Capítulo Quarenta e Quatro: O Mago Arrogante, A Sonata Melancólica
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— Morfeu? Que nome interessante, gostaria de saber qual é a sua impressão sobre Constantinopla?
A voz era suave. Erguendo o olhar, Morfeu viu que era uma das garotas que antes nem sequer lhe havia lançado um olhar. O rosto, delicado como uma flor de pessegueiro; os olhos, expressivos.
— Muito grande.
Morfeu sorriu com um ar simples e campestre.
A expressão fez a moça conter um riso, escondendo o sorriso com o leque que segurava. Seu rosto, maquiado com esmero, era refinado, embora um pouco afetado, o que causava certa estranheza a Morfeu.
— Sou Nina Condós, atualmente estudo na Academia de Magia de Pansel. E você, onde estuda?
Meu Deus, é só escolher alguém ao acaso e já é da Academia de Magia de Pansel?
Morfeu piscou e continuou sorrindo:
— No momento, estou em casa. Há pouco tempo, estudava na Academia Terrence, mas deixei de frequentar.
A novidade pareceu surpreender Nina. Ela se remexeu levemente, franzindo um pouco a testa:
— Terrence? Por que ir a um lugar desses? Pelo histórico do seu pai, acredito que poderia entrar em qualquer academia sem problemas.
Com habilidade, fechou suavemente o leque. Apesar de ter apenas dezesseis anos, já mostrava as curvas de uma jovem bem desenvolvida. Endireitou-se um pouco, como se esperasse pela resposta de Morfeu.
Morfeu coçou o nariz, prestes a responder, quando percebeu a aproximação de dois rapazes.
Um de cada lado, como guardiões, os dois que sempre estavam ao lado de Nina olhavam para Morfeu com expressão pouco amigável. Um deles já lançou um recado bem claro:
— Sem problemas? Nina, ouvi dizer que o renomado Duque de Windesor foi pessoalmente à Academia de Magia de Pansel para tentar matricular o filho e foi recusado.
Ele não falou alto, mas todos ao redor ouviram claramente. Porém, não houve aquele silêncio abrupto; era nítido que a notícia já circulava no meio deles.
— Nina, queria ouvir de você sobre o processo de avaliação para mago avançado na última prova. Pode me contar? O tutor acha que minha energia de fios de cristal ainda não é suficiente para ativar o ‘Quadrante Quádruplo de Kosler’, mas o professor Doda está otimista.
O outro rapaz, sem dúvida também estudante da Academia de Magia de Pansel, exibia um broche de mago intermediário no peito, apesar do evento ser um banquete. O gesto transbordava orgulho, e ele sequer olhou para Morfeu, como se desprezasse ficar ao seu lado.
Nina franziu levemente as sobrancelhas, não demonstrando simpatia pelos dois pretendentes. Com destreza, inclinou o leque e apontou para longe, onde uma criança parecia apreciar um quadro na parede:
— Humil certamente lhe dará o padrão de avaliação para mago avançado. E, claro, também os de mago iniciante.
Essas palavras deixaram os dois estudantes de Pansel desanimados e em silêncio, mas o aviso de Nina parecia não ser apenas para eles; era também uma forma de exibir suas conexões diante de Morfeu.
— Que gênio, de fato.
Morfeu manteve seu sorriso simples e um tanto rude, não por incapacidade de ser cavalheiro, mas por escolha própria.
Assim como quando Carlin mandou seus capangas a cavalo para tentar assassiná-lo, Morfeu aprendeu que, quando não se pode resolver algo de imediato, é melhor recuar um passo e, num momento inesperado, desferir o golpe fatal.
Isso era bem mais interessante do que na floresta.
— Óbvio, quem entra para Pansel não é inútil. O que há em Terrence? Um bando de desocupados, inúteis? O máximo que se salva é a biblioteca.
O rapaz nem se dignou a se apresentar, demonstrando desprezo pelo fato de Morfeu ser um filho ilegítimo. Embora a maioria dos nobres preferisse ignorar esse detalhe, dada a apresentação formal feita pelo duque naquela noite, ele evidentemente não compreendia o significado disso.
— A biblioteca é enorme mesmo — assentiu Morfeu, sem se afetar com o tom irônico, o que só aumentou o desprezo dos rapazes, mas fez Nina semicerrar os olhos.
— E de que adianta ser grande? Você já leu tudo? Um medíocre que nem sequer ouviu falar do mecanismo de corte elemental.
Ele quase disse “inútil”, mas conteve-se ao notar o olhar severo de Nina.
— Jamais subestime alguém levianamente. Isso não são palavras de um verdadeiro nobre.
Passou por ali um jovem alto, aparentando vinte e cinco ou vinte e seis anos. Morfeu reparou que ele ostentava ao menos três medalhas no peito, sinal de família militar e de experiência em combate. Entre elas, brilhava a medalha de Cavaleiro Protetor Avançado, acompanhada de uma cruz de prata e de uma flor dourada de dezesseis pétalas; a primeira indicava serviço na Primeira Ordem de Cavaleiros do Império, o “Santuário”, e a segunda, participação em batalhas com pelo menos mil combatentes e feitos notáveis — o que significava mais de três anos de serviço.
Postura imponente, traços corretos, ele fez um leve aceno para Morfeu:
— Lir Chax, formado pela Academia de Cavalaria de Cosy. Se quiser ir para lá, poderei ajudar.
Morfeu abandonou o sorriso simplório e acenou com seriedade; cruzaram-se sem mais palavras.
Esse jeito lembrava o do duque de Akal: objetivo, direto, conciso, militar até o fim. Morfeu achava esse tipo de interação muito mais agradável do que com os outros três.
O Cavaleiro Protetor Avançado, egresso da Academia de Cosy, tinha muito mais respeito que os jovens presentes, não apenas pelas medalhas e posição, mas pelo peso da autoridade adquirida em batalhas. Os outros, que jamais viram a morte, não possuíam tal aura grave e cortante — exceto Morfeu, que sabia ocultá-la.
Virando-se, Morfeu falou suavemente:
— Nina Condós? Talvez ainda nos encontremos. Espero que nossas próximas conversas sejam mais agradáveis.
Fez um aceno aos dois protetores ao lado dela e afastou-se.
Em nenhum momento os três rapazes trocaram apresentações, criando um ambiente tenso.
— Um bastardo ignorante, não sei do que se orgulha.
— Você só vê orgulho nos outros porque o seu próprio é excessivo — retrucou Nina, franzindo o cenho, pouco simpática ao companheiro. — Você provavelmente não viu tantos cadáveres quanto Lir. Guarde seu ar superior, mesmo que Morfeu seja medíocre.
Constrangido, o rapaz silenciou, lançando a Morfeu um olhar ainda mais arrogante.
O outro apenas murmurou:
— Último herdeiro da família Windesor. Seus ombros não parecem capazes de carregar o peso da glória paterna. Recusado pelo diretor da Academia de Magia de Pansel... Se fosse comigo, jamais apareceria neste banquete. É admirável sua calma.
Para os estudantes da Academia de Magia, o diretor era quase divino: membro do mais seleto conselho de magos do continente, o “Compasso Dourado”, detentor do título de “Arcanista do Céu Sagrado”, laureado com o emblema do Carvalho Dourado aos dezenove anos — feitos e conquistas incríveis tornavam o diretor Freud uma figura mítica. Qualquer palavra sua era considerada máxima e registrada. Todos os alunos reconhecidos e orientados por ele se tornaram magos respeitados em todo o continente.
— O continente não tem falta de magos poderosos autodidatas, nem sente ausência de um jovem nobre medíocre. Só os medíocres se preocupam à toa.
Nina abanou delicadamente o leque e dirigiu-se a outro grupo. Para ela, naquele momento, Morfeu era apenas mais um dândi abençoado pelo brilho do pai.
Morfeu, por sua vez, não procurou se enturmar; preferiu observar, fascinado, os velhos músicos de cabelos prateados que tocavam no salão. Ficou absorto.
Os músicos diferem dos bardos: expressam sentimentos por meio dos instrumentos, não da voz. Dom Quixote costumava murmurar que, por mais belo que fosse o canto dos bardos, não se igualava à peça “Lamento do Rio Mori” executada pelo violeirista de Caslandi. Agora, Morfeu finalmente ouvia o som do tão curioso “violeiro”, perdido em pensamentos.
Na verdade, sentia saudades do seu mestre — aquele velho desleixado, mas sábio.
O violeiro se assemelhava ao violoncelo, mas produzia um som ainda mais grave e melancólico.
— Tenho um pedido — disse Morfeu, logo após os músicos terminarem a execução da “Abertura de Praga” —, poderiam tocar “Lamento do Rio Mori”?
Olhou para o músico de longos cabelos brancos, que vestia o traje suntuoso reservado aos mestres que tocam em banquetes reais. O velho, que sempre tocava de olhos semicerrados, pensou por um instante e acenou positivamente.
Os demais músicos ajustaram seus instrumentos e, em sintonia, voltaram-se para o mestre.
Com um lenço, o velho enxugou a testa, ajeitou a violeira de madeira de bordo polida, ergueu o arco. Um fraseado estranho aos estilos tradicionais de Bizâncio soou de repente: distante, profundo, antigo.
Morfeu permaneceu imóvel.
Após dois compassos, os outros instrumentos se juntaram. Em contraste com o clima festivo do banquete, a melodia parecia um riacho na floresta, quase despercebida, mas fluindo com tristeza.
Morfeu compreendeu, finalmente, por que Dom Quixote nunca esqueceu o violeirista solitário: essa peça não pode ser executada ou apreciada sem a maturidade dos anos e a experiência da solidão.
Depois de tantos anos vagando sozinho pelas florestas, Morfeu sentiu uma pontada de melancolia. Ao ritmo lento e triste da música, lembranças vieram à tona, incontroláveis.
O velho, de olhos fechados, balançava suavemente o corpo; a postura de mestre era inegável. Ao terminar, ergueu o rosto enrugado, inundado de lágrimas.
Morfeu fez uma reverência, sem deixar que ninguém visse seus olhos úmidos, e agradeceu baixinho aos músicos.
Aplausos.
De longe, a duquesa de Eissara observava e, sozinha, bateu palmas. O som destacou-se no salão.
Logo, todos ao redor a acompanharam, como se despertassem de um transe.