Capítulo Vinte e Seis: O Prefixo “Santo”, As Confissões

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3290 palavras 2026-02-07 18:50:01

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“A separação dos elementos, através do acúmulo de energia e da difusão do poder dos filamentos cristalinos, transforma os elementos livres em energia ordenada; neste momento, o estado é de semi-coesão elementar, utilizado para o controle... dos detalhes do elemento e para aumentar a eficiência da conjuração.”

A última palavra dita por Morfeu soou um pouco hesitante, pois, segundo os fundamentos da “Teoria Elementar”, o controle dos detalhes do elemento serve para “proteger contra a instabilidade das bordas dos elementos coesos durante a conjuração”. Em termos simples, este estado de “semi-coesão” confere um controle extremamente fraco dos elementos, sendo apenas uma medida de proteção para estabilizar os elementos dispersos durante o lançamento de um feitiço; se julgado pela força física, nem sequer seria capaz de virar uma página de livro.

No entanto, diante de seus olhos, a mestra Dela sustentava, com um elemento em semi-coesão, um tomo de mais de dois quilos, virando precisamente até o capítulo “Classificação dos Estados de Coesão Elementar”!

Para um leigo, pode parecer simples, mas após três dias e três noites de luta árdua, Morfeu, ainda que não fosse um especialista, já compreendia que isso evidenciava a assustadora profundidade do poder de sua mestra. Mesmo assim, limitou-se a engolir em seco, sem ousar proferir mais palavras inúteis.

“Continue.”

Ao som da voz de Dela, a névoa de elementos se dissipou abruptamente, e, com um estalo semelhante ao vidro se partindo, o volumoso “Teoria Elementar” desapareceu subitamente... como se nunca tivesse existido.

Morfeu percebeu, então, que o grande volume estava agora repousado, intacto, sobre a mesa de madeira ao seu lado.

“Des... deslocamento espacial, íons elementares em alta vibração causam fissuras no espaço, rasgando o véu do plano.” Desta vez, Morfeu estava verdadeiramente atônito, cada palavra saindo com dificuldade — pois o que via era justamente o conteúdo do último capítulo de “Teoria Elementar”. O autor, Merlin Sturmes, ao concluir o livro, propôs apenas a teoria de que o espaço poderia ser rasgado pelos elementos, sem jamais possuir provas ou força para comprovar sua veracidade!

Por isso, no início do capítulo “Movimento em Alta Velocidade dos Elementos”, o mago, cujo retrato ocupa lugar de honra entre os Arcanos Maiores do Tarô, escreveu com cautela a anotação “Teoria Não Comprovada”, deixando claro que o objetivo era incitar as futuras gerações de estudiosos a questionar e explorar, não servindo de conteúdo formal de ensino.

Tudo isso, porém, foi completamente subvertido pelo gesto casual de Dela.

Diante do espanto de Morfeu, com a boca escancarada, Dela permaneceu impassível. Levantou-se e disse suavemente: “Venha à torre esta noite. Tenho uma nova tarefa para você.”

Morfeu quis acenar com a cabeça, mas sentiu o pescoço enrijecido.

“Se não suportar, pode pedir dispensa a qualquer momento.”

Dela parou junto à porta do escritório, apoiando-se levemente no batente de madeira maciça gravado com símbolos elementares, e disse sem se virar.

“Talvez eu peça”, murmurou Morfeu, sem dar uma resposta definitiva, mas, no fundo, já havia decidido o contrário.

O que não viu foi o leve sorriso que, pela primeira vez, surgiu nos lábios de Dela ao sair da sala.

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Ao sair do escritório, Morfeu consultou seu horário de aulas, observando os cursos que havia escolhido — após abandonar as aulas de equitação, também desistira das de cavalaria. Bastou uma única aula para perceber que, em uma turma onde nenhum aluno conseguia sequer segurar uma lança corretamente a cavalo, pouco teria a aprender de útil. Assim, relegou também essa disciplina ao esquecimento.

Não era por achá-la inútil, mas sim porque, após oito anos sob a rígida tutela de Dom Quixote, já não necessitava de treinos adicionais.

Acertar um alvo suspenso com uma lança de três metros, montado num cavalo em movimento, era o objetivo principal do treinamento de um cavaleiro — note, “objetivo”, não prática diária. Suportar três horas de exaustivo exercício em armadura pesada de Fording, empunhando uma lança, era apenas o treino básico. Para Morfeu, atingir um alvo fixo a galope pleno, com erro inferior ao diâmetro de uma moeda de prata de Merlo, era rotina.

Se o alvo estivesse em movimento, o erro seria, no máximo, três vezes maior.

O esforço empenhado nesse treinamento não precisa ser mencionado.

Após examinar o horário, Morfeu suspirou e se dirigiu à grande catedral da Academia de Tarens.

A academia abrigava mais de mil alunos, mas poucos conheciam Morfeu. Sua aparência desleixada, carregando uma espada curta, chamava a atenção de muitos — inclusive de Karlin, o gordo que antes tramara contra ele, e de Conger, cujos dentes foram partidos por um soco de Morfeu.

Esses dois ainda não compreendiam como seu plano falhara — mérito dos dois guardiões espadachins da família Windesor, que jamais demonstraram suas habilidades, mas fizeram todos os agressores de Morfeu desmaiar em segundos. Ao despertar, ninguém sabia como havia apagado.

“Aquele bastardo ainda anda por aí, vivíssimo...” Karlin rosnou, fitando com rancor as costas serenas de Morfeu ao longe. Seu rosto se contorceu de ódio, mas, astuto, não pensou em desafiá-lo cara a cara. Sussurrou algumas palavras ao mudo Conger, e alguns lacaios ao redor, admirados com o plano em curso do gordo, encheram-no de elogios e insinuações traiçoeiras, rindo de forma cada vez mais vil.

Entre nobres, apunhalar pelas costas era prática comum.

Morfeu, à frente, ignorava todos. Como calouro, seu contato com os outros era quase nulo, vivendo isolado, quase patológico. Contudo, ao avistar a catedral, sentiu inesperadamente uma paz — uma sensação que vinha daquele velho singular, e, principalmente, daquela menininha de sorriso tímido e palavras silenciosas.

Ergueu o olhar. O telhado da catedral alcançava as nuvens, mais de vinte metros de altura, sendo o edifício mais alto da Academia de Tarens. Imponente, majestosa, embora não rivalizasse com a Catedral de São Lourenço no coração de Constantinopla, ainda era um colosso. As portas de madeira maciça, longas e estreitas, obrigavam o visitante a olhar para cima, como um fiel diante da divindade.

Ao empurrar a porta, encontrou o salão vazio como sempre. Dos quase cem assentos, apenas uma figura solitária ocupava um deles — o suficiente, pensou Morfeu.

Sem ousar se aproximar, sentou-se em seu lugar habitual e abriu o “Antigo Testamento”, tratando aquelas palavras com uma atitude diferente.

Respeito, não julgamento — não importava se, como Dom Quixote dizia, aquilo era uma ferramenta dos governantes para controlar as massas. Após testemunhar a aterradora manipulação de elementos mágicos por sua nova mestra, Dela, Morfeu aprendera a respeitar o desconhecido, em vez de apenas temê-lo ou desconfiar.

“A maior limitação da cegueira humana está em sentir orgulho diante de sua própria cegueira.”

Esta frase não fazia parte do texto principal do “Antigo Testamento”, mas estava discretamente anotada na folha de rosto. Morfeu leu baixinho, franzindo a testa, sentindo o aviso implícito.

Virando o rosto, viu a pequena freira ali ao seu lado, como já esperava, observando-o com curiosidade.

“Quem escreveu essa frase?” suspirou Morfeu, como se perguntasse à garota ou a si mesmo.

A pequena freira não respondeu, mas apontou delicadamente para o nome do tradutor na primeira página do “Antigo Testamento” — Agostinho.

O “Antigo Testamento” não foi escrito em bizantino, mas em hebraico arcaico. Traduzir uma obra tão monumental, ou melhor, uma “dádiva divina”, exigia altíssima erudição literária e profundidade filosófica. Agostinho tornou-se o maior santo da Igreja por esse feito, entre outras razões. Antes dele, havia muitas traduções, mas todas eram mecânicas e falhas. Só Agostinho elevou o texto a um patamar que fez com que os próprios mortais o olhassem com reverência, não só pela habilidade de tradução, mas pela fusão entre filosofia e teologia que imprimiu em seus estudos, convertendo muitos que antes viam a teologia com arrogância e cegueira.

No “Antigo Testamento”, o nome de Agostinho aparece sem o título de “santo”, conforme seu último desejo antes de morrer.

Morfeu parecia absorto, lembrando-se do livro que o velho o obrigara a ler inúmeras vezes; capa preta, apenas o título “Confissões” na frente. Conteúdo denso e obscuro, que ele quase sabia de cor, apesar de não entender, sob ameaça constante do cachimbo do velho Dom Quixote: errar uma palavra era punição certa.

Por quê?

Morfeu ainda não sabia. Só tinha certeza de que aquele livro — “Confissões” — o velho dizia ter arriscado a vida para trazer. Embora não fosse um tomo pesado, tinha o ar de uma Caixa de Pandora, e recebia toda a atenção daquele homem de força descomunal.