Capítulo 67: Deixe-o conhecer as crueldades da sociedade

O Escritor de 1978 Sentado, contemplo a Montanha Jingting 2946 palavras 2026-01-30 14:22:10

Após o jantar, de volta ao quarto, Lí Zhao falou entusiasmada:
— Nunca imaginei que Chaoyang, tão calado no dia a dia, fosse capaz de escrever algo publicado e ainda por cima tão popular!

Yu Cheng Tao suspirou:
— Pois é, quem poderia prever?

Percebendo o tom de frustração dele, Lí Zhao segurou sua mão:
— Você também não fica atrás.

Se ela não tivesse dito nada, ele talvez não se sentisse tão mal, mas ao ouvir isso, Yu Cheng Tao ficou ainda mais abatido.
— Esposa, Chaoyang só tem o ensino fundamental, nunca ouvi dizer que ele escrevesse antes. Como conseguiu, de repente, fazer tanto sucesso?

Lí Zhao tentou consolá-lo:
— Cada um tem seus pontos fortes, talvez o dele seja justamente escrever.

— E o meu? — perguntou Yu Cheng Tao, cheio de expectativa.

Ela pensou um pouco:
— Oferecer jantares?

O rosto dele se contorceu de indignação:
— Já esqueceu dos poemas de amor que escrevi para você quando namorávamos?

— O passado é passado, agora é outra história — murmurou Lí Zhao.

Yu Cheng Tao lançou um olhar irritado à esposa. As mulheres, de fato, são volúveis!

— Ei, você percebeu como a mamãe reagiu? — perguntou Lí Zhao.

— O que tem a mamãe? Vai esperar que ela olhe Chaoyang com outros olhos?

— Por que não? Agora ele é um escritor famoso.

Quando o assunto ficou sério, Yu Cheng Tao também assumiu um ar grave, balançando a cabeça.
— Não é tão simples assim, mamãe guarda um ressentimento no peito.

— Que ressentimento?

— Mesmo que eu explique, você não entenderia.

Lí Zhao achou que ele estava fazendo mistério, mas Yu Cheng Tao apenas balançou a cabeça, com um ar enigmático.
— Se não quer contar, deixa pra lá!

Enquanto conversavam, no quarto ao lado, estavam o pai e a mãe de Tao. Ela, usando óculos de leitura, lia recostada na cabeceira; ele, já de pijama, se preparava para deitar. Observou a esposa, querendo dizer algo, mas hesitou.

— Ruohui! — Chamou-a pelo nome que só usava quando estavam a sós.

Parecia absorta no livro, ignorando sua voz. Mas ele a conhecia bem; tirou o livro de suas mãos e ela, impaciente, perguntou:
— O que foi?

— Vamos conversar — disse ele, deitando-se ao seu lado.

Ela virou-se de costas, já adivinhando o que o marido queria dizer, sem lhe dar oportunidade de começar.

— Ai! Eu sei que você está magoada — disse ele, pousando a mão de leve no ombro dela. — É verdade que Chaoyang veio do campo e tem baixa escolaridade, mas já pensou no que o levou a alcançar tanto em tão pouco tempo?

Esperou um pouco e, vendo que ela não respondia, continuou:
— Yushu é nossa filha, você a ama, eu também. Sempre desejamos o melhor para ela. No começo, o casamento com Chaoyang foi difícil, mas se eles conseguirem apoiar-se mutuamente até o fim, não há de ser coisa ruim.

— Às vezes, penso: será que parte do seu ressentimento não é, na verdade, contra Chaoyang? Será que ele não está pagando pelas dificuldades que passamos anos atrás, por aquele tempo tão duro?

Terminado o desabafo, vendo que ela continuava silenciosa, o pai de Tao suspirou fundo e desistiu de insistir.

Na manhã seguinte, durante o café, Chaoyang observava discretamente a sogra. Ao sair de casa, perguntou:
— Sua mãe parece não ter mudado de atitude, não é?

— É só orgulho — respondeu Yushu, enquanto destravava a bicicleta e caminhava ao lado dele. — Agora, você não precisa se preocupar com o que ela pensa. O importante é se concentrar nos próximos livros. Quanto mais você publicar, quanto mais famoso for, mesmo que ela não goste de você, não vai ter coragem de fazer nada.

Chaoyang sabia que ela queria tranquilizá-lo, mas sentiu que aquilo era também uma cobrança sutil.

— Esposa, acabei de terminar o primeiro livro, nem publiquei ainda! — reclamou ele.

Yushu, percebendo que ele havia entendido sua intenção, entrelaçou o braço no dele, manhosa:
— Não estou exigindo que escreva agora, só quero que pense em novas ideias quando tiver tempo. O trabalho na biblioteca é tão tranquilo!

— Colega universitária, cada um tem sua missão na revolução: a sua é estudar, mas não subestime o que fazemos na biblioteca.

Chaoyang fingiu seriedade, e Yushu lhe deu um soco brincalhão.

O sucesso de “Lago Sem Nome” dentro da Universidade de Yan parecia ter acelerado a revelação da verdadeira identidade de Chaoyang. Em menos de dois dias, toda a biblioteca sabia que o genro do Professor Tao, o jovem do balcão de empréstimos restritos, era o famoso autor do recente best-seller “O Cavaleiro das Estepes”, conhecido como Xu Lingjun.

No trabalho, Chaoyang era alvo constante de brincadeiras amigáveis dos colegas, mas também de comentários maldosos e especulações por trás das costas. É assim que é a natureza humana: riem dos que não têm, invejam os que têm, desprezam os pobres, criticam os ricos.

Certa manhã, a caminho da biblioteca, Chaoyang viu novamente o velho Zhu trotando alegremente, acompanhado de um golden retriever — Amau.

Mesmo à distância, deu para ver Amau tagarelando enquanto corria ao lado do velho, que já estava visivelmente irritado. Chaoyang não conteve o riso: era mesmo o caso clássico de “um mal encontra outro”. O velho Zhu, com sua língua afiada, não tinha poder algum contra Amau, completamente imune a seus ataques verbais.

O mais engraçado é que Amau ainda torturava o velho com seu mandarim macarrônico. Dessa vez, o velho Zhu saiu perdendo feio.

Chaoyang viu o velho parar, bufando de raiva, e se aproximar. Já ia cumprimentá-lo quando ouviu Zhu Guangxian perguntar:
— O que você andou ensinando para esse garoto? Só fala bobagem!

Chaoyang quase tapou a boca do velho:
— Não invente coisas, hein!

Baixou a voz:
— Já disse antes, são os escritos do Mao!

Só então o velho entendeu:
— Não digo isso, quero saber se esse garoto é normal. Logo cedo, me fala que vai fazer revolução, ocupar bases, lutar contra os ricos, dividir terras, e ainda quer que eu seja conselheiro militar!

— Comissário político, é comissário político! — corrigiu Amau, que vinha logo atrás.

E não é que, no meio do chinês mal falado de Amau, essas palavras saíram perfeitas?

Chaoyang tentou explicar:
— Amau, agora é a Nova China. Tudo isso do livro já fizemos, e vencemos.

— Não é para fazer na China, é para levar para os Estados Unidos!

Chaoyang quase não acreditou: esse rapaz nunca sentiu na pele o rigor do macartismo, não é?

Quando ia comentar, Amau sacou do bolso um broche de martelo e foice, prendeu no peito, assumiu expressão solene e declarou:
— O grande líder nos ensinou...

Vendo aquele ar meio insano, Zhu Guangxian tratou de fugir o mais rápido possível, provavelmente não seria visto tão cedo pela biblioteca.

— Amau, já ouviu um provérbio chinês? — perguntou Chaoyang, agora tendo que lidar com a situação.

— Qual?

— Dormir sobre lenha e provar fel.

— O que significa?

— Quer dizer... entendeu?

Amau, sério, respondeu:
— Entendi, é para eu acumular forças e esperar a hora certa.

— Só esperar não basta. O caminho da revolução é cheio de percalços, é preciso ter espírito inabalável. Dizem que quando o Céu confia a alguém uma grande missão, antes faz sofrer a mente e os músculos... Bem, talvez você não entenda tudo, mas basicamente, para realizar grandes feitos, é preciso antes fortalecer o corpo e o espírito.

Amau pareceu refletir:
— Então, o mais importante agora é... treinar o corpo?

Chaoyang bateu palmas:
— Isso mesmo, é por aí!

Finalmente conseguiu convencê-lo.

— Eu corro todas as manhãs.

— Não, não, ainda é pouco. Sabe o que é kung fu chinês?

Ao ouvir isso, os olhos de Amau brilharam:
— Sei, claro! Antes de vir para a China, assisti aos filmes do Bruce Lee. Kung fu chinês, newbee!

Acompanhando o velho Zhu, só poderia aprender coisas esquisitas: até “newbee” já tinha aprendido.

— No kung fu, é preciso treinar no frio do inverno, no calor do verão; deixa eu te contar...

Depois de muito esforço, Chaoyang finalmente se livrou de Amau. Vendo-o partir com passos largos, cheio de confiança, sentiu uma pontada inexplicável de culpa.

Esse rapaz, é mesmo puro demais!

Pois bem, que eu lhe mostre primeiro a dureza da vida.