Capítulo Setenta: O Palhaço nas Sombras

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3485 palavras 2026-02-07 18:51:39

Não haverá recomendações esta semana, então hoje trago apenas um capítulo. Se os votos vermelhos ultrapassarem quinhentos num só dia, haverá capítulo extra. Continuo indo ao laboratório realizar experimentos, peço que todos tenham paciência.

Três crianças o fitavam, atônitas.

A adaga desapareceu na palma de Morfeu, esse jovem nobre do topo da hierarquia imperial, que também fora outrora o mais hábil caçador das selvas de Vila Gancho, continuou: “Com a mesma moeda de prata, cabe a você escolher: comida ou uma arma.”

Ao pronunciar essas palavras, Morfeu apontou para o eterno edital de recrutamento na periferia – para se juntar à milícia local bastava trazer seu próprio armamento; apenas os melhores, após treinamento, recebiam armas oficiais. A idade quase não tinha restrição, pois sempre faltavam homens.

Lutar ou permanecer estagnado, essa questão para muitos era envolta em névoa até ser posta em palavras.

Quando Morfeu deixou aquela parte da periferia na qual entrara por acaso, os três meninos, cada um segurando sua moeda de prata, permaneceram imóveis por um momento, antes de correrem, enlouquecidos, até a ferraria mais próxima.

Talvez uma moeda de prata só desse para comprar uma espada de treino enferrujada, mas, neste mundo, para realizar algo, muitas vezes bastam dois passos: dar o primeiro, e então o seguinte.

Contudo, ao sair dos bairros pobres, Morfeu franziu o cenho ao ver uma patrulha correndo apressada pela rua ainda movimentada. Quando soldados correm em patrulha, é certo que algo aconteceu. No fim do horizonte, uma casa simples era o epicentro. O choro ecoava à distância, sinal inegável de desgraça.

Aproximando-se, Morfeu não se deparou com nenhuma cena de nobre vilão oprimindo inocentes, mas sim com soldados carregando para fora o corpo de um homem. Já estava morto há algum tempo, o rosto enegrecido e inchado, a boca arreganhada, traços já irreconhecíveis devido à decomposição. O fedor obrigava os vizinhos a se afastarem. Um rapaz de cerca de vinte anos tentava, em vão, conter a mãe que chorava desesperada, o rosto marcado por emoções complexas.

O peito do morto exibia uma ferida aberta, evidência clara de assassinato. Os guardas colocaram o corpo na carroça e logo limparam o local. Morfeu não tinha o hábito de se intrometer e já ia se retirar quando ouviu murmúrios ao redor que o fizeram parar.

“O velho Jorge morreu na noite da lua cheia, já é o terceiro!”

“Todo mês, alguém morre na lua cheia? Será uma maldição...”

“A guarda já investigou várias vezes, mas nunca encontra pistas.”

Essas poucas palavras bastaram para que Morfeu deduzisse o único fator possível: lobisomens. Essa raça subterrânea, dotada de força sobre-humana e capaz de se transformar sob a lua cheia, estaria agindo nos domínios de sua família?

Embora batizado pessoalmente por Aquino, Morfeu não era membro do Tribunal Sagrado. Aquela imensa instituição não se limitava a padres de manto negro. Em termos de matança, muitos plebeus poderiam pensar que cavaleiros e soldados eram os que mais combatiam no continente, mas, segundo registros parciais da Sé Patriarcal e da organização “Dogma”, os confrontos secretos travados entre os tribunais sagrados de Bizâncio e Vaticano superavam em dez vezes as disputas territoriais declaradas.

Os conflitos religiosos não se resumiam aos debates de Aquino no “Contra os Hereges” com bispos do Vaticano; lutas sangrentas e cruéis aconteciam nas sombras, com tanta frequência que os túmulos para mártires já superavam em número os soldados mortos em guerra no Cemitério de Santo Angrel.

E, claro, muitos nem sequer deixavam para trás ossos.

Morfeu não pretendia se meter em tudo; apenas anotou mentalmente o estranho ocorrido em seu território e se afastou, sem chamar atenção.

Ao voltar ao palácio ducal, Morfeu parou diante da entrada do castelo e, entre as esculturas, logo encontrou o lendário e temido patriarca – Ezur de Vento Solar.

Diferente das pinturas impressionistas de traços borrados, Ezur, imortalizado em escultura, destoava dos demais: não trajava pomposos trajes nobres, mas um simples manto negro, no peito apenas um solitário brasão de íris púrpura, em contraste com os outros, ostentando uma coleção de medalhas como se fossem vitrines. Sua expressão era ambígua, quase um sorriso, o olhar distante, semelhante ao de Morfeu, corpo magro, contemplando o horizonte, como se ainda meditasse sobre a glória da família.

Na lápide sob seus pés, a primeira frase já bastava para torná-lo inesquecível: “O único herege, na história de Bizâncio, a entrar no Tribunal Sagrado e sair vivo.”

Mestre alquimista, mestre ferreiro, mago supremo, herege julgado e absolvido pelo próprio Patriarca, o mais louco da história imperial, aquele que ousou clamar “danço com Deus” sem temer o julgamento do Tribunal!

Um patriarca de feitos assombrosos, que imperou arrogantemente por décadas sem jamais mudar, recusou usar magia para prolongar a vida e morreu em paz, não assassinado por revides impossíveis – um verdadeiro milagre.

A lápide não comportava toda sua vida lendária, mas trazia uma última frase de profundo significado: “No submundo, sua influência não era menor que a do Príncipe Guilherme.”

O autor da “Crônica dos Sangue-Marcus” mencionou já no primeiro parágrafo do capítulo oitavo, “Grandes Líderes do Clã Sanguíneo”, esse nome – Guilherme de Cremont. Após a fragmentação da aliança sanguínea há mil anos, Guilherme manteve o controle sobre quase um terço dos clãs de sangue, liderando a Casa Cremont por mais de oitocentos anos, sendo considerado um príncipe de poderes tão avassaladores que, segundo algumas evidências, já teria atingido o nível de “Monarca” entre os senhores das trevas.

Não era mais alguém que um Santo da Espada ou um simples Cavaleiro da Távola Redonda pudesse enfrentar. Morfeu, embora não tivesse ideia do real poder de tais titãs, pois nunca presenciara uma batalha entre verdadeiros mestres, sentiu-se tomado por reverência ao ler essa última inscrição, vendo o patriarca com novos olhos.

Um verdadeiro titã de sua era.

Durante o jantar, o velho duque parecia saber tudo que Morfeu presenciara naquele dia, e, sem que o neto tocasse no assunto, falou: “Já mandei investigar o ocorrido no território. A hipótese de lobisomens é forte, embora nada surpreendente. Esses animais têm se contido; nos tempos de Ezur, ele mesmo decapitou mais de cem lobisomens. Os inimigos que os Vento Solar enfrentavam naquela época eram muito mais ferozes que hoje.”

Morfeu podia imaginar o quão brutal fora este castelo ao enfrentar invasores, algo impensável em tempos de paz.

“De onde eles vêm?”

“Do subterrâneo”, respondeu o velho duque, sem acrescentar mais.

De volta ao quarto, Morfeu abriu um livro que sempre carregava consigo. Não sabia se fora escolha intencional de Daila, mas entre os novos volumes havia “O Bobo nas Sombras”, capa metálica negra, repleta de aura gótica. O conteúdo estava intimamente ligado ao que logo teria de enfrentar, e Morfeu não duvidava que tamanha raridade, adquirida a custo do velho mordomo, bastaria para que o Tribunal o acusasse de vários crimes.

Diferente do sucinto “Breve História dos Hereges”, esse livro sem autor trazia os nomes e histórias dos líderes de todos os grupos e seitas heréticas que enfrentaram os tribunais bizantino e vaticano ao longo de oitocentos anos: clãs do sangue, lobisomens, as mais de dez divisões dos xamãs, a guilda dos titereiros chamada “Descanso”, a seita de Loki do extremo norte devota à deusa das neves, entre quase mil outros líderes, em detalhes impressionantes.

Inimigos?

Morfeu não era ingênuo a ponto de ver todos na lista como adversários. Não se via como fanático religioso; a elegância dos nobres podia ser chamada de “saber se adaptar ao vento”, mas Morfeu já aceitara seu papel: herdeiro da Íris Púrpura, não um caçador perdido na floresta nem uma máquina de guerra.

Ao abrir o tomo antigo – só a menção de seu conteúdo poderia matar de susto –, Morfeu buscou de imediato a seção dos lobisomens e percebeu que, em comparação com clãs sanguíneos e xamãs, havia pouquíssimos registros sobre eles.

Quanto à história dos lobisomens, o livro nada detalhava; apenas mencionava que, por séculos, eles tentaram derrubar o domínio dos vampiros – e até tiveram algum sucesso.

O outrora poderoso Clã Cremont, pertencente ao Sacro Império de Gabriel, se desintegrou após um desastre. A atual Casa Cremont, embora longe do antigo apogeu, ainda era a única força sanguínea forte o suficiente para desafiar o império, e a rebelião dos lobisomens começou justamente ali, culminando na fuga de quase metade dos lobisomens escravizados, dando início a um século de conflito incerto.

Quanto ao poder dos lobisomens, Morfeu notou que o livro adotava um sistema de classificação baseado em antigos numerais de Sica, similar ao sistema de títulos atual: os guerreiros, cavaleiros e magos de menor grau eram de nível “x”, o décimo, e a escala subia gradualmente. Cavaleiros médios e espadachins superiores eram “ix” e “iix”; magos de grande poder eram de nível “i”; acima disso, usava-se letras do antigo alfabeto.

Pela escala, Morfeu situava-se entre cavaleiro de elite e grande cavaleiro, em torno do grau “vi”, ainda distante do nível “i” dos Santos da Espada e Grandes Magos. Já os líderes dos lobisomens, segundo o livro, não tinham nenhum abaixo do grau “i”, estando todos acima do nível dos lendários Santos da Espada. Em especial, um nome se destacava: Ashkandi, um lobisomem tão poderoso classificado com a letra coroa, “Ω”. A descrição era assustadora: “Talvez nunca mais surja um lobisomem tão forte quanto Ashkandi. Um ser capaz de fazer três entre cinco duques da Casa Cremont caírem diante de si. O desafio de Ashkandi ao Príncipe Guilherme é considerado o evento mais chocante do continente desde o assassinato do terceiro papa de Roma. Embora tenha fracassado, não foi morto, mas selado no caixão de sangue pelo método mais cruel. Seu paradeiro permanece desconhecido.”