Capítulo 91: Essas palavras não são minhas? (Terceira atualização do dia, dez mil palavras, atualização extra por 17.000 votos mensais)
“Laços de Flores ao Pé da Montanha” é indiscutivelmente um marco inovador na literatura de temática militar e de guerra; o fato de Liu Zhenyun procurar Lin Chaoyang, o autor, para conversar após a leitura, comprova o apreço que sentiu pela obra.
No entanto, afirmar que ele a idolatra seria exagero. No meio literário, existe há muito uma tendência que preconiza que as obras devem possuir um espírito crítico realista: denunciar contradições sociais, expor as sombras e os males da sociedade, fazer uma crítica profunda. Desde o Movimento de 4 de Maio, essa corrente influenciou profundamente o desenvolvimento da literatura chinesa e perdura até hoje.
Liu Zhenyun, brilhante estudante de Letras na Universidade de Yanjing, também compartilha dessa visão, mas não de forma dogmática, apenas reconhecendo o valor da crítica. Por isso, ao analisar “Laços de Flores ao Pé da Montanha”, sua postura é bastante objetiva.
— Sua obra foi publicada há poucos dias, mas o entusiasmo dos debates não arrefece — comentou Liu Zhenyun.
— Se conseguiu provocar discussões no nosso departamento de Letras, é sinal de que não escrevi mal — respondeu Lin Chaoyang, rindo.
Conversando descontraidamente, os dois retornaram à universidade. Ao se aproximarem da Praça Triangular, Lin Chaoyang perguntou:
— Por que não vi mais o Jiankong ultimamente?
Desde o início do semestre, Lin Chaoyang não frequentava mais as aulas do departamento de Letras, e, somado às férias de verão, estava curioso pelo paradeiro dos amigos.
— Ele e o grupo estão fascinados pelo teatro agora.
— Teatro?
O departamento de Letras vai virar uma escola de artes dramáticas? Mas faz sentido. Desde a retomada do vestibular e a entrada dos novos alunos, as principais universidades de Yanjing sempre incentivaram os estudantes a expandir seus horizontes e aprimorar o gosto artístico. Filmes, peças, óperas, concertos, apresentações de dança, concursos de canto, olimpíadas... Apesar das condições difíceis, a vida cultural oferecida aos universitários era um verdadeiro banquete.
Para os alunos de Letras, assistir a peças era quase uma atividade obrigatória mensal. Naturalmente, todos desenvolveram forte interesse pelo teatro.
— Sim, durante as férias, Li Chun da turma de 1977 escreveu um roteiro em casa, e agora todos estão ensaiando. Gente da nossa classe também está participando.
Ao chegarem à Praça Triangular, separaram-se; Lin Chaoyang foi à biblioteca.
Naquele dia, havia aula com Wu Zuxiang, e Lin Chaoyang decidiu assistir. Sua chegada à sala de aula chamou imediatamente a atenção de todos. Após mais de um mês de férias, seria de esperar algum estranhamento, mas, durante o verão, todos viram o nome “Xu Lingjun” repetidas vezes em jornais e revistas, de modo que Lin Chaoyang não era nada desconhecido.
— Você, rapaz, realmente sabe agitar as coisas! — comentou Chen Jiankong, sentado ao lado de Lin Chaoyang.
— Por que agitar?
Chen Jiankong olhou para a frente, com expressão de admiração, e murmurou:
— Em maio, “Os Sapatos Pequenos” foi publicado e causou enorme repercussão. Você não se contentou; logo em seguida publicou aquele discurso na revista “Outubro”. Tenho visto muitos artigos te criticando nos jornais ultimamente. Você realmente gosta de estar no centro das atenções!
— Que bobagem. Como eu ia saber que o discurso publicado em “Outubro” teria tanta repercussão?
— Vai negar que não sabia? Acho que foi proposital. Agora, seu nome, Xu Lingjun, ecoa por todo o cenário literário chinês. Virou um grande escritor!
— Sai daqui! — respondeu Lin Chaoyang, sorrindo.
As brincadeiras à parte, Chen Jiankong tinha razão em um ponto. Apesar das críticas, o nome de Lin Chaoyang era, naquele momento, mais célebre que o de muitos escritores veteranos.
Esse fenômeno não era raro na literatura das décadas de 1970 e 1980, resultado do amor extraordinário do público pela literatura. Os novos livros nas livrarias desapareciam instantaneamente, a biblioteca estava sempre lotada; fossem funcionários, estudantes, operários ou camponeses, todos amavam ler.
O entusiasmo pela leitura, reprimido por dez anos e finalmente explodindo, permeou o final dos anos 1970 e toda a década de 1980, criando superestrelas da época: escritores e poetas. Eles exerciam influência ainda maior que as celebridades do futuro, podendo impactar profundamente a sociedade com suas palavras e ações.
Hoje, Lin Chaoyang ainda tem poucas obras, mas ele e seus textos são alvo de debates intensos há meses, tornando-se a figura mais comentada entre os novos escritores.
— Veja só, não aguenta uma provocação! — Chen Jiankong deixou de lado o tom brincalhão e falou sério: — Falando francamente, sua presença nos debates está em alta, principalmente porque suas obras são, de fato, excepcionais. Em poucos meses, a onda de “Os Sapatos Pequenos” ainda não passou e “Laços de Flores ao Pé da Montanha” já chegou. Li com atenção; entre os textos militares recentes, é realmente inovador.
— Eu preferia não ter tanta discussão em torno de mim.
Chen Jiankong fez uma expressão de “você não valoriza a sorte que tem”.
— Só porque te criticam? Eu adoraria ser criticado, quanto mais ferozmente, melhor! Não ser alvo de críticas, como pode ser grande escritor? Olha na era da República, as pessoas brigavam até sangrar. Não ser criticado? Quem não era criticado não era levado a sério!
Lin Chaoyang olhou para Chen Jiankong, sem palavras. Realmente, seu amigo tinha ideias à frente do tempo.
Se Chen Jiankong vivesse quarenta anos depois, certamente seria um megainfluenciador com milhões de seguidores.
— Mas, falando sério, você não acredita no futuro da literatura das cicatrizes? — perguntou Chen Jiankong, com seriedade.
— Não é que não acredite, mas penso que todos caíram numa armadilha de definições. O que é literatura das cicatrizes? Em termos simples, é a exploração, exposição, crítica e reflexão sobre os infortúnios dos anos recentes. Você deve ter lido várias dessas obras publicadas ou lançadas ultimamente; sejamos honestos, quantas realmente são excelentes?
Acho que a popularidade da literatura das cicatrizes é inevitável, mas seu sucesso baseia-se muito mais no valor emocional; essa tendência não vai durar. Com a dissipação do ressentimento coletivo nos próximos anos, essa moda chegará ao fim. Pode ser substituída pela reflexão, pela nostalgia, ou por outras coisas. Isso tudo falei no meu discurso, não foi?
— Ouvi seu discurso, mas a polêmica está grande demais ultimamente. Hoje, ouvindo sua explicação, fiquei ainda mais esclarecido. Ei, quando você falou em “valor emocional”, lembrei de um artigo de Yushu, publicado no jornal. Esse termo foi você que criou? É bem preciso. Você finge desprezar a fama, mas parece gostar de ver a discussão fervendo lá fora.
— Deixe de bobagem e preste atenção na aula.
Após a aula, Lin Chaoyang ignorou o convite de Chen Jiankong para continuar conversando e voltou à biblioteca.
No fim da tarde, quando se preparava para sair, foi interceptado por um homem de meia-idade.
O homem tinha o aspecto típico de um estudioso: magro, olhos profundos, usava óculos e transmitia uma sensação de timidez e vulnerabilidade, fácil de ser subjugado.
— Companheiro Chaoyang, boa tarde, sou Hong Zicheng, professor do departamento de Letras.
A apresentação do homem fez as sobrancelhas de Lin Chaoyang se erguerem involuntariamente.
Um futuro grande nome!
Muitos podem não conhecer Hong Zicheng, mas qualquer estudante de Letras o reconhece. Nos anos 1990, escreveu uma obra digna de entrar na história literária chinesa: “História da Literatura Chinesa Contemporânea”.
Esse livro é tão importante que logo após ser lançado tornou-se o principal manual das disciplinas de literatura contemporânea em inúmeras universidades, e continuava sendo adotado até antes da viagem temporal de Lin Chaoyang.
Segundo o “Zuo Zhuan”: “A maior virtude é estabelecer princípios; depois vêm as conquistas; por último, deixar palavras. Mesmo após muito tempo, não se extinguem: isso é imortalidade.”
O sonho de todo intelectual chinês é alcançar esses três objetivos ao longo da vida, e “História da Literatura Chinesa Contemporânea” certamente representa o estabelecimento de ideias; por isso, a realização de Hong Zicheng é única no cenário literário chinês contemporâneo.
Claro, agora Hong Zicheng não era tão famoso. Passava dos quarenta, era ainda um simples professor em Yanjing, e Lin Chaoyang nunca assistira a uma aula sua.
— Boa tarde, professor Hong! — cumprimentou Lin Chaoyang educadamente. — O senhor precisa de algo?
— Sim — respondeu Hong Zicheng, assentindo. — Estou escrevendo um livro sobre literatura contemporânea, em coautoria. Estava praticamente pronto, mas recentemente surgiram debates na mídia sobre você e a literatura das cicatrizes. Li seu artigo publicado na “Outubro” sobre o inevitável auge e declínio da literatura das cicatrizes. Suas análises são muito precisas, por isso gostaria de conversar.
Hong Zicheng era educado, mas um pouco rígido; era claramente alguém dedicado ao estudo, pouco dado à sociabilidade.
Lin Chaoyang olhou o relógio. — Vamos conversar em casa.
Hong Zicheng não esperava ser convidado à casa de Lin Chaoyang logo no primeiro encontro. Sem muita habilidade para improvisar, seguiu o jovem até os apartamentos do Lago Langrun.
Ao chegarem ao prédio, um lampejo de inveja passou discretamente pelos olhos de Hong Zicheng.
As vilas de Yannan Yuan e os apartamentos do Lago Langrun eram benefícios padrão para os professores da Universidade de Yanjing. Morar ali era sinal de prestígio e competência acadêmica, uma posição de destaque no mundo intelectual chinês.
Hong Zicheng ainda era apenas professor, morava no prédio número trinta e dois, na ala leste, onde residiam os jovens professores de Yanjing — e também alguns professores de meia-idade.
Quando chegaram, o pai de Tao acabara de voltar. Olhou para Hong Zicheng e achou o rosto familiar.
— Você é do departamento de Letras... — hesitou, sem lembrar do nome.
— Hong Zicheng — respondeu o visitante.
— Ah, lembrei! Hong Zicheng! Yang Hui já te elogiou várias vezes, diz que seus ensaios são ótimos.
Yang Hui era o chefe do departamento de Letras, professor veterano, fundador e membro principal da Sociedade do Sino Antigo. Seu maior feito foi, sem dúvida, o incêndio no prédio da família Zhao, onde foi um dos primeiros estudantes a entrar, marcando a história da China.
— Muito obrigado. Estou escrevendo um livro sobre literatura contemporânea e vim conversar com o companheiro Chaoyang sobre sua visão da literatura das cicatrizes.
Antes que o pai de Tao perguntasse, Hong Zicheng explicou o motivo da visita.
— Vocês jovens conversem, literatura não é meu forte — respondeu o pai de Tao, sorrindo.
Depois dos cumprimentos, os dois começaram a conversar dentro de casa. Tao Yushu chegou pouco depois. Ao saber que Hong Zicheng estava ali para debater a literatura das cicatrizes, seus olhos brilharam.
Recentemente, ela vinha estudando esse tema para rebater as críticas a Lin Chaoyang nos jornais; publicara dois artigos, mas sempre em debates à distância, sem satisfação total.
A presença de Hong Zicheng era a oportunidade ideal para validar seus estudos recentes.
— Professor Hong, o senhor dedica-se à literatura contemporânea; qual é sua visão sobre as tendências futuras da literatura das cicatrizes?
Hong Zicheng olhou, confuso, para Lin Chaoyang. Não era para ele responder?