Capítulo Cinquenta: Desembainhar a Espada

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 4084 palavras 2026-02-07 18:50:59

Hoje ficarei fora o dia todo, então vou deixar um capítulo por enquanto. Se conseguir voltar cedo e estiver em boas condições, acrescentarei outro; caso volte tarde demais, só publicarei amanhã. Aos amigos que aguardam, obrigado pela paciência e apoio! Um grande capítulo de 3700 palavras, peço votos e que adicionem aos favoritos.

“Esse jeito não vai funcionar aqui na Sétima Companhia, é melhor guardar o disfarce de nobre para outro lugar.” O baixinho, sempre com uma expressão sombria, parecia ser o mais influente entre os três. Deu um passo à frente, estendeu a mão e ajudou o gordo a se levantar do chão, mas seus olhos nunca se desviaram de Morfeu. “Hiddink Charles, aquele que valoriza mais as flores do que a própria vida é Cowen John; ele não consegue falar com estranhos, mas quem o conhece bem acha que é um tagarela.”

Ele tirou um lenço e limpou as mãos engorduradas de tanto puxar o gordo, parecendo não querer apresentar o companheiro ao lado.

“Bozel Pompeu, prazer em conhecê-lo!”

O gordo, já de pé, foi cordial o suficiente, e Morfeu assentiu em resposta.

“Morfeu Windesol.”

Ele olhou para aquele sujeito que contava quantas pétalas faltavam em sua flor; o outro, visivelmente constrangido, lhe lançou um sorriso nervoso.

Os três pareciam normais, mas Morfeu sabia que muito do que via diante de si era apenas fachada, como troncos à deriva que, na superfície da água, às vezes escondem a cabeça de um crocodilo pronto para atacar. Antes de investigar a fundo, ninguém podia afirmar o que era real ou falso.

Assim, os colegas de quarto fizeram suas primeiras apresentações. O ambiente no dormitório era razoavelmente normal, sem excessiva estranheza. Para aliviar o constrangimento, o gordo olhou em volta e correu até a única cama vaga, desculpando-se: “Me desculpe, meus livros estão ocupando seu espaço, vou tirá-los agora.”

Morfeu sorriu e foi ajudar, um gesto de integração ao grupo — vendo que era educado, os outros dois não comentaram mais. Hiddink, apesar de baixo, parecia o mais maduro dos três; fechou a porta quebrada, virou-se e começou a tirar sua armadura de couro.

“Cowen, vá mais cedo ver os veterinários para a aula da tarde. Se continuar assim, não vai conseguir montar amanhã.”

“Sim, vou lá.” Cowen era obediente, ele e Hiddink não demonstravam o mínimo orgulho ou reserva que se espera dos nobres, despiram-se sem cerimônia, tirando as peças de couro, as túnicas de linho e as roupas de baixo. Morfeu e o gordo Bozel terminaram de carregar cerca de cem volumes de poesia e, ao virar, viram os dois quase só de cueca. Bozel correu para ajudar a dobrar as roupas deles e, em seguida, recebeu ajuda dos dois para tirar sua própria armadura de couro, que parecia colada ao corpo.

Essa cena era impactante comparada ao comportamento anterior dos três. Morfeu percebeu então que, por baixo da aparência tranquila, estavam cobertos de feridas — na maior parte, hematomas e marcas escuras causadas por golpes de objetos pesados. Quando Bozel tirou a roupa, parecia que arrancava uma camada de pele: costas e nádegas estavam completamente esfoladas, a camisa manchada de sangue!

Essas feridas vinham dos treinos ao ar livre, resultado do atrito da armadura e do selim inadequados.

No entanto, os três não demonstravam o menor desconforto; apenas mordiam os lábios e, ao terminar, separavam as roupas e jogavam no balde de madeira destinado à lavanderia, seguindo em direção ao banheiro coletivo no fim do corredor.

Os banhos públicos em Bizâncio geralmente eram grandes piscinas para mergulhos, mas aqui era diferente — a técnica, inventada originalmente por prisões, consistia em um barril de madeira com dezenas de pequenos furos na base; ao despejar água por cima, ela escorria em fios finos, lavando o corpo de cima para baixo.

A razão era simples: muitos alunos tinham feridas, e doenças infecciosas podiam proliferar nos banhos coletivos. Além disso, era rápido e eficiente, bastando alguns minutos.

“Morfeu, vamos tomar banho. O almoço é o horário de descanso; depois, na aula da tarde, venha conosco.”

O tom de Hiddink era neutro, apenas por educação, mas Morfeu se surpreendeu e assentiu, voltando silenciosamente a arrumar sua cama.

Definitivamente, era uma escola que valorizava listas e regras.

Morfeu arrumou lençóis e cobertores simples, fornecidos pelo dormitório, modestos e sem luxo. Olhou o quarto: cada cama refletia o estilo de seu dono — ao longe, uma delas tinha um raro cacto bizantino na cabeceira, supostamente vindo do extremo sul por via marítima, pequeno mas valioso como prata pura; provavelmente era a de Cowen, o amante das plantas, que também exibia uma bandeira de batalha, uma caixa de papel e algumas folhas de pergaminho escritas. O restante era uma pilha de roupas de cama bem dobradas, tudo limpo.

A cama ao lado tinha quase nada na mesinha: apenas um caderno de couro e uma pena, ambos muito usados, além de um exemplar velho de "Levi", na cabeceira.

Devia ser a de Hiddink.

A de Bozel estava repleta de poesia, mas o mais engraçado era a fileira de salsichas pendurada acima da cabeceira; provavelmente, esse guloso arrancava uma para comer durante a noite.

A vida na Academia de Cavalaria era mais interessante do que Morfeu imaginava.

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Para um cavaleiro tradicional de Ferdin, tornar-se “cavaleiro” exigia uma série de rituais complexos: talvez um grande nobre tocando o ombro com a espada, ou uma cerimônia solene de concessão. Quanto mais pomposo, melhor — e todos os custos recaíam sobre o novo cavaleiro, tornando o evento capaz de arruinar financeiramente uma família. Por isso, tais cerimônias tornaram-se raras no longínquo Império Ferdin e no Império Gilman, e com elas, cavaleiros, cujo equipamento era cem vezes mais caro que o de um soldado, tornaram-se cada vez mais escassos.

Em Bizâncio, especialmente na Academia de Cavalaria de Korsy onde Morfeu estava, era completamente diferente.

Após o descanso do almoço, Morfeu e seus colegas vestiram uniformes de treino e foram ao picadeiro. O cenário era tal que Morfeu, de repente, anulou completamente a imagem dos cavaleiros que Dom Quixote descrevera ao vê-los pela primeira vez.

Segundo o velho, “os cavaleiros do Império Ferdin são narcisistas; juntos, parecem imponentes, mas em uma carga... são como coelhos perseguidos por águias, correndo sem rumo!”

O sarcasmo era evidente.

Agora, o que Morfeu via não era um bando de recrutas caóticos que fugiam ao soar a corneta. No vasto picadeiro, só havia alunos alinhados em filas perfeitas. Embora já fosse outono, o calor persistia; os jovens, suando sob as roupas de linho compridas, seguravam lanças e praticavam o mais básico, aparentemente simples, exercício de permanecer em posição com a arma.

Não estavam montados, mas o rigor militar era impressionante.

Segundo Hiddink, esse treino duraria toda a tarde, com apenas uma pausa; o movimento da arma e a altura em que era mantida precisavam respeitar o padrão, sob pena de uma surra do instrutor.

E não era brincadeira: os instrutores eram, em geral, cavaleiros de nível médio; quase ninguém ousava revidar.

Os padrões da Sétima Companhia não eram mais rígidos que os das demais, e Morfeu não sentiu aquele clima de genialidade que se dizia existir; ao contrário, viu jovens nobres em estado de extrema fragilidade.

Claro, era porque tinham acabado de voltar de uma semana de treinamento ao ar livre. Mas, ao receber a lança de treino — de madeira, não muito leve — Morfeu percebeu o verdadeiro desafio.

A posição da arma era algo natural para Morfeu — ele praticava há oito anos, conforme ensinado por Dom Quixote. Oito anos, para um jovem em formação, fazem de certos hábitos parte da vida.

Como o modo de empunhar e ficar imóvel.

A Sétima Companhia tinha oitenta e sete alunos, quase todos entre catorze e dezesseis anos. Não importava o passado ou o poder dos pais, ali todos vestiam roupas de linho grosseiras, franzindo a testa sob o suor como soldados.

Isso mesmo: ali não havia “cavaleiros”, nem nobreza ou superioridade, apenas soldados comuns.

As normas e etiquetas valorizadas pelos cavaleiros de Ferdin eram jogadas no lixo ali.

O papel do instrutor era treinar duramente esses “soldados nobres”.

“O que está acontecendo?!”

Um grito militar ecoou, seguido pelo som de botas pesadas; o instrutor, com uma insígnia de cavaleiro médio no peito, parou abruptamente na última fileira, olhos arregalados como touros.

Morfeu não se moveu, manteve a posição com a lança.

“Quem foi o porco que te ensinou a segurar assim?!”

O grito rompeu o silêncio, como um trovão no campo cheio de alunos.

O instrutor não sabia, mas pisou numa linha vermelha.

Morfeu virou-se lentamente, baixando um pouco a lança que segurava há mais de dez minutos sem tremer, e respondeu com voz fria: “Não foi um porco, foi meu mestre.”

Morfeu era diferente dos demais: sua postura destacava-se entre os alinhados, o mais singular de todos.

Os colegas de quarto ficaram surpresos, mas não disseram nada — entre os nobres, testemunhar alguém em apuros sem ajudar já era considerado virtude.

A resposta era, de certa forma, uma provocação pública — o instrutor não hesitou, levantou o pé e tentou chutar Morfeu!

“Não foi um porco, foi—”

“Pum!”

A silhueta voando de lado deixou os alunos boquiabertos — esperavam ver o novato apanhar.

Mas a verdade foi como um tapa na cara: o instrutor, pelo menos duas vezes mais robusto que Morfeu, mal levantou o pé e foi atingido pela lança, girando como um pião!

A lança, de três metros, feita para treinos, oca e frágil, deveria quebrar com o impacto, mas traçou um arco perfeito. Ao acertar o instrutor, a energia do pinheiro foi absorvida pelo movimento do pulso de Morfeu, que não deixou a arma quebrar, apenas tremer!

O movimento foi incrivelmente rápido: de baixar a lança à pancada, tudo em menos de um piscar de olhos. O instrutor, experiente, só teve tempo de levantar o braço instintivamente, mas não conseguiu bloquear o golpe súbito no abdômen!

Um único golpe bastou para provar a habilidade de Morfeu.

Se a maga Della era incomparável em sua área, Morfeu pensava que o velho que lhe ensinara a técnica da lança não era menos hábil em seu domínio.

A espada curta de aço mágico de Nápoles pendia discreta à cintura de Morfeu; um distintivo que, inadvertidamente, fazia esquecer um fato — acima de cavaleiro, há existências que não se mostram há muito tempo, e até instrutores não se atentam à origem daquela arma.

O instrutor, jogado ao chão, pulou de imediato. A verdade era que Morfeu não havia usado força total, apenas expressara sua atitude — mas, no exército, não há concessões. Ser golpeado por um aluno era uma humilhação extrema, então o instrutor fez o único gesto possível.

Sacou a espada.