Capítulo Oitenta: Ação

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3735 palavras 2026-02-07 18:52:00

Hoje era o dia de trancar o laboratório. Exausto, fui forçado a realizar o último teste, e cá está a primeira atualização. Ultimamente tenho enfrentado um bloqueio criativo; espero que o fim de semana traga algum alívio.

Agradeço sinceramente a todos pelos votos e pelo apoio! Minha gratidão aos amigos que acreditam em mim.

Vestidos com mantos negros de bordas brancas, ostentando no peito o símbolo que fazia tremer todos os hereges de Bizâncio — a estrela de seis pontas, atravessada ao centro por uma espada longa —, estavam os árbitros da maior instituição do Tribunal da Fé: a “Espada do Julgamento”.

Não era um departamento de investigação. Entre os seis setores representados pela estrela do tribunal, além da “Espada do Julgamento”, havia também o “Olho Direito de Corbe”, responsável pela inteligência, e o “Cajado de Moisés”, encarregado de estudar as artes hereges e julgar sua proibição. Estes três compunham o tridente ostensivo que sustentava o poder do clero. Quanto aos outros três departamentos, poucos conheciam suas funções, e seus nomes jamais eram mencionados publicamente.

Se o tribunal viesse em tom amistoso tratar a família Windesol, quem estaria ali seriam pesquisadores do Cajado de Moisés ou agentes do Olho Direito de Corbe, pois as perturbações causadas pela descida sagrada e os vestígios remanescentes seriam valiosos objetos de estudo para eles. Mas, ao invés disso, ali estavam apenas juízes, cuja única função era julgar hereges, revelando a real postura do Império Eclesiástico.

— Jacó, alto árbitro da Espada do Julgamento, fui incumbido de investigar os eventos da descida sagrada em Mulental — anunciou o homem à frente.

Não era alto e, apesar dos aparentes trinta anos, seu rosto mostrava as marcas do tempo. Ao ver Mórfys, jovem, descendo as escadas, não o considerou alguém capaz de decidir coisa alguma; seu olhar era frio, até mesmo indiferente à presença de Ashcandi, que seguia atrás do rapaz.

Naturalmente, ele não suspeitava da verdadeira identidade daquela bela dama nobre — para alguém como Ashcandi, ser facilmente desmascarada seria motivo para retornar ao túmulo e continuar dormindo.

O título de Alto Árbitro não era insignificante. Internamente, o membro mais baixo da Espada do Julgamento era chamado de Juiz, dividido em três níveis. Apenas acumulando méritos e recebendo nomeação se ascendia a Árbitro, mas o cargo seguinte, de Árbitro Superior, era geralmente o ápice para membros ordinários — a taxa de mortalidade era tão alta que subir de posição não significava segurança, mas sim proximidade do perigo. Nesse mecanismo brutal de eliminação, quanto mais alto o título, mais extraordinária a força. E, ao atingir o posto de Alto Árbitro, supunha-se que ali estivesse ao menos um combatente de nível II — o homem diante deles era um Cavaleiro Alto de patente equiparável a um general de exército!

O pôr do sol projetava as longas sombras dos encapuzados. Após uma saudação formal, Mórfys perguntou em voz baixa:

— A Espada do Julgamento necessita do auxílio dos Windesol?

Sem rodeios, num estilo idêntico ao do duque Acar, enquanto Ashcandi, atrás de Mórfys, limitava-se a um leve sorriso e um olhar enigmático.

O velho mordomo, sempre presente, aguardava em silêncio o desempenho de Mórfys — sobre Ashcandi, sabia o suficiente pelo que ouvira do duque, e, como fiel, não fazia perguntas desnecessárias.

— Por ordem do Grão-Cônsul da Espada do Julgamento, lidero a equipe para conduzir uma série de investigações em Mulental, incluindo o local do ritual da ‘descida’ e todos os possíveis hereges da região — declarou Jacó, impassível, sem bajulação ao herdeiro do duque; suas palavras, porém, continham outra camada de significado, fazendo Mórfys franzir o cenho.

Embora jamais tivesse liderado a família na ausência do pai, Mórfys sabia bem que, mesmo vindo do Tribunal da Fé, eles não tinham autoridade para agir arbitrariamente nas terras de um senhor. A postura de anunciar desde o início uma caçada a hereges não era, de modo algum, amistosa. Receber uma “ordem” para “investigar” era atitude inadequada para se ter diante de uma grande casa nobre.

— Hereges? Mulental tornou-se agora refúgio de hereges do Império? Ou a Espada do Julgamento suspeita que os Windesol escondem inimigos da fé?

Rotular era fácil, e Mórfys, pela primeira vez, usou o peso de sua posição para encarar sem temor o Alto Árbitro, diante do qual nobres comuns mal ousariam respirar.

De fato, tal acusação fez o semblante do rival se alterar, mas o tribunal, há muito habituado ao poder, não se humilharia tão facilmente. Sem vontade de se curvar a um herdeiro, Jacó respondeu com voz grave:

— Erradicar hereges é a principal missão do tribunal. Espero que a família Windesol seja um exemplo de oposição à heresia dentro do Império.

Ao ouvir isso, Ashcandi, até então uma mera “flor de vaso”, tapou a boca e riu, provocando um olhar de repreensão de Mórfys. A grande herege piscou-lhe um olho e fez careta, deixando o rapaz sem palavras.

O velho mordomo permaneceu estático, olhos semicerrados como uma escultura.

Virando-se, Mórfys perdeu o interesse em continuar — era uma questão de respeito mútuo; se houvesse, nada seria problema. Investiguem, procurem hereges, não importa. Mas, com tal arrogância, não era possível nutrir simpatia. Mais importante ainda, desde que não perseguissem Ashcandi, tudo corria bem.

Mórfys não queria ver a família Windesol acusada de “acobertar hereges” ou “traição”; isso não teria desfecho favorável.

Porém, quando estava prestes a pedir ao velho mordomo que dispensasse o grupo, o último raio do sol desapareceu do salão.

De súbito, algo lhe veio à mente, e Mórfys girou nos calcanhares — apenas para encarar os olhos excessivamente sedutores de Ashcandi fixos nele, um sorriso estranho e malicioso nos lábios.

Um arrepio gelado percorreu Mórfys da cabeça aos pés.

Maldição! Agora estava realmente em apuros! Esquecera-se completamente que, ao cair da noite, Ashcandi mudava de personalidade!

Engoliu em seco, tentando redirecionar a atenção dos membros do tribunal, mas era tarde demais.

Os cinco árbitros de negro empunharam, em uníssono, suas armas — quatro espadas longas e um cajado. O salão de recepção do duque foi tomado por uma atmosfera densa, típica da concentração de elementos mágicos.

A transformação nos olhos de Ashcandi dizia tudo; não cabiam mais palavras. Para a Espada do Julgamento, ação falava mais alto.

Sem tempo para xingamentos, Mórfys percebeu que enfrentava uma escolha impossível — de que lado ficaria, do tribunal ou de Ashcandi?

A neutralidade não existia; quem se omitisse ganharia inimigos de ambos os lados.

Se apoiasse o tribunal, talvez não morresse para Ashcandi, mas corria o risco de ver a família Windesol e o castelo destruídos. Por outro lado, se ficasse ao lado de Ashcandi, colocava-se contra todo o tribunal e, talvez, contra o próprio Império.

O velho mordomo, impassível, apenas avançou um passo à frente de Mórfys e disse, sem olhar para trás:

— Jovem senhor, perdoe-me, só poderei resistir por dois minutos.

Sem lamento, o mordomo fiel não se importava com o que viria; preocupava-se apenas com a segurança de Mórfys.

A ausência do duque diminuíra o número de guardas no portão, e a Espada do Julgamento não demonstrava o menor receio de agir no salão de um grande nobre.

Mórfys vacilou por um instante, mas decidiu sem hesitar.

— Não se sacrifique!

Recuou bruscamente, e, ao mesmo tempo, Old Pafah liberou uma aura avassaladora, lançando-se sobre três adversários. Uma esfera de fogo incandescente passou raspando pelo ombro de Mórfys.

— Bum!

Por sorte, o mago ao fundo, portando um cajado, lançou o primeiro feitiço contra Ashcandi, parado no salão. A explosão revelou a força de um feitiço de décimo círculo lançado instantaneamente — ao menos um mago de baixo escalão!

Apesar de seu nível de energia cristalina estar no padrão de um mago, Mórfys não sabia conjurar sequer um feitiço. E, após o jantar, nem sequer portava a adaga de aço mágico — restava-lhe apenas agarrar a espada decorativa da parede para se defender.

— A heresia será purificada. Mesmo sendo herdeiro dos Windesol, este é o destino de todos.

O espanto não durou; Jacó, o Alto Árbitro, logo aceitou que o jovem era “amigo” de uma herege — sem saber, contudo, o risco que Mórfys assumia.

Old Pafah, mestre de espada de nível II, estava no auge do poder. Contra três espadachins de nível IV, ainda tinha vantagem, mas, caso o cavaleiro de nível II e o mago de nível IV atacassem juntos, talvez só resistisse mesmo por dois minutos!

Mórfys sabia que atacar agora seria suicídio. Fugiu escada acima, enquanto Ashcandi o observava, impassível, recebendo sucessivas explosões mágicas sem se mover.

Após séculos, explosões ecoaram novamente no palácio do duque; ninguém lembrava que o motivo era a mesma pessoa.

As ondas de choque estilhaçaram as janelas. Os guardas foram alertados, cavaleiros e mestres de espada correram ao local, mas Mórfys era mais rápido que todos.

Três espadachins foram contidos por Old Pafah, o mago atacava Ashcandi, e Jacó, imóvel, via a heresia de Ashcandi como uma ameaça menor, sem sequer achar necessário intervir.

A fumaça da explosão envolveu Ashcandi, de olhos rubros.

Mórfys, então, saltou do mezanino, lançando-se sobre o mago posicionado ao fundo da formação inimiga!

O mago, experiente, cravou o cajado no chão — um escudo translúcido surgiu acima de sua cabeça, impedindo o golpe de Mórfys. Em seguida, Jacó, o Cavaleiro Alto, atacou com velocidade assustadora!

Mórfys, equilibrando-se sobre o escudo, ergueu a espada para bloquear; pela primeira vez, canalizou toda a energia cristalina. A lâmina, pouco mágica, brilhou intensamente, bloqueando o golpe de Jacó. Mas a diferença de força era esmagadora: lançado a vários metros, Mórfys chocou-se contra a parede. Ainda assim, levantou-se sem hesitar, surpreendendo Jacó — nos registros, o rapaz era apenas um cavaleiro-guarda de grande potencial, mas não se esperava que resistisse ileso a um ataque daqueles!

Jacó suspirou internamente: mais um prodígio, talvez. Mas sua espada não hesitou — afinal, que culpa tinha o rapaz de tornar-se inimigo da Espada do Julgamento?