Capítulo Vinte e Dois: Meu Nome é Mefisto, Venho da Corte dos Hereges
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No dia seguinte.
A carruagem que saiu pela porta da cidade de Medici era nada mais que comum. Após deixar a avenida principal, tomou uma estrada secundária, seguindo para o sudoeste por três horas até parar em um trecho quase deserto.
Compton era o cocheiro, enquanto Morpheus adotava uma postura que parecia mais de turista do que de alguém em missão.
Connor Mix já esperava há algum tempo, oculto nas sombras das moitas à beira do caminho. Quando a porta da carruagem se abriu, a primeira a saltar foi a gato de orelhas dobradas, Esfinge, que espreguiçou-se preguiçosamente, demonstrando grande entusiasmo por deixar para trás aquela cidade sufocante. Ela começou a brincar de pegar o próprio rabo. Em seguida, Morpheus desceu sem dizer uma palavra; após trocar um olhar com Connor, imediatamente adentrou a densa floresta.
O pôr do sol.
A sombria floresta parecia interminável, mas Connor, que caminhava à frente, parou abruptamente. Suas asas em forma de morcego se abriram de repente, e sem emitir som algum, alçou voo em direção ao céu. Morpheus pousou a mão no cabo de sua adaga de aço mágico, enquanto Compton permanecia imóvel atrás dele, sem fazer qualquer movimento desnecessário.
— Distância do alvo, número de inimigos, força de combate — perguntou Morpheus sem olhar para trás.
— Quatrocentos e setenta metros em linha reta, doze pessoas, sete com capacidade de combate, três representam ameaça — respondeu Compton, calculando segundo a teoria dos jogos das cartas Masoka. O acampamento à frente, um ponto secreto da seita “Vodu”, era praticamente invisível para os membros comuns do Tribunal dos Hereges. A seita “Vodu” pertencia aos antigos habitantes nativos do Império Sagrado de Gabriel, uma religião ancestral que, embora longa em história, fora gradativamente marginalizada pela Igreja. Connor Mix, um “nativo” com mais de oitocentos anos de vida, conhecia profundamente essa seita; contudo, os orgulhosos vampiros jamais a levaram a sério, considerando-os selvagens que se perdiam em debates doutrinários na floresta. Durante os séculos em que a seita foi caçada pela Igreja, seus membros tentaram alianças para proteção, mas o clã vampírico, dividido após as rebeliões de Ashkandi e a forte repressão eclesiástica, jamais unificou opinião, abortando as negociações.
A figura de Connor reapareceu silenciosamente ao lado de Morpheus, o vampiro de nível conde, dominante na escuridão, falou com respeito e voz baixa:
— Não há emboscadas próximas. São doze à frente. Devemos eliminá-los todos agora?
Com confiança plena em sua habilidade para eliminar um a um aqueles membros do “Vodu”, cujo poder não era notável, Connor aguardava ordens.
Compton também indicava que um vampiro do nível conde na escuridão poderia derrubar facilmente aquele grupo. Porém, Morpheus não escolheu essa abordagem. Após dar uma ordem que surpreendeu Connor, ele avançou sozinho para a escuridão adiante.
No centro do acampamento, uma fogueira queimava calmamente. Algumas silhuetas vestindo roupas bastante simples conversavam baixinho. Sobre a fogueira assava-se meio javali, cujo aroma não era particularmente apetitoso.
A seita “Vodu” jamais possuía um “ninho” ou “quartel-general” fixo, o que explicava por que as perdas deles eram sempre pequenas, mesmo sob a perseguição da Igreja.
Naquele momento, o núcleo de liderança do acampamento era composto por três membros de força mediana: um “curandeiro”, um “invocador” e um “Mossad”. A presença deles garantia que os jovens pudessem dormir tranquilos, sem medo das feras da floresta.
— Doolittle, se isso continuar assim, talvez no próximo inverno precisemos migrar novamente para o norte — disse um dos líderes.
— Então migremos, não é grande coisa. O importante é que as crianças sobrevivam — respondeu o outro.
— Mas se continuarmos assim, em cinco anos nosso número só diminuirá, não aumentará.
— Primeiro sobrevivamos. Se não conseguirmos isso, a continuidade da vida não terá significado — retrucou o primeiro.
A conversa não era animadora. Os dois líderes sentavam-se próximos à fogueira, com expressões severas. De repente, as chamas tremularam levemente, e um homem de cerca de cinquenta anos levantou-se abruptamente.
O homem de meia-idade ao lado, sem perceber o que ocorria, levantou-se confuso e começou:
— Há alguém—
“Pum!”
Antes que pudesse terminar, seu corpo foi lançado para trás com violência, colidindo contra uma árvore a cerca de dez metros, num baque abafado que sacudiu as folhas caídas.
O ancião que se levantara rapidamente ergueu as mãos para se defender, mas uma sombra projetou um punho que acertou seus braços com brutalidade.
Compton, de rosto impassível, desferiu cinco ou seis golpes potentes, sem armas, cada soco atingindo com força e fazendo o ancião recuar. O estrondo dos golpes congelou os demais no acampamento, que ficaram atônitos, incapazes até mesmo de reagir.
Muitos ali eram jovens com pouca experiência de combate, força em torno do nível VII, mas, após ver o ancião ser repelido, alguns finalmente se movimentaram para contra-atacar.
Um homem magro levantou a mão rapidamente, empunhando um bastão de ébano que fez o ar ao redor condensar elementos — diferente da magia de um mago elemental. O chão tremeu levemente e, em seguida, duas vinhas sinuosas surgiram, avançando na direção de Compton.
O ancião, agora transformado, gritou e seu corpo cresceu como um balão. Seus braços secos se cobriram de pelos castanhos densos, seu rosto tornou-se semelhante a um enorme urso, e seu corpo assumiu forma meio-humana, meio-urso. Com força aumentada, ele desferiu uma palma no peito de Compton, que foi lançado para trás.
Compton, ainda no chão após derrubar algumas árvores pequenas, foi imediatamente preso pelas vinhas que surgiram do solo. Apesar de sua força, não conseguia se libertar.
O homem que Compton havia lançado ao chão já se levantava, limpando o sangue na boca. Retirou um bastão da cintura e cravou no chão; uma luz alaranjada brilhou brevemente em sua palma, e o bastão, com belas inscrições, começou a arder, explodindo em uma bola de fogo que avançava contra Compton.
“Totem Flamejante!”
O urso avançou de quatro patas contra Compton, formando uma pinça com a bola de fogo, colocando-o em situação crítica.
No entanto, a entrada de Connor, o vampiro conde, mudou drasticamente a batalha.
Como se saísse das sombras, ele apareceu diante do homem que tentava cravar o segundo totem, dando um chute que o derrubou. A força foi tamanha que quebrou o joelho do oponente e, em seguida, uma palma atingiu a nuca, nocauteando-o. O magro xamã sequer caiu antes de Connor desaparecer novamente na escuridão.
No instante seguinte, o enorme urso que quase atropelara Compton chocou-se contra ele como uma muralha e caiu imóvel.
O homem que invocava as vinhas recitou o segundo encantamento, mordeu o dedo e deixou cair uma gota de sangue. Apontando o bastão para o chão, gritou o feitiço. O solo tremia como ondas e, de repente, emergiu uma enorme píton com duas pontas na cabeça!
Suas listras negras e a cabeça dragãoide, com mais de quinze metros de comprimento e quase um metro de diâmetro, tornavam-na uma criatura aterradora e pertencente à linhagem dracônica inferior, chamada Dragão-Jacinto das Sombras.
Entretanto, um acontecimento dramático mudou o rumo da batalha.
A píton, com olhos vermelhos brilhando no escuro, parecia majestosa ao surgir; suas escamas na cabeça se eriçaram, dando-lhe uma aparência assustadora. Porém, num instante, ela voltou a cabeça, como se sentisse perigo, sibilando e encolhendo o corpo, pronta para o confronto.
Das sombras, um bastão tocou o chão, iluminado pela luz alaranjada da fogueira, revelando uma figura não muito alta.
A Dragão-Jacinto das Sombras, naquele momento, baixou o corpo sem resistência, aceitando a presença da figura, que era Morpheus, agora acompanhado de Esfinge, que retomara sua forma de gato.
Morpheus caminhou tranquilamente até o acampamento. Diante da enorme píton enroscada, ele não demonstrou emoção; apenas tocou a cabeça da criatura com seu cetro, que fechou os olhos como se recebesse uma bênção.
O invocador, pequeno e frágil, que antes comandava tudo, estava completamente perdido diante da cena. Dos doze membros do acampamento, os três mais capazes haviam sido dominados pelos dois vampiros, e os jovens restantes não representavam ameaça.
— Se eu fosse você, largaria isso — disse Morpheus, segurando o cetro com a mão esquerda e sacando uma varinha de madeiro de fênix com a direita. A ponta brilhava ao apontar para uma jovem arqueira que o mirava. Ao ouvir as palavras inesperadas, ela relaxou o dedo na corda do arco, mas a flecha ficou parada — Connor apareceu ao seu lado, segurando a flecha que mal se movera.
Ninguém no local morreu; todos os observadores entendiam claramente a situação.
O ancião que se transformara em urso voltou à sua forma humana, parecendo ser o líder mais influente ali. Cuspiu sangue acumulado e, fraco, perguntou a Morpheus, que permanecia à margem do acampamento:
— Posso perguntar qual é o motivo da sua visita? A seita Vodu, em quase um século, nunca teve inimizades com os vampiros. Por que hoje usar o ataque furtivo?
— Corrigindo, eu não sou vampiro — Morpheus sorriu serenamente, apesar da idade evidente sob a luz da fogueira. — Meu nome é Morpheus, e venho do Tribunal dos Hereges.
Apenas uma frase, e o invocador, que até então permanecia em silêncio, ficou tão assustado que largou seu bastão no chão.