transmitia calma quando calado e, ao falar, sua voz era suave e firme, organizada e levemente entusiasmada.

Lin Chaoyang, atento, percebeu que todos os outros, ao serem mencionados, estavam radiantes, ansiosos para entregar seus textos.

Ele, porém, manteve-se impassível, ouvindo entre as palavras inflamadas de Zhao Zhenkai apenas uma mensagem:

“Quero que vocês escrevam de graça!”