Capítulo Setenta e Dois: O Louco Muda, Dez Mil Palavras Hoje

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3485 palavras 2026-02-07 18:51:42

Segundo capítulo do dia, hoje teremos três atualizações totalizando dez mil palavras, vamos ver quantos votos vermelhos conseguimos num único dia! Peço aos que ainda não adicionaram à biblioteca para fazê-lo! O próximo capítulo será à noite, conto com o apoio de todos!

Após continuar explorando uma série de coleções de tirar o fôlego e impressionar até a exaustão, Morfeu deparou-se com o item mais discreto daquela sala — ou melhor, o único objeto que não emanava uma poderosa aura mágica: uma carta de tarô pousada sobre um pedestal de pedra, radiante e solitária.

Morfeu ergueu delicadamente aquela carta de tarô de aparência tão antiga quanto possível e percebeu, surpreso, que a figura retratada ali era ninguém menos que Isidor de Vento Solar. No canto superior esquerdo, um número: o primeiro dos vinte e dois Arcanos Maiores.

O Louco.

No centro da carta, Isidor ostentava um sorriso irreverente, com ambas as mãos apontando em direções opostas, numa postura quase idêntica à do retrato pendurado na parede.

Talvez ao olhar comum nada ali parecesse especial, mas Dela já havia mencionado certa vez, durante uma demonstração de anatomia mágica para Morfeu, que retratos ou símbolos deixados por grandes magos em seu leito de morte frequentemente possuíam um valor muito mais profundo que qualquer riqueza material herdada.

Examinando com atenção a carta de tarô em suas mãos, Morfeu encontrou uma inscrição minúscula no contorno: “Quatro angústias do Louco: não enxergar além, não conseguir desapegar, não aceitar a derrota, não saber largar”.

Então era este o significado do “Louco”?

Devolvendo a carta ao pedestal, Morfeu aproximou-se do retrato. Havia também inscrições na lateral da moldura, mas estavam difíceis de decifrar. Refletindo por um instante, Morfeu foi buscar a única cadeira do salão de exposições — era a mesma em que o imperador Ancrede III do Império de Ferdin, antes de ser decapitado pelo usurpador sob acusação de traição, sentara-se pela última vez. Gravadas com as unhas, permaneciam ali suas derradeiras palavras: “Embora o destino muitas vezes vença o esforço virtuoso de evitar desgraças, uma vez que a desgraça se abate, o destino não pode impedir que a suportemos com dignidade”.

De pé sobre essa cadeira, cujo valor histórico superava qualquer outro, Morfeu conseguiu decifrar os dizeres na moldura do quadro:

“Não enxergar os enredos da convivência, as feridas ocultas após a disputa, a serenidade no meio do tumulto, a paz após o esplendor; não conseguir largar os instantes brilhantes do passado, os anos que escaparam, a vaidade das alturas, os aplausos do sucesso; não aceitar a perda de um sentimento, a derrota num trecho da vida; não saber abandonar pessoas e acontecimentos já distantes, questões há muito adormecidas.”

Por um breve momento, ficou atônito, tomado de respeito. Morfeu tinha certeza: Isidor fora realmente um “Louco” verdadeiro, sábio entre os sábios.

Morfeu não compreendia inteiramente a relevância da carta de tarô — afinal, era como um mito vivo de sua era, estar em primeiro lugar era uma conquista aterradora. Parecia apenas um aviso reflexivo, mas, ponderando, Morfeu tirou sua varinha de bolso. Após uma breve hesitação, permitiu que a varinha de madeira de fênix tocasse a moldura da pintura, liberando suavemente energia através dos filamentos mágicos.

Suave e estável, Morfeu então viu surgir, sobre a moldura, uma palavra formada pelas letras dispersas entre todos os dizeres anteriormente gravados em seu contorno:

“Verdade.”

Os olhos de Morfeu brilharam — aquilo, de fato, parecia uma pista.

Do mesmo modo, ao aplicar energia sobre a carta de tarô, as inscrições nela também se rearranjaram, formando um novo termo: “Aos pés”.

Instintivamente, Morfeu olhou para baixo. O que viu foi um assoalho negro, de aparência e materialidade completamente distintos do resto da casa. Agachando-se, bateu levemente com os nós dos dedos e percebeu que não havia eco algum.

Era pedra negra de Nibro.

Graças ao estudo de “Fundamentos de Identificação de Materiais” da escola de círculos mágicos, Morfeu compreendeu que aquele piso era feito de um material tão valioso quanto ouro em igual volume, normalmente reservado a círculos mágicos de defesa em nível épico. Era tão raro que, em Constantin, apenas membros da família real ou alguns duques poderiam contar com uma estrutura assim — não por seu preço, mas porque os círculos que utilizavam tal material exigiam magos de nível “III” ou superior para serem gravados, algo fora do alcance dos nobres comuns.

Nem o duque Acar nem Morfeu haviam se atentado ao assoalho antes.

Contudo, não havia traço de círculo mágico algum no chão. O chamado “segredo aos pés” parecia agora óbvio. Morfeu, sendo o único herdeiro legítimo e mago da Casa Vento Solar após a morte do patriarca, fez a única escolha possível: apontou a varinha para o piso.

A energia dos filamentos mágicos foi liberada sem reservas. Se o chão fosse comum, aquilo não teria efeito algum, mas desta vez Morfeu sentiu o piso sugar sua energia com uma voracidade repentina, como terra ressequida absorvendo chuva! Tal absorção rapidamente esgotou quase toda a energia mágica que Morfeu possuía. Ele afastou a varinha, hesitou por um instante, mas logo pegou, de uma prateleira próxima, um núcleo de cristal vermelho “puro”, disposto ali em ordem impecável. Com a varinha, invocou uma broca elementar e, com delicadeza, perfurou a superfície do núcleo. Embora aparentasse dureza, o cristal se dissolveu ao toque da broca, liberando uma torrente de energia incandescente que, antes de se espalhar, foi imediatamente tragada pelo piso negro, como se houvesse uma força infinita sugando tudo para dentro daquela superfície imóvel.

A natureza condutora da pedra negra de Nibro permitia, em teoria, que todos os elementos num raio de meio metro fossem absorvidos, estabilizados e utilizados para ativar círculos mágicos automaticamente — eis a prova de que Morfeu não havia estudado em vão.

Na prática, contudo, romper um núcleo ígneo dessa forma brutal era extremamente perigoso. Se não tivesse conhecimento pleno das propriedades daquele material, jamais teria ousado. Caso contrário, a liberação de energia poderia não causar explosão, mas faria a temperatura do ambiente subir vertiginosamente, desencadeando reações perigosas.

O espetáculo diante dos olhos de Morfeu era digno de nota: o núcleo de cristal vermelho, consumido pelo brilho escarlate, era rapidamente absorvido pelo assoalho de pedra negra, sumindo sem deixar vestígio.

Morfeu tocou levemente o chão, ainda gelado ao toque. A energia absorvida estava longe de atingir o limiar necessário para ativar o círculo mágico. Apenas após romper o segundo e o terceiro núcleo — cada um deles valendo mais de dez mil moedas aztecas — finalmente o círculo revelou sua verdadeira forma.

Inúmeras linhas mágicas surgiram, desenhando padrões que cobriam mais de trinta metros quadrados do salão. Morfeu, porém, não fazia ideia de que tipo de círculo era aquele. Antes que pudesse recuar, uma força misteriosa o puxou para o centro do círculo!

A ativação foi súbita e inexorável.

O piso negro traçava linhas vermelhas como lava incandescente. No centro, um vórtice giratório, um buraco negro. Num reflexo instintivo, Morfeu girou o corpo, tentando agarrar-se a alguma coisa. Conseguiu apenas apanhar um pergaminho e um cristal da mesa próxima antes de ser sugado irresistivelmente pelo abismo, desaparecendo junto com tudo no centro da sala trancada...

...

“Crrrac.”

Morfeu tentou se levantar no escuro, mas pisou em algo estranho. Instintivamente, parou o movimento. Após oito anos como caçador, sabia bem o que havia esmagado: ossos frágeis de roedores.

Apertando firmemente a varinha, segurou a respiração e prendeu o pergaminho na cintura, guardando o cristal no bolso do cinto. Só então sacou a adaga e acendeu a ponta da varinha, projetando uma luz tênue, suficiente para iluminar um raio de dez metros ao redor.

Uma masmorra?

O ambiente era úmido, lúgubre, sombrio em cada detalhe. Estava claro que há muito tempo a luz do sol não tocava aquele lugar, mas o ar permanecia suportável, sinal de que havia alguma ventilação. A arquitetura era rústica, marcada pelas mãos humanas, sem requinte, mas carregada de uma atmosfera opressora.

Morfeu olhou ao redor: estava no centro de um salão de teto baixo, coberto por uma espessa camada de poeira. Antes de identificar o que havia esmagado, ouviu um ruído à frente.

O arrastar de correntes de ferro no chão.

Com a adaga cruzada diante do peito, Morfeu percebeu que ali não teria chance de lutar às cegas. Aumentou a intensidade da luz na varinha — no fundo do salão, uma porta de pedra revelou várias figuras que o obrigaram a semicerrar os olhos.

Humanos?

Definitivamente não. Seus olhos brilhavam num tom cinza-esbranquiçado, pulsando no escuro. Mãos e pés estavam presos em algemas de ferro forjado, típicas de séculos atrás, mas as correntes há muito se romperam. A pele era pálida, putrefata, os corpos imundos e exalando um odor nauseante. O olhar, carregado apenas de fome e hostilidade.

“Carne... fresca...”

Eram seis silhuetas. Ao som de seus sussurros sibilantes, seus corpos sofreram uma rápida transformação — em três segundos, aqueles que pareciam humanos de meia-idade tornaram-se altíssimos licantropos, cobertos de pelos negros!

Palavras indistintas ecoavam nos ouvidos de Morfeu. Sabiamente, ele não desperdiçou tempo com comentários. Sabia que, por um impulso pouco habitual, encontrara-se naquele recinto desconhecido e, talvez, sem volta. Estava preparado para o pior.

No instante seguinte, Morfeu executou o único movimento possível: lançou-se em disparada, golpeando sem reservas com a adaga!

Diante daqueles que pretendiam devorá-lo, respondeu com a lâmina de aço mágico napolitano.

No topo da varinha, energia elementar condensou-se em uma lança curta. Morfeu avançou como uma flecha, e o primeiro licantropo que tentou bloquear o ataque teve o braço decepado, sendo arremessado contra a parede com um chute no abdômen, produzindo um baque surdo!

A varinha cravou-se no coração de outro licantropo. Morfeu girou o corpo, desviando, e enfiou de novo a adaga no globo ocular da fera! Onde passava a lâmina, o chão se tingia de sangue.

Os seis licantropos, debilitados pela fome, não chegavam ao nível de um cavaleiro de guarda, mas seus ataques eram ferozes e sem hesitação. Mesmo sob o risco de serem despedaçados, não sentiam medo algum — talvez porque já não lhes restasse nada a perder, tornando-se ainda mais selvagens e suicidas.

Dois minutos depois, Morfeu estava no centro do salão, ofegante e coberto de sangue.

Ao seu redor, corpos dilacerados; o ataque frontal dos seis licantropos, no escuro, rasgara-lhe a túnica em três lugares.

O cheiro de sangue era denso e insuportável. Sem hesitar, Morfeu avançou na direção oposta de onde os licantropos haviam surgido — porque escutara, ao longe, passos ressoando com eco, sinal de que aquele misterioso cativeiro abrigava ainda mais criaturas “hospitaleiras”!