Capítulo 77: O Surgimento e o Declínio Inevitável da Literatura das Cicatrizes (Atualização antecipada por 12.000 votos mensais)
— Ei, Yushu, você já ouviu falar? — sussurrou Wu Yingfang para Tao Yushu durante a aula.
— Ouvir falar do quê?
— Xu Lingjun vai fazer uma palestra na Universidade de Yanjing. Dizem que ele é funcionário de lá.
Tao Yushu assentiu com a cabeça.
— Sim, fiquei sabendo.
Wu Yingfang resmungou:
— Também, né? Sua família é toda de lá. Vocês da Yanjing sempre se destacam!
— Ele só escreveu alguns textos. Comparado com os professores de lá, não é grande coisa.
Ao ouvir a amiga elogiar seu marido, Tao Yushu respondeu instintivamente com humildade.
— Olha só! Quem diria... Não é à toa que veio da Yanjing. Mesmo não sendo professor, já é um escritor conhecido. Mas, para você, parece que não vale nada.
Tao Yushu ouviu a brincadeira da amiga e sorriu, resignada. Sentiu que deveria encontrar um momento apropriado para conversar sobre isso com ela.
— A palestra é amanhã. Você vai?
Com Lin Chaoyang indo falar na Universidade de Yanjing, como Tao Yushu poderia faltar?
— Vou, sim.
Três de junho, um domingo. Lin Chaoyang aproveitaria o dia de folga para participar da palestra, sem precisar pedir licença.
Como era domingo, o café da manhã na casa dos Tao foi mais tarde do que de costume. Depois da refeição, Tao Yushu ajudou o marido a ajeitar as roupas, observou-o dos pés à cabeça e perguntou:
— Está nervoso?
Lin Chaoyang sorriu.
— Você conhece a minha cara de pau...
O sorriso de Tao Yushu iluminou o rosto, carregando um toque de orgulho.
— Força, cunhado!
Antes de sair, a cunhada mais nova, Tao Yumou, deu uma palavra de incentivo a Lin Chaoyang. O entusiasmo juvenil da garota era contagiante.
Recentemente, Lin Chaoyang vinha sendo entrevistado pelo jornal da universidade e convidado para dar palestras. Tao Yumou sentia-se cada vez mais orgulhosa, quase a ponto de virar sua maior fã.
Quando Lin Chaoyang e a esposa saíram, Tao Yucheng disse à esposa Zhao Li:
— E se nós fôssemos também assistir?
Zhao Li hesitou.
— E as crianças?
— Levamos junto! Assim eles também veem o tio em ação! — respondeu Tao Yucheng, despreocupado.
Após pensar um pouco, Zhao Li concordou. Ela também estava curiosa para ver como Lin Chaoyang se sairia.
O casal levou um tempo se ajeitando e saiu de casa com os filhos.
Pouco depois, a mãe de Tao arrumou a louça, tirou o avental e preparou-se para sair.
Tao Yumou estava prestes a sair para a escola e perguntou:
— Mãe, onde você vai?
Sem responder, a mãe seguiu para a porta. Tao Yumou insistiu:
— Não me diga que vai assistir à palestra do meu cunhado?
A expressão da mãe endureceu, e ela respondeu, contrariada:
— Que vergonha! O que tem de interessante nisso?
Sem esperar reação da filha, saiu.
O pai de Tao já havia saído cedo para caminhar. Agora, só restava Tao Yumou em casa. Enquanto todos podiam aproveitar o domingo, ela precisava ir para a aula.
Pensando em todos indo assistir à palestra enquanto ela ficava presa na sala de aula o dia todo, Tao Yumou sentiu-se desanimada.
No início de junho, em Yanjing, o clima estava perfeito, entre a primavera e o verão. No campus, a vegetação vibrava de vida, e cada caminho era percorrido por jovens cheios de energia.
A palestra de Lin Chaoyang estava marcada para as nove. Às oito e meia, ele já estava na entrada do grande refeitório, onde o café da manhã já havia terminado. O salão, espaçoso, começava a encher de estudantes da Yanjing, todos ali para a palestra.
O evento de hoje era maior do que qualquer outro organizado pelo Clube Literário Quatro de Maio. Os principais membros estavam ocupados com seus afazeres. Quando Lin Chaoyang encontrou Chen Jiangong, este suava em bicas de tanto trabalho.
— Como está o conteúdo da palestra? — perguntou Chen Jiangong.
— Está tudo certo.
O tema fora definido pelo clube, mas o conteúdo era criação de Lin Chaoyang.
Vendo a confiança do amigo, Chen Jiangong ficou tranquilo. Conversaram mais um pouco, até que Zhang Youhua veio chamá-lo.
— Jiangong, chegou um grupo da Faculdade de Correios e Telecomunicações. Vai logo organizar isso, senão vira bagunça.
Chen Jiangong olhou para Lin Chaoyang, que acenou com a cabeça, e então foi cuidar do assunto.
Em poucos minutos, o salão já estava cheio de estudantes. Enquanto Lin Chaoyang conversava, Tao Yushu se afastou e ele não conseguiu mais encontrá-la.
— Chaoyang!
Quem o chamou foi Wang Xiaoping, uma das líderes do clube, que veio passar a programação da palestra.
— A palestra começa às nove. Youhua vai te apresentar. Quando ele te chamar, você sobe ao palco. O tempo é uma hora; mostraremos placas para avisar do tempo... Depois tem perguntas, meia hora, você controla. Precisamos terminar às dez e meia, para não atrapalhar o almoço dos estudantes.
Lin Chaoyang memorizou tudo e acenou para Wang Xiaoping.
— Está entendido.
O olhar confiante de Lin Chaoyang deixou Wang Xiaoping com o coração acelerado. Prestes a subir ao palco, ele exalava um fascínio difícil de ignorar.
Faltando pouco para as nove, o salão ficava cada vez mais lotado. Havia mais gente do que na hora das refeições, e ainda assim uma multidão se aglomerava na entrada.
Lin Chaoyang ficou surpreso.
— Como tem tanta gente assim?
— Várias faculdades pediram para participar. Se só um décimo dos alunos viesse, já não caberia aqui — explicou Wang Xiaoping.
Lin Chaoyang riu:
— Um décimo? Não tenho esse apelo todo!
Wang Xiaoping olhou para ele:
— Você subestima sua influência!
Lin Chaoyang se espantou:
— Eu sou tão influente assim?
Wang Xiaoping assentiu séria:
— Claro! Sem falar de “O Cavaleiro dos Pampas”, só “Os Sapatinhos”, que você publicou há menos de um mês, já está na boca do povo. Esse texto seu é ainda melhor, vai virar sua obra-prima.
Sentindo o olhar de admiração da colega, Lin Chaoyang agradeceu gentilmente.
O salão fora projetado também para servir como auditório, por isso havia um palco ao fundo. Enquanto conversavam, o presidente do clube, Zhang Youhua, subiu ao palco.
Caberia a ele apresentar Lin Chaoyang e conduzir o evento. Assim que apareceu, o burburinho cessou, restando apenas a voz de Zhang Youhua ecoando no microfone.
Do lado de fora, no aviso de fundo vermelho com letras pretas, Tao Yushu esperava ao lado do cartaz.
Em menos de dois minutos, Wu Yingfang apareceu correndo.
— Por que demorou tanto? — reclamou Tao Yushu.
— Tive uns imprevistos. Estou exausta!
Sem tempo para reclamações, foi arrastada para dentro do salão.
Lá dentro, não havia mais espaço. O salão central estava lotado e até os corredores estavam cheios.
Devia haver, ao menos, duas mil pessoas. Vendo a multidão à frente, Wu Yingfang lamentou:
— Pronto, só vamos ouvir a palestra de longe.
Tao Yushu não respondeu, puxou a amiga e foi abrindo caminho até ficarem a menos de dez metros do palco, num canto à esquerda.
— Jiangong! — cumprimentou Tao Yushu. Era o espaço reservado pelo clube para seus membros.
Vendo Tao Yushu, Chen Jiangong logo arranjou dois lugares.
Wu Yingfang sorriu, sussurrando para Tao Yushu:
— Sabia que você ia dar um jeito!
Tao Yushu só respondeu:
— Vamos ouvir a palestra.
No quadro-negro atrás do palco, lia-se o tema do dia: “A inevitável ascensão e decadência da literatura da cicatriz”.
Naquele momento, Zhang Youhua encerrava a introdução.
— Agora, recebam com aplausos o convidado do dia: o autor representativo da literatura da cicatriz, escritor de “O Cavaleiro dos Pampas” e “Os Sapatinhos”, o camarada Xu Lingjun!
O salão explodiu em aplausos. Estudantes de várias universidades aguardavam ansiosos. Por mais que muitos fossem da Yanjing, muitos nunca tinham visto Lin Chaoyang, quanto mais os de fora.
Ele caminhou até o centro do palco, onde uma mesa coberta por um tecido vermelho estava pronta, com microfone e copo d’água.
Primeiro, fez uma reverência ao público, depois pegou o microfone.
Naquela época, o microfone era pesado, de metal, com três ou quatro quilos. Lin Chaoyang ajeitou o fio e começou:
— Boa tarde, sou Xu Lingjun, mas podem me chamar de Lin Chaoyang.
O público aplaudiu novamente.
Diante de uma multidão, Lin Chaoyang não sentiu um pingo de nervosismo.
Em sua vida anterior, como trabalhador, apresentara inúmeras vezes seus relatórios para clientes exigentes. Nada mais o abalava, a serenidade era total.
Hoje havia mais gente, mas a pressão dos clientes era muito maior.
A associação de estudantes faz contrato? Manda beber junto? Reclama de detalhes...? Bem, isso até faz.
— Vim hoje a convite do Clube Quatro de Maio para compartilhar algumas ideias sobre literatura. O tema está ali no quadro...
Ele indicou atrás de si:
— “A inevitável ascensão e decadência da literatura da cicatriz”. Imagino que muitos devem estar me chamando de exibido por ousar dar esse título.
Disse isso com leveza, provocando risos na plateia.
Nos últimos dois anos, a literatura da cicatriz floresceu, ganhou força e provocou uma reviravolta no cenário literário nacional, influenciando muitos autores e também leitores.
Dizer que sua ascensão era inevitável era fácil de entender, mas afirmar que a decadência também era era algo que instigava a curiosidade de todos.
— Todos conhecem a literatura da cicatriz, que cresce a passos largos. Inclusive, uma das minhas obras foi incluída pelos críticos nesse movimento, o que me deixa honrado.
Para ser sincero, comecei a escrever para ajudar nas despesas de casa, jamais imaginei que atenderia ao apelo dos tempos e acabaria conquistando tantos leitores...
No palco, Lin Chaoyang falava com calma, seu rosto sereno transmitindo confiança.
Tao Yucheng e Zhao Li, cada um com um filho no colo, estavam num canto do salão, a vinte metros do palco, mal conseguiam ver Lin Chaoyang, só ouviam sua voz.
— Chaoyang tem porte de grande orador!
A palestra mal começara, mas Tao Yucheng já notara o carisma do cunhado. Parecia um veterano, não alguém estreando numa palestra.
Zhao Li ajeitou a filha Tao Xiwu no colo e disse:
— Eu sempre disse que Chaoyang tem um brilho próprio. É inteligente, tudo o que faz dá certo.
— Concordo.
No colo de Tao Yucheng, Tao Xiwen, sem conseguir enxergar o tio, escalava o pai, tentando olhar para o palco.
— Quero ver o tio! Quero ver o tio!
O casal parou a conversa e levantou o filho, para que pudesse ver o orador.