Capítulo Quatro: O Murchar da Íris Púrpura

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3874 palavras 2026-02-07 18:49:26

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Como um mordomo exemplar, Parfaleno era, sem dúvida, uma figura indispensável no Ducado. Que um acontecimento de tamanha importância o fizesse cavalgar por três dias desde a capital imperial, Constantinopla, até este pequeno condado na orla do Império, já dizia tudo sem necessidade de palavras.

Abaixo do Príncipe, nenhum título superava o de Duque em prestígio. Portando uma linhagem que remontava a mais de quinhentos anos de tradição, o sobrenome “Windsor” era, sem dúvida, o mais ilustre entre a nobreza, uma referência silenciosa que os demais aristocratas do Império admiravam com reverência.

Em meio milênio, membros dessa família conquistaram metade das terras do Império com punho de ferro, escreveram tratados como “O Príncipe”, tornaram-se magos dignos de figurar nos Arcanos Maiores do Tarô Merlin... Em outras palavras, a “Lista de Honra Imperial” dos Anais Bizantinos ostenta pelo menos cinco representantes da casa Windsor.

Glória que ofusca até o trono? Privilégio insuperável?

Como se fosse uma ironia do destino, este antigo clã agora se vê à beira da extinção. O duque Windsor, embora não fosse idoso, já cruzara o marco dos cinquenta anos—idade em que, para um Santo Guardião da Espada Imperial, capaz de ostentar a Cruz da Espada Érica no peito, a força física começava a declinar. Mas não era esse o maior motivo de suas apreensões: numa sequência de assassinatos políticos, todos os seus herdeiros haviam sucumbido, tornando-se vítimas do poder.

Atingido pelo desespero, o duque chegou a cogitar, sob a máscara de sempre, se não deveria pedir perdão suicidando-se diante dos retratos dos ancestrais. Mas uma carta reacendeu-lhe a esperança—o duque, outrora galanteador na juventude, descobriu que tinha um filho ilegítimo ainda vivo, perdido em um remoto vilarejo do Império!

Ninguém, além do próprio duque, sabia a origem dessa carta. E ninguém seria ingênuo o bastante para questionar a veracidade da notícia. Quando o velho mordomo, inseparável do patrão, deixou a mansão à noite, todos entenderam—o duque estava apostando tudo.

Ninguém podia prever se os inimigos do duque chegariam primeiro e eliminariam o bastardo, que nunca sequer vira o pai, perdido nos ermos. O clima gélido do Ducado era sufocante, causando pesar até ao velho mordomo.

Na noite em que Morfeu se despediu de Parfaleno e adentrou a floresta, o prefeito de Hook e sua amante foram encontrados mortos em sua cama, e a quadrilha de ladrões encontrou igual destino—juntamente com toda a guarda local.

Assim era a política: o Império não indagaria por que uma guarnição de soldados de uma vila distante foi executada em massa, nem investigaria o motivo do assassinato de um prefeito desconhecido. Tais fatos talvez servissem, no máximo, como temas triviais durante jantares da nobreza, logo substituídos pelo sabor do foie gras ou caviar.

Os Anais Bizantinos estão repletos de nobres mortos em intrigas políticas e linhagens extintas. Dos clãs militares fundadores do Império, apenas a linhagem pura dos Windsor sobrevivia.

Agora, a íris púrpura que ornamentava o brasão dos Windsor ameaçava murchar.

Toda esperança repousava nos ombros do velho Parfaleno—que, naquele instante, permanecia imóvel sobre uma colina, observando o vilarejo de Nair antes da aurora.

Atrás do mordomo, erguiam-se guardas de estatura imponente, silenciosos e dotados de uma aura poderosa. Armaduras leves de prata de Milão, pesadas e refinadas, ocultavam-se sob mantos negros; o brasão da íris púrpura fora discretamente removido do peito, mas o porte marcial dos cavaleiros do clã os distinguia dos guardas comuns.

“Em toda circunstância, um nobre deve saber como avançar e recuar com elegância.”

Parfaleno contemplou o requintado relógio de bolso, obra prima de um mestre relojoeiro de Constantinopla, fechou a tampa adornada com um rubi de criado e suspirou, fitando o horizonte, mergulhado em silêncio.

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Para Morfeu, a vida era monótona e permanentemente marcada pela incerteza e perigo.

Morador da aldeia de Nair, no limite do condado de Hook, o jovem possuía quase nada—uma cabana de madeira caindo aos pedaços, um sabre enferrujado e algumas roupas grosseiras, desbotadas pelo tempo. Nada mais.

Tudo o que conseguia caçando servia para, em raros momentos, trocar por algumas moedas de prata de Merlot, que entregava ao velho de quem dependia.

Na madrugada daquele dia, enquanto seguia o rastro de um alce ferido, Morfeu foi subitamente cercado por soldados. Sem chance de resistência, foi preso, e seus parcos bens desapareceram sem explicação.

Na verdade, habituado a se embrenhar nos confins da floresta, Morfeu jamais vira outro humano nas imediações do pântano de Isengard. Isso significava que aqueles guardas e bandidos não apareceram ali por acaso.

Cruzando a floresta densa, sempre atento à própria segurança, Morfeu arriscou atravessar um pântano enevoado cuja saída só ele conhecia. Após percorrer quilômetros por entre copas de árvores, sem deixar vestígios no solo, alcançou finalmente, ao romper da madrugada, a extremidade do condado de Hook—o vilarejo de Nair.

Morfeu não seria tolo de ir direto para casa. Observou, à distância, a pequena aldeia de dez casas por quase uma hora, antes de, ao alvorecer, bater à porta da única cabana destoante do conjunto.

A fumaça da chaminé indicava que havia gente ali, mas não se via cão de guarda nem cerca ao redor da casa, que mais parecia abandonada.

Morfeu, de torso nu, pouco se importava em expor suas marcas arcanas ao ar—ali habitava a única pessoa que já lhe falara sobre a origem daqueles símbolos.

“Toc, toc, toc.”

Morfeu bateu de leve, mas, num reflexo, desviou a cabeça para o lado!

A lâmina de uma espada brilhou, atravessando a porta e parando exatamente onde estivera seu olho esquerdo—não era um assassino, mas o método peculiar de saudação do velho morador.

Obviamente, visitantes que desconheciam tal costume já jaziam enterrados na encosta próxima.

“Rapaz, foi sua primeira vez matando alguém. Está com medo?”

A porta se abriu, e antes mesmo de mostrar o rosto, ouviu-se uma voz grave.

“Não muito.”

A resposta de Morfeu era fria, como se falasse de algo trivial. Ao entrar, o assoalho rangeu sob seus pés. O interior era austero, quase sem mobília. Na sala, apenas duas cadeiras e uma lareira cheia de cinzas, tudo sem vestígio de limpeza. O quarto adjacente não prometia cenário melhor.

Morfeu sentia-se em casa, despreocupado quanto a emboscadas—ali era o único espaço em que confiava plenamente. Se houvesse perigo ali, não valeria a pena pensar em sobreviver em qualquer outro lugar.

Diante da lareira, uma figura relaxada segurava um cachimbo. Mechas grisalhas misturadas aos cabelos pretos, roupas desleixadas, mas o rosto, apesar das rugas, guardava uma beleza rara—ninguém ali confundiria aquele “velho bonito” com um mendigo.

Os olhos, de um azul profundo e límpido, e os ombros, largos em demasia, destoavam do traje descuidado.

Dom Quixote—foi assim que se apresentou ao jovem Morfeu, após a morte da mãe do rapaz, dizendo-lhe: “Se quiser viver, venha comigo.”

Velho apenas na aparência—em força e habilidade, Morfeu o considerava imbatível.

“Falta uma marca arcana. Que pena.”

Dom Quixote fitava o fogo baixo na lareira, falando mais do que o costume. Morfeu hesitou, ponderou algo, e sentou-se na única cadeira restante.

“Sou filho do duque?”

Morfeu sempre suspeitara da própria origem—aquele velho de forças descomunais vivia há quinze anos naquele fim de mundo, impossível não levantar suspeitas.

Nunca antes ousara perguntar, mas o pensamento o perseguia há muito.

“Sim, é verdade.” Dom Quixote tragou o cachimbo, soltando uma nuvem de fumaça. “E tudo que te ensinei, lembra-se?”

“Tenho mesmo que partir?”

Ignorando a pergunta do mestre, Morfeu, pela primeira vez, devolveu com outra.

“Filho, não estarei para sempre ao teu lado.”

Dom Quixote bateu de leve no cachimbo negro e respondeu baixo: “Teu caminho e o meu talvez só se cruzem aqui. Um dia, ao recordar, talvez te alegres por termos nos encontrado sequer uma vez.”

Silêncio. Morfeu não sabia como continuar a conversa com aquele velho severo, quase cruel.

“Perdi meu sabre...”

Depois de um tempo, Morfeu falou, a voz embargando levemente.

Oito anos de provações na floresta, resumidos a um suspiro. Dom Quixote, seu segundo grande mestre, o fizera sofrer como poucos, mas também o preparara para sobreviver em qualquer lugar.

“Use minha espada, fica contigo. Guarda de lembrança.”

Dom Quixote se ergueu, a imponência de seu corpo tornando Morfeu ainda mais franzino. Passou a mão nos cabelos negros do rapaz, deixando-os ainda mais desordenados. Morfeu, que quase nunca chorava, desta vez apenas apertou os lábios, deixando as lágrimas rolarem.

“Para onde vai?”

Não houve formalidade no tratamento; o velho nunca aceitara títulos que o fizessem parecer mais velho.

“Talvez eu visite o Sagrado Império de São Gabriel, ou Caslandi. Sinto falta dos destilados de lá.” Dom Quixote retirou a pequena espada cravada na porta e a entregou a Morfeu—na face interna da porta, centenas de marcas cruzadas formavam uma rigorosa cruz, solene, mas sem destruir a madeira.

“Filho do duque de Bizâncio... não é um título pequeno. Estás num degrau mais alto que eu jamais estive. Não te permitas menos.”

“Lembrarei... mestre.”

Pela primeira vez, Morfeu usou aquela palavra rebuscada para chamá-lo.

“Droga, não sou velho!”