Capítulo Trinta: Os Sete Pecados Capitais, O Espectador

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3300 palavras 2026-02-07 18:50:06

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A freira não carregava nenhum tomo pesado, apenas trazia ao pescoço um delicado crucifixo de prata. Segurando o fino colar, ela avançou alguns passos e sentou-se ao lado de Morfeu.
A distância entre ambos não era nem grande, nem pequena, mas para aquela jovem freira era um feito inédito. Com certo nervosismo, seus lábios se moviam em oração silenciosa, buscando acalmar seu coração.

Cada vez mais estudantes se reuniam ao redor, lançando olhares cada vez mais curiosos para Morfeu; ao notarem a presença da freira ao seu lado, começaram a cochichar. No entanto, Morfeu não demonstrava qualquer reação, mantendo-se ereto, com postura impecável, ignorando o burburinho.
A freira tampouco dizia palavra. Talvez fosse a primeira vez que encarava mais de uma centena de estranhos, sequer ousando levantar os olhos, mantendo-os fixos sobre o crucifixo, em uma prece muda.

O velho Tomás de Aquino apareceu pontualmente no púlpito quando soou o sino. Ao notar certa figura entre os presentes, arqueou surpreso as sobrancelhas, sorriu levemente e iniciou a aula do dia.
“Ouvi hoje muitos boatos interessantes. Não sei se já chegaram aos ouvidos de vocês.”
Para surpresa geral, o velho não começou com uma lição de história teológica, mas sim com essa frase de abertura. O resultado foi um silêncio sepulcral, pois ninguém ousou responder.

“Pois bem, até este velho, que só sabe enfiar o nariz nos livros, já ouviu falar. Como poderiam vocês, tão jovens, não saber? É curioso; nos meus quinze anos por aqui, já escutei esses rumores centenas de vezes, sempre em versões um pouco diferentes, mas com o mesmo objetivo.”
A capela permanecia em silêncio, todos atentos às aparentemente despretensiosas palavras do ancião.

“Difamação, calúnia, a inveja entre os Sete Pecados Capitais faz com que, vez ou outra, percamos a razão e a chave para o paraíso.”

As palavras do velho eram suaves, mas retumbavam no íntimo de cada um ali presente.

“Gostaria de perguntar: por que, em idênticas jarras, uns carregam água, leite ou até mel, enquanto outros preferem encher de veneno?” O velho continuou, curvado como sempre. “No fim das contas, a maioria de nós passa a vida inteira repetindo três coisas: enganando a si mesmo, enganando os outros e sendo enganado.”

Em poucas palavras, revelou as incontáveis verdades da vida.

As palavras do velho, como de costume, levavam todos à reflexão. Alguns estudantes baixaram a cabeça, outros cobriram sutilmente os olhos; embora jovens, já haviam testemunhado o suficiente do pequeno mundo escolar para sentir o peso do que acabavam de ouvir.

Era a pura realidade.

A jovem freira ergueu o crucifixo, e Morfeu a observou enquanto ela fazia o gesto litúrgico mais comum do clero. Em seguida, voltou o olhar ao velho no púlpito. Aqueles olhos eram os mais límpidos que Morfeu já vira, como o lago sobre as cataratas de Corlans.

Os Sete Pecados Capitais — nome recentemente instituído pela Igreja, em obra do próprio Tomás de Aquino, “Sobre os Sete Pecados Capitais”, tornando os alunos ali presentes os primeiros de todo o império a terem contato com tal conceito.

O significado histórico disso lhes escapava, assim como a Morfeu.

Após um tempo de reflexão, o velho sorriu levemente e continuou: “A verdade da vida se esconde sempre na simplicidade. Procuramos sem cessar onde está a verdade e, ao mirar o céu estrelado, esquecemo-nos das joias a nossos pés.”

Morfeu abriu lentamente o Antigo Testamento, o olhar carregado de lembranças.

...

Ao fim da manhã, após observar a freira silenciosa afastar-se apressada, Morfeu retornou sem demora ao dormitório, mergulhando novamente nos tomos volumosos, sem esquecer de praticar a esgrima que Dom Quixote lhe ensinara, bem como as técnicas de justa.

O tempo era comprimido até o extremo; a vida eficiente era o maior credo de Morfeu. Sua grande mesa, abarrotada de grimórios, ainda deixava à mostra um pergaminho afixado na parede para sua auto-reflexão:

“Se almejas o eterno, deves dominar o presente.”

No décimo dia, Morfeu despertou de um breve repouso, alongou-se e, após girar a inseparável adaga de aço mágico, embainhou-a, respirou fundo e pegou o livro que Clive, pontualmente, lhe devolvera. Com mais quatro volumes, desceu para fora do dormitório.

Clive apareceu inesperadamente do lado de fora, sorrindo ao tomar a maior parte dos livros. “Gostaria de conhecer seu mestre.”

“Não faço promessas.”

“Mas vale a tentativa.”

O franzino Clive segurava com dificuldade o pesado “Sobre a Composição e Transformação dos Elementos”, acompanhando Morfeu.

Ao sair da Academia Tarens, Morfeu caminhava como de costume, mas notou presenças discretas ao redor, quase imperceptíveis para qualquer um. Não era o conhecido mestre-espadachim Guevara, mas outros, igualmente habilidosos.

Não eram assassinos. O fato de Guevara não intervir provava que eram protetores, guardiões de alguém — certamente do pequeno ao seu lado.

O sol brilhava, mas a torre onde morava a feiticeira Daila era sombria.

A torre, com o aviso de “Proibida a entrada”, ostentava um aspecto lúgubre. Ninguém sabia ao certo quem era a moradora solitária, nem mesmo Morfeu, que agora adentrava o local.

Para Morfeu, a única impressão deixada por sua fria mestra era “poderosa”, “misteriosa”. Caráter? Não lhe importava — desde que ela lhe concedesse poder, o resto era irrelevante.

Seja uma adaga mágica ou uma espada de ferro ordinária — desde que pudesse matar um javali, era uma boa lâmina.

Sua obstinação pela magia não era mero capricho; devia-se tanto à sua ignorância sobre o tema quanto à imprevisível mente de Dom Quixote, que o lançara a tal caminho.

Claro que a força aterradora de Daila marcara Morfeu profundamente. Ao abrir a porta de madeira, encontrou uma cena cruel, mas não inesperada.

Desde o primeiro dia em Tarens, Morfeu sabia que poderia ser alvo de atentados a qualquer momento. Na primeira vez, escapara por pouco de uma flecha traiçoeira. Depois, tudo pareceu silenciar. O lendário rival, a família Cristóvão, inimiga mortal dos Windsor, realmente permitiria seu florescimento livremente?

Impossível. Ao entrar neste aposento, percebeu de imediato o cheiro de sangue no ar — e sua mestra, claramente, não era a assassina. Quanto à vítima azarada, Morfeu não se preocupava em saber quem era, certo de estar correto em sua análise.

A cena de hoje confirmava sua suspeita.

O interior espaçoso da torre tinha formato circular; uma metade era ocupada por seis estantes altas, a outra por uma janela, cama e escrivaninha simples. No centro, uma área circular vazia, normalmente desocupada. Quando Morfeu entrou, no espaço onde costumava responder perguntas, jazia uma figura pálida.

Asas de morcego negras se abriam e tremiam, o rosto exangue, os dentes afiados denunciando sua identidade — um vampiro.

Vestia trajes nobres, com anéis dignos da aristocracia. Mas a figura caía ao chão em estado lastimável, como se tivesse sido carbonizada, as roupas chamuscadas, exalando cheiro de queimado.

“Caçadores de recompensa da família Gondoslan terem a ousadia de invadir a Academia Tarens… será que é mesmo verdade que vossas cabeças estão cheias de moedas astecas, como dizem as lendas?”

A voz de Daila era fria, sentada de pernas cruzadas na única cadeira do recinto, sem sequer olhar para Morfeu ou Clive. Nas mãos, um pequeno volume — um manuscrito de “Os Mistérios do Sagrado”, com o nome do autor apagado, pois era alguém capaz de enfurecer tanto o patriarca de Bizâncio quanto o próprio Papa Gabriel.

O vampiro no chão parecia à beira da morte, envelhecendo visivelmente; os cabelos castanhos perdiam o brilho, tornando-se palha, o rosto empalidecia ainda mais. Mas, teimoso, não morria. Virou a cabeça com esforço, fixando as pupilas dispersas em Morfeu, cuja mão repousava sobre a adaga.

“Hah… hah, covarde dos Windsor, tu verás com teus próprios olhos tua descida ao abismo!”

Com essas palavras, gastou as últimas forças; o peito arfou duas vezes, e o vampiro, de grau desconhecido, não se moveu mais.

“As velhas famílias sempre colecionam inimigos. Um nobre sobreviver à maioridade em meio a tais ameaças já é uma façanha.”

Daila voltou-se para Morfeu. “Não te prometo nada. Se morreres, não sentirei tristeza nem remorso. Lutar contra o destino é tarefa só tua; eu serei sempre a espectadora que jamais estende a mão.”

“Entendido, mestra.”

Morfeu não desperdiçou palavras, curvou-se com respeito habitual.