Capítulo 2: Volte para casa e veja sua mãe

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 5360 palavras 2026-01-30 14:21:21

— Homem, aquela garota não vai mesmo voltar. E agora, o que vamos fazer?
Zhang Guichin voltou da rua com o coração apertado. Sentou-se na cama quente e ficou pensando por um bom tempo, quanto mais pensava, mais se irritava.

Sua voz, áspera e cortante, deixava claro, mesmo sem vê-la, que era uma mulher de temperamento forte e desbocado. Mas desta vez, suas palavras vinham carregadas não só de raiva, mas de um ressentimento impotente.

— Ah! — do outro cômodo veio um longo suspiro, audível e quase estridente, apesar de ser apenas um sopro.

— O que podemos fazer? — Lin Erchun, sentado na cadeira, respondeu com a voz dura. Também estava irritado, embora não se soubesse se com a mulher à sua frente ou com a garota de quem ela falava.

O silêncio tomou conta da casa, envolta em fumaça. O tabaco do cachimbo já não durava mais que poucas tragadas.

— Como diziam nos romances: ‘Homem de estudos, coração traiçoeiro’. Se não fosse por você, que tanto quis um partido de cidade grande pro nosso filho, nada disso teria acontecido — Guichin não conteve o lamento.

— Sim, a culpa é toda minha, toda minha! — Lin Erchun respondeu, entre o autocomiseração e o sarcasmo — Mas quando ela te chamava de ‘mãe’, você não reclamava, não é?

Guichin, sem resposta, virou-se e continuou a resmungar.

— Desenhar dragão, desenhar tigre, difícil é desenhar ossos; conhecer o rosto, mas não o coração. Antes, parecia uma moça tão direita. Como é que, depois de passar no vestibular, virou isso? Não acredito que largando o nosso Chaoyang ela vá se dar bem! Se me irritar muito, vou até a escola dela fazer escândalo. Se não fosse por nosso Chaoyang, ela nem teria entrado na faculdade, teria morrido!

Vendo que a mulher extrapolava, o homem gritou:

— Basta!

Bateu com força o cachimbo na mesa.

— Chega de besteira! Já não basta o tormento que temos em casa?

Naquela casa, a palavra de Lin Erchun era lei. Quando se enfurecia, a mulher calava. Mas os resmungos continuaram, agora em tom baixo e desagradável.

O murmúrio da esposa o incomodava tanto que ele prendeu o cachimbo na cintura e saiu para o pátio.

No quintal, tomado de inquietação, pegou uma enxada para arrancar as ervas daninhas da pequena horta.

Assim que saiu, o volume dos xingamentos dentro da casa aumentou.

— Erchun, o que está fazendo? — perguntou um vizinho, passando pela cerca.

Temendo que ouvissem a esposa resmungando, Erchun respondeu em alto e bom som:

— Nada, só limpando a horta pra passar o tempo. E você?

— Vou ao armazém buscar um pouco de molho de soja!

Vendo o vizinho partir, Lin Erchun continuou a capinar, distraído, mas ninguém sabia o quanto se angustiava por dentro.

Sob a sombra das acácias, as mulheres do vilarejo continuavam a conversar. O assunto, rodando e voltando, era sempre Lin Chaoyang e sua namorada de cidade grande, Tao Yushu.

— Agora que Tao Yushu foi embora, vai ser difícil pro Chaoyang arranjar outra!

— Esse rapaz é bobo, arranjou namorada da cidade e só falta carregar nas costas. Dizem que deu dinheiro, ajudou em tudo, como se quisesse que ela fosse embora logo.

— Apaixonado demais! Por isso dizem: não se deve casar com mulher bonita. Olha aí, nem casaram e já está desnorteado.

— No fim das contas, não era pra ele mesmo. Agora que ela tá na faculdade, então...

Os comentários das mulheres pareciam não ter fim.

— Ei! — exclamou uma, apontando para a estrada na entrada da aldeia, surpresa — Olhem lá!

Todas levantaram a cabeça e viram, ao longe, uma mulher de vestido vermelho, carregando com dificuldade duas malas, vindo em direção a elas.

— Nossa! Quem será essa moça? Que roupa chamativa, parece até da cidade.

— Pois é, que espalhafatosa. De quem será?

Enquanto tagarelavam, a moça se aproximava, e alguém reconheceu seus traços.

— Ora, mas não é a Tao Yushu?

— Quem? Tao Yushu?

— Sério? Deixa eu ver!

— Acho que é mesmo.

Com a confirmação, as mulheres largaram o que faziam e foram ao encontro da recém-chegada.

— Ora, Yushu! É mesmo você!

Cercaram-na mulheres de quarenta, cinquenta anos, todas tias de Chaoyang, algumas até de geração anterior.

Tao Yushu, sorridente, cumprimentou uma a uma.

— Deixa que eu te ajudo — disseram, tomando-lhe as malas, enquanto faziam perguntas sem cerimônia, falando todas ao mesmo tempo.

Aliviada por ter ajuda, Tao Yushu respondia o que queria, ignorando o que não lhe convinha.

As mulheres nem se importavam, tinham ido por pura curiosidade, deixando até as coisas debaixo da árvore para trás.

Acompanhando Tao Yushu, cruzaram com vários moradores, todos surpresos ao vê-la, pois naquela época, jovens de cidade grande raramente voltavam ao campo após irem para a faculdade.

Tao Yushu voltou!

Os que a viam logo se juntavam ao grupo, que só parou diante do portão de Lin Erchun.

No quintal, Lin Erchun limpava a horta quando ouviu a algazarra. Levantou os olhos.

Ali estava, à porta, uma jovem de feições marcantes e delicadas, pele clara, alta, vestindo um longo vestido vermelho de flores miúdas, tênis brancos de lona, elegante e moderna. Nos anos setenta, numa aldeia do Nordeste, era um escândalo. Talvez pelo sol forte, Lin Erchun protegeu os olhos com a mão.

— Pai, o que está fazendo aí?

A voz era suave, com sotaque típico de Pequim. Um “pai” dito tão naturalmente, como se assim fosse há anos, dissipou toda a amargura de Lin Erchun.

Assombrado, ele se levantou:

— Yu... Yushu, você voltou?

Yushu, de feições delicadas e sorriso nos olhos, respondeu:

— É férias de verão, como não voltar pra casa?

Lin Erchun ficou sem palavras. Ora, claro, era nora da família. Voltar nas férias era mesmo natural.

— Mas, por que não avisou antes, não escreveu uma carta?

Tomado por uma alegria inesperada, ele gaguejava, estranhando também o fato de ela chamá-lo de “pai” na frente de todos.

Mas logo entendeu: antes de partir, Tao Yushu e Chaoyang haviam registrado a união discretamente, e ela só chamava Lin Erchun de pai em particular. Agora, diante dos outros, ela o fazia publicamente, dando prestígio à família.

Astuto, Lin Erchun percebeu tudo num instante e sorriu ainda mais.

A surpresa dele durou pouco; maior foi o espanto dos curiosos.

Aquele “pai” quase fritou os cérebros de todos.

Pai? Antes não era “tio”? Quando foi que mudou? Chaoyang e Tao Yushu já se casaram? Como ninguém sabia?

O mistério pairava, todos fitando-os ansiosos, como cachorros famintos à espera de comida.

Vendo Lin Erchun e Tao Yushu conversando animados, um não se conteve:

— Senhor Erchun, como assim, agora chama de pai? Desde quando?

Lin Erchun, tomado de orgulho, respondeu alto:

— Precisa avisar quando? Vocês querem saber demais!

Com isso, admitia publicamente o casamento de Chaoyang e Tao Yushu. Surpresos, todos começaram a brincar com ele.

— Erchun, você é esperto, escondeu bem!

O orgulho de Lin Erchun era discreto, só notado por olhos atentos. Sem dar bola, foi ajudar com as malas.

Mas as malas eram muitas, e os curiosos, ansiosos para entrar na casa, se apressaram em ajudar.

— Escrever carta não é tão rápido quanto vir de trem — disse Tao Yushu.

Lin Erchun acenou, sorrindo:

— Verdade.

Ao se moverem, a multidão também entrou no pátio.

Aproximando-se da porta, ouviram claramente uma voz desagradável vindo do interior.

Tao Yushu manteve o semblante sereno, mas Lin Erchun ficou envergonhado e logo gritou:

— Em vez de trabalhar, fica aí falando! Vem cá ver, Yushu voltou!

Zhang Guichin, entretida com a costura e de cabeça baixa, não percebera o movimento no quintal.

Ao ouvir o marido, a casa silenciou. Em seguida, passos apressados e desajeitados se aproximaram.

Zhang Guichin, nem de chinelos, espiou pela porta, apoiando-se no batente. Ao ver Tao Yushu, ficou surpresa e alegre, mas com certo constrangimento por ter sido flagrada falando mal.

— Ai, Yushu, você voltou!

Por vergonha, falou de modo efusivo e até bajulador.

— Mãe! — chamou Tao Yushu, com voz clara.

— Sim, sim! — respondeu Guichin, apressada, vindo ajudar com as malas.

— Veio de trem? Está cansada? Vou buscar água pra você.

— Por que não avisou antes? Assim Chaoyang ia te buscar, olha só, quanta coisa pesada, deve estar exausta!

Zhang Guichin, agora toda amável, conversava com Tao Yushu, como se os xingamentos de antes não passassem de ilusão.

Tao Yushu respondia com gentileza. Após alguns minutos, Lin Erchun interveio:

— Depois conversam mais. A menina viajou quase dois dias, prepare logo algo pra ela comer. Depois de descansar, conversam mais.

— Olha só, fiquei tão feliz que até me confundi! — disse Zhang Guichin, indo à cozinha.

Tao Yushu tentou impedi-la:

— Não precisa, mãe, almocei na cidade, não estou com fome.

— Ora, mas tem que comer um pouquinho. E já está na hora do jantar.

Insistindo em cozinhar, Zhang Guichin foi buscar lenha, mas não deixou Tao Yushu ajudar:

— Com essa roupa, nem pense! Vai sujar tudo.

— Então vou trocar de roupa.

— Não precisa, só senta e espera o jantar.

Zhang Guichin fez Tao Yushu sentar e saiu, cheia de energia.

No quintal, vizinhos e curiosos se aglomeravam, e Zhang Guichin, antes discreta, agora empinava o queixo e gritava:

— Olham o quê? Nunca viram universitária?

Alguém respondeu:

— Guichin, antes de Yushu voltar, você não falava assim não!

Ela corou de raiva:

— Vá, vá cuidar da sua vida!

Com a nora de volta, Zhang Guichin retomou sua postura altiva.

Todos riram, e mesmo os alvos dos xingamentos não se ofendiam. Na roça, a língua era afiada e a brincadeira, costumeira.

— Quem diria, Tao Yushu voltou mesmo.

— E de que adianta? Agora é universitária, como Chaoyang vai sustentar?

— Verdade, isso não vai durar.

— Aposto que voltou só pra terminar tudo.

Na pena de grandes escritores, os camponeses são retratados de muitos modos: ora apáticos e resignados, ora honestos e trabalhadores, ora gentis e sonhadores. Mas, no fundo, o ser humano é o mesmo em todo lugar: inveja e admiração caminham juntas.

As brincadeiras e maldizeres dos moradores vêm disso.

Zhang Guichin não deixou Tao Yushu trabalhar, então a jovem abriu as malas.

Trazia duas: uma com roupas, itens de higiene e materiais de estudo; a outra, cheia de presentes para a família Lin.

Frutas secas do mercado de Dong’an, docinhos da loja Daoxiangcun, cigarros Camélia, camisas de algodão branco...

Cada item tirado surpreendia ainda mais os curiosos.

No fim, Lin Erchun perguntou:

— Yushu, quanto gastou com tudo isso?

— Não é sempre que trago tanta coisa. Trouxe o que vocês podem usar.

— Esses cigarros são pra você, pai. Em vez de fumar folha de tabaco, experimente esses, meu pai em Pequim só fuma desse. E essa camisa também é pra você.

— Eu não uso isso, deixa pro Chaoyang.

— Ele também ganhou uma, olha aqui.

Zhang Guichin, ouvindo a conversa, entrou e ficou boquiaberta ao ver a quantidade de presentes. Tao Yushu tirou para ela um casaco de veludo vermelho.

— Ai, onde vou usar roupa tão boa assim? Deve ter custado caro!

Mas o sorriso não cabia no rosto.

Uma mulher brincou:

— Guichin, essa roupa em você é um desperdício.

— Desperdiçar ou não, é problema meu. Quero ver sua nora comprar pra você! — respondeu Guichin, triunfante.

Mais risos, mais cochichos.

— Gente da cidade é diferente, só nesses presentes deve ter mais de cem yuans, o que não ganhamos em um ano!

— E nem contou os cupons. Não parece que veio pra terminar nada.

— Tao Yushu é uma boa moça, não como certas pessoas. Agora, a família Lin está com sorte, tem uma estudante de Pequim!

Dentro de casa, tudo era alegria. Fora, a movimentação era grande.

Lin Chaoyang, ao chegar pelo portão, viu a multidão e imaginou o motivo.

Assim que entrou, foi alvo de brincadeiras:

— Chaoyang, tua mulher voltou!

— E é universitária!

Com um sorriso sereno, Chaoyang não se abalou. Em seis meses, já ouvira todo tipo de comentário.

O povo abriu caminho. Ele entrou e viu uma figura familiar.

Comparada à partida, Tao Yushu estava mais radiante, mostrando que o clima de Pequim lhe fazia bem.

Mais magra, mas com o rosto mais cheio, cutis viçosa e beleza ainda maior.

Chaoyang a observou atentamente até que, sentindo o olhar, ela se virou.

— Voltou? — perguntou, com simplicidade.

Tao Yushu sorriu, o sol refletido no vidro da janela iluminando seu rosto, brilhante e alegre.

— Voltei.