Capítulo 54: Carta de “Colheita”

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 2305 palavras 2026-01-30 14:22:01

Depois de passar a tarde toda na companhia das colegas no dormitório da escola, ouvindo em detalhes a lendária história de amor entre Lin Chaoyang e Tao Yushu, Gong Yu só se lembrou de voltar para casa quase ao fim do jantar. O dia seguinte seria o fim de semana, e antes de sair, ela ainda fez questão de pegar emprestadas algumas revistas do dormitório.

No caminho de volta, imagens de Zha Jianying animada e tagarelando sem parar surgiam ocasionalmente em sua mente, entremeadas, de vez em quando, pelo rosto de Lin Chaoyang.

Era realmente surpreendente: ele era, afinal, Xu Lingjun! E Xu Lingjun era alguém da Universidade de Yanjing!

Só era uma pena que seu rosto fosse comum demais; seria perfeito se ele tivesse a aparência de “Xu Lingjun”, pensou Gong Yu consigo mesma.

Ao chegar em casa, o jantar já estava pronto. Ela comeu rapidamente algumas colheradas e se enfiou no quarto. Em vez de folhear as revistas que havia conseguido no dormitório feminino, pegou uma antiga revista comprada por ela mesma em sua escrivaninha.

Era a edição 11 de 1978 da “Literatura de Yanjing”, onde foi publicado o romance “O Cavaleiro”. Gong Yu decidiu reler a obra naquela noite.

Ao saber que o autor era alguém que vivia ao seu redor, reler o romance ganhou um novo significado. Gong Yu não sabia bem o porquê, mas sentia uma estranha vontade de associar o rosto de Lin Chaoyang ao protagonista alto e bonito, Xu Lingjun.

— Mana! O que você está lendo? — perguntou sua irmã mais nova, Gong Yun, que cursava o último ano do Ensino Médio na Escola Anexa da Universidade de Yanjing, ao entrar no quarto e perceber que Gong Yu estava completamente absorta na leitura.

— O que você está lendo? Deixa eu ver também! — insistiu Gong Yun, aproximando-se, mas Gong Yu rapidamente fechou a revista sobre a mesa.

— Nada demais — respondeu ela.

— Olha só esse jeito culpado! Não é nada, é? — Gong Yun aproximou-se ainda mais, tentando agradar: — Deixa eu ver, vai!

Gong Yu, sem saber explicar por que se sentira culpada há pouco, finalmente se recompôs e, com naturalidade, mostrou a revista:

— É só uma revista.

Gong Yun lançou um olhar para a capa: — Essa você já não leu? É a edição de “O Cavaleiro”.

— Já sim, estou relendo.

Os olhos de Gong Yu repousaram sobre o papel áspero e, entre todas aquelas palavras, apenas o nome “Xu Lingjun” parecia cravar-se em sua mente. Um impulso de compartilhar o segredo a invadiu.

— Gong Yun, preciso te contar uma coisa...

Naquela quarta-feira, Lin Chaoyang não foi assistir aulas extras; estava de plantão na biblioteca do sexto andar quando Du Rong lhe avisou que havia uma carta para ele lá embaixo.

Ao receber o envelope, Lin Chaoyang ficou surpreso ao ver o remetente e o endereço.

Remetente: Redação da revista literária “Colheita”. Endereço: Rua Julu, nº 675, Cidade de Xangai.

Seria mesmo uma carta de “Colheita”?

Ao abrir o envelope, viu que quem lhe escrevia era Li Xiaolin, atual editora da revista e filha do senhor Ba Jin.

Li Xiaolin havia trabalhado anteriormente na redação da “Literatura de Zhejiang”. Após o fim do “Zum-zum-zum”, foi transferida de volta a Xangai, assumindo a edição da “Literatura de Xangai”, onde Ba Jin era o editor-chefe.

No final do ano passado, Ba Jin começou a planejar a retomada da revista “Colheita” e Li Xiaolin foi transferida para lá para ajudar.

Pouco antes de deixar a “Literatura de Xangai” e assumir o novo posto, o conto “Akiyama processa” de Lin Chaoyang havia acabado de chegar à redação.

Na época, Li Xiaolin era responsável pela segunda avaliação dos textos e ficou profundamente impressionada com aquele romance.

Nos últimos anos, a literatura chinesa vinha sendo marcada pelo florescimento dos gêneros de “literatura das cicatrizes” e “literatura de reflexão”, e cada vez mais revistas buscavam textos com esses elementos. Algumas, até mesmo, negligenciavam a qualidade do material para aderir à moda desses temas quentes.

O estilo de “Akiyama processa” destoava completamente da popularidade dessas tendências: era um romance de realismo, cuja narrativa, em que Akiyama buscava justiça em diferentes repartições, lembrava os romances satíricos do final da dinastia Qing.

Já na fase de avaliação, Li Xiaolin teve um pressentimento: talvez aquela obra não se tornasse um sucesso estrondoso, mas seria, sem dúvidas, uma das pedras fundamentais mais sólidas da literatura chinesa.

“Akiyama processa” foi publicado na primeira edição de 1979 da “Literatura de Xangai”. Diferente de “O Professor Responsável”, “Cicatrizes” ou “O Cavaleiro”, não provocou de imediato nenhum grande alvoroço entre os leitores.

Levou quase um mês após a publicação para que a redação começasse a receber, pouco a pouco, cartas dos leitores comentando a obra.

Apesar da repercussão discreta, a avaliação dos leitores nas cartas recebidas era altíssima.

O estilo de “Akiyama processa” era, ao mesmo tempo, simples e cortante.

Tendo como ponto de partida um caso de lesão corporal dolosa e tomando como fio condutor a narrativa de uma camponesa processando um oficial, o enredo era simples, mas o conflito era construído com grande naturalidade, expondo, através de um longo processo judicial, a oposição fundamental entre povo e autoridades.

Além disso, os diversos embates de Akiyama com os funcionários do governo fugiam dos clichês, conferindo à obra uma estrutura própria e um efeito de grande impacto, retratando fielmente o cenário social da China rural da época.

Com o passar do tempo, já fazia mais de um mês e meio desde a publicação do romance. Em termos de impacto social, não chegava perto da literatura das cicatrizes tão em voga recentemente.

No entanto, quase sem perceber, a obra havia conquistado o reconhecimento de dezenas de milhares de leitores da “Literatura de Xangai”, e esse reconhecimento continuava a crescer.

Li Xiaolin, em conversas com antigos colegas da redação, notou um fenômeno curioso: nas cartas dos leitores de “Akiyama processa”, a frase recorrente da protagonista, “exijo uma explicação”, havia caído profundamente no gosto popular. Praticamente todas as cartas mencionavam esse bordão.

Com o tempo, se essas quatro palavras continuassem a se espalhar, a vitalidade de “Akiyama processa” poderia, quem sabe, superar a das obras de literatura das cicatrizes, tão em voga no momento.

Na carta de solicitação de textos, Li Xiaolin teceu elogios tanto a Lin Chaoyang quanto ao romance “Akiyama processa” antes de expor o real motivo de sua mensagem.

A “Colheita” voltara à circulação em janeiro de 1979; sendo uma revista literária bimestral, acabara de publicar sua segunda edição e estava, portanto, carente de material. Li Xiaolin escrevia justamente para solicitar uma nova colaboração de Lin Chaoyang.

Receber tal reconhecimento em carta, e ainda ser convidado oficialmente a colaborar com a mais prestigiada revista literária da China, foi motivo de grande satisfação para Lin Chaoyang.

Contudo, elogios à parte, era preciso tratar do convite com cautela: Li Xiaolin não mencionara na carta os valores do pagamento.

Negócios à parte, o melhor era esclarecer tudo desde o início.

Lin Chaoyang já se preparava para responder a Li Xiaolin quando o som do elevador chegou ao sexto andar, seguido de um bilhete deslizando pelo chão.