Capítulo Vinte e Dois — O Cordeiro, O Pastor

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3529 palavras 2026-02-07 18:49:55

Hoje o ranking de votos vermelhos manteve-se, por isso aqui vai um capítulo extra.
A partir de amanhã, se houver mais de 350 votos vermelhos em um dia, haverá um capítulo adicional.
A cada 10.000 apoios, mais um capítulo extra.
Agradeço a todos que clicaram nos votos vermelhos; o lugar no ranking caiu bastante, mas não estou preocupado, pois ouro sempre brilha, e tenho confiança de que este livro será ouro.
Este capítulo tem três mil palavras, totalizando seis mil hoje; se haverá capítulos extras amanhã ou depois, depende dos votos e do apoio de vocês.

--------------------------------------------------------------

A jovem freira parecia muito curiosa com a reação de Morfeu. Ela caminhou com passos delicados para o outro lado dele; o hábito ajustava-se ao seu corpo, seus braços suaves escondidos nas mangas negras, e um crucifixo prateado pendia do pescoço, balançando levemente.

Sob o sol, o crucifixo refletia uma luz suave, nada ofensiva.

“O Senhor disse: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança, para que domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais da terra e... toda a terra.”

A frase, de uma obscuridade quase gramatical, soava estranha e desconfortável, fazendo Morfeu sentir-se como se tivesse uma dificuldade de leitura — ele sabia ler, mas usava pouco, falava menos ainda, por isso era desajeitado com as palavras.

“Hehehe...”

A freirinha ao lado riu, cobrindo a boca suavemente, parecendo achar as palavras de Morfeu divertidas; piscou os olhos e deu um passo à frente, erguendo-se na ponta dos pés para olhar a primeira página do “Gênesis do Antigo Testamento” nas mãos dele.

Esse gesto deixou Morfeu um pouco nervoso — sua mão instintivamente pousou sobre o punho da espada, mas ao virar o corpo para encarar a jovem freira, não teve a tolice de sacar a arma para questioná-la; apenas ergueu o olhar e encontrou aqueles olhos.

Dez segundos.

Morfeu perdeu — pois não suportava aquele olhar inocente. Suspirou, um pouco abatido, e fechou o livro nas mãos, dizendo: “Você é a professora daqui?”

Só ele poderia fazer tal pergunta, pois não tinha nenhum conceito sobre como seriam as mulheres com menos de vinte e nove anos; mesmo a “Flor de Padding” Britânia, ou as criadas da casa do duque, todas lhe pareciam “em torno de vinte e nove” — ainda que uma ou outra criada tivesse menos de dezoito anos.

A jovem freira balançou a cabeça, sem dizer nada, juntando as mãos com certo embaraço.

Morfeu franziu os lábios, olhou ao redor e relaxou, pensando em algo, e de repente perguntou: “Você não tem medo de mim?”

A pergunta era quase uma brincadeira — pois a freira diante dele parecia realmente muito inocente... e ignorante.

A menina, quase muda, ficou um pouco confusa, depois balançou a cabeça.

“Já viu um lobo?”

Morfeu fez um gesto com a mão indicando algo “grande”.

A freira continuou a negar.

“Você me lembra uma ninhada de lobos que vi... filhotes de lobo. O pai deles já me causou muitos problemas,” Morfeu apontou para o ombro direito, onde havia uma cicatriz assustadora, e continuou, olhando para a freira curiosa: “Mas depois que quebrei a pata dele uma vez, passou a me evitar.”

Talvez aquela menina, semelhante aos filhotes de lobo, tenha feito Morfeu lembrar de algo; de qualquer modo, era a primeira vez que, desde que chegou a Constantinopla, se permitia falar livremente.

Não era uma confiança sem motivo, talvez apenas uma necessidade de desabafo.

“Você é mais poderosa que o Rei de Karba?”

Morfeu estendeu a mão, dura e calejada, fazendo um gesto de ataque com certo humor, acompanhando com uma careta — a freira riu alto, dobrando-se de tanto rir, escondendo o rosto.

O Rei de Karba era o apelido do lobo demoníaco de barriga prateada que Morfeu finalmente matou.

“Não é tão poderosa quanto ele, então não tem medo de mim?”

Sem motivo, Morfeu sorriu, sentindo um calor no coração — era a primeira vez que mostrava um sorriso neste estranho lugar, dentes brancos, expressão calorosa e tranquila; a última vez que se sentiu assim foi há seis meses, sentado sobre o corpo quente de um urso pardo, satisfeito por cumprir a missão dada por Dom Quixote.

A freira parecia determinada a não falar; endireitou-se, com grandes olhos, e diante da piada de Morfeu, que nem era tão engraçada assim, balançou a cabeça com tanta força que quase fez cair o véu sobre sua cabeça.

Risadas e conversas vieram da porta; Morfeu virou-se, o olhar tornou-se frio, e o ambiente, antes descontraído, ficou tenso, até a menina sentiu a mudança abrupta dele.

Ela parecia não gostar de barulho, lançou um olhar a Morfeu e correu para a porta dos fundos da sala.

Os dois nunca souberam o nome um do outro; parecia apenas um encontro silencioso.

Morfeu recostou-se na cadeira, calado; não gostava daquele ambiente, quando havia muita gente sua percepção se dispersava, perdendo a agudeza que tinha na floresta. Por isso, escolheu um canto da sala, de onde podia ver quase todos os estudantes de costas e também o local onde ficava o professor, mas ao mesmo tempo estava na intersecção de uma grande coluna e a parede, com um escudo atrás que lhe permitia relaxar um pouco a vigilância sobre as costas.

Tudo isso era instinto, algo que quase nenhum jovem nobre conseguiria aprender.

A sala foi se enchendo, o enorme e amplo templo fazia as vozes dos estudantes soarem etéreas, levando todos a falar baixo, como se temessem perturbar a divindade acima. Na Constantinopla, onde todos são devotos, o respeito pelas divindades em público é sinal de educação — claro, se alguém brincar diante da imagem do crucificado, o Tribunal do Santo Ofício não hesita em prender e arrastar o infeliz para aquele edifício sombrio chamado “a sombra sob a luz sagrada”.

A jovem freira não apareceu mais, deixando Morfeu um pouco desapontado — não era por sentimentos profundos, apenas pelo prazer de relaxar o coração.

O sino que sinalizava o início das aulas foi substituído pelo badalar da porta da igreja; ao soar, um ancião subiu ao púlpito, passos lentos, costas arqueadas, cabelos prateados mal penteados, usando um chapéu típico dos monges do mosteiro; olhos turvos, mãos cheias de veias azuladas, segurando um tomo antigo, como se fosse um santo saído das esculturas em frente à Catedral de São Lourenço.

Sua expressão era concentrada, como se ao segurar o “Antigo Testamento” tivesse em mãos o mundo inteiro.

Entre os religiosos de Constantinopla, pessoas como ele são geralmente os monges de mais baixo escalão, cuja posição política dificilmente avança, mas dedicam a vida ao “Antigo Testamento” — ou ao Deus acima — sem arrependimentos.

“Filhos, perdoem-me por ter adiado por duas semanas a aula de ‘Fundamentos da Teologia’ devido à minha saúde; estes ossos velhos não suportam mais, talvez ao terminar de ensinar vocês, retornarei ao abraço do Senhor,” o ancião, mesmo estando no púlpito, não era muito mais alto que os estudantes, e suas palavras fizeram o templo ficar em silêncio, “mas o Senhor é misericordioso, permitirá que eu mostre aovelhas perdidas o caminho certo.”

Uma introdução breve; o velho parecia não se importar com a reação dos estudantes, não se apresentou, apenas assumiu o papel de “pastor”, subiu ao púlpito de mármore branco, desenhou um crucifixo com a mão, murmurou uma oração, pousou o tomo antigo na mesa de madeira sem pressa.

“Filhos, sei que talvez tenham dúvidas, algumas das quais poderiam levá-los ao Tribunal do Santo Ofício; não me surpreendo com isso.”

Sua voz era densa e vigorosa, em contraste com a aparência curvada, fazendo muitos estudantes da frente sentarem-se mais eretos.

“O motivo da dor humana, geralmente, é buscar o que é errado.”

A segunda frase, silêncio total.

“Hereges e santos estão separados por um fio; muitos santos da história só foram reconhecidos após a morte, pois suas ideias em vida rompiam com o mundano, eram ausentes nos livros que temos em mãos.”

Ele abriu a mão, indicando o tomo ao lado.

“Passamos a vida admirando, mas os santos olham de cima; talvez seja a maior piada do Senhor, e o fato mais cruel do mundo — não conseguimos negar nossa ignorância e estupidez, mas também não queremos erguer o rosto para encará-las.”

Poucas frases, mas impactantes, tornando o templo semelhante a um cemitério.

Morfeu olhou para o velho, distraído, impressionado — era diferente, muito diferente. Dom Quixote sempre dizia que os padres da Igreja eram de um tipo que gostaria de abrir suas cabeças para lavar o cérebro. Ao entrar ali, Morfeu já se preparava para riscar a disciplina logo na primeira aula. Mas aquele velho, de aparência comum, com poucas palavras derrubou toda a ideia preconcebida de Morfeu sobre teologia; não chegou a ficar convencido, mas admirou silenciosamente a habilidade do professor. Era como estar diante de Dom Quixote, sentindo-se subitamente pequeno, mas em pé de igualdade.

O velho não se prolongou, apenas conduziu os estudantes numa oração do “Antigo Testamento” antes do almoço e, em seguida, iniciou a aula, que parecia mais uma narrativa histórica do que teórica — explicando a evolução dos fundamentos da teologia.

Com exemplos e histórias vivas, a aula passou rapidamente; Morfeu perdeu-se em relatos e curiosidades, coisas que Dom Quixote nunca contou, pois para o velho, essas histórias eram “lixo para ser queimado na lareira”, tal como as sagas de Nibelungo e Rolando sobre cavaleiros seduzindo damas, dignas de desprezo — mas, na verdade, esses contos eram os mais populares em Constantinopla, transmitidos de boca em boca, com status de clássicos milenares. Aparentemente, “drama gera clássicos” não é coincidência na história.

O sino do fim da aula tocou; o último conto do velho terminou pontualmente, sem ocupar mais um minuto dos estudantes. Ele acenou, dispensando a classe, ignorou os aplausos no templo e foi embora.

O seu vulto parecia solitário.

...