Capítulo Cinco: Honra e Vergonha, o Manto da Nobreza

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3372 palavras 2026-02-07 18:49:27

O desfecho de “Restos do Dragão” já foi publicado na seção de conteúdos relacionados a esta obra. “O Cetro Negro” continuará com atualizações regulares; a partir da próxima semana, haverá dois capítulos por dia, aproveitando para buscar uma boa colocação na lista de novos lançamentos. O mais importante são os cliques, então conto com o apoio de todos os amigos. O fórum do Baidu é meu espaço público de interação; lá, na seção de “O Cetro Negro”, publicarei materiais como mapas e detalhes do cenário, facilitando o conhecimento deste novo continente para todos.

Agradeço sinceramente o apoio constante de vocês. Tenho confiança nesta nova obra e espero que continuem a depositar sua confiança em mim.

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Parecia que estavam relutantes até mesmo em oferecer a Morfeu uma peça extra de roupa; quando saiu da cabana arruinada de Dom Quixote, não trazia um casaco sequer, apenas uma espada curta com bainha de couro de fera nas mãos, sem qualquer outro pertence.

Virando-se levemente, Morfeu pôde ver a silhueta ereta no alto da colina; atrás dela, mais de vinte cavalos imponentes permaneciam imóveis como estátuas — só cavalos de guerra submetidos a rigoroso treinamento exibiam uma postura tão ordenada e solene. Morfeu suspirou suavemente, ciente de que, além de aceitar a identidade que Dom Quixote já conhecia, não lhe restava outro caminho.

Mas, antes de partir, ainda havia assuntos a resolver.

A casa de Morfeu situava-se em outro canto da aldeia, uma cabana de madeira ainda mais decadente que a de Dom Quixote, exalando um odor de podridão pela falta de reparos. Era inevitável: com um proprietário que talvez só voltasse para dormir ali algumas dezenas de dias por ano, qualquer casa logo adotaria tal ar de abandono.

Atrás da cabana, uma lápide simples e torta ostentava, em letras trêmulas, um nome humilde e sem sobrenome. Ali jazia a mãe de Morfeu, repousando em silêncio eterno.

Mãe de sangue? Morfeu não sabia ao certo; apenas se lembrava daquela mulher interesseira e obesa criando-o até a idade adulta, resmungando com frequência, mas sem jamais tê-lo jogado aos lobos.

Com um empurrão, abriu a porta de madeira. O painel apodrecido finalmente atingira seu limite, desabando com um estalo. Morfeu ignorou o fato, vasculhou o interior por alguns minutos e saiu vestindo uma túnica de tecido grosseiro e gasto.

Empunhando ainda a espada curta, Morfeu não levou nada além do estritamente necessário. Lançou um último olhar à cabana, ficou por um momento diante da tumba materna e, sem dizer palavra, virou-se e partiu, sem hesitação.

A vida lhe ensinara que só enfrentando o vento de frente compreenderia o caminho para a própria força.

O velho mordomo mantinha o ar impecável de sempre, caminhando rapidamente na direção do herdeiro ducal. Só pelo sobrenome “Windsor”, aquele jovem sairia em pouco tempo de uma vida quase bárbara para tornar-se o alvo da inveja de todo o Império, um senhorio elevado acima de milhares. A deusa do destino, ao que parece, adorava pregar peças impressionantes.

Enquanto multidões cobiçavam aquela posição invejável, o próprio interessado mantinha uma vigilância ainda mais aguçada do que na selva, atento não só ao ambiente, mas sobretudo ao perigo inerente ao seu novo status.

Riachos e córregos eram territórios comuns da floresta, onde todas as camadas da cadeia alimentar se encontravam. Mesmo que tigre e cervo coexistissem pacificamente, bebendo lado a lado, ninguém sabia o que aconteceria ao virarem as costas.

Dom Quixote certa vez descrevera a elite da sociedade humana como composta por três palavras simples: “homem devora homem”. Nada mais.

Isso bastava para que Morfeu compreendesse o que o aguardava: ali não havia predadores absolutos, tampouco pessoas dignas de confiança incondicional.

Montando o corcel militar de Serlis, trazido pessoalmente pelo velho mordomo Pafá, Morfeu viu os cavaleiros da família ajoelharem-se em respeito ao futuro senhor. E ali estava ele, vestido como um camponês rude, olhando confuso para o animal quase o dobro de sua altura, perdido em pensamentos.

Fosse sincera ou não, fosse desprezo ou reverência o que habitava os corações daqueles cavaleiros ao baixarem a cabeça, o fato é que, diante do jovem que logo vestiria a máscara da nobreza, eles já começavam, silenciosamente, a reconstruir seus valores.

A glória de um sobrenome ilustre contrastava de modo gritante com a rusticidade do vilarejo.

Os olhos azuis de Morfeu miraram o velho mordomo, que, com um gesto respeitoso, recebeu do guarda uma muda de roupas e a entregou ao rapaz. Morfeu, sem hesitar, vestiu-se ali mesmo, diante de todos.

Os cavaleiros da família não esconderam o desconforto, desviando os olhos para longe — jamais se vira tal atitude entre os nobres de Bizâncio. Em todo o Império, nunca se ouvira falar de um nobre expondo assim seu corpo diante de estranhos, salvo talvez damas tentando chamar atenção com vestidos decotados em bailes, nunca um aristocrata elegante despiria-se em público.

Vulgar seria o único adjetivo, mas Morfeu nem ao menos demonstrou constrangimento.

O velho mordomo, em silêncio, curvou-se, recebeu a túnica de linho esbranquiçada e, com mãos capazes de empunhar uma espada, dobrou-a cuidadosamente antes de entregá-la ao escudeiro.

“Vossa senhoria entende melhor do que eu o significado desta veste.”

O mordomo não disse mais nada; Morfeu, afinal, era a imagem viva do velho duque na juventude. E, em termos de astúcia, o jovem que derrotara dois assassinos sozinho certamente não era tão superficial quanto aparentava.

Qual o valor de uma roupa feita sob medida pelo alfaiate-chefe da Casa “Tulipa” de Constantinopla? Morfeu não sabia, nem se importava.

Vestiu-se de forma desajeitada, mas a roupa, uma das cinco trazidas pelo mordomo — cada uma de um tamanho —, encaixou-se-lhe perfeitamente.

Pafá inclinou a cabeça: “Se precisar de ajuda, senhor, estou à disposição.”

Sem tomar iniciativa, o velho Pafá sabia que o rapaz mantinha reservas maiores do que se poderia imaginar. Diante da nobreza, era preciso jamais esquecer o próprio lugar — mesmo que Morfeu fosse uma criança indefesa e ele, um mestre espadachim.

Ao ouvir o oferecimento, Morfeu acenou levemente, mas sua mão aproximou-se mais da espada.

O traje nobre era rebuscado e rígido, bem diferente das roupas folgadas que Morfeu usava antes, mas, uma vez vestido no conjunto escuro de viagem, sua aparência mudou consideravelmente.

É claro, o rosto sujo e o cabelo desgrenhado ainda distavam muito do ideal aristocrático.

Cinco gerações forjam um nobre. Um recém-enriquecido, por mais poderoso que seja, jamais será um “nobre” de verdade. Morfeu ainda estava longe dos padrões exigidos, mas ao vê-lo montar o cavalo, o velho mordomo não se importava em gastar cinco, dez anos ou mais moldando o que faltava ao jovem senhor.

“Quando se tem força para controlar a própria fúria, não há animal mais cruel do que o homem.”

Morfeu murmurou subitamente, prendendo a espada ao cinto de couro de salamandra flamejante. Virou-se para o mordomo, olhando para baixo: “Agora aceito meu destino, mas isso não significa que no futuro não possa recusá-lo.”

O velho mordomo permaneceu calado. Era a primeira vez que o jovem lhe dirigia a palavra. Jovens de temperamento maduro e assustador não eram raros entre a aristocracia de Constantinopla, mas aquela frase, Pafá Reno só ouvira de uma pessoa em toda a vida.

Akar Windsor, duque do Império, pai biológico de Morfeu.

Tal pai, tal filho, pensou o mordomo, não sem admiração. Em seguida, montou seu próprio cavalo, observou por alguns segundos e, ao confirmar que Morfeu já conduzia o animal com destreza, fez um gesto discreto — os dois cavaleiros ao lado de Morfeu assentiram e se afastaram ligeiramente.

Além do mordomo e de Morfeu, a comitiva contava com mais de vinte cavaleiros da família, todos detentores da medalha de guarda concedida pelo Império — equivalentes a mestres espadachins, capazes de enfrentar, em vinte, uma quadrilha de cem salteadores sem dificuldade. Com a força do mordomo, aquela modesta escolta rivalizava com qualquer guarda pessoal de alto prelado.

Morfeu, montado, não olhou uma só vez para trás, para a aldeia de Nair. Ao longe, a casa de Dom Quixote ardia em chamas, silenciosa, como um sinal anunciando que seu estranho morador partira.

“Senhor, precisamos atravessar cerca de seis condados e chegar a Constantinopla em cinco dias; é provável que surjam obstáculos durante o percurso.”

O velho mordomo não explicou ao rapaz por que viera de tão longe para lhe trazer essa notícia. Para alguém da idade de Pafá, aquilo não era nada comum; por isso, o alerta era necessário.

“Conflitos entre nobres costumam escalar a ataques desprezíveis. Num império vasto e antigo, isso é normal. Espero que compreenda o duque.”

“Um pai que nunca vi, mas que me concede honra, talvez mereça gratidão. Mas, a partir de agora, não lhe devo nada.”

As palavras de Morfeu quase não traziam traço algum do dialeto rural — fato de que Pafá acabava de se dar conta. Dada sua infância obscura, esperava-se que falasse com forte sotaque do noroeste, mas sua pronúncia não diferia em nada do padrão de Constantinopla.

O sotaque da capital, aliás, era conhecido popularmente como o “tom dos nobres”.

“Meu mentor já partiu. Talvez possam investigar a identidade daquele velho e não se esqueçam de me avisar depois.” Morfeu parecia compreender antecipadamente as dúvidas que sua presença podia suscitar, respondendo ao mordomo de modo indireto: “Também quero saber quem ele realmente era.”