Capítulo Dezoito: Fundamentos da Teoria dos Elementos, Amigos

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3140 palavras 2026-02-07 18:49:50

Dentro da Academia de Tarence, o papel do dinheiro era bastante reduzido, pois quase não havia estudantes de famílias pobres ali; todos vinham de linhagens abastadas ou nobres, o que resultava em disputas de níveis muito mais complexos — os alunos eram mais astutos, e suas intrigas e manobras políticas, embora não tão refinadas quanto as dos velhos nobres acostumados ao tabuleiro do poder, já indicavam a direção que um dia seguiriam.

No entanto, Morfeus era uma exceção nesse cenário.

Após discutir com o instrutor de equitação durante uma aula básica, Morfeus montou um cavalo de sangue quente, comum em constituição, e quebrou o recorde da academia no teste dos mil metros, eliminando em seguida a disciplina de sua grade. Se comparado ao que passara com Dom Quixote, que o fizera montar uma misteriosa égua negra da qual caíra mil trezentas e setenta e três vezes, aquelas aulas eram coisa de criança.

Tornou-se uma lenda entre os calouros: um nobre decadente, discreto em aparência, mas sempre agindo de modo inesperado, e, ainda assim, jamais dava aos professores motivo para repreendê-lo. Essa contradição provocava nos colegas uma mistura de inveja e ressentimento.

O tempo passou; em um piscar de olhos, dez dias se foram e Morfeus já havia se adaptado àquela rotina que, para ele, não era nem um pouco extenuante — viver em um ambiente onde não precisava temer veneno na comida ou traição a cada esquina era quase um repouso. Contudo, restava um problema: continuava sem qualquer contato com seus "colegas" ou, melhor dizendo, com pessoas de sua idade.

Não era só sua frieza; ninguém ousava abordá-lo. Mesmo que seu comportamento e o punhal à cintura despertassem o interesse de algumas moças em busca de um título nobiliárquico, ninguém tinha coragem de falar com ele.

Seu punhal não era apenas para impressionar. Praticamente todos do seu ano já tinham ouvido falar da vez em que derrotou o instrutor de esgrima com um único golpe. A insígnia do professor — duas lâminas cruzadas sobre três barras de prata — indicava um espadachim de alto escalão, qualificado para ser capitão ou até mesmo major em um regimento imperial.

Os estudantes haviam aprendido uma lição: esse nobre era pobre, mas implacável.

...

— Olá.

Numa tarde límpida, Morfeus ouviu uma saudação vinda de trás.

Com o tempo esfriando, ele vestia um manto escuro de corte mais elaborado, menos discreto que o anterior, ainda que nada nele denunciasse grande valor. Caminhava pela via entre o bloco principal e o Picadeiro dos Cavaleiros de Will quando parou, voltando-se para o sujeito que o seguia há algum tempo.

Era um jovem de túnica branca, corpo ainda mais magro que o de Morfeus, olhos calorosos e amistosos, cabelos levemente desgrenhados e um sorriso puro.

Morfeus o reconheceu: era aquele menino que, no primeiro dia, foi cercado e espancado. Parecia mais novo, mas havia um traço obstinado em suas feições — algo talvez herdado, ou fruto da infância.

— O que deseja?

— Meu nome é Crivey. Gostaria de ser seu amigo, pode ser?

Crivey, mais baixo que Morfeus, tinha a voz juvenil, mas falava com naturalidade. O rosto claro, bem diferente do dia em que fora agredido, ainda exibia manchas arroxeadas.

— Por quê?

Morfeus fitou o rapaz. Ele não portava armas e segurava livros gastos — títulos como "A História da Linhagem Marcus" e "Noções de Elementos Opostos", sugerindo temas de magia.

Diante da pergunta, o garoto apenas sorriu. Após alguns segundos, respondeu:

— Porque você é diferente deles.

— Deles? — Morfeus ergueu a cabeça. Muitos alunos ao redor o observavam disfarçadamente, mas, percebendo o olhar dele, fingiram indiferença. Ele arqueou as sobrancelhas. — Todos são diferentes. Eu e você também somos. Isso não é motivo suficiente.

A resposta parecia um recuo, mas Crivey não perdeu o sorriso, e tampouco desistiu.

— O que é ser amigo? Não sei ao certo. Só posso dizer que não confio em alguém apenas porque veio falar comigo.

Morfeus deu de ombros, sem hostilidade.

— Se um dia precisar de ajuda, pode me procurar. Se eu tiver algum problema, posso perguntar se pode ajudar. Que tal?

Crivey, de fato, era diferente dos outros filhos de famílias ricas ou nobres. Fez a proposta em tom suave.

— Se conseguir me encontrar, tudo bem.

Morfeus pensou e concluiu que não havia mal algum. Até na floresta os animais se ajudavam, algumas feras conviviam em simbiose e ficavam mais fortes juntos. O conceito de amizade, porém, lhe era estranho; aceitou de modo vago e se afastou sem cerimônia.

Naturalmente, isso o fazia parecer ainda mais frio.

Crivey sorriu de modo caloroso e seguiu por outro caminho, passos leves, mas isolado dos demais — dois marginais à margem do grupo, cada um tomando sua estrada.

...

Superada a fase de adaptação, Morfeus já conhecia bem o ritmo da academia. Os dias se sucediam regulares como um relógio, entre as aulas de esgrima com Dom Quixote e os estudos obrigatórios. Mas ultimamente, ao voltar ao dormitório, encontrava sempre cartas sobre a mesa em frente à lareira.

Eram deixadas pelas criadas, poupando o dono do quarto do trabalho de recolher a correspondência. Morfeus, curioso, observou os envelopes. Pensou um instante, calçou as luvas de couro que o velho mordomo lhe dera para o inverno e pegou uma das cartas.

O motivo do cuidado vinha da história que Dom Quixote contara sobre um nobre morto pelo veneno aplicado em um envelope, absorvido por um corte no dedo. Sempre atento, Morfeus não se descuidava.

Lendo o conteúdo, enrugou a testa de modo estranho — duas páginas de pergaminho, cheias de palavras, mas só entendeu as últimas linhas.

Era o jeito de alguma jovem rica expressar “simpatia”.

Convites para “almoçar juntos” ou “participar de um baile no fim de semana” o deixaram intrigado — não conhecia a remetente, por que razão o convidava?

Rasgou as demais cartas; eram todas iguais.

Ao que parecia, Crivey, ao ser o primeiro a conversar com Morfeus sem levar uma lâmina ao pescoço, dera esperanças a várias moças ricas em busca de um título.

Com ouro suficiente, um título de nobreza virava objeto de desejo dos filhos dos endinheirados. E, naquela idade, um rosto bonito era ainda mais sedutor que um título. Morfeus herdara a aparência do pai, Arkar: traços regulares, olhos profundos — combinação fatal para moças, já delineando o futuro de um jovem nobre, escolha ideal para a maioria delas.

Se ao menos não fosse tão indiferente.

Elas não podiam imaginar que, ao contrário da crença comum de que um nobre perde a virgindade aos doze ou treze anos, Morfeus nada sabia de mulheres, exceto as camponesas corpulentas da vila de Nayl. Ninguém saberia dizer seu padrão de beleza.

Jogou as cartas no fogo, entrou no quarto e se acomodou à pesada escrivaninha de mogno, folheando o “Tratado Básico de Elementos”. Quis começar a tarefa, mas a pena não desceu ao papel. Era tudo complexo demais — “magia” abrangia tanto, e aquele volumoso tomo apenas resumia superficialmente cada ramo. Se o mundo mágico era um oceano, aquele livro era só uma gota.

Virou algumas páginas: “Panorama das Energias Elementares”, “Estudo da Disposição das Partículas”, “Teorema de Linckel sobre Convergência e Divergência” — palavras que não lhe diziam nada. Folheou até o meio do volume, encontrando “O que é o estado sólido do elemento?”, “Lei das Transformações de Faraday” e outros termos igualmente abstratos.

Tudo girava em torno de definir “elemento” — nada de feitiços, bolas de fogo ou lanças de gelo, os temas favoritos dos colegas.

O conhecimento da floresta e o que o velho lhe ensinara não serviam ali. Encostou-se, suspirou e olhou pela janela.

De sua escrivaninha, via o jardim dos fundos da Academia de Tarence. À distância, com bons olhos, podia distinguir estudantes se cortejando ou se entregando às paixões — para ele, não era diferente de assistir aos acasalamentos dos animais na floresta. Talvez a única diferença fosse que humanos pareciam estar no cio o ano todo, sem descanso.

Viu os grupos de alunos passando e pensou em Crivey, de branco. Será que aquele garoto poderia ajudá-lo?