Capítulo 19: Melhor que "Cicatrizes"
O chamado de Zhang Dening fez surgir de entre a pilha de manuscritos uma mulher de cerca de cinquenta anos, de postura elegante. Chen Jiangong cumprimentou-a e apresentou Lin Chaoyang mais uma vez.
“A professora Zhou é chefe do grupo de romances e membro do conselho editorial da Revista de Arte e Literatura de Yanjing”, disse ele a Lin Chaoyang.
Zhou Yanru acenou com a mão, indicando que não era necessário mencionar esse detalhe. Chen Jiangong começou então a falar sobre o manuscrito de Lin Chaoyang, elogiando-o antes de dizer: “É um texto raro e excelente, por isso trouxe-o imediatamente até aqui”.
As palavras de Chen Jiangong despertaram o interesse de Zhou Yanru, mas havia regras no departamento editorial: Chen Jiangong era responsável pelos autores sob a tutela de Zhang Dening, logo, os autores que ele apresentava também passavam a ser responsabilidade dela. A primeira avaliação do manuscrito também teria de passar pelas mãos de Zhang Dening.
Na percepção dos chineses modernos, o cargo de bibliotecário da Universidade de Yanjing tinha um significado especial. Antes de ler o texto, Zhang Dening lançou um olhar sutil sobre Lin Chaoyang, o autor.
Lin Chaoyang não era alguém que conquistava pelo visual, mas exalava uma autoconfiança natural.
Depois de observar o autor, Zhang Dening voltou sua atenção ao manuscrito e logo se deixou absorver pelas palavras na página, mergulhando completamente na leitura.
Quando ergueu novamente a cabeça, já era quase meio-dia.
A luz do sol atravessava o vidro da janela do escritório, iluminando o cômodo por completo. Zhang Dening olhou para Lin Chaoyang e, aos poucos, sua imagem foi se fundindo, em sua mente, à figura altiva, elegante e carismática de Xu Lingjun, protagonista do romance, irradiando um brilho deslumbrante.
“Dening, o que achou do texto?” perguntou Chen Jiangong.
Zhang Dening pareceu dispersa por um instante, mas logo retomou o foco, segurando o manuscrito nas mãos. “Está realmente muito bem escrito, digno da Universidade de Yanjing!”
“Está sendo generosa”, respondeu Lin Chaoyang, modesto.
O elogio de Zhang Dening trouxe a Chen Jiangong uma alegria de quem encontra afinidade. “Eu não disse? O texto de Chaoyang tem qualidade.”
“Na minha opinião, este romance está melhor escrito do que ‘Cicatriz’, publicado no Jornal Wen Hui. No entanto...”, Zhang Dening não poupou elogios ao manuscrito, mas ao final, sua voz soou hesitante.
No verão recém-passado, o Jornal Wen Hui, de Xangai, publicara em 11 de agosto o conto ‘Cicatriz’, de Lu Xinhua.
Após a publicação, uma onda de entusiasmo varreu os leitores de Xangai. O jornal teve de imprimir 1,8 milhão de exemplares daquela edição, mesmo assim, não conseguiu suprir a demanda dos leitores.
O impacto de ‘Cicatriz’ rapidamente se espalhou pelo país, impulsionado por discussões tanto entre leitores quanto nos círculos literário e cultural. Em menos de um mês, o conto ganhou notoriedade nacional.
No entanto, o sucesso de ‘Cicatriz’ não foi isento de controvérsias. O efeito de silêncio provocado pelos anos de repressão ainda persistia, e discussões sobre ‘Cicatriz’ proliferavam nos jornais de todo o país.
Na China dessas décadas, era impossível dissociar o debate de uma obra literária da política.
O momento era crucial para a abertura e as reformas em curso. Do ano anterior até o primeiro semestre daquele ano, as fissuras dentro do sistema institucional se aprofundavam, e a sociedade como um todo fermentava uma poderosa energia emocional, composta tanto de insatisfações com o passado quanto de impulsos por mudanças futuras.
Presságio de tempestade!
Nesse ambiente social, o surgimento de ‘Cicatriz’ ecoou o descontentamento popular, mas também enfrentou repressão dos setores conservadores.
O fervor do debate literário sobre ‘Cicatriz’ não se limitava a elogios; havia também críticas contundentes.
O artigo ‘O Cavaleiro dos Campos’, com temática semelhante à de ‘Cicatriz’, ao ganhar repercussão, provavelmente enfrentaria situação semelhante.
Além disso, do ponto de vista ideológico e artístico, ‘Cicatriz’ deixava muito a desejar. Muitos no meio literário não compreendiam como um trabalho estudantil de qualidade questionável pôde gerar tamanho impacto, o que explicava a ousadia de Zhang Dening em afirmar que ‘O Cavaleiro dos Campos’ era superior.
Caso ‘O Cavaleiro dos Campos’ fosse publicado com sucesso, poderia até mesmo reacender o debate impulsionado por ‘Cicatriz’.
Diante desses prós e contras, Zhang Dening, sendo uma jovem editora da Revista de Arte e Literatura de Yanjing, ainda que reconhecesse a qualidade do texto, não podia garantir sua publicação.
Afinal, nesses anos, a publicação de uma obra dependia de muito mais do que de sua qualidade.
Chen Jiangong, percebendo a hesitação de Zhang Dening, voltou o olhar para Zhou Yanru e trocou um olhar cúmplice com ela.
“Zhou”, chamou Zhang Dening, entregando o manuscrito de ‘O Cavaleiro dos Campos’ para Zhou Yanru.
Adicionar o prefixo “Velho” a um sobrenome era um costume antigo do Partido desde os tempos de Yan’an. Todos no departamento editorial assim chamavam Zhou Yanru, mas esse costume já não se aplicaria nos tempos futuros.
“Dê uma olhada nesse manuscrito. O autor está aqui, depois te passo minhas observações.”
Zhou Yanru entendeu de imediato: para Zhang Dening entregar um texto diante do próprio autor, ou o manuscrito era extraordinário a ponto de ser irrecusável, ou era ruim, mas havia uma obrigação de aceitá-lo por algum laço de amizade.
Embora Chen Jiangong fosse um autor veterano da revista, sua influência não seria suficiente para forçar a aceitação de um texto ruim.
Com essa hipótese em mente, Zhou Yanru recebeu o manuscrito e começou a ler.
“Ele era um filho abandonado por um homem rico — Victor Hugo, ‘Os Miseráveis’.”
A epígrafe do romance capturou imediatamente a atenção de Zhou Yanru, despertando nela o interesse de continuar a leitura.
Bons romances cativam o leitor já nas primeiras linhas, e ‘O Cavaleiro dos Campos’ não era exceção.
O protagonista, Xu Lingjun, nasceu em família abastada, mas não se beneficiou disso: perdeu a mãe ainda criança, foi abandonado pelo pai, um rico comerciante, e, durante os anos de repressão, sofreu por conta de sua origem social.
Depois de muitos infortúnios, já na faixa dos trinta anos, ele finalmente se casou e teve uma filha, encontrando uma vida estável e feliz. Contudo, o pai que o abandonara reaparece em busca de reconciliação.
Após intensa luta interna, Xu Lingjun decide abrir mão da chance de viver nos Estados Unidos e de herdar uma fortuna, optando por permanecer em seu país.
No desfecho, Xu Lingjun retorna para casa e vê, à sua espera na porta, Xiu Zhi.
Ela vestia um avental branco e, sob a luz suave do crepúsculo, parecia um ponto de luz pura.
Ele também viu uma pequena chama: a filha Qingqing, de vestido vermelho, correndo em sua direção.
Ele voltara para o seu lar.
Zhou Yanru se deixou envolver pela narrativa tecida por Lin Chaoyang, seu ânimo oscilando ao sabor das emoções.
“Xiao Lin!” Zhou Yanru fez uma pausa. “Posso chamá-lo assim?”
Lin Chaoyang sorriu: “Claro, sem problemas”.
“Este ‘O Cavaleiro dos Campos’ está muito bem escrito. Tem estilo, reflexão, enredo; forma e conteúdo se harmonizam em alto grau.”
Ao ouvir isso, Lin Chaoyang manteve a calma, enquanto Chen Jiangong não escondia a alegria pelo reconhecimento do amigo.
Zhou Yanru observou a expressão de Lin Chaoyang e, ao notar sua serenidade diante dos elogios, elevou ainda mais sua opinião sobre o jovem autor.
“Contudo, toda obra tem virtudes e falhas. Por exemplo, há excesso de descrições psicológicas. O leitor não tem acesso direto ao íntimo do personagem; isso é uma construção do autor.
Esse tipo de escrita, carregada de subjetividade, pode desviar a atenção do leitor para o enredo.
Outro ponto é a resolução da relação entre Xu Lingjun e o pai. Entendi que, no final, eles se reconciliam, mas eu não recomendaria esse caminho.
No fundo, o pai abandonou Xu Lingjun, e, por herdar desse pai, Xu viveu uma juventude cheia de sofrimento. Embora, na maturidade, ele tenha alcançado compreensão e aceitação, ainda assim deveria manter sua integridade.
Ele pode superar o ressentimento, até reconciliar-se com seu passado e consigo mesmo, mas não deveria perdoar o pai tão facilmente. Isso tornaria o personagem superficial demais...”
Após quase vinte anos como editora, Zhou Yanru desenvolveu um olhar aguçado. Lin Chaoyang percebeu que a maioria das observações era pertinente.
Em alguns pontos, Lin Chaoyang tinha opiniões diferentes; discutiram, e Zhou Yanru acabou por concordar com certos argumentos dele.
Assim se passou mais de meia hora até que a conversa cessasse.
“No geral, é um romance notável. Se for publicado, certamente causará sensação!”
Zhou Yanru concluiu assim sua avaliação final de ‘O Cavaleiro dos Campos’.