Capítulo Oitenta e Dois: Mudanças
Desejo a todos que farão o exame de acesso à universidade hoje muita sorte; não vou me alongar, basta desejar que se saiam bem. Estou correndo para terminar minha tese, não posso entregar tudo de mim neste momento, peço a compreensão de todos.
— Então, está prestes a iniciar sua grande vingança?
Morfeu soltou um suspiro indiferente, finalmente deixando de lado as precauções e o receio que mantinha antes — em relação à pessoa ao seu lado, ele preferia manter distância, e quanto mais longe, melhor. Se não fosse por ela, como o Tribunal poderia ter entrado em confronto com ele tão facilmente? Mas agora, a questão transformou-se em como poderia se livrar da sombra desse infortúnio que era ela.
A regra mais simples — ela não lhe trazia paz nem benefícios, apenas desgraças sem fim, assim, qualquer outro pensamento seria inútil, o melhor seria livrar-se dela o quanto antes.
— Vingança? Meus inimigos são muitos, não preciso de lembretes seus.
A voz de Ashkandi era gélida. Virou-se para encarar aquela criança que não tinha nem metade de sua idade, e, como se não quisesse perder tempo em conversa, disse direta:
— Preciso medir o alcance do contrato.
— Entendi. — Morfeu assentiu, compreendendo rapidamente. — Vamos agora?
— Agora.
O olhar de Ashkandi desviou, seu rosto pálido e sem cor à fraca luz da lua. Pensou por um instante, como se quisesse dizer algo a mais, mas no fim permaneceu em silêncio. Quando Morfeu se levantou e estava prestes a falar, ela, de costas para ele, murmurou suavemente:
— Se eu fracassar, darei tudo de mim para matar você.
— Estarei esperando.
Morfeu, já tendo entendido a intenção dela, só podia aceitar a realidade — Ashkandi queria testar o alcance do contrato. Os contratos mágicos sempre possuem um “alcance teórico”, e, ao excedê-lo, o vínculo vai perdendo força. Porém, nenhuma obra registra a distância “eficaz” desse tipo de contrato, pois ela depende do grau de sinergia espiritual e do poder entre as partes. Ainda assim, mesmo o mais poderoso dos contratos possui um “limite crítico”; era isso que Ashkandi pretendia testar, usando o método mais primitivo para tentar romper o vínculo.
Como ela mesma dissera, se não conseguisse, só restaria matar o outro contratante para se libertar — mesmo que, em teoria, ela própria não pudesse fazê-lo.
Sem mais delongas, Ashkandi, à janela, girou lentamente o corpo e ergueu os braços.
Num instante, uma aura sombria inundou o quarto, e das costas de Ashkandi brotaram duas asas de morcego!
Morfeu ficou boquiaberto, tomado por uma onda de espanto — ela não era uma lobisomem?
As duas asas negras pareciam querer se expandir infinitamente, quase ocultando a silhueta de Ashkandi. Nas asas, semelhantes às de um demônio, havia runas mágicas opacas que brilhavam, sinal de um poder levado ao extremo!
Na história, a figura mais emblemática a alcançar tal feito foi o próprio Príncipe Guilherme, líder do clã Clermont!
De repente, a mulher à sua frente parecia envolta em névoa, enquanto Morfeu via a Rainha das Sombras saltar pela janela, desaparecendo quase instantaneamente na noite. Em seu íntimo, uma emoção indefinível despontou.
Ele sabia que, da próxima vez que a encontrasse, talvez tivesse de enfrentar o perigo de morte a qualquer momento.
Um contrato, uma personagem lendária e instável; a vida tranquila de Morfeu em Mulenthal fora subitamente virada do avesso por esses dois elementos, trazendo consigo tempestades imprevisíveis.
...
Na manhã seguinte, o duque Arkar retornou ao palácio com uma expressão menos fria do que Morfeu imaginara, apenas um pouco mais severa.
Ao saber que Ashkandi havia partido, o velho duque não demonstrou surpresa, apenas assentiu:
— Não havia motivo para lidar com o Tribunal, mas a partida dela nos deu uma justificativa. Por ora, não precisamos temer retaliações.
O Tribunal Eclesiástico jamais declararia publicamente um nobre ou uma família nobre como inimigo, ao menos não entre as altas esferas do Império, onde as aparências de tranquilidade devem ser sempre mantidas. Arkar deixava claro que, desta vez, o Tribunal já tinha um pretexto para as perdas, e ao menos oficialmente não haveria conflito aberto — mas da próxima vez, as coisas certamente não seriam tão fáceis.
Morfeu não sabia qual era o tal pretexto, nem quis perguntar. Para um herdeiro nobre, evitar questões políticas não era sábio, pois cedo ou tarde tomaria o lugar do pai em circunstâncias ainda mais perigosas. Mas, para alguém prestes a completar dezesseis anos, as reviravoltas dos últimos dias já seriam suficientes para marcar uma vida inteira, tornando Morfeu, já de poucas palavras, ainda mais calado — em compensação, seus treinos com a espada e os estudos sobre círculos mágicos tornaram-se mais intensos.
— Prepare-se para retornar a Constantinopla. Se não for lá explicar-se pessoalmente com o Tribunal e com Eduardo, poderá haver problemas.
Eduardo III, soberano do Império Bizantino, monarca da maior potência do continente.
A velha nobreza, ao referir-se ao imperador, não usava títulos honoríficos; não era desrespeito, mas tradição — nunca se sabia que sobrenome teria o próximo governante. O imperador mais célebre não fora Constantino I, o fundador, nem André II, que expandiu os domínios, mas Jorge I, que antes de reinar era apenas um camponês analfabeto!
Neste país, um imperador podia ter sido mendigo, carpinteiro — era a realidade. Embora, nos últimos trezentos anos, a família Longino tenha mantido o trono, ninguém podia garantir o que ocorreria nos próximos cinquenta.
Morfeu arqueou as sobrancelhas, intrigado:
— Eu também devo ir?
O duque semicerrava os olhos, mas respondeu suavemente:
— Como demonstração, precisa aparecer em público.
O semblante do duque tornou-se repentinamente melancólico.
— Enfrentar o Tribunal não é coisa simples. Ashkandi deixou um desfecho conveniente para suas ações desta vez, mas, como parte do contrato, você não pode agir com a mesma liberdade. O resto, terá de conquistar sozinho.
O duque também queria ver seu filho concluir os estudos calmamente na Academia de Cavaleiros de Caux. Mas um humano que pactuou com uma lobisomem poderia circular impune sob o olhar do Tribunal? Nem mesmo os Windesol, uma das dez famílias mais poderosas do império, poderiam agir tão descaradamente.
A marca gravada no antebraço de Morfeu não correspondia a nenhum círculo mágico conhecido pelo clero ou pelo Tribunal. Sua energia, que por vezes irrompia, estava longe de ser pura luz; Arkar, sendo um mestre das espadas, percebia claramente o pulso sombrio exalado ao cair da noite. Se mesmo após a partida de Ashkandi permanecesse assim, Morfeu não poderia ficar em Constantinopla.
Morfeu aceitou o fato, conversou mais um pouco com o pai e recolheu-se aos seus aposentos, preparando-se para partir em dois dias rumo à capital.
O que ele ignorava era que, após sua partida, Ashkandi não fora longe. Naquela manhã, o velho duque recebeu notícias do sistema de inteligência do ducado — duas famílias de vampiros que planejavam se fixar ali foram completamente aniquiladas durante a noite, sem deixar sobreviventes.
No relatório enviado ao Tribunal, intitulado “O Olho Direito de Cobb”, o duque escreveu: “O esquadrão de altos juízes da ‘Espada da Decisão’ entrou em combate com os clãs vampíricos Niel e Viena, ambos em guerra velada, resultando na aniquilação de todos os envolvidos”.
Ninguém sensato acreditaria que o clã Niel, apelidado de “novos-ricos”, e o recluso clã Viena, conhecido como “caçadores”, sacrificariam todos os seus membros e cinco juízes em uma luta sangrenta — e que, por acaso, não restasse sequer um vivo. Mas a política é assim: o relatório foi ao “Olho Direito de Cobb”, e não à “Espada da Decisão”; esses dois órgãos, rivais dentro do mesmo departamento, sempre se antagonizam. Assim, a “Espada da Decisão” saiu prejudicada, enquanto o “Olho Direito” embelezou o ocorrido, apresentou “provas” e calou todos os curiosos.
Política imunda, insuportável, mas indispensável.
………………
Sacro Império de Gabriel.
Herdeiro da antiga Siagá, centro de política e comércio, o Sacro Império de Gabriel possui ainda mais edifícios históricos que Bizâncio. A primeira grande cidade ao cruzar suas fronteiras, Zuriel, preserva a maioria dos antigos templos e ruínas do império ancestral, onde a cultura ancestral repousa e se perpetua, marcada por um forte caráter gótico.
A influência da Cúria Vaticana é ali muito superior à do Patriarcado em Bizâncio — e essa superioridade é política: o princípio da infalibilidade papal é aplicado com rigor, e o monarca local jamais teve o poder direto e transparente de Eduardo III, o Grande Imperador Bizantino. Muitas ordens políticas só são ratificadas após aprovação papal, o que revela a extensão do controle e da limitação de poderes.
Nos últimos cem anos, a “purificação” — ou seja, a caça a todas as heresias, incluindo astrólogos, alquimistas e magos, profissões toleradas em outros impérios — surtiu efeito. Dos sete clãs vampíricos que dominavam o império, três foram extintos, um quase erradicado, restando apenas alguns poucos, entre eles o ainda poderoso clã Clermont.
Além disso, ali também se escondem lobisomens, mestres de marionetes, xamãs e outros seres das trevas e hereges, todos marcados com o rótulo de “herege”.
Não há domínio nem submissão, apenas predadores e presas — assim é a ordem subterrânea do Sacro Império de Gabriel.
E, quando tudo parecia estável e equilibrado, uma mulher surgida em Zuriel pareceu, sutilmente, abalar essa harmonia.