Capítulo 3 Aurora, venha comigo para Yanjing.

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 3258 palavras 2026-01-30 14:21:22

O retorno de Taoyu Shu trouxe alegria e risos à família Lin, que ultimamente vivia sob uma nuvem de preocupações. Segundo a tradição, Lin Erchun e sua esposa cuidavam do jantar, deixando o espaço livre para o jovem casal que acabara de se reencontrar.

Os curiosos, sempre prontos para um espetáculo, já tinham sido enxotados pelo casal Lin Erchun, cuja postura era suficientemente firme para não admitir espectadores.

Lin Chaoyang já havia se preparado para a eventual partida definitiva de Taoyu Shu, jamais imaginando que ela voltaria.

“Agora que voltou, quando vai embora?” perguntou ele.

“As aulas começam dia 1º, pretendo voltar uma semana antes.”

Já era meados de agosto, então ela só ficaria uma semana. Lin Chaoyang pensou que, ao que tudo indicava, ela mal podia esperar para voltar à cidade. Provavelmente só queria dar uma satisfação para ele, evitando que ele fizesse algum escândalo em Pequim.

Enquanto refletia, Lin Chaoyang concluiu que o casamento precipitado de Taoyu Shu fora um impulso do momento. Após meio ano, ela já devia ter reconsiderado, talvez sentisse dificuldade em abordar o assunto.

“Se tiver tempo... vamos ao departamento comunal e tratamos do divórcio.”

Ao dizer isso, Lin Chaoyang sentiu um aperto no peito. Que perda! Mas pensava que era melhor não se atrasarem mutuamente. Taoyu Shu tinha seu futuro, e ele também vislumbrava grandes possibilidades.

Diante de suas palavras, o sorriso no rosto de Taoyu Shu congelou, e um leve pânico brilhou em seu olhar.

“Você quer se divorciar? Por quê?”

A pergunta dela fez Lin Chaoyang sentir-se entre o riso e a raiva. Então, ela vive livremente em Pequim e ele deveria ficar sozinho, esperando indefinidamente?

Antes que pudesse responder, Taoyu Shu o interpelou: “Você andou me traindo?”

O termo usado por ela significava procurar um novo casamento.

Lin Chaoyang ficou sem palavras; de onde ela tirou isso?

“Não fale bobagem. Sou uma pessoa íntegra, de conduta ilibada.”

Taoyu Shu pareceu aliviada. “Então por que quer se divorciar?”

Lin Chaoyang a olhou fixamente, sério, sem dizer nada.

Os olhos de Taoyu Shu dançavam, analisando a situação. Afinal, eram casados no papel, e apesar de não terem consumado o matrimônio, ela se achava conhecedora de Lin Chaoyang.

Observando atentamente sua expressão, percebeu-lhe o olhar esquivo, o desdém no canto dos lábios. Taoyu Shu compreendeu.

Ele estava magoado.

“É porque não te escrevi?”

A pergunta dela foi como um tiro de surpresa, pegando Lin Chaoyang desprevenido. Nos olhos dele, reluziu um instante de confusão.

“Não, não diga isso.”

Quanto mais ele tentava negar, mais Taoyu Shu tinha certeza. Vendo sua reação um tanto forçada, ela sorriu de leve.

Puxou a mão dele e disse, suavemente: “Desculpe. Houve motivos especiais. Na verdade, eu escrevi cartas para você.”

Lin Chaoyang, sentindo o toque delicado, respondeu com desconfiança: “Sério?”

“Claro.”

“E onde estão as cartas?”

Taoyu Shu hesitou, antes de responder: “Promete que não vai ficar bravo?”

“Não há motivo para raiva. Mesmo se não tivesse escrito, eu não ficaria zangado”, declarou ele, fingindo generosidade.

O jeito de Lin Chaoyang fez Taoyu Shu sorrir por dentro. Com paciência, explicou: “Minha mãe escondeu todas as cartas.”

“Sua mãe escondeu?” Lin Chaoyang ficou surpreso. Jamais imaginara que meio ano sem notícias de Taoyu Shu tinha essa explicação.

“Por que ela fez isso?” Ao perguntar, Lin Chaoyang se arrependeu. Era uma questão óbvia. Por que mais seria? Certamente, não aprovava um genro do campo.

O olhar de Taoyu Shu dizia tudo. Lin Chaoyang não estava enganado.

“A culpa é toda minha. Antes do vestibular, eu estava indecisa e nunca escrevi sobre isso para casa. Depois, quando fomos registrar o casamento, tudo foi apressado. Só quando retornei a Pequim é que contei a verdade…”

“Será que eles acham que eu te obriguei?” indagou Lin Chaoyang.

Taoyu Shu apenas ficou calada, o que era resposta suficiente. Lin Chaoyang sentiu-se mais injustiçado que qualquer mártir: “Vamos ser justos, foi você quem insistiu para casarmos…”

Antes que terminasse, Taoyu Shu lhe lançou um olhar impaciente: “Casar comigo foi um prejuízo para você?”

“De certa forma, gasto não faltou”, retrucou Lin Chaoyang, zombeteiro.

Enfurecida, Taoyu Shu deu um leve chute em sua perna. Ele exclamou de dor, abraçando a perna e se encostando à parede, com expressão sofredora.

Ela se assustou, achando que tinha exagerado, e se abaixou para ver, mas foi surpreendida ao ser abraçada pela cintura.

“Me diga, como vai me compensar?” Lin Chaoyang, como um bandido, sussurrou de forma atrevida ao ouvido dela.

O rubor subiu-lhe ao rosto, e ela se debateu, sussurrando: “Solte-me, papai e mamãe ainda estão lá fora.”

“Não se preocupe, eles…”

Lin Chaoyang estava prestes a elogiar os sogros pela discrição quando a porta se abriu.

Um balde de constrangimento caiu sobre eles, e Lin Erchun, tapando os olhos, exclamou: “Então, está quase na hora do jantar!” E fechou a porta rapidamente.

Taoyu Shu, envergonhada, soltou a mão de Lin Chaoyang: “A culpa é toda sua!”

Ele não se importou: “Somos um casal legítimo, qual o problema?”

O jantar na família Lin foi farto naquela noite: dois pratos de carne, dois de vegetais. Para preparar tudo em tão pouco tempo, Zhang Guiqin realmente se esmerou.

“Taoyu, coma mais. Veja como está magra”, dizia a sogra, servindo-lhe comida sem parar, talvez tentando compensar as más palavras que dissera pelas costas.

“Mamãe, a senhora também coma. Para ser sincera, nesses meses em Pequim, o que mais senti falta foi da sua comida.”

Com uma frase, Taoyu Shu conquistou o coração da sogra, que passou a servir-lhe ainda mais.

Lin Chaoyang, observando, sentiu-se ligeiramente incomodado. Ela o tratava com a mesma gentileza que aos outros.

“Chaoyang, coma também”, disse Taoyu Shu, colocando uma coxa de frango em seu prato.

O rosto de Lin Chaoyang se iluminou de alegria.

A família saboreava o jantar harmoniosamente quando, de repente, uma voz soou do pátio: era o Segundo Desmazelado.

“Ei! Quando Taoyu Shu voltou?” Sua atuação era pouco convincente.

Taoyu Shu respondeu: “Não precisa fingir. Te vi na cooperativa, todo sorrateiro.”

O rapaz coçou a cabeça, encabulado. Achava que estava bem escondido, mas fora descoberto.

“Bem, só vim avisar Chaoyang: o projecionista chegou, é bom ir garantir lugar.”

Apesar das palavras, o olhar dele estava fixo nos pratos da mesa.

Em outras ocasiões, Lin Chaoyang o teria convidado para jantar, mas hoje não era apropriado.

“Está bem, entendido.”

Sem convite, o rapaz saiu desapontado, relutante em se afastar.

Após sua saída, outros aldeões, ao saberem do retorno de Taoyu Shu, vieram à casa de Lin Chaoyang. Em pouco tempo, a casa virou um verdadeiro ponto turístico, cheia de gente entrando e saindo.

Durante o semestre em Pequim, circularam muitos boatos na aldeia sobre Taoyu Shu. Agora, com seu retorno, todos queriam vê-la, até deixando de lado o filme na praça.

Lin Erchun, já irritado com a movimentação, expulsou todos como se fossem patos: “Vão ver o filme, deixem de bisbilhotar!”

Taoyu Shu, durante o bombardeio de perguntas, manteve-se sempre sorridente e paciente.

Quando finalmente a casa ficou vazia, ela sugeriu a Lin Chaoyang, animada: “Vamos assistir ao filme também?”

Se em casa ela já atraía a curiosidade de todos, no cinema ao ar livre seria como a chegada de uma estrela.

“Não tem medo de ser o centro das atenções?” perguntou Lin Chaoyang.

“Medo de quê? Somos um casal legítimo. Ou está com medo?”

Diante da provocação da jovem esposa, Lin Chaoyang levantou-se decidido: “Vamos!”

Lin Erchun observou o casal saindo, sorrindo satisfeito. Taoyu Shu tinha uma inteligência afiada. Sabia que, durante o semestre na universidade, os boatos foram muitos. Ao chamar os sogros de “pai e mãe” e ir ao cinema com o marido, ela calava as más línguas.

Cada vez mais, ele se sentia satisfeito com a nora.

Quando chegaram ao campo, eram apenas cinco horas e ainda claro, mas o pátio já estava cheio. O pano de projeção erguido, os aldeões sentados em banquinhos, conversando, enquanto as crianças corriam e brincavam. A escola, silenciosa todo o verão, estava naquela noite tomada de vida.

A chegada de Lin Chaoyang e Taoyu Shu provocou um novo alvoroço. Os aldeões se aproximaram, ainda mais calorosos que em casa, até que o projecionista, satisfeito após comer e beber, chegou.

Durante o semestre, Lin Erchun e sua esposa sentiram o peso dos boatos. Mas, ao ver Taoyu Shu no campo, finalmente puderam andar de cabeça erguida.

Com a chegada da noite, a luz do projetor transformou a tela branca em imagens.

O filme era “Lênin em 1918”, que todos já tinham visto, mas, ainda assim, nunca se cansavam.

O campo, antes ruidoso, agora silenciava, e todos mergulhavam no mundo de luz e sombras.

Quando Vasili, na tela, disse à esposa faminta: “Teremos pão, teremos leite, teremos tudo”, Taoyu Shu sussurrou ao ouvido de Lin Chaoyang:

“Chaoyang, venha comigo para Pequim!”