Capítulo Cinquenta e Nove: O Pastor Silencioso

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3641 palavras 2026-02-07 18:51:15

Hoje haverá dois capítulos, então peço bilhetes vermelhos com toda razão!

As palavras de Tomás pareciam carregadas de certa provocação, mas na verdade não o culpava por isso — sendo um nobre de Constantinopla, cuja família, entre os mais velhos, contava apenas com clérigos e nenhum cavaleiro, sua noção de campo de batalha vinha apenas de obras literárias. Não nutria grande respeito pelos militares que se sacrificavam pela pátria. Já a família Níqui, um dos pilares da nobreza clerical bizantina, consolidara-se ao longo de trezentos anos com mais de seis cardeais, tornando sua posição inabalável. Contudo, o jovem herdeiro, apesar de já estudar há dois anos no seminário, parecia ter esquecido o que significa a humildade e o respeito próprios de um devoto.

“Talvez seja isso”, respondeu Morfeu, sem dar maiores mostras de reação. Limitou-se a assentir e sentou-se à mesa, abrindo um livro e baixando os olhos para a leitura.

Diferente de quando, outrora, perdera o controle ao ser provocado por um instrutor, Morfeu não tinha interesse em aprofundar conversa com aquele nobre imprudente. Talvez o outro apenas quisesse exibir sua suposta superioridade; Morfeu não se sentia obrigado a alimentar aquele teatro, preferia ocupar-se do que realmente importava. Desde que seus limites não fossem ultrapassados, ele não buscava problemas. Era como evitar territórios de feras na floresta: perigos e imprevistos, se podem ser evitados, devem sê-lo; só um tolo investiria cegamente, sem receios.

Ao perceber Morfeu sentando-se tranquilamente, sem se aborrecer, Tomás sentiu-se frustrado, como quem desfere um soco contra o vazio. Ainda assim, não insistiu em provocação — também não tinha necessidade disso. Apenas torceu levemente os lábios e afastou-se, parando não muito longe, observando, como se não quisesse acreditar que um cavaleiro, que imaginava só saber gritar “Que o Senhor me proteja” enquanto brandia uma espada, pudesse compreender os escritos de Aquino, que ele mesmo relutava em estudar.

É da natureza humana: ao perceber que alguém semelhante está à frente, surge no íntimo uma inveja e desconfiança inexplicáveis.

O tempo passou, os raios do pôr do sol atravessavam a janela, estendendo a sombra de Morfeu. Os tratados complexos, diferentes dos grimórios, não eram construídos de saberes rígidos, mas sim de sentenças profundas e filosóficas, formando um vasto oceano. Morfeu começou a compreender a vastidão do conhecimento daquele velho encurvado que conhecera. O exemplar entre suas mãos fora publicado há trinta anos e seu conteúdo o deixava pasmo.

Nem todo seminarista se tornava um fanático religioso. Morfeu lembrou-se das ironias que Dom Quixote costumava repetir sobre os clérigos que tinham sempre “Senhor” nos lábios. O velho desprezava esses, mas nutria profundo respeito por certas obras — como o negro “Confissões”. Antes, Morfeu achava isso contraditório; agora, compreendia profundamente.

O salão da biblioteca ia esvaziando ao cair da noite. Morfeu ergueu a cabeça para esticar o pescoço rígido e percebeu Tomás ainda ali, não muito longe. Sem nada dizer, aproximou-se das estantes, retirou um volume dos “Comentários aos Quatro Livros das Sentenças Lombardas”, folheou, achou-o demasiado denso e devolveu. Após breve reflexão, pegou um exemplar de “Contra os Hereges” e abriu-o com interesse.

Esse gesto irritou Tomás, que, ao virar-se, mudou de expressão de súbito. Levantou-se e dirigiu-se à porta com um sorriso largo — não bajulador, mas claramente artificial, uma máscara forçada.

Morfeu não percebeu esse detalhe enquanto anotava, com sua pena, trechos essenciais em uma folha de pergaminho. “Contra os Hereges” não era um tombo volumoso, mas abriu-lhe os olhos. A teologia não era mera repetição da onipotência divina; os escritos de Aquino trouxeram contribuições monumentais ao sistema teológico. Ao abordar o problema mais simples, porém fundamental — a existência de Deus —, trouxe alento ao Patriarcado e à Cúria do Sacro Império Gabrielino. Em inumeráveis debates, sua habilidade inconteste de argumentação e vasto saber deram-lhe o título de “Doutor Universal”. “Contra os Hereges” reunia muitos debates de Aquino, além de registrar os “inimigos” enfrentados pelo Tribunal da Inquisição de Bizâncio desde sua fundação. As surpresas eram muitas, e, mais importante, o autor participara ou testemunhara ao menos setenta por cento dos casos narrados, e seus inimigos eram bem mais perigosos do que se podia suspeitar.

Como podia tal ancião, de talento tão evidente, viver recluso numa academia de segunda categoria?

Morfeu, instintivamente, ligava esse comportamento a outras figuras que conhecera: Dom Quixote, o velho que lhe dera a adaga de aço mágico de Nápoles; e Dela, a misteriosa maga de origem desconhecida. Não sabia avaliar o poder de Dela, mas era grato pela educação que recebera desses três, mesmo que, por vezes, sem tê-la buscado.

Enquanto meditava, vozes um tanto ruidosas soaram ao seu redor.

“Creio que as obras de Santo Agostinho são mais adequadas para iniciantes. Seu ‘Sobre a Trindade’ fundamenta a doutrina da Cúria Bizantina, recomendo fortemente.”

“Não gosta? Então talvez ‘A Cidade de Deus’ seja uma boa escolha.”

“Não acho que o setor de Aquino seja apropriado para você. Teorias tão densas podem desorientar; mesmo a maioria dos professores do seminário evita usar Aquino como livro-texto, pois dispersa a atenção dos alunos.”

“Eu...”

As vozes, claras, fizeram Morfeu erguer levemente a cabeça. Nas duas longas mesas da seção de Aquino, apenas ele estava. Ao voltar o olhar para o corredor central, banhado pelo crepúsculo, viu Tomás e outra figura.

Naquele instante, o tempo pareceu parar.

Era uma imagem que Morfeu jamais esqueceria. A beca escura do seminário não cobria-lhe os longos cabelos como o hábito de uma freira. Sob o sol poente, Joana caminhava delicadamente, o olhar curioso elevando-se para cruzar com o dele, e então, parada, ficou atônita.

Ela abriu os lábios, surpresa. Sempre reservada, jamais recusava alguém, mas agora afastou, a passos rápidos, Tomás, que a seguia tentando agradá-la, e fitou com olhos arregalados aquele que, em pé, era uma silhueta à contraluz do entardecer.

“Há quanto tempo.”

Morfeu olhou para Joana, sentindo um calor inesperado no peito.

O sorriso de Joana floresceu, seu rosto adorável ainda com traços de meninice, irradiando uma pureza sagrada sob a luz do sol.

O reencontro dos dois foi silencioso, mas a troca de olhares deixou o único espectador atônito.

Tomás ficou boquiaberto, sem saber o que dizer. O nome de Joana já era amplamente falado na academia, não só por sua beleza — superior até à de um anjo esculpido por Michelangelo —, mas também pela atenção que recebia do reitor da Academia Sagrada de São Pámfilo. Uma jovem de origem desconhecida, sem sobrenome nobre, que desde o primeiro dia era ensinada diretamente pelo reitor, sem frequentar as aulas obrigatórias, e com livre acesso a todas as áreas da biblioteca — privilégio de menos de dez pessoas, entre professores e o próprio reitor. O significado disso era imenso.

Aquela que, entre os alunos, era chamada de “anjo”, nunca dirigira a palavra a ninguém. Tomás, confiante em seu status de herdeiro de uma família influente, com uma ascensão episcopal praticamente garantida aos quarenta anos — provavelmente até a posição de bispo regional —, esquecia-se de um fato: o reitor, que podia ombrear com os cardeais do Patriarcado próximo, tratava Joana com tamanha consideração. Que direito tinha ele, um nobre de segunda, de se exibir? O sentimento de superioridade, acumulado há tanto tempo, tornava-o cego.

“Não esperava encontrá-la aqui”, disse Morfeu, sem saber que Joana estudava ali. O velho Aquino jamais lhe revelara isso, mas agora ele compreendia muitas coisas, ao olhar a jovem que antes vestira o hábito de freira.

“Sim”, respondeu Joana, com um aceno sério, mas sorrindo como antes.

Tomás já se sentia perdido. Com receio de perder o protagonismo, apressou-se a interpor-se entre os dois, dizendo, a voz trêmula: “Bom, eu estava mostrando a biblioteca para Joana. Morfeu, se não se importa, poderia...”

“Não é necessário.”

Morfeu acenou, sem recusas ríspidas, apenas olhou Joana, que ainda o fitava, e voltou a dizer: “Para ela, a seção de Aquino já basta.”

Para Tomás, aquelas palavras soaram como uma afronta.

“Aquino já basta? Um simples guerreiro a cavalo sabe qual o papel de Aquino na teologia? Ousado dizer que basta! Acha que essas folhas de pergaminho resumem todo o sistema teológico? Talvez, em batalha, gritem corajosamente pelo Senhor, mas nem sabem o que significa ‘Trindade’!”, exclamou Tomás, apontando para as anotações de Morfeu. Não gritava, mas estava fora de si.

“A teoria de Santo Agostinho não é assim tão obscura”, replicou Morfeu, olhos semicerrados, recostando-se na cadeira. Na verdade, não queria que os perdigotos do outro atingissem Joana — o que Tomás interpretou como sinal de medo, tornando-se ainda mais agressivo.

“Talvez já tenha ouvido falar. Sim, a Cúria Bizantina tem difundido a educação, de modo que até quem não conhece teologia já ouviu falar da Trindade, mas...”

Não terminou a frase, pois Morfeu estendeu o braço e, com aparente cordialidade, apertou seu ombro. No instante seguinte, o rosto de Tomás contorceu-se de dor, a boca aberta sem som.

“Não tenho interesse em seus sermões.”

Os dedos de Morfeu pressionavam-lhe a clavícula, puxando-o suavemente para trás antes de soltá-lo. Olhou para Tomás, pálido de dor, e continuou: “Há muitos cordeiros, mas não acredito que você tenha aptidão para ser um bom pastor.”

“Você...”

Tomás, suando frio, relutava em ceder. Pegou uma folha de pergaminho sobre a mesa, vasculhando com os olhos em busca de alguma frase que desmascarasse Morfeu. Subitamente, deparou-se com o título “Suma Teológica”, cujo nome lhe era familiar. Ficou paralisado, depois arregalou os olhos, olhou novamente para Morfeu como se visse um espectro, largou o pergaminho, enxugou o suor da testa e fugiu sem olhar para trás!

Joana observou a fuga de Tomás, um pouco confusa, mas ao ver o manuscrito de Aquino, que conhecia tão bem, rapidamente compreendeu. Sorriu suavemente, sem sinal de escárnio — apenas com uma pontinha de compaixão e pesar.

O pastor silencioso é sempre o mais sábio.