Capítulo 36: Uma única flor não faz a primavera
Após a emoção, Tao Yushu foi buscar sua bolsa de lona usada para ir à escola.
— Eu queria esperar até o Ano Novo para te dar isso — disse ela, enquanto tirava de dentro da bolsa um estojo azul. Na frente, o logotipo era formado pelas letras “Hushang”, e abaixo estava o nome em pinyin.
— Um relógio? — perguntou Lin Chaoyang.
— Sim — respondeu Tao Yushu, abrindo o estojo e revelando o reluzente relógio prateado. Era um modelo 7120 da marca Hushang, com pulseira de aço e vidro orgânico no mostrador. Naquela época, usar esse relógio era, sem dúvida, um símbolo de status.
— Experimente — disse Tao Yushu, colocando o relógio no pulso de Lin Chaoyang, admirando-o com alegria. — Ficou perfeito!
— Quanto custou? — perguntou ele.
— Com a pulseira, foi cento e sessenta.
Cento e sessenta yuan, quase o equivalente a quatro meses de salário de Lin Chaoyang.
— É muito caro! — exclamou, sentindo o peso da despesa. Ele havia economizado por três meses e ainda não tinha o suficiente para comprar um relógio.
Maldita vida!
Tao Yushu ergueu o braço dele para olhar novamente, não se preocupando muito. — Eu queria esperar o Ano Novo para te dar. Mas, trabalhando fora, ter um relógio facilita ver as horas.
Naqueles tempos, um relógio não era apenas uma praticidade, era também uma elevação invisível do status de um trabalhador. Comparando com os dias futuros, era como ter um iPhone antes de 2013.
O casal trocou presentes, envoltos em carinho, inseparáveis. Se não fosse pela cama velha da casa, Lin Chaoyang já teria avançado para algo mais íntimo.
Ao mesmo tempo, sentia uma leve culpa por causa do seu fundo secreto.
— Ei, quanto temos de economias agora? — perguntou Lin Chaoyang.
— Contando o que minha mãe deu, temos seiscentos e oitenta e cinco — respondeu Tao Yushu.
— Ainda tudo isso? — Lin Chaoyang se surpreendeu, afinal ela gastara cento e sessenta no relógio para ele.
— Seu salário, meu auxílio e meu pai deu vinte yuan mês passado.
Lin Chaoyang olhou para a esposa, um tanto sem palavras; ela só falava da sogra favorecendo o cunhado, mas não mencionava o sogro ajudando ela!
Vendo assim, a irmã caçula, barulhenta em casa, parecia não ter a afeição dos pais.
Pensando nisso, Lin Chaoyang sentiu pena da cunhada.
Quando percebeu que suas economias somadas chegavam quase a setecentos yuan, sua culpa desapareceu; ao menos ele tinha uma parte nisso.
No final de dezembro, o fim de semana coincidiu com o último dia do mês, e com o feriado do Ano Novo, havia dois dias de descanso.
Com a mobilização da mãe de Tao, a família fez uma grande faxina, preparando-se para o Ano Novo de 1979, faltando menos de um mês. Assim, teriam menos trabalho quando chegasse a festa.
Após o feriado, o campus da Universidade de Yan ganhou um ar mais melancólico.
Os cursos e departamentos preparavam as provas finais, e a presença de estudantes ativos no campus era bem menor que o habitual.
Nessa época, as salas de estudo da biblioteca atingiam lotação máxima, mas o trabalho no setor de empréstimo ficava mais leve, pois todos se concentravam nos estudos para as provas, sem tempo para pegar livros.
Nesse dia, Lin Chaoyang finalmente recebeu o recibo de pagamento de “Literatura de Hushang”.
Dessa vez, o conto enviado era ainda maior que “O Cavaleiro”, com vinte e oito mil palavras.
O pagamento era de seis yuan por mil palavras, mais generoso que “Literatura de Yanjing”, rendendo um total de 168 yuan, mais que os honorários de dois textos publicados na revista anterior.
Quanto mais palavras, mais lucrativo!
O único pesar era que, para “Literatura de Hushang”, usara um novo pseudônimo, seguindo a lógica anterior, usando o nome do protagonista do romance.
Como dizem, o coelho astuto tem três tocas; qual escritor não tem alguns pseudônimos?
Se usasse o nome “Xu Lingjun”, talvez o pagamento por mil palavras aumentasse ainda mais.
Não se pode ser ganancioso, advertiu-se Lin Chaoyang.
Na tarde tranquila de trabalho, Lin Chaoyang estava com um exemplar de “Estrada de Ouro”, de Hao Ran.
Antigamente, quando era um jovem intelectual, lia muitos clássicos estrangeiros para mostrar cultura, mas desprezava as obras de muitos autores nacionais.
Agora, mais maduro e com tempo, queria recuperar o atraso e conhecer melhor essas obras.
Hao Ran seguia o princípio de criação “três destaques”: entre os personagens, destacava os positivos; entre os positivos, destacava os heróis; e entre os heróis, destacava o principal.
Nos anos cinquenta e sessenta, “Sol Radiante” e “Estrada de Ouro” marcaram seu auge. Mas, após a abertura econômica, esse estilo rapidamente tornou-se obsoleto.
Não era apenas uma questão de evolução estilística, mas também de fatores políticos.
Deixando de lado a política, Lin Chaoyang sempre achou que obras como “Estrada de Ouro” merecem reconhecimento e devem ser preservadas.
Alguns dizem que a literatura não deve ser apenas elogio, mas também não precisa focar apenas nos aspectos sombrios da vida.
Uma flor sozinha não faz primavera; com todas as flores, o jardim floresce.
— Chaoyang!
Enquanto lia, um conhecido apareceu no setor de empréstimo restrito.
Desde que Liu Zhenyun soube que Lin Chaoyang era um ano mais novo, a notícia espalhou-se rápido, e os colegas do curso de Letras de 1977 pararam de chamá-lo de “irmão”, pois o mais jovem da turma era da mesma idade.
O mais velho do grupo, Ye Junyuan, já tinha trinta e dois anos, sendo chamado carinhosamente de “Velho Ye”.
Lin Chaoyang sentiu o aroma de creme de neve no ar, vindo de Zhang Yaohong, algo que nunca havia sentido antes.
Ele olhou com atenção para Zhang Yaohong, suspeitando que o rapaz estivesse apaixonado.
— Por que está me olhando assim? — Zhang Yaohong sentiu-se desconfortável sob o olhar.
— Nada. O que te trouxe aqui?
Zhang Yaohong puxou um colega que estava atrás de si. — Viemos te procurar, queremos pedir conselhos sobre criação literária.
Lin Chaoyang olhou ao lado, viu Hu Wenqiong concentrado na leitura, e percebeu que não ouvira a conversa.
Fez um sinal para Zhang Yaohong não falar demais, cumprimentou Hu Wenqiong, e foi com os dois para um canto do saguão ensolarado.
O colega que veio com Zhang Yaohong era Liang Zuo, rosto redondo, olhos pequenos, óculos de aro dourado, aparência gentil e festiva. Mesmo sem apresentação, Lin Chaoyang o conhecia.
Liang Zuo só soube de Lin Chaoyang quando foi ao cinema no Pequeno Oeste; ontem, por acaso, Zhang Yaohong revelou que Lin Chaoyang era o autor do famoso “O Cavaleiro”.
Surpreso, sua primeira ideia foi arrastar Zhang Yaohong para pedir conselhos ao autor.