Capítulo 68: Confuso em Pequenas Coisas, Lúcido nas Grandes
Com o estímulo dos estudantes, já não era segredo em toda a Universidade de Yan que Lin Chaoyang era, de fato, Xu Lingjun. As discussões entre os alunos nem eram o mais relevante; o que mais chamou atenção foi o impacto dessa revelação entre os professores e funcionários.
O espanto não vinha do fato de a universidade ter revelado um escritor — afinal, Yan estava repleta de figuras ilustres, sendo comum que qualquer departamento abrigasse professores de renome em suas áreas. O nome de Lin Chaoyang, no entanto, surgira na boca de todos desde que se espalhara a história da filha do professor Tao do departamento de História ter escolhido para marido um rapaz do campo.
Na narrativa envolvendo Lin Chaoyang, Tao Yushu e a família Tao, ele era visto como o simples jovem de sorte, atingido por um raio de fortuna inesperada, ou, então, comparado a figuras das lendas, como Dong Yong do "Casamento Celestial" ou Liu Yanchang de "O Resgate da Mãe por Chenxiang". Junto à admiração por sua sorte, era inevitável que surgisse certo desdém. Não faltava quem questionasse, com mentalidade mundana, como seria possível que um rapaz rural pudesse manter-se ao lado da filha de um professor, uma das estudantes mais brilhantes da universidade, por toda a vida.
O abismo entre ambos parecia anunciar, para muitos, que o futuro do casal seria repleto de percalços e, quem sabe, acabaria em divórcio. O caso, por mais interessante que fosse, era apenas motivo de conversa nas horas vagas. Mas, quando o burburinho já se dissipava, de repente começou a circular pelo campus que Lin Chaoyang era ninguém menos que o autor de "O Guardador de Cavalos", Xu Lingjun.
Para os funcionários e professores da Universidade de Yan, que já tinham uma imagem formada sobre Lin Chaoyang, a surpresa foi enorme. As conversas sobre ele, Tao Yushu e a família Tao voltaram a ser o tema favorito das rodas de conversa nos intervalos.
A divulgação dessa notícia, além de melhorar a imagem de Lin Chaoyang entre os colegas, teve como maior beneficiada a própria Tao Yushu. Muitos elogiavam a educação e discernimento da família Tao, que soubera reconhecer o potencial de Lin Chaoyang mesmo nas duras condições do campo, entregando-lhe de corpo e alma.
A história de Tao Yushu e Lin Chaoyang caminhava rapidamente para se tornar uma lenda no campus de Yan.
Certa tarde de meados de abril, Lin Chaoyang, ao voltar do trabalho, mal entrou no corredor do prédio e já escutou, do lado de dentro do apartamento, vozes animadas e festivas.
Ao abrir a porta, deparou-se com o cunhado Du Feng, a quem não via há quase dois meses, brincando com Tao Yumo, enquanto o pai de Tao e o cunhado mais velho assistiam à cena com largos sorrisos.
“Cunhado!”, exclamou Du Feng ao avistar Lin Chaoyang, afastando Tao Yumo de lado para lhe dar um abraço caloroso.
“Quando chegou?”
“Anteontem! Vim descansar um pouco e aproveitei para passar aqui e avisar que está tudo bem!”
Du Feng estava apenas de visita, retornando da linha de frente, e a ausência havia sido breve, menos de dois meses, mas Lin Chaoyang já percebia em seu semblante as mudanças provocadas pela experiência.
“Está com um ar bem mais vibrante!”, comentou Lin Chaoyang, observando-o de cima a baixo.
“Todo mundo diz isso”, respondeu Du Feng, com certo orgulho. Após falar de si, logo se animou: “E então? Ouvi do Yumo que tudo que você escreveu foi publicado? Aquele ‘O Guardador de Cavalos’ é realmente de sua autoria?”
Lin Chaoyang confirmou com um sorriso.
“Viu só! Eu sabia que não estava enganado. Sempre disse que alguém com o seu talento acabaria se destacando!”
Antes que Lin Chaoyang pudesse responder, Tao Yumo ironizou: “Agora é fácil falar, né?”
“Como assim? Se não tivesse percebido o talento do cunhado, teria pedido ajuda com minhas cartas de amor?”
Tao Yumo lançou-lhe um olhar de desprezo: “Que cara de pau.”
Noutras circunstâncias, os dois já teriam sido repreendidos pela mãe Tao, mas naquele dia era diferente: a matriarca estava na cozinha preparando um banquete para celebrar a volta do sobrinho do front, de excelente humor.
Durante o jantar, Du Feng relatou algumas de suas experiências na linha de frente, arrancando suspiros e comoção dos presentes.
A guerra, oficialmente, durara apenas um mês e fora declarada encerrada já em meados de março, mas era sabido que a preparação e as consequências não se dissipariam tão depressa, e pequenos conflitos ainda ocorriam entre os dois países.
Du Feng, mesmo não estando na linha de frente mais avançada, conhecia muitos detalhes dos acontecimentos. Ao relatar certos episódios emocionantes, não conteve as lágrimas, soluçando diante de todos.
“Eles são tão jovens… Alguém precisa registrar as histórias heroicas deles”, disse, enxugando os olhos ao final. Olhou para Lin Chaoyang: “Cunhado, você não é escritor? Escreve algo sobre eles!”
O olhar lacrimejante de Du Feng, um homem feito, pesou sobre Lin Chaoyang.
“Esses companheiros realmente merecem ser celebrados, mas eu nada entendo de assuntos militares ou de guerra…”
“O que não souber, eu te explico. Se eu não souber responder, peço para o meu pai te ajudar.”
Como é que, de repente, aquilo parecia uma missão política?
“Não foi seu pai que te mandou pedir isso para mim, foi?”
“Ele nem pensou nisso, foi minha ideia. Cunhado, faça esse favor!”
Tao Yushu sabia que, numa situação dessas, se Lin Chaoyang recusasse o pedido, pareceria insensível. Mas escrever não era como abrir uma torneira — não bastava desejar que as palavras fluíssem.
“Du Feng, você acha que escrever é como trocar cupons de racionamento por arroz? Bastou pedir para o cunhado escrever um livro?”
Lin Chaoyang entendia que Tao Yushu estava assumindo o papel ingrato de ser a voz da razão. Para ele, escrever não tinha nada de sentimental, era apenas uma questão de ganhar pelo trabalho. O pedido de Du Feng talvez fosse difícil para outros, mas não para ele.
Ainda assim, não era desculpa: ele realmente não conhecia a guerra recém-terminada, tampouco tinha vivência militar; escrever de imediato seria leviano.
“Du Feng, não adianta apressar. Acho melhor eu primeiro pesquisar e me informar um pouco.”
Ao ouvir isso, Tao Yushu e os outros da família olharam-no com surpresa, imaginando que ele só estava sendo delicado por consideração à esposa.
“Ótimo, cunhado!”, exclamou Du Feng, abraçando-o, emocionado. “Se precisar de qualquer coisa, é só pedir. Amanhã mesmo trago material para você!”
Du Feng, vindo do exército e tendo estado no front, possuía muitos relatos de primeira mão; além disso, seu pai tinha alto posto militar, o que lhe dava ainda mais acesso a informações.
Desde então, Du Feng passou a visitar o campus de Yan quase todos os dias, trazendo para Lin Chaoyang pilhas de documentos e contando, em detalhes, tudo o que sabia.
Certa vez, depois que Du Feng se despediu, Tao Yushu disse: “Não se sinta pressionado. Eu não queria que aceitasse esse pedido. Se não tiver inspiração, eu mesma falo com ele para desistir.”
“Não é que eu não possa escrever, até tenho algumas ideias, mas preciso organizar essas informações primeiro. A guerra ainda está em curso e, já que se trata dos soldados, quero tratar o tema com respeito e seriedade.”
Tao Yushu não esperava tal postura do marido; nunca o vira tão meticuloso e rigoroso em sua criação literária. De repente, ocorreu-lhe uma frase: “Desatento nas pequenas coisas, mas lúcido quando realmente importa.” Talvez descrevesse exatamente o caráter do marido. Sua seriedade inesperada despertou nela uma alegria nova — era um lado dele que ela nunca tinha visto.
Agora que compreendia o pensamento de Lin Chaoyang, Tao Yushu já não temia que Du Feng o estivesse colocando em situação difícil.
Mas, justo quando Lin Chaoyang se preparava com todo o zelo possível, Du Feng, que até então aparecia em casa todos os dias, sumiu de repente.
No início, Lin Chaoyang pensou que fosse apenas um entusiasmo passageiro, que o cunhado tivesse perdido o ânimo. Só mudou de ideia ao receber um telefonema do pai de Du Feng.