Capítulo Dois: Runas Mágicas e Silhuetas
O som de cascos de cavalo ao longe tornava-se cada vez mais nítido. Morfeus franziu o cenho; o rapaz, tão à vontade na selva, possuía uma sensibilidade extrema para distinguir animais de grande porte como cavalos. Apenas com o ritmo e a frequência dos cascos, ele conseguiu deduzir a espécie aproximada do animal e o nível de perícia do cavaleiro... Um especialista!
Morfeus não sentia curiosidade suficiente para desejar saber a verdadeira identidade daquele cavaleiro. Calculou rapidamente sua posição mentalmente. Havia estado em Hooktown apenas uma vez, aos doze anos, mas virou-se e seguiu pelas sombras do beco como se fosse um habitante de longa data. Dobrou quatro esquinas, atravessou um mercado movimentado e chegou à periferia da cidade.
Por sorte, chegou a tempo. Os guardas de Hooktown ainda não haviam iniciado buscas e bloqueios rigorosos. Morfeus respirou aliviado e observou ao redor: além de dois bois amarelos pastando calmamente, tudo estava em silêncio, uma paisagem típica de um canto esquecido.
Fora de Hooktown, uma floresta pouco densa se estendia. As trilhas eram estreitas e levavam a todos os cantos do condado. Apenas a estrada de terra para sudeste parecia larga, levando ao centro do Império – de onde, aparentemente, vinham os cascos que havia escutado.
Morfeus saiu andando da cidade, cauteloso, olhando para trás para se certificar de que não estava sendo seguido. Então, começou a correr em direção ao bosque. Mas, após poucos passos, desacelerou.
Uma silhueta surgira atrás dele, onde antes não havia ninguém. Morfeus percebeu que o estranho havia passado despercebido por seus sentidos aguçados, sem ruído algum; certamente não era alguém comum.
E a intenção do adversário se confirmou no instante em que Morfeus virou rapidamente o corpo: uma longa espada já descia em sua direção!
O corpo de Morfeus se retesou. De ponta dos pés, ergueu-se como uma louva-a-deus. A lâmina desceu, mas, por um triz, cortou apenas o ar, roçando o peito de Morfeus, que girou para o lado.
Diante dele, um homem trajando o uniforme da guarda de Hooktown o mirava friamente. Não era mais forte que a média, mas trazia no pulso uma braçadeira de ferro marcada pelo desgaste — sinal de um espadachim experiente. No Império, apenas duelistas treinados usavam tal proteção; a braçadeira era o acessório típico de quem empunhava uma espada leve de grifo.
Isso indicava que o adversário tinha formação clássica em esgrima imperial — estava longe de ser um simples guarda de vila.
Após esquivar-se, Morfeus investiu contra o espadachim, sem sequer fechar os punhos. Seu corpo magro explodiu em fúria selvagem, a energia de um predador feroz, impossível para um homem civilizado.
Sete anos vivendo na floresta haviam mantido Morfeus à margem da sociedade — não por escolha própria, mas porque fora conduzido a esse caminho pelo velho que o levara à selva.
Seus punhos não buscavam exibir força letal, mas miravam pontos vitais. O adversário bloqueava sem hesitação, manejando a longa espada com destreza mesmo no combate corpo a corpo. Mas não esperava que aquele rapaz de aparência comum fosse um perigo tão grande...
A pele pálida de Morfeus, exposta pelos movimentos, evidenciava mãos ossudas e calejadas. De repente, ele fechou o punho e golpeou o meio da lâmina!
O espadachim jamais imaginou que alguém atacaria uma espada com os próprios punhos. Um som metálico ecoou; a lâmina se dobrou para o lado, abrindo passagem para o punho livre de Morfeus, que acertou o abdômen do adversário.
Porém, o espadachim não era um novato. Rápido, aceitou o risco de levar um segundo soco e, com o cotovelo, acertou as costelas de Morfeus, que recebeu outro golpe sob a axila e foi lançado para longe, como um lobo feroz arremessado pelo impacto.
O espadachim, apesar de não possuir a força sobrenatural do bandido Wade, era alguém de habilidades e vigor raros. Morfeus, pesando menos da metade do rival, foi lançado três metros, evidenciando a diferença de força entre ambos.
Morfeus atacava como predadores ágeis, mas frágeis: se a primeira investida falhasse, fugir era o único caminho. Enfrentar diretamente não era sua especialidade. Usando o impulso do golpe, rolou no chão e, antes de se levantar, já disparava de quatro em direção à mata.
A floresta era seu território. Jogar com suas vantagens era sempre sua estratégia. Em poucos metros, já deixava o espadachim para trás, mas, de repente, Morfeus ergueu a cabeça e rolou para a direita.
Uma adaga cravou-se silenciosamente no solo ao seu lado, prendendo sua túnica ao chão. No movimento, o tecido rasgou-se ruidosamente.
Outro inimigo!
Morfeus levantou-se, mas não tentou fugir. Sabia que perdera a melhor chance de escapar dali. Não importava como o oponente das sombras se escondia; Morfeus já enfrentara lobos cinzentos, assassinos invisíveis da floresta, que deixaram cicatrizes profundas em sua coxa. Aprendera a desviar ataques mortais, mas sabia que até ele podia falhar.
Arrancando os restos da roupa barata, expôs os músculos definidos ao ar. Respirava calmamente, olhar frio, estudando a situação.
Abaixando o centro de gravidade, mostrou aos dois adversários uma rede complexa de marcas negras nos braços e nas costas. Ambos arregalaram os olhos.
As linhas negras, quase proibidas, formavam um padrão estranho e intricado no centro das costas de Morfeus, semelhante a um cetro negro.
Talvez as marcas em sua pele fossem a confirmação que ambos esperavam. Os dois trocaram um olhar e atacaram juntos, enquanto Morfeus continuava desarmado.
Naquele momento, as linhas negras pareciam brilhar subitamente.
Por um instante, Morfeus hesitou ao sentir uma dor lancinante dentro do corpo, quase não conseguindo esquivar da lâmina e da adaga. Com um movimento quase impossível, desviou-se de ambos, acertou o espadachim na cintura com o pé, tentou golpear o assassino, mas este escapou e revidou com o cotovelo no peito de Morfeus. O impacto travou seus movimentos e ele foi cortado nas costas pela espada.
O sangue escorreu pela ferida aberta, mas imediatamente algo mudou.
As linhas negras nas costas de Morfeus, mais enigmáticas que os círculos mágicos dos magos elementais, tornaram-se rubras ao contato do sangue, como ferro em brasa.
O sangue trazia sempre mais que força. Como nos jogos de poder ocultos no continente, grandes conspirações nasciam de passos aparentemente insignificantes.
Talvez tenha se passado muito tempo, talvez apenas um instante, mas o grito de dor de Morfeus ecoou por toda Hooktown e cessou abruptamente.
O vento soprou, parando momentaneamente ao lado de Morfeus.
Ao abrir os olhos novamente para encarar os inimigos, Morfeus já não era mais a presa resignada ao sacrifício.
Doze linhas negras envolviam seu corpo, brilhando em vermelho sangue. A mais tênue, na extremidade, estava desaparecendo — como se uma porta selando uma besta estivesse enfraquecendo, enferrujando, até sumir...
Com um golpe, Morfeus agarrou o pulso que empunhava a adaga, bloqueando a espada do outro adversário com firmeza. O espadachim sentiu uma força descomunal no braço, quase deixando a espada cair.
Sem tempo para sentir dor, o espadachim foi lançado para trás por um chute brutal.
Um poder aterrorizante!
O espadachim, atônito, não podia acreditar que o jovem, em desvantagem total segundos antes, tornara-se alguém a quem até ele deveria temer.
Especialistas reconhecem-se num gesto; bastou um chute para que costelas se partissem e órgãos internos se deslocassem — um golpe fatal.
A adaga do assassino reluziu em direção à garganta de Morfeus, mas ele, mais rápido, segurou-lhe o pulso e, com um movimento seco, quebrou-lhe o osso.
Para Morfeus, força era uma busca incessante — não pelo prazer de controlar vidas, mas pela simples necessidade de sobreviver num mundo hostil.
Sobreviver — objetivo simples, mas para alguns, quase inalcançável.
O espadachim tombou, sangue escorrendo pelos lábios, a espada firme na mão, mas já incapaz de lutar. Via ao longe o jovem que, com destreza, quebrava o pescoço do cúmplice. O frio invadiu-lhe o corpo.
Aquele rapaz... talvez um dia deixasse de ser considerado humano. Havia inúmeros prodígios no continente — alguns se tornavam mestres em esgrima antes dos vinte, outros recebiam a insígnia dos magos antes dos trinta. Morfeus, no entanto, não exibia nada extraordinário, exceto a frieza e o silêncio que o separavam dos demais.
O coração batia cada vez mais lento. Antes que suas pupilas se dilatassem por completo, lembrou-se do ensinamento do mestre:
“Só ao se aproximar da morte, é possível compreender verdades que jamais serão acessíveis aos outros.”
Talvez ele fosse, de fato, o mais próximo da morte entre todos.