Capítulo Cinquenta e Dois: A Técnica de Combate “Perdida”
Segundo capítulo do dia, peço votos e apoio para a lista de favoritos.
— Isso não pode ser verdade, porra.
Ao deixar o campo de treinamento lotado de alunos e subir até a torre dos instrutores da Academia de Cavaleiros de Kossy, Brown se jogou pesadamente em sua poltrona já torta e gasta, resmungando enquanto organizava os pergaminhos.
Sobre a mesa, além de um cantil típico de campanha, havia apenas mapas militares bastante manuseados e um elmo marcado pelo tempo. Nada dos habituais documentos que se encontrariam em um escritório de professor de academia; os pergaminhos ali tinham basicamente duas funções—serviam para Brown levar consigo quando ia ao banheiro, ou traziam a última edição da revista pornográfica clandestina “Cavaleiro das Flores”, da imprensa underground de Constantin.
Naturalmente, ambas tinham o mesmo destino depois de lidas.
Naquele dia, após soltar o desabafo, Brown calou-se e ficou a encarar, absorto, seu elmo. O elmo padrão da Ordem dos Cavaleiros do Templo era de confecção primorosa, submetido a pelo menos trinta e sete etapas antes de ser entregue a um cavaleiro. A peça diante dele ostentava nas laterais asas de metal gravemente danificadas—a insígnia de que Brown liderara, em algum momento, um regimento de mais de trezentos homens.
A vida de Brown, após a aposentadoria, parecia estranhamente tranquila—limitava-se a treinar aquele bando de jovens cabeças-duras—mas, como todo veterano de guerra, jamais alcançaria paz interior após ter participado de batalhas em larga escala.
O passado é sempre despertado por objetos comuns, e foi exatamente isso que aconteceu quando, em seu escritório de vista ampla, viu Morfes empunhar sua lança. No instante em que levava o cantil aos lábios, seus dedos apertaram-no com tanta força que deixaram marcas no metal.
O motivo era claro: o modo como Morfes segurava a lança. Não se tratava do padrão dos cavaleiros de Bizâncio, nem de um erro típico de estudante iniciante. Como alguém que enfrentara todo tipo de combate nas fronteiras do império e participara de expedições, Brown sabia bem de qual país vinha aquele gesto.
Cavalaria de Cassilândia. Apenas aquele império decadente treinava seus cavaleiros para empunhar a lança daquela maneira.
Por mais que o mundo ignorasse ou denegrisse sua história, a glória de Cassilândia permanecia registrada para sempre nos livros, sobretudo por seus cavaleiros: exímios, ferozes e lendários.
Era um império orgulhoso. Se os cavaleiros de Ferdin eram pavões adornados com plumas, os de Cassilândia, que jamais usaram armaduras de aço, eram lobos.
Sedentos por sangue, poderosos a ponto de inspirar temor apenas ao se mencionar seu nome.
Contudo, devido a uma aliança entre o Império Bizantino, o Sagrado Império Gabriel e o apoio temporário do Reino de Naler, aquela nação esplendorosa foi aniquilada em uma campanha de sete anos, reduzida a um estado secundário no continente.
Brown jamais se esqueceria das técnicas impressionantes dos cavaleiros de Cassilândia—habilidades que poderiam ter levado os cavaleiros de Bizâncio ao domínio do continente, não fosse a ordem do imperador de enforcar todos os cavaleiros cassilândios, extinguindo de vez essa linhagem.
A máquina de guerra de uma nação foi assim, de súbito, destruída, sem chance de brilhar outra vez.
Por mais que pareça improvável, a perda de milhares de cavaleiros enforcados foi devastadora. Se fossem apenas soldados de infantaria, o impacto seria menor, mas cada cavaleiro valia cem vezes mais, tornando o prejuízo inconcebível.
O Sagrado Império Gabriel protestou diplomaticamente contra Bizâncio por mais de sete anos, e Naler rompeu relações formais, tamanho o desastre.
Ninguém jamais soube por que o imperador tomou tal decisão. A glória dos cavaleiros de Cassilândia foi assim apagada. O império, que poderia ter sido repartido entre aliados, permanece até hoje em disputa, e ninguém sabe o verdadeiro significado por trás disso.
Brown enfrentara cavaleiros cassilândios pessoalmente. Eles não tinham armaduras de elite, nem lanças de ponta tripla ou espadas extras—apenas cotas de malha ultrapassadas há cinquenta anos. Ainda assim, eram tão ferozes quanto lobos, exigindo o dobro de tropas de Bizâncio para serem contidos em combate direto.
O modo como Morfes empunhou a lança e o ataque ao instrutor foram percebidos por Brown. Aquela ferocidade familiar, aquela semente de terror plantada em sua memória, as cicatrizes horríveis deixadas em seu elmo e armadura—tudo isso não lhe permitia permanecer calmo.
Mas o que poderia fazer?
Em todos os tempos, pequenas coisas mudam o mundo—como a popularização do estribo, que fez dos cavaleiros a força dominante do continente, ou uma técnica de combate brutal, há muito perdida, capaz de ter efeito semelhante.
A cavalaria empobrecida de Cassilândia desafiou Bizâncio e Gabriel por séculos com aquele estilo. Se não fosse pela traição do antigo aliado Naler, talvez ainda fossem poderosos. Se Bizâncio, rico como é, dominasse tal técnica, as consequências seriam óbvias.
Apesar de mal saber ler, Brown esforçou-se por controlar suas emoções, olhou pela janela para o jovem que acompanhava o instrutor nas voltas e deixou o escritório.
…
— Que notícia interessante.
Olhando para um rolo de correspondência feito de material especial, a duquesa Esara ergueu as sobrancelhas, e seu semblante habitualmente gelado pareceu oscilar por um instante.
Desde o jantar, essa mulher de presença imponente não havia tomado nenhuma providência em relação a Morfes. Responsável por quase toda a inteligência interna do império, era duquesa apenas no nome; na prática, era uma figura das sombras, nunca vista nos lugares errados ou em horários impróprios.
Para ela, Morfes era apenas uma criança interessante—impressão nascida ao ouvir a melodia de viola “A Lamentação do Rio Mori”, que talvez jamais escutasse novamente—mas ficou nisso.
A melancolia era sempre passageira; os nobres trabalhavam incansavelmente sob suas máscaras. Porém, naquele dia, a duquesa Esara recebeu um relatório ultrassecreto vindo diretamente da Academia de Cavaleiros de Kossy. Como responsável pela triagem dos documentos que chegavam à mesa do imperador, era dever de Esara avaliar se o conteúdo merecia tal destino.
Não surpreende, então, que aquilo a tenha chamado a atenção.
O que mais lhe despertou interesse não foi apenas o fato de Morfes talvez dominar as técnicas de combate da cavalaria cassilândia—a academia frisava que “poderia possuir tal habilidade”—, mas sim o fato de que, quando os cavaleiros de Cassilândia foram executados em massa, a própria Esara, então ainda jovem, foi quem levou a decisão do topo do poder até o exército expedicionário inimigo. A ordem foi executada antes de qualquer consulta. Quando o parlamento soube que milhares de cavaleiros tinham sido enforcados antes mesmo de se calcular quanto poderiam render em resgate, houve um escândalo.
Lembrar das expressões indignadas daqueles velhos nobres retrógrados ainda fazia Esara rir por dentro.
Ela encarou o papel amarelado, sorriu de leve e o aproximou da vela da escrivaninha, pondo fogo.
As cinzas caíram em uma caixa de prata, ao lado de um expositor de couro onde estavam distribuídos, em ordem, brasões de família.
Brasões da nobreza imperial.
Desde a águia bicéfala da família real, passando pelos duques do primeiro escalão, até o nível mais baixo de visconde—ali estavam os brasões de quase todas as famílias nobres de renome do império, sem faltar um sequer.
Até mesmo a família Cristóvão, já despojada de seus títulos, estava representada.
Os dedos longos de Esara deslizaram pelos brasões até parar sobre uma discreta e nada reluzente íris púrpura. Ela a apanhou delicadamente.
— Uma dádiva?
Não se sabe o que lhe veio à mente, mas por um instante pareceu perdida.
Às suas costas, o retrato de George Salomão, antigo chefe da família Salomão, continuava a vigiar silenciosamente a filha, com olhar profundo e sorriso enigmático.
…
O pôr do sol marcou o fim do treinamento do dia. Depois de completar dez voltas, Morfes voltou ao grupo sem demonstrar cansaço. O novo instrutor, por sua vez, não se arriscou a corrigir a empunhadura peculiar da lança de Morfes, e a tarde passou sem incidentes.
Para Morfes, o exercício não parecia apresentar dificuldade—além do suor, nada mais.
No entanto, sentia cada vez mais uma estranha sensação de ardor no corpo—algo que já experimentara antes, agora mais intenso.
— Não imaginei que fosse tão corajoso.
No jantar, o olhar sombrio de Hiddink suavizou-se um tanto, menos avaliador e com mais admiração, como se aprovasse a briga de Morfes com o instrutor.
— Na verdade, sou bem covarde, tenho muito medo da morte. Porque, se morrer, nada mais posso segurar.
Morfes deu uma mordida no pão de centeio duro, as palavras destoando do momento.
Buzel, ao lado, engasgou, estendeu a mão para o vinho e, antes que percebesse, Coven já lhe enfiara uma taça enorme nas mãos. Buzel bebeu alguns goles, limpou a boca e comentou:
— Mas eu realmente queria saber por que aqueles instrutores que te espancaram estavam, depois da corrida, rindo e conversando contigo?
O gordo tinha uma expressão cômica.
Morfes sorriu, sereno, esforçando-se para se integrar ao novo grupo. Apontando discretamente para os instrutores jantando do outro lado do refeitório, murmurou:
— Amizade masculina não nasce de briga? Se quiser uma amizade mais profunda, não me oponho a te dar umas surras, o que acha?
Buzel ficou surpreso, mas logo percebeu que era brincadeira. Embora a piada não fosse das melhores, o gordo riu de bom grado, sem nenhum fingimento, antes de encher a boca de pão e dizer, com voz abafada:
— Se for assim, pode me bater todo dia.
— Gordo destemido.
Hiddink, coisa rara, comentou.
Morfes não sabia que Buzel, apesar do ar bonachão, era, quando levado a sério, mais perigoso do que todos ali. Chamar-lhe de “destemido” era até subestimar.
Entre risos, não importava se as piadas eram boas; era uma chance de aproximar-se. Como nobres, jamais deixariam o clima esfriar. Depois de algumas conversas, os quatro já se sentiam mais à vontade juntos.
Morfes estranhava a “flexibilidade” das regras daquela academia. Era quase igual à Academia de Tarlens; tirando o gerenciamento militar rígido, o resto era bem livre. Exceto pelo treino ao amanhecer e os exercícios da tarde, não havia aulas obrigatórias.
Em contrapartida, havia uma infinidade de disciplinas eletivas—ministradas no tempo livre dos estudantes, abrangendo desde armaduras, armas, doutrina de cavaleiros, teologia básica, até heráldica, estandartes e identificação de cavalos.
Sem currículo fixo, cada um assistia ao que quisesse, mas ao final do semestre havia avaliação—não teórica, mas prática, como num verdadeiro campo de batalha.
— Não temos tarefas hoje à noite?
Ao ver os colegas saindo apressados após o jantar, Morfes ficou curioso com a pressa.
— Se aguenta ouvir Buzel declamando aquelas poesias melosas, voltar ao dormitório é uma boa escolha. Amanhã pega o quadro de horários com o porteiro e aí fica mais fácil escolher as aulas. Hoje, trate de resolver seus próprios assuntos.
Enquanto falava, Hiddink lançou olhares ao redor e murmurou:
— Anda logo, não quero chamar a atenção daquele demônio.
Os três giraram nos calcanhares e deixaram o refeitório ao mesmo tempo, e Morfes, instintivamente, foi atrás—afinal, num lugar desconhecido, não tinha interesse em testar os próprios limites por mera curiosidade.
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