Capítulo 86: O Segredo da Longevidade
Por mais que o camarada Liu ficasse contrariado, isso não seria suficiente para diminuir a distância real entre "Outubro" e "Literatura Popular". Ele sabia que essa questão não estava nas mãos de Lin Chaoyang e, ao final, acabou se acalmando, restando apenas um sorriso amargo e resignado.
“Planejei tudo, menos que o pessoal do exército teria esse tipo de exigência. Fazer o quê? Já que é assim, não há alternativa. Só lamento pelo seu romance.”
A mágoa do camarada Liu não passou de imediato, mas Lin Chaoyang aproveitou o fim do expediente para convidá-lo para jantar fora. Conversaram francamente, e Lin Chaoyang prometeu que seu próximo livro seria para "Outubro". Só então o camarada Liu ficou satisfeito.
No domingo de manhã, a família Tao saiu toda arrumada, pegando o ônibus 332 rumo ao centro da cidade. A Universidade Yan ficava no futuro anel viário noroeste, algo comum dali a trinta anos, mas naquela época, ir ao centro era uma verdadeira jornada.
Embora o objetivo principal fosse almoçar no Quanjude, já que toda a família tinha saído, resolveram passear antes. Só chegaram ao famoso restaurante Quanjude, próximo ao Portão da Frente, perto do meio-dia.
No futuro, quando se pensava em Quanjude, muitos diziam que o gosto já não era o mesmo, mas a verdade é que a mudança não veio só depois; desde a década de 50, após a estatização, o sabor já havia mudado.
Isso porque, antigamente, o pato assado não era acessível. Nos anos 50, para que mais pessoas pudessem provar essa iguaria, o Quanjude fez concessões nos ingredientes. O sabor já não era tão bom quanto antes, mas mais gente podia comer, o que tinha seus prós e contras. Claro que, no futuro, o restaurante se tornaria quase uma armadilha para turistas, algo impossível de evitar.
Os nove membros da família entraram no Quanjude e, antes mesmo de fazerem o pedido, os pequenos já estavam salivando só com o aroma que saía do forno.
Quem pagava era o pai, mas quem escolhia os pratos era a mãe.
A senhora Tao lançou um olhar desinteressado ao cardápio, sem se deter nas palavras, e foi dizendo os nomes dos pratos:
“Pepino-do-mar ao molho vermelho, tofu com fatias de carne, filé empanado frito, frango picante, cogumelos com broto de bambu, mais dois patos assados, um esqueleto de pato para sopa e outro com sal e pimenta.”
Ao lado, Tao Yumou alertou: “Mãe, não está pedindo carne demais?”
Comer fora exigia equilíbrio entre pratos de carne e vegetais, entre frios e quentes. Tao Yumou adorava carne, mas, vendo a mãe pedir tantos pratos pesados, achou que pareciam caipiras na cidade e ficou um pouco envergonhada.
A mãe, impassível, respondeu: “Vocês parecem todos mortos de fome. Se eu não pedir carne suficiente, vai faltar para alguém. Você veio aqui para comer broto de bambu?”
Tao Yumou ficou sem palavras diante da resposta da mãe, resmungando: “Como se você não comesse também.”
Pelo modo como ela escolhia os pratos, percebia-se o traço de filha de capitalista: nem olhava o preço.
Por exemplo, o filé frito seco custava 2,10, o filé empanado macio, 0,90, e a diferença no sabor era mínima, apenas a textura mudava. Mesmo assim, ela fazia questão do mais caro.
Entre todos os pratos, só o pato assado era mais caro que o pepino-do-mar ao molho vermelho, que custava 5,20 — o equivalente à alimentação de uma pessoa comum por mais de uma semana.
Em casa, isso não era perceptível, mas ao sair para comer, a sogra corria o risco de expor suas origens abastadas.
Independentemente das escolhas, o senhor Tao mantinha a serenidade, como se já estivesse preparado para gastar bastante.
No Quanjude, o objetivo principal era provar o pato assado.
Mas, como a senhora Tao previra, assim que chegaram os pratos de carne, as crianças atacaram como se fossem refugiados famintos recém-chegados à capital, comendo com avidez.
Especialmente quando chegou o pato assado. O Quanjude usava forno suspenso, o que deixava o pato bonito, rechonchudo, de cor viva, avermelhado, com pele crocante e carne macia, muito superior ao que se encontrava nas lojas comuns.
Depois da refeição, ao pagar a conta, o senhor Tao viu que o total chegou a 34,65 — quase o salário de um mês de um trabalhador comum.
Tao Yumou deu uma espiada no recibo e ficou espantada, mostrando a língua.
Quando a família voltou para a Universidade Yan, já passava das três da tarde. De longe, avistaram um velhinho sentado na sombra ao pé do prédio.
“Zhu, o que faz sentado aqui?”, perguntou o senhor Tao ao se aproximar.
“Vim jogar xadrez com você. Bati na porta, vi que não estavam, ia embora, mas está muito quente, resolvi esperar.”
Lin Chaoyang já não acreditava em nenhuma palavra do velho Zhu, achando que ele estava ali mesmo para esperar, não para ir embora.
Com o caráter duvidoso do velho Zhu no xadrez, talvez só o senhor Tao aceitasse jogar com ele em toda a Universidade Yan.
“Chaoyang, venha jogar uma partida comigo!”
O velho dizia ter vindo desafiar o senhor Tao, mas, assim que entrou, já chamou por Lin Chaoyang.
“Por que não joga com meu pai?”
“Ele joga muito mal”, respondeu o velho.
“Podia ao menos ser mais gentil ao falar.”
“Só estou sendo honesto.”
Os dois arrumaram o tabuleiro, e Lin Chaoyang fez um gesto: “Pode começar.”
Zhu Guangqian, vendo-o tão magnânimo, soltou um sorriso frio e posicionou cuidadosamente uma peça preta no centro do tabuleiro.
Lin Chaoyang jogou uma peça branca, e Zhu Guangqian, sem hesitar, já colocou outra peça. Observando o movimento do velho, Lin Chaoyang franziu levemente a testa.
Esse início...
Levantou os olhos para Zhu Guangqian: “Você decorou aberturas, não foi?”
O velho fez uma careta: “É só Gomoku, precisa de abertura decorada?”
Lin Chaoyang sabia que, mesmo que o matasse, o velho nunca admitiria ter decorado jogadas.
No xadrez chinês há livros de abertura, e até no Gomoku existem registros, mas geralmente só em anotações de literatos antigos, pouco conhecidos. Só numa era de tanta informação como o futuro é que alguém se interessaria por isso.
Depois de um tempo sem jogarem juntos, Lin Chaoyang percebeu nitidamente que o velho estava jogando de modo diferente.
Não é à toa que dizem que o caráter do velho Zhu no jogo não é dos melhores.
Jogar Gomoku decorando aberturas, é por causa de gente assim que o espírito do jogo se perde.
De onde será que ele tirou isso? A biblioteca da Universidade Yan certamente não teria esse tipo de coisa.
Distraído durante a partida, Lin Chaoyang acabou perdendo uma rodada. O velho Zhu ficou tão feliz que quase dançou com a bengala.
“Chaoyang, suas habilidades caíram!”, disse o velho com tom paternal.
“Só deixei você ganhar!”
No jogo, o ânimo conta muito; vendo o velho tão arrogante, Lin Chaoyang não podia deixá-lo se divertir tanto.
“Você até melhorou, conseguiu me vencer por sorte.”
“Sorte?” O velho olhou de lado para Lin Chaoyang, zombando: “Se eu te deixar ganhar duas vezes, vai achar mesmo que é bom?”
Se com uma vitória ele já ficava tão convencido, imagine se ganhasse mais vezes.
Lin Chaoyang decidiu que precisava colocá-lo em seu devido lugar.
Na rodada seguinte, concentrou-se ao máximo, vencendo uma após a outra. Só quando o velho ficou calado é que Lin Chaoyang se deu por satisfeito.
Tranquilo, bebeu um gole de água: “Pense bem, vou encher minha garrafa.”
Quando voltou, o velho continuava ali, franzindo a testa e mostrando os dentes.
“Admita logo a derrota, já disse que não pode me vencer!”
O velho lançou-lhe um olhar feroz, mas, diante dos fatos, jogou as peças no tabuleiro e se rendeu, relutante.
Após vencer, Lin Chaoyang não perdeu a chance de abalar a autoconfiança do velho.
“Não adianta confiar só em aberturas decoradas, o fundamental é o talento próprio.”
“Humph!” O velho bufou, inconformado.
Mas, como quem vence tem razão, ele não quis discutir, apenas pensou consigo mesmo que precisaria estudar mais. O rapaz era mais competente do que imaginara; subestimou o adversário.
Mesmo derrotado, o velho não foi embora. Já era quase hora do jantar, e ele pretendia ficar para comer.
Mal sabia que, com o almoço tão farto, ninguém pensava em preparar jantar. Quando chegou a hora, só os pequenos, com digestão rápida, reclamaram fome, e a mãe se limitou a preparar um pouco de macarrão.
Derrota no jogo e, no jantar, só um pouco de macarrão — ao sair, o velho ainda reclamou: “Nem um pouco de molho?”
“Na sua idade, não deve comer sal demais, faz mal para o coração.”
Dessa vez foi Lin Chaoyang quem o acompanhou à porta. O velho olhou para ele e perguntou: “Sabe qual é o segredo da longevidade?”
“Comer bem, exercitar-se, manter-se alegre”, respondeu Lin Chaoyang.
“Errado! O segredo é não se meter na vida dos outros!”
E, depois disso, saiu marchando com sua bengala.
Ah, esse velho!
Em meados de julho, Tao Yumou terminou o vestibular; as armas e cavalos foram recolhidos, e ela passou a circular com amigos pelos pontos turísticos da capital. Juntando-se a Tao Xiwen, que estava de férias da escola primária, e Tao Xiwu, do jardim de infância, a casa vivia cheia de barulho.
Tao Yushu também estava de férias, mas, ao contrário da irmã, preferia passar o tempo estudando em casa, saindo só de vez em quando para se encontrar com Lin Chaoyang.
Naquele dia, Tao Yumou trouxe duas colegas para casa: Gong Yun e a moça das tranças, amigas que já tinham ido à biblioteca com ela ver Lin Chaoyang.
Assim que entraram, Gong Yun perguntou: “Seu cunhado está em casa?”
“Não, foi trabalhar.”
Desde que a identidade de Lin Chaoyang foi revelada na família, Tao Yumou já havia se gabado inúmeras vezes na escola de que seu cunhado era, na verdade, Xu Lingjun.
Ao saber que ele não estava, as duas ficaram decepcionadas.
Tao Yumou pegou o gravador de sua irmã e as três se trancaram no quarto para ouvir Teresa Teng.
Mas, na verdade, o objetivo do dia não era só ouvir música, e sim copiar fitas.
Afinal, gravador serve tanto para tocar quanto para gravar.
As meninas haviam reunido várias fitas de Teresa Teng e comprado algumas virgens, dando início, quem sabe, à mais antiga atividade pirata do país.
Qualquer site ficaria pequeno perto delas!
Trabalharam por horas até conseguirem gravar uma fita. Tao Yumou exclamou, animada: “Vamos ouvir, vamos ouvir!”
Gong Yun colocou a fita copiada e apertou o play.
“As flores belas não duram para sempre
As paisagens bonitas jamais permanecem...”
A voz suave e melodiosa encheu o quarto, e as meninas vibraram de alegria.
“Yumou, esse gravador é maravilhoso!”, exclamou Gong Yun.
“Claro, custou duzentos!”, respondeu Tao Yumou, orgulhosa.
A moça das tranças comentou, cheia de inveja: “Fui à loja de Xidan e não vi nenhum gravador tão pequeno assim.”
“Nessas lojas comuns não tem essas coisas. Tem que ir à Loja da Amizade”, explicou Gong Yun.
Tao Yumou tentava esconder sua vaidade: “Ah, é só um pouco menor, só isso.”
“Yumou, seu cunhado trata sua irmã muito bem!”
“Claro! Eles estão juntos desde a época em que minha irmã foi trabalhar no campo, são um casal que superou dificuldades.”
Ao falar do romance da irmã, Tao Yumou se enchia de orgulho.
Conversando animadamente, continuaram gravando fitas. Quando terminaram, já tinham quatro, prontas para levar para casa. Estavam prestes a sair quando Lin Chaoyang chegou.
“Cunhado!”
“Yumou, trouxe amigas?”
“Sim.”
Lin Chaoyang percebeu que estavam de saída e sugeriu: “Já está quase na hora do jantar, fiquem para comer.”
As meninas nem tinham pensado nisso, mas, com o convite, Tao Yumou apoiou: “É, fiquem para jantar!”
Gong Yun e a amiga, meio envergonhadas, aceitaram.
Durante a refeição, Gong Yun não parou de encarar Lin Chaoyang, sendo repreendida várias vezes por Tao Yumou, mas sem mudar de atitude.
Lin Chaoyang não deu muita importância, achando que a garota era apenas uma jovem romântica.
Ao final, Gong Yun perguntou: “Cunhado, você acha mesmo que a literatura de cicatrizes vai desaparecer?”