Capítulo 76: A Repercussão de "Os Sapatinhos"
O “Jornal da Universidade de Yanjing” era um semanário publicado todas as terças-feiras, com quatro páginas por edição.
Embora fosse apenas um jornal universitário, sua circulação não se limitava ao campus de Yanjing; várias outras instituições de ensino superior e entidades acadêmicas e culturais da cidade também o assinavam.
Na terceira terça-feira de maio, uma nova edição do “Jornal da Universidade de Yanjing” foi oficialmente publicada.
O Professor Tao, após terminar sua aula, caminhou tranquilamente de volta ao escritório. Mal se sentara e dera um gole de chá, seu colega Deng Guangming, que ocupava a mesa ao lado, aproximou-se segurando um exemplar do jornal.
– Xiao Tao, venha ver isso!
– Ver o quê?
– Seu genro apareceu no jornal da universidade.
Deng Guangming era dez anos mais velho que o Professor Tao e dedicava-se ao estudo da história da Dinastia Song, sendo considerado a maior autoridade mundial sobre o tema no século XX. O fato de chamar o Professor Tao de “Xiao Tao” não era arrogância, mas uma velha tradição de décadas de amizade.
O Professor Tao pegou o jornal. Alguns dias antes, sua filha havia mencionado que o jornal universitário entrevistaria Lin Chaoyang, mas ele não dera muita importância ao assunto. Para professores veteranos como eles, aparecer no jornal do campus era algo corriqueiro.
Ainda assim, compreendia o entusiasmo da filha: o genro era um homem de caráter, temperamento e talento excepcionais, apenas não vinha de uma família abastada. Mas talvez fosse justamente essa origem humilde que tornava tão significativo o fato de seu nome aparecer no jornal universitário de Yanjing.
Sentindo-se orgulhoso, o Professor Tao percorreu rapidamente as linhas da reportagem.
– Hmm? – Seus olhos prenderam-se a um trecho da entrevista, que leu com atenção.
Aquele rapaz sabia mesmo como agradar.
Após terminar a leitura daquela passagem, um sorriso de satisfação surgiu em seu rosto. Na entrevista, Lin Chaoyang fizera grandes elogios à esposa, Du Ruohui. Embora não correspondesse inteiramente à realidade, o Professor Tao compreendeu a intenção do genro.
Nos últimos seis meses, ele tinha observado de perto a atitude da esposa em relação ao genro. Era admirável que o rapaz conseguisse agir com tanta gentileza e consideração, colocando sempre a harmonia familiar em primeiro lugar.
Após o jantar, de volta ao quarto, o Professor Tao entregou o jornal à esposa.
– Veja isto!
Sem entender a princípio, ela leu por um tempo até perceber o que o marido queria lhe mostrar.
– Ele sabe mesmo como posar de bom moço!
Apesar do comentário ácido, seu tom era bem mais ameno.
O Professor Tao respondeu com seriedade:
– Todo coração é feito de carne. Seu defeito é essa sua língua afiada.
A senhora Tao, contrariada pela repreensão, virou-se e preferiu não responder.
O Professor Tao sorriu resignado. Conhecia aquele temperamento desde a juventude da esposa: um pouco mimada, geralmente dura nas palavras, mas sem más intenções.
Convencer um adulto não era tarefa fácil. Ele sabia que a esposa enxergava o esforço do genro, mas não podia forçá-la a aceitá-lo. Só desejava que, um dia, ela o acolhesse de coração, para que a família vivesse em harmonia.
Nos últimos meses, corria pelo campus o boato de que o bibliotecário Lin Chaoyang era, na verdade, Xu Lingjun, o autor de “O Cavaleiro dos Pampas”. Recentemente, “Literatura de Yanjing” publicou novamente um conto de Xu Lingjun, “Os Sapatinhos”, atraindo grande atenção entre os estudantes.
Nesses dias, o “Jornal da Universidade de Yanjing” publicou uma entrevista com Lin Chaoyang, tornando seu nome um dos assuntos mais comentados no campus. As discussões entre os estudantes eram acaloradas.
De origem rural, genro de um professor da universidade e agora um escritor emergente, a trajetória de Lin Chaoyang era considerada inspiradora.
Aproveitando o sucesso da entrevista, Chen Jianggong, em nome do Círculo Literário Quatro de Maio, procurou Lin Chaoyang para fazer um pedido.
– Quer que eu faça uma palestra? – Lin Chaoyang olhou, surpreso.
– Exatamente! Os estudantes estão muito interessados em você. Todos esperam ouvir sua história.
– Não sou bom em discursos. Além disso, não tenho muito a dizer.
– Encara como uma troca de experiências! Não se preocupe, sua trajetória é uma grande inspiração para nós. Basta contar como foi sua caminhada.
Enquanto Lin Chaoyang avaliava se deveria aceitar, Chen Jianggong acrescentou:
– O camarada Yushu certamente gostaria que você participasse.
Ao ouvir isso, Lin Chaoyang lançou-lhe um olhar severo, sabendo que ele estava usando Tao Yushu para pressioná-lo. Não era difícil imaginar que fora Zou Shifang quem lhe contara tudo.
Na ocasião em que Guan Qingsong e Zou Shifang quiseram entrevistá-lo, Tao Yushu mostrara-se ainda mais entusiasmada do que o próprio entrevistado, deixando claro seu desejo de ver o marido brilhar.
Ao chegar em casa naquela noite, Lin Chaoyang contou à esposa sobre o convite do Círculo Literário Quatro de Maio. Como esperado, ela ficou empolgada e o incentivou a participar, até sugerindo temas para o discurso.
Ter uma esposa tão dedicada ao progresso era, de fato, um desafio!
O Círculo Literário Quatro de Maio era um dos mais antigos clubes estudantis de Yanjing. Em tempos de efervescência literária, sua influência dentro da universidade era incontestável.
A notícia de que o autor Xu Lingjun, expoente da literatura de cicatrizes, daria uma palestra a convite do círculo se espalhou pelo campus em menos de dois dias, graças ao entusiasmo dos membros.
Mais que isso, a informação começou a circular também entre as universidades vizinhas.
Nos últimos seis meses, o sucesso de “O Cavaleiro dos Pampas” mantinha viva a onda da literatura de cicatrizes, tornando o nome de Xu Lingjun cada vez mais conhecido no cenário literário nacional.
Naquele mês, “Literatura de Yanjing” publicara ainda “Os Sapatinhos”, obra de estilo e conteúdo bastante distintos de seu trabalho anterior: abandonando os elementos da literatura de cicatrizes e sem recorrer à recente tendência da literatura reflexiva, Xu Lingjun voltava-se de maneira sólida para a realidade rural.
Apesar da mudança de estilo, a essência permanecia a mesma, e os leitores reconheciam de imediato o autor que tanto admiravam.
Publicado havia menos de um mês, “Os Sapatinhos” ainda não tivera tempo de repercutir entre os críticos, mas a revista já havia recebido milhares de cartas de leitores – um feito raro em sua história.
Mesmo em março, quando a revista publicara “O Traidor”, de Fang Zhi, elogiado por público e crítica, o número de cartas nos primeiros quinze dias não passara de algumas centenas.
Além disso, a maioria dessas cartas se dedicava a elogiar o autor.
Palavras como “caloroso”, “solar”, “positivo” apareciam com frequência, evidenciando a energia positiva que os leitores extraíam da obra.
Pelo volume das cartas, ficava claro que o entusiasmo por “Os Sapatinhos” superava em muito o de “O Traidor”, fazendo os editores lembrarem do frenesi causado por “O Cavaleiro dos Pampas”.
É justamente nessas cartas, uma a uma, que se constrói a influência de uma obra literária.
Naqueles dias, os leitores demonstravam enorme entusiasmo em escrever para revistas, editoras, redações e autores. Entre eles, muitos eram estudantes das diversas universidades de Yanjing.
Diferente do público em geral, movido mais por curiosidade, esses estudantes, seja por formação ou pelo ambiente, tinham um olhar mais crítico ao analisar as obras.
Ao contrário da aclamação unânime entre os leitores comuns, “Os Sapatinhos” gerou grande polêmica entre os estudantes universitários de Yanjing, especialmente sobre se a representação afetuosa da sociedade rural era realista.
Com a notícia de que Xu Lingjun faria uma palestra, muitos universitários se mobilizaram. Havia tanto admiradores sinceros de “O Cavaleiro dos Pampas” e “Os Sapatinhos” quanto aqueles que aproveitariam para debater com o autor.
O plano inicial do Círculo Literário Quatro de Maio era um evento pequeno, para os cem e poucos membros do clube e, no máximo, uns duzentos ou trezentos jovens do campus.
Porém, à medida que a notícia se espalhava, Zhang Youhua, Zou Shifang e Chen Jianggong começaram a receber mensagens de associações estudantis de várias universidades da cidade, informando que muitos alunos gostariam de participar e pedindo que o evento fosse ampliado.
– O que faremos agora?
Reunidos, perceberam que o alcance do evento ultrapassaria em muito suas expectativas e que nem o local planejado nem sua capacidade organizacional dariam conta da demanda.
– Vamos procurar a direção! – sugeriu Zhang Youhua, presidente do clube, imediatamente.
Após discutirem, Zou Shifang e Chen Jianggong concordaram que essa era a melhor solução. Dirigiram-se então ao gabinete do vice-reitor Zhang Longxiang, responsável pelas atividades estudantis da universidade.
Hoje em dia, seria impensável que alguns estudantes invadissem o gabinete do vice-reitor para tratar de um evento estudantil, mas na Yanjing daquele tempo isso não era problema.
Zhang Longxiang, surpreso com a visita, recebeu-os cordialmente e ouviu atentamente seus pedidos.
Depois de entender a situação, foi direto ao ponto:
– No dia 3 de junho, de manhã, vocês podem usar o Grande Refeitório. A equipe de segurança destacará dez agentes para apoiar o evento do clube literário. Que tal?
Os estudantes, radiantes, agradeceram com repetidas reverências.
O sorriso de Zhang Longxiang era afável, refletindo a dignidade de um verdadeiro mentor.
– Organizar esse tipo de evento amplia os horizontes dos alunos, é uma coisa boa. Mas, com tanto interesse, inclusive de estudantes de outras instituições, realmente é necessário o apoio da universidade. Vocês fizeram certo.
Reconhecidos pelo vice-reitor, os organizadores sentiram-se ainda mais motivados e se entregaram à preparação do evento.
O que seria apenas uma pequena palestra do clube estudantil, com o apoio da universidade, foi transferido para o Grande Refeitório, despertando euforia entre os membros do Círculo Literário Quatro de Maio.
A razão de tanta empolgação estava ligada ao papel especial do Grande Refeitório em Yanjing.
Construído após a reforma institucional de 1952, o refeitório, além de servir refeições, era o espaço de eventos mais emblemático para os estudantes.
A universidade de Yanjing sempre esteve à frente de seu tempo; o Grande Refeitório, ligando dormitórios e salas de aula, fervilhava de movimento e era o centro das trocas de informação.
Em abril de 1957, Ma Yinchu fizera ali a famosa palestra “Nova Teoria da População”, defendendo o controle da natalidade como urgência para o desenvolvimento social.
Desde então, qualquer evento importante era realizado ali sem exceção.
Fosse reunião, exibição de filmes, festival de arte ou baile, o Grande Refeitório também assumia o papel de auditório.
Apesar de já terem organizado muitos eventos, era a primeira vez que o Círculo Literário Quatro de Maio utilizaria o Grande Refeitório, e todos consideravam esse feito um marco na história do grupo.