Capítulo Cinquenta e Quatro: Sim, enlouqueci, e o que você pode fazer a respeito?
Hoje teremos apenas uma atualização. Ontem escrevi mais de cinco mil palavras, mas fiquei muito insatisfeito e apaguei tudo para reescrever. Por isso, o capítulo de hoje está um pouco menor, mas ainda assim peço humildemente que adicionem aos favoritos. Quanto aos votos vermelhos, fiquem à vontade; espero que este seja um livro do qual eu não me arrependa, e mantenho minha palavra.
A Academia de Cavaleiros Cósio tem um lema, deixado pelo décimo quarto imperador do Império Bizantino, Solandino I, quando a instituição deixou de ser apenas um campo militar para se tornar uma academia de nobres. Está gravado numa lápide à margem do campo de treinamento: “Despido do poder de seus antepassados, aqui, você é apenas você mesmo.”
Mórfis olhava para aquela lápide, profundamente comovido.
A academia possui mais de dez pelotões, e só de manhã todos se reúnem para as atividades conjuntas; no restante do tempo, as turmas se dividem de acordo com o cronograma. Por exemplo, o sétimo pelotão de Mórfis treina à tarde, enquanto metade dos outros pelotões treina pela manhã. Assim, naquela manhã ensolarada, Mórfis pôde ver praticamente todos os alunos da academia.
Diferente do Império de Ferdinando, onde cada cavaleiro traz seu próprio cavalo, a academia fornece três cavalos militares para que cada aluno escolha um — é claro, nenhum deles é de raça superior. Por isso, naquele imenso campo de treinamento, não havia jovens nobres ostentando sua montaria; todos cavalgavam de modo contido, guiando seus animais com destreza, aprendendo, sob as ordens dos instrutores, as formações essenciais para uma carga de cavalaria.
Todos usavam armaduras de couro para treino e pequenos elmos protetores. Mórfis, que sempre teve talento excepcional para montar, não tinha dificuldades em controlar o cavalo com destreza. Foi então que avistou, entre os cavaleiros do primeiro pelotão — o mais prestigiado, reservado apenas aos mais capazes —, uma figura inesperada: uma jovem, seu peito ligeiramente ressaltado e o porte delicado em comparação aos rapazes ao redor, quase despercebida na formação, mas ninguém ousava dirigir-lhe um olhar além do necessário.
Aquilo surpreendeu Mórfis. Será que a academia aceitava mulheres como alunas?
Após uma noite de meditação, Mórfis sentia-se mais disposto do que após um simples cochilo. Durante o deslocamento do pelotão, manteve-se em silêncio, sem ter como perguntar nada aos colegas próximos, então decidiu ignorar a situação, limitando-se a observar discretamente aquela figura feminina antes de desviar o olhar, sem demonstrar maior interesse.
O treino matinal de rotina não era exaustivo, voltado ao aprimoramento da equitação, muito mais profissional do que o que Mórfis já havia experimentado na Academia de Talrense. Aprendeu ali técnicas desconhecidas, como manter o espaçamento lateral durante as formações e alinhar os cavalos numa carga, parecendo simples, mas na prática de extrema dificuldade. Em uma tropa de mais de cem homens, manter a formação coesa ao penetrar as linhas inimigas exigia esforços que poucos imaginam.
A sintonia do campo de batalha nasce do treino repetido dia após dia.
Quando o sol da manhã começou a aquecer o ambiente, terminou o treinamento e chegou a hora dos cursos livres. Mórfis recebeu uma lista com as diversas disciplinas oferecidas pela academia. O corpulento Covin escolheu “Fundamentos e Avanços em Armas de Haste”, disciplina obrigatória para cavaleiros que desejam aperfeiçoar sua força, abrangendo técnicas de uso de todas as armas de haste, exceto a lança de cavalaria. Hiddink optou por Heráldica, enquanto o gorducho preferiu Teoria Militar, demonstrando interesse pelo estudo da guerra.
Mórfis examinou sua lista por um momento, hesitando, até escolher um curso que lhe pareceu sensato: “História do Sistema de Cavalaria”.
Esse hábito vinha de Della, que sempre colocava livros sobre a história dos sistemas mágicos no topo de suas listas de leitura para Mórfis, convencida de que estudar história ajudava a compreender melhor os conceitos complexos da magia — e isso valia ainda mais para a cavalaria.
Dom Quixote certa vez dissera que o treinamento de um cavaleiro era muito mais complexo do que o de um espadachim.
Embora ambos fossem guerreiros de combate físico, um cavaleiro que tinha o direito de portar uma adaga de aço napolitano possuía sobre a cavalaria um entendimento comparável ao que Della tinha sobre magia. Esse era um dos trunfos invisíveis de Mórfis: sua intuição e instinto aguçados, desenvolvidos desde pequeno, permitiam-lhe sempre encontrar os caminhos mais sensatos.
Mas, ao ver a sala quase vazia, Mórfis percebeu que poucos tinham essa percepção. Lembrou-se do provérbio na folha de rosto do livro “Fundamentos da Teoria dos Elementos”: as pessoas, ao ingressar num novo campo, tendem a mirar a montanha grandiosa e distante, relutando em buscar os caminhos mais acessíveis aos seus pés.
As salas da Academia de Cavaleiros Cósio tinham um ar sóbrio e austero. As cadeiras eram antigas e rígidas, pouco confortáveis. A disciplina não exigia livro-texto, embora fosse possível comprar, numa livraria fora da academia, o volumoso “História do Sistema de Cavalaria de Gels”, custando três moedas de ouro astecas e com mais de duas mil e quatrocentas páginas, das quais um terço estava em língua ferdinense. Isso bastava para desmotivar os alunos, que preferiam apenas tomar notas, já que o professor certamente teria alto nível.
Pelo menos era isso que Mórfis ouvira dizer.
A sala, com capacidade para duzentos alunos, contava com pouco mais de vinte presentes. Mórfis escolheu seu lugar habitual, levantou a cabeça e olhou para a frente.
O estrado era peculiar: em um canto, manequins de madeira exibiam armaduras de cavaleiro de diferentes épocas, desde a cota de malha do antigo Império Siga até a mais refinada armadura de folhas de ferro de Bizâncio. Uma mesa singela servia de púlpito, sobre a qual repousava uma espora de aço forjada por um armeiro de Constantinopla.
A aula era ministrada por um velho coxo, de olhos turvos, parecendo não enxergar quantos alunos havia na sala — o que talvez fosse até melhor, poupando-lhe o desencanto de quem ensinou a vida inteira. Subiu ao estrado com dificuldade e, com voz rouca, começou a lecionar sobre a “Decadência dos Cavaleiros do Império Ferdinando”.
Mórfis ouvia, um tanto distraído, sobre como o sistema de cavalaria daquele imenso império perdera relevância, vítima de sua soberba e estrutura dispersa. Recordou-se das palavras de Dom Quixote, que, embora não pudesse verificar devido à infância distante, sentia que o velho passara muito tempo em Ferdinando e ali conquistara grande prestígio.
Sendo franco, a aula era um tanto monótona, quase uma leitura do livro. Logo Mórfis se perdeu em pensamentos, até que seu olhar encontrou outro par de olhos.
Era a garota que vira pela manhã — para Mórfis, todas as garotas eram mulheres. Não era alta, tinha cabelos castanhos, olhos azul-marinho e traços harmoniosos, mas uma energia marcante, impossível de comparar à dama Nina do baile.
E, ao se encararem, Mórfis percebeu um leve desafio no olhar dela, olhos semicerrados de predadora avaliando sua presa. Aquilo, vindo de uma mulher, surpreendeu-o. Olhar fixo? Mórfis não recuou.
No entanto, ignorou um detalhe: não havia ninguém sentado a menos de três ou quatro metros dela. Apesar da sala vazia, os alunos se agrupavam em duplas ou trios, exceto ao redor daquela moça, de quem todos pareciam fugir como de serpentes. Passaram-se quase sessenta segundos de olhar fixo até que Mórfis, entediado, desviou o rosto para voltar a prestar atenção à aula.
Uma mulher querendo ser cavaleiro?
Que ideia mais insólita.
Neste mundo, os homens sempre tiveram posição superior às mulheres; até a religião assim determinava: “O primeiro homem foi criado pelo Senhor, mas a mulher Eva veio da costela de Adão.” Só séculos atrás, quando os cavaleiros ferdinenses aprenderam o conceito de “romance”, as damas da nobreza passaram a conquistar algum respeito.
Mórfis refletia sobre esses mitos quando percebeu movimento ao lado. Ao virar-se, levantou as sobrancelhas surpreso.
A garota aproximou-se com passos firmes e sentou-se ao lado dele, colando-se sem cerimônia!
Mórfis, sem entender, não notou que os demais alunos já não prestavam atenção à aula; todos fitavam-no, esperando uma tragédia. No centro dos olhares, ele virou-se para encará-la, sem qualquer defesa.
— É novo por aqui?
O tom era autoritário e arrogante, típico de um nobre, mas vindo de uma garota, pegou Mórfis de surpresa.
— Pode-se dizer que sim.
— Sabia — ela, ostentando um brilhante distintivo de Cavaleira-Guardiã de alta patente, assentiu. — Não me reconhece?
— Você?
Mórfis virou-se, surpreso. Essa mulher não seria um tanto excêntrica?
Não era paranoia: ela praticamente colou o rosto no dele — não por afeto, mas num gesto de desafio típico de feras em disputa.
A distância entre os dois era de menos de um centímetro, narizes quase se tocando, olhos nos olhos, como se estivessem prestes a brigar. Mórfis não recuou, ergueu as sobrancelhas e respondeu num sussurro:
— Não me importa quem você é. Agora é hora de aula, não tenho tempo para conversa fiada.
Já estava irritado. No começo, achou tudo absurdo — só porque a olhou algumas vezes, ela queria brigar? Isso não era insanidade?
A realidade, porém, era ainda mais inesperada.
— Pá!
No instante seguinte, diante de todos, Mórfis foi lançado longe!
Voou, derrubando três fileiras de cadeiras, espalhando farpas de madeira podre. Os colegas assistiam com expressão de quem já esperava o desastre e, com pena, olhavam o rapaz soterrado pelos destroços.
Que infortúnio!
— Cof, cof...
Mórfis afastou as cadeiras e mesas, encarando a garota que, agora, estava a cinco ou seis metros de distância, com o semblante subitamente frio.
Aquele golpe não fora fraco. Ele jamais esperava ser atacado em plena sala de aula; hesitou ao ver a perna dela se movendo e, quando tentou se defender, já era tarde. O chute à queima-roupa, fruto de uma força digna de Cavaleira-Guardiã de alta patente, fez de Mórfis mais uma vítima da aluna mais temida da academia — um resultado deveras lamentável.
— Você enlouqueceu? — Mórfis perguntou, irritado, à moça que o atacara sem motivo.
Estavam em sala, não no campo de treinamento, e ele não sentia ter feito nada que justificasse aquilo. Parecia um ataque sem sentido.
— Louca sim, e o que você vai fazer?