Capítulo 45: Isso já é considerado trapaça
— Esta novela está realmente muito bem escrita!
O conto “O Processo de Qiuju” tem um tamanho considerável para um conto, com mais de vinte e oito mil palavras, e Tao Yushu levou mais de duas horas para terminar a leitura.
Lin Chaoyang não respondeu. Ele não queria revelar tão cedo a questão do pseudônimo. Se o fizesse, não só perderia o elemento surpresa, como também poderia acabar atraindo problemas para si. “O Cavaleiro das Planícies” foi um deslize inicial; já “O Processo de Qiuju” era uma produção deliberada.
— Amanhã você também lê, podemos discutir depois.
Quanto mais se teme algo, mais rápido acontece. Antes de dormir, Tao Yushu incumbiu Lin Chaoyang de uma tarefa, deixando-o inquieto. Era difícil surpreender a esposa.
Na manhã seguinte, era fim de semana e também a véspera do Ano Novo Lunar. O clima de alegria se espalhava pelos rostos dos familiares, permeando o prédio e o Jardim das Andorinhas. Para os chineses, a pequena véspera marca o início das celebrações do ano novo. Apesar da canção popular dizer “Criança, criança, não seja gulosa; depois do Festival Laba começa o ano”, ninguém começa a preparar o ano tão cedo, logo após o Festival Laba.
No vigésimo terceiro dia, caramelos grudam nos dentes; no vigésimo quarto, é dia de limpar a casa; no vigésimo quinto, de preparar o tofu...
A partir deste momento, o espírito festivo do Ano Novo começa oficialmente. E, desde então, os chineses, que passaram o ano trabalhando arduamente, dedicam-se com uma alegria diferente à chegada do novo ciclo.
À tarde, a mãe de Tao organizou uma sessão de preparo de raviólis; toda a família, dos mais jovens aos mais velhos, arregaçou as mangas. Em pouco mais de uma hora, fizeram mais de trezentos raviólis, suficiente para algumas refeições.
— Eu acho que os raviólis ficam melhores com bastante carne. Normalmente, mamãe é muito econômica, não coloca muita carne. Hoje tem bastante, está uma delícia! — comentou Tao Yumou, com as bochechas cheias.
— Não é só a carne, os cogumelos da família de Chaoyang fazem toda a diferença, o recheio fica com um sabor especial — acrescentou o cunhado.
Os irmãos se transformaram em críticos gastronômicos, degustando os raviólis e analisando o sabor.
Depois de comer e beber à vontade, à noite, Lin Chaoyang preparava-se para se jogar na cama como um peixe salgado, quando ouviu Tao Yushu perguntar:
— Você leu aquela novela ontem?
— Qual delas? — Lin Chaoyang fingiu não saber.
— Esta aqui!
Tao Yushu pegou a revista na mesa e Lin Chaoyang suspirou, resignado.
— Vou dar uma olhada então.
Não havia como escapar. Lin Chaoyang fingiu apreciar sua própria obra. Tao Yushu, por outro lado, estava ocupada revisando o artigo que havia enviado ao “Gazeta Literária” sobre “O Cavaleiro das Planícies”, que não fora publicado.
Ao descobrir que seu marido era o autor de “O Cavaleiro das Planícies”, Tao Yushu sentiu-se motivada: precisava publicar a crítica de qualquer forma.
Meia noite passou rapidamente. Depois de terminar a revisão, Tao Yushu foi até Lin Chaoyang.
— E então, o que achou? Alguma impressão?
Ao ouvir a pergunta da esposa, Lin Chaoyang lembrou-se da época em que a professora de literatura do ginásio o chamava para responder questões.
— Sim, a novela está realmente muito bem escrita.
— Fale mais sobre isso.
Lin Chaoyang, com coragem, continuou:
— O conto começa com o capitão agredindo alguém, e segue com Qiuju indo e voltando para buscar justiça, uma estrutura aparentemente simples, mas que exige muita técnica de escrita. Se não for bem conduzida, torna-se apenas um relato monótono e repetitivo...
No futuro, a maioria dos chineses, mesmo sem ter lido “O Processo de Qiuju”, já ouviu falar do filme, um dos trabalhos emblemáticos do mestre Zhang Yimou. O filme é uma adaptação do conto “A Queixa da Família Wan”, de Chen Yuanbin, com algumas mudanças, mas mantendo o núcleo e a reflexão.
A história de “O Processo de Qiuju” é simples: o marido de Qiuju, Wang Qinglai, disputa com o chefe da aldeia, Wang Shantang, por conta do contrato de terras. O chefe, irritado, acerta um chute nos genitais de Wang Qinglai.
Qiuju, grávida de seis meses, busca justiça pelo marido. Vai conversar com o chefe, mas ele não admite erro, alegando que não agiu por motivos pessoais. Qiuju, então, vai à prefeitura, onde o chefe aceita compensar os prejuízos, mas se recusa a pedir desculpas, jogando o dinheiro no chão para ela pegar.
Sentindo-se humilhada, Qiuju não pega o dinheiro e retoma sua busca por justiça, indo à delegacia e ao tribunal da cidade, sempre sem obter uma resposta satisfatória.
Na véspera do Ano Novo, Qiuju tem complicações no parto; o chefe e os moradores, enfrentando a tempestade, a levam ao hospital. A família de Qiuju agradece e decide não mais responsabilizar o chefe. Mas, justamente nesse momento, chega a sentença do tribunal: o chefe é detido por agressão.
O conto de Lin Chaoyang, publicado na “Arte Literária de Xangai”, combina as virtudes do conto e do filme, mas ao contrário do filme, que se passa na zona rural de Shaanxi no final dos anos 80, ele ambientou a história no norte da China.
O conto original “A Queixa da Família Wan” não se passava em Shaanxi, mas no sul rural.
A adaptação de Lin Chaoyang não causou estranhamento, pois correspondia ao seu ambiente de origem como autor.
— Na minha opinião, os dois maiores acertos do conto são o tratamento dos personagens e do desfecho.
Não há personagens absolutamente bons ou maus. O chefe errou ao agredir, mas agiu pelo bem comum. Qiuju busca justiça, fica indignada, mas, mesmo assim, o chefe a ajuda no parto. Qiuju não quer muito: apenas respeito, uma atitude. Mas, para o chefe e o governo, isso parece teimosia.
No final, o chefe ajuda Qiuju, ela se sente aliviada, mas justamente aí vem a punição legal. Isso evidencia o atraso e ironia dos procedimentos e sistemas, dando ao desfecho profundidade e significado.
Como autor, Lin Chaoyang tinha plena autoridade para comentar. Falou por mais de dez minutos, com Tao Yushu ouvindo atentamente, às vezes admirada, o que lhe trouxe certo orgulho.
— Você analisou muito bem. Só leu uma vez e já captou tudo, não é à toa que consegue escrever novelas — elogiou Tao Yushu, mas logo lamentou: — Eu não tenho esse talento.
— Não diga isso! Seus artigos críticos são excelentes. Somos um casal: um escreve novelas, o outro críticas, juntos somos invencíveis!
— Mas minha crítica sobre “O Cavaleiro das Planícies” ainda não foi publicada... Que tal você, como autor, me ajudar a revisar?
— Esposa, isso seria trapaça.
— Entre marido e mulher, não existe trapaça!
— Posso ajudar, mas tenho um pequeno pedido — Lin Chaoyang aproximou-se.
À luz da lâmpada, os dois se envolviam, enquanto o vento frio batia incessantemente nas janelas, lamentando e chorando na noite.