Capítulo 6: Este homem tem algo especial
Já era o final de agosto, faltava apenas uma semana para o início das aulas de Tâmara, e eles ainda precisavam retornar à Capital para tratar da transferência do registro familiar e acertar o emprego de Aurélio, o tempo era apertado.
Depois de definirem o dia de viagem, na véspera, Aurélio foi feito em pedaços por todas as tarefas que Guiomar lhe dava.
“Aurélio, traz aquele saco de cogumelos para mim.”
“Aurélio, onde está aquela garrafa de licor medicinal que teu pai trouxe?”
Enquanto Aurélio corria de um lado para o outro, achou tempo para espiar Tâmara, que estava sentada sobre o fogão de alvenaria, diante de uma mesa de refeições cheia de livros, mergulhada na leitura. Ele tinha quase certeza de que ela fingia estudar só para escapar do trabalho.
“O que tá olhando? Não ouviu eu te chamar?” Aurélio levou um leve tapa na cabeça, e Guiomar resmungou impaciente: “Trabalhar não é pra ficar aí parado. Se você fosse capaz de passar no vestibular, também poderia sentar aí lendo.”
Aurélio ficou sem palavras. Ali em casa, o preconceito contra quem não tinha diploma era escancarado. Nos últimos dias, desde que Tâmara voltara, ele não tinha mais nenhum direito. Só conseguia recuperar um pouco da autoestima à noite, quando as luzes se apagavam e eles dividiam o fogão de alvenaria; o resto do tempo, era só trabalho pesado.
Não era fácil depender da mulher, pensou Aurélio com um suspiro, já prevendo a dureza da vida que teria pela frente.
Quando finalmente terminaram de arrumar as malas, Segundo chamou Aurélio para fora. O cachimbo fumegava na penumbra. “Diz logo o que tem pra falar, tá cheio de mosquito aqui fora”, disse Aurélio.
“Impaciente”, reclamou Segundo, antes de começar a aconselhar: “Filho, lá na Capital não é como aqui. Tâmara realmente gosta de ti, não a decepciona.”
Aurélio assentiu. “Eu sei.”
“Você já está casado, não vou ficar repetindo lição de moral. Só te digo uma coisa.”
Aurélio olhou o pai com atenção.
“Sobre filhos, trate de providenciar logo!”
Aurélio olhou o velho, surpreso.
“Não me olha assim, é pro teu bem”, disse Segundo, em tom sério. “Você foi mimado por mim e pela tua mãe, nunca sofreu de verdade, nem tem muito traquejo para o trabalho.”
Aurélio se irritou. “Como assim? Eu não ajudei em casa?”
“O vidro de shoyu cai e tu nem se mexe pra levantar”, retrucou Segundo, revelando velhas mágoas.
“Com minha mãe em casa, mas na escola e na roça sempre trabalhei!”
“Mas agora é diferente. Antes, tu era o único herdeiro da família, não precisava se preocupar. Agora vai ser genro agregado, é bom ter consciência disso.”
Para alguém com pouca instrução, Segundo encontrava até o termo “genro agregado” para mostrar o quanto se preocupava com o futuro do filho.
Aurélio quase teve uma úlcera ao ouvir aquilo, pois as palavras mais duras geralmente vinham de quem estava por perto.
“Fica tranquilo, isso é só uma fase. Logo, logo, vou estar com a vida feita na Capital e trago vocês dois pra morar bem”, garantiu Aurélio.
Mas o discurso confiante só fez Segundo ficar ainda mais preocupado.
“Não queira dar passo maior que a perna. Tua meta é fazer com que Tâmara engravide antes do fim do ano. Com um filho, o casamento de vocês se firma.”
Segundo era mestre em planejar. Para o filho, já estipulava até metas de desempenho.
Ter um filho, afinal, muitas vezes era o jeito da parte mais fraca do casamento garantir laços com a mais forte.
E, aos olhos de Segundo, Aurélio era claramente o lado mais frágil.
Aurélio olhou pelo vão da porta para o velho que o subestimava e teve vontade de dizer: “Trinta anos pode ser do lado de cá do rio, trinta anos do outro, não subestime quem é jovem e pobre.”
Mas, pensando bem, deixou pra lá. O velho nem sabia que ele era um reencarnado, não havia motivo para culpá-lo.
Na manhã seguinte, Segundo conduziu a carroça para levar Aurélio e Tâmara até a estação.
Tonico, amigo de infância de Aurélio, fez questão de ir junto. Agora que Aurélio estava “alçando voo”, Tonico sentia um certo desgosto, e perguntou baixinho: “Tua esposa não tem mais irmãs, primas, nada assim?”
Aurélio analisou o amigo: barba por fazer, marcas de suor no pescoço, sinal de que demorava pra se lavar.
“Primeiro cuida do teu visual. Desse jeito, que mulher vai querer?”
Tonico, ofendido, retrucou: “Como assim? Você arrumou esposa, por que eu não posso? E olha que você ainda vive às custas dela!”
Antes que terminasse a frase, levou um chute de Aurélio.
Mesmo assim, Tonico não se irritou. “Só porque você vai embora, deixo passar dessa vez.”
E riu: “Aurélio, quando você estiver bem de vida na Capital, eu vou te procurar lá.”
“Vai sonhando”, respondeu Aurélio. “Cuida de ficar apresentável primeiro.”
Ao chegarem na estação, na hora da despedida, Segundo e Guiomar estavam com os olhos marejados.
Criaram o filho até virar homem, e agora, casado, ele ia pra Capital. Como não se preocupar?
“Pai, mãe, fiquem tranquilos. Eu vou cuidar bem do Aurélio”, garantiu Tâmara.
Quanto mais Aurélio ouvia, mais incomodado ficava. “Vamos logo pro trem”, apressou.
Assim que embarcaram, o apito soou, o trem partiu lentamente, e os pais de Aurélio logo desapareceram de vista.
Tâmara perguntou: “Você não está nem um pouco triste?”
“Estamos só indo pra Capital, não precisa fazer drama”, respondeu Aurélio, despreocupado.
Tâmara, até então, tinha medo de que o marido, criado na roça, fosse ficar deprimido longe de casa, mas agora via que ele era até despreocupado demais.
Menos de cinco minutos depois, Aurélio já começava a espalhar sobre a mesa toda a comida que haviam trazido.
Ovos cozidos, batata-doce assada, tofu seco, cebolinha, molho de soja caseiro, carne de porco… Era tradição viajar bem alimentado, e Guiomar, com medo que os dois passassem fome, preparara uma bolsa inteira de comida.
Além disso, Guiomar ainda dera quinhentos cruzeiros a Tâmara, quase o salário anual de um trabalhador urbano com registro completo, sem gastar nada.
Para Segundo e Guiomar, que viviam no interior, juntar esse dinheiro foi um sacrifício, quase tudo que tinham.
Tâmara, ao fechar a mão sobre as notas, compreendia bem a preocupação deles.
Ela olhou para Aurélio, que devorava a comida calado, e sem saber por quê, sentiu vontade de rir.
“O que foi?”, perguntou Aurélio, com a boca cheia.
Ele estava comendo tofu seco enrolado em cebolinha, mergulhado no molho de soja caseiro de Guiomar, com aroma intenso de soja e leve amargor.
Tâmara tirou um lenço e limpou a boca dele. “Você não pode comer devagar? Parece que reencarnou de um faminto!”
“Passei a manhã arrumando as malas, não comi direito!”
“Tá bom, já entendi.”
Tâmara começou a descascar um ovo para ele, e Aurélio aceitou sem cerimônia.
Na poltrona em frente, havia um rapaz com armação de óculos vermelha, lentes de cristal em tom chá-claro, folheando uma revista cuja capa dizia “Arte e Literatura da Capital”.
O rapaz, antes concentrado, ficou incomodado com o clima amoroso do casal. Olhava de vez em quando para Tâmara, depois para Aurélio.
Aurélio entendeu bem aquele olhar:
Esse homem, realmente merece respeito.