Capítulo Três: O Mordomo da Mansão do Duque

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 2943 palavras 2026-02-07 18:49:24

Não se esqueça de clicar em “Adicionar aos favoritos”, esse é o maior apoio que você pode me dar. O capítulo setecentos e quatro de “Restos de Dragão” foi atualizado há uma hora nos materiais relacionados à obra, leitura gratuita.

----------------------------------------------------------------------

Morfeu exalou profundamente, o sangue em suas mãos era viscoso e escorregadio, tal qual as presas que já caçara antes. A força repentina não lhe pareceu estranha ou desconfortável; Morfeu sabia que isso não era um bom sinal, pois nunca acreditara que moedas astecas caíssem do céu sem motivo. Este mundo sempre foi justo: no momento em que a deusa da fortuna lhe sorria, sua irmã gêmea, a deusa do infortúnio, costumava rir sarcasticamente pelas costas.

Em silêncio sobre o lago de sangue, o corpo magro de Morfeu estava nu da cintura para cima, as runas negras e as mãos ensanguentadas transpiravam uma maldade e violência só encontrada nos hereges. Seus olhos, ligeiramente perdidos, fixaram-se por um instante no cadáver aos seus pés, logo recuperando o foco.

O som de cascos ao longe se aproximava cada vez mais, até cessar abruptamente. Será que tudo o que viveu hoje já não era suficiente? Ele virou-se, franzindo levemente a testa, em alerta para quem se aproximava.

Um cavalo negro, discreto, permanecia imóvel; era um puro-sangue militar, de características que Morfeu sabia serem raras em todo o condado de Hook. O homem que saltou do cavalo tinha cabelos grisalhos perfeitamente penteados e vestia um manto preto e cinza, aparentemente insignificante, mas distinto dos missionários que vagavam entre as aldeias. O tecido, com um leve brilho, era luxuoso, impossível para famílias comuns.

Impecável: essa era a única impressão de Morfeu. Nunca vira alguém assim em sua aldeia, tampouco conhecia o preço exato de roupas tão caras — abaixou-se em silêncio para recolher a adaga que o assassino segurara até a morte, deixando clara sua postura.

O estranho, contudo, não demonstrava hostilidade. O ancião, aparentando mais de cinquenta anos, caminhou com firmeza em direção a Morfeu, parando a dez metros dele, como se não visse os corpos no chão, mas admirando as runas mágicas no corpo do rapaz, murmurando elogios.

“De fato, um jovem diferente.”

O sorriso do velho era cálido como o sol.

Sua voz era grave e desprovida de agressividade, como um murmúrio distraído; apesar da idade, mantinha-se ereto como um pinheiro. Suas mãos, calejadas, não pareciam rudes; no punho, um brasão delicado, postura exemplar. Regras — algo distante de Morfeu, que sempre vivera num mundo quase selvagem, sem limites, onde normas jamais o haviam restringido desde o nascimento, como se o destino o tivesse amaldiçoado. Mas agora, tudo tinha mudado.

“Senhor Morfeu, talvez nosso encontro tenha algo de casualidade, mas posso garantir que não cheguei tarde demais. O sangue da família Windersol manifesta-se de forma admirável em você. Permita-me apresentar-me primeiro.”

O ancião curvou-se elegantemente, o gesto preciso como uma régua, voz firme e clara.

“Pafa Reno, mordomo do ducado da família Windersol, pode me chamar apenas de velho Pafa.”

Morfeu apertou ainda mais a adaga em sua mão. Ninguém podia afirmar se tudo aquilo era uma armadilha; mesmo com apenas quinze anos e tendo pisado menos estradas do que certos velhos conspiradores, não se permitiria confiar facilmente num estranho num mundo cheio de perigos.

Além disso, os dois cadáveres no chão já provavam que a situação era mais complexa do que parecia.

Confiança não se deve ter em excesso; os mortos pela traição e credulidade já cobrem toda a história do Império e da humanidade. Morfeu recuou um passo, preparando-se para atacar sem cerimônia.

Dez metros: uma distância curiosa, nem demasiado hostil, nem afastada demais. Pelo menos naquele descampado, a trinta metros da floresta, Pafa Reno mantinha-se numa posição que deixava Morfeu em dúvida — atacar ou recuar?

Pafa Reno respondeu por ele.

O ancião, que até então permanecia imóvel, ergueu repentinamente o braço e, à distância, fez um gesto em direção ao torso nu de Morfeu — algo pareceu relampejar no ar, seguido de um estrondo!

Morfeu foi lançado como se atingido por um raio, voando sem peso! Girando no ar, conseguiu, com esforço, cair como um felino, apoiando-se nos quatro membros, em posição desajeitada, os olhos fixos no velho, escondendo seu espanto.

Jamais se deve mostrar medo ao predador, senão a morte chega mais rápido.

“Não quis ofender, apenas lhe dei um motivo para ouvir o que tenho a dizer,” o velho Pafa curvou-se humildemente, sem se preocupar em se inclinar diante de um garoto, “acredite, senhor, se eu quisesse matá-lo, não precisaria de um segundo ataque. Embora sua força já lhe permita enfrentar um espadachim avançado, para mim não é digno de nota.”

As palavras duras, como água gelada, acalmaram a mente de Morfeu, que se ergueu lentamente, sem dizer nada, apenas exibindo suas runas mágicas diante de Pafa.

“Talvez nunca tenha ouvido esse sobrenome antes, mas a partir de hoje, ele acompanhará sua vida de glórias.” O velho Pafa anunciou, sem hesitar, a notícia que mudaria para sempre o destino de Morfeu: “Morfeu Windersol, filho do duque Alcar de Windersol, seu fiel mordomo lhe traz uma mensagem de seu pai, o duque.”

Morfeu permaneceu em silêncio, como um mudo.

Desde que fugira da praça de Hook, o rapaz não pronunciara sequer uma palavra.

“O duque Alcar de Windersol reconheceu sua filiação, e agora, você deve retornar a Constantinopla com seu mordomo, longe de todos os possíveis perigos.”

Morfeu não se moveu; apenas a longa adaga em sua mão tremeu ligeiramente.

Soa absurdo: um nobre duque da capital do Império de repente diz que é seu pai, tal como a súbita força que Morfeu manifestara. Nada disso lhe parecia motivo de celebração — recuou um passo, respondendo com voz rouca e baixa:

“Eu recuso.”

Sem hesitação, sem surpresa, apenas uma recusa suave, desprovida de emoção, que fez o velho mordomo olhar com seriedade: era difícil imaginar o que esse jovem suportara para se tornar tão alheio ao mundo.

“Embora seja o jovem senhor do ducado, só posso cumprir as ordens do duque.”

Pafa olhou ao redor, tudo ainda silencioso, mas para ele, nada era tão simples quanto parecia.

Morfeu continuava impassível, porém por dentro era um turbilhão de confusão — diante da súbita mudança, um jovem que nunca lidara com tais assuntos não reagiria com a calma de nobres experientes, mas um velho que aparece do nada com poucas palavras não poderia desestabilizá-lo tanto.

Ele rememorava o que o velho de Nair Village lhe dissera.

“Talvez devesse pensar melhor; creio que o duque não gostaria que eu o amarrasse para levá-lo de volta — isso seria indigno de um nobre.” O autoproclamado mordomo Pafa falava mais do que o esperado, mas, sob a leve ironia, havia sinceridade que Morfeu podia perceber, embora não estivesse disposto a confiar assim.

“Agora vou voltar para Nair Village.”

Após um longo silêncio, Morfeu pronunciou sua segunda frase, recuando alguns passos. O velho mordomo curvou-se levemente, como se respeitasse sua decisão; Morfeu virou-se, mantendo Pafa em seu campo de visão, e correu até desaparecer na densa floresta ao redor de Hook.

Pafa nunca ergueu a cabeça; só quando Morfeu sumiu entre as árvores, endireitou-se lentamente.

Parecia mesmo um exemplo de alguém que se agarra a certos princípios até a obstinação.