Capítulo Vinte e Três: Selo de Cera Sombria, Espada Erguida

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3636 palavras 2026-02-07 18:49:57

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A vida tranquila de Morfeu não foi abalada por nenhum imprevisto. Ele percebia, vez ou outra, alguns sujeitos o seguindo de longe, mas, aparentemente intimidados por sua habilidade marcial, esses perseguidores jamais ousaram se aproximar desse perigoso nobre. Morfeu, que evitava provocar conflitos desnecessários, seguiu sua rotina sem maiores incômodos.

O campus da Academia de Talens era de uma vastidão impressionante, capaz de deixar qualquer um boquiaberto. Nos fins de semana, havia sempre uma infinidade de atividades e eventos. Bailes e encontros sociais, porém, estavam longe do alcance de Morfeu. Seu temperamento reservado, a expressão sempre fechada de quem repele estranhos, fizeram com que as mulheres, antes curiosas, se afastassem aos poucos. Em outras palavras, as cartas jogadas semanalmente na lareira tornaram-se cada vez mais raras, ao passo que a pilha de livros sobre sua escrivaninha só aumentava.

Além dos exercícios diários ao amanhecer, repetindo as técnicas ensinadas por Dom Quixote, Morfeu mergulhava numa leitura voraz, quase sempre avançando madrugada adentro. Lia os conteúdos de todas as disciplinas em que estava matriculado, mas dava especial atenção aos cadernos de anotações que Clívio lhe entregava, um a um, em ritmo progressivo.

Clívio, o garoto franzino frequentemente alvo das brincadeiras dos colegas, era muito mais complexo do que aparentava. Sobre magia, transmitia a Morfeu um conceito direto e simples, dizendo, em outras palavras: "Se compreenderes a magia, serás invencível."

Se as volumosas obras em sua mesa realmente confeririam poder a Morfeu, ainda era incerto. Mas, com tempo de sobra, ele sabia que não poderia mais se dedicar diariamente aos treinamentos nas florestas. O caminho que se abria à sua frente lhe parecia mais interessante.

E interessar-se por algo era uma raridade para Morfeu. Para alguém cuja maior diversão até então era esfolar e dissecar suas presas, encontrar uma nova ocupação que merecesse sua dedicação era difícil.

No entanto, Morfeu não era nenhum prodígio. Embora as anotações de Clívio lhe proporcionassem uma nova perspectiva sobre os densos livros didáticos, permitindo-lhe absorver o conhecimento com eficiência, ainda encontrava obstáculos em certos pontos.

Clívio, sem rodeios, deixou claro que não tinha tempo para responder a cada uma de suas inúmeras dúvidas. Sem alternativa, Morfeu teve que buscar a ajuda da professora de magia, Della.

...

Enquanto Morfeu tomava a decisão de procurar sua professora para solucionar suas dúvidas, em uma torre alta nos arredores de Talens, a maga Della examinava silenciosamente uma pilha de provas.

Aquela mulher, sempre com ares de rigidez e um rosto belo e impecável—não fosse a expressão constante de frieza, seria considerada uma verdadeira beleza, daquelas cuja maturidade aos vinte e tantos anos só realça o encanto.

Era notório, porém, que a maioria dos magos não tinha tempo para buscar parceiros. “Seu único consorte é o vasto oceano do saber”, como bem definiu um historiador. Era o caso de Della naquele momento. Em seu aposento espartano, além de duas estantes enormes e desproporcionais, havia apenas uma cama estreita e uma ampla escrivaninha de madeira barata, ainda com farpas.

Este era o alojamento temporário de Della, um benefício extra por ter aceitado o cargo de professora na Academia de Talens após vir do longínquo Império Gilman para lecionar por um semestre.

Naturalmente, sendo a academia símbolo da cidade mais rica do continente, não seria difícil oferecer a uma maga contratada a peso de ouro uma suíte digna de palácio. Mas Della recusou cortesmente tais regalias e preferiu viver isolada naquela torre vazia, completamente só, afastada do mundo.

No peito, ela não ostentava nenhuma insígnia de grau concedida pela Guilda Imperial dos Magos, mas, já no primeiro dia, obrigou o diretor a redigir pessoalmente sua carta de contratação—a razão de tal deferência era clara. Contudo, ninguém sabia ao certo por que essa maga, de aparência desapegada e sem ambições, aceitou um cargo numa academia de segunda categoria.

Com delicadeza, Della virava as folhas de pergaminho, dedicando um tempo precioso para um mago a corrigir as chamadas “provas”—algo que fugia completamente a seus hábitos, mas cujo objetivo era bastante claro.

“Morfeu.”

Ela pronunciou baixinho aquele nome estranho, quase impronunciável na capital bizantina, retirou uma folha de pergaminho relativamente limpa e, ao lê-la, franziu levemente a testa.

Uma linha de escrita saltou à vista:

“Se a magia não me trouxer poder, se os elementos não rivalizarem com a lâmina, se uma vida inteira de estudo for em vão, prefiro abandonar tudo e buscar qualquer caminho que me torne forte.”

Uma frase aparentemente infantil e impetuosa, carregada do orgulho típico de uma criança, mas que arrancou um leve sorriso dos lábios sempre sérios de Della.

A caligrafia de Morfeu era firme e vigorosa, dotada de uma energia masculina incomum entre os nobres de Constantinopla, geralmente afeitos à afetação. A escrita revela a alma, diziam, e aquele jovem taciturno realmente destoava dos demais.

Della semicerrava os olhos, retirou da capa do livro “Teoria da Sétima Defesa de Tasgue” uma pena adornada com plumas de pombo vermelho de nove caudas, e, após alguns instantes de reflexão, escreveu um breve comentário antes de recolocar o pergaminho em seu lugar, deixando de lado as demais provas.

Absorta, Della pareceu perder o interesse pelo tomo antigo emprestado com a mais alta permissão da Biblioteca Real de Gilman e, então, retirou uma carta do bolso interno de sua túnica preta.

Era um simples pergaminho, com um selo de lacre escuro—raro—já rompido. Não trazia o brasão pomposo de nenhuma família nobre, apenas um solitário cetro negro.

“Mestre, foi este o jovem que escolheste?”

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Domingo, o tradicional dia de descanso no Império Bizantino.

Morfeu carregava em braços uma pilha de pergaminhos. Levantou o rosto para o sol escaldante e, com um lenço de seda caríssimo, enxugou o suor do rosto com elegância—um pequeno detalhe que jamais esquecia. Um nobre, dissera Dom Quixote, também o velho mordomo, deve manter a postura em toda e qualquer situação.

A residência de Della não ficava longe da Academia de Talens, mas já estava fora dos limites do campus. Muitas vezes, certos conflitos encontravam sua resolução longe dos muros da escola, uma regra que se aplicava perfeitamente ao caso de Morfeu. Assim, ao sair sozinho da academia, não era de se admirar que sombras furtivas logo surgissem nas largas avenidas.

Da entrada da escola até a torre havia trezentos metros, mas Morfeu não seguiu pelo caminho mais curto. Preferiu entrar num beco estreito—como era de se esperar, assim que o fez, figuras surgiram à sua frente e atrás, bloqueando completamente sua passagem.

Olhando para trás, Morfeu contou mais de vinte pessoas, quase todas vestidas como alunos—e eram, de fato, em sua maioria estudantes do curso de esgrima, em geral plebeus apelidados de “braçais”. Gente sem escrúpulos, capaz de tudo por dinheiro, e que, por pagarem a mensalidade mais baixa, não temiam ser expulsos. Não por acaso, a Academia de Talens era a que mais fornecia suboficiais e soldados rasos ao exército imperial. Ficava claro que alguém queria usar esses peões para dar um fim nele.

Com gestos calmos, Morfeu enrolou cuidadosamente os pergaminhos que carregava e, de expressão impassível, começou a correr. Os que bloqueavam seu caminho, ao vê-lo avançar sem hesitar, sentiram-se provocados e, indignados, desembainharam suas espadas de treino ao seu encontro!

As espadas distribuídas aos alunos do curso de esgrima não podiam ser portadas fora do campus e tampouco tinham fio. Ainda assim, todos os anos havia casos de mortes em brigas. Morfeu parecia prestes a ser a primeira vítima daquele ano.

O beco, estreito, prometia uma luta intensa. Morfeu escolhera aquele local por um motivo: com menos de três metros de largura, ninguém poderia cercá-lo dos lados, e sua adaga seria muito mais eficaz naquele espaço confinado.

Três estudantes avançaram à sua frente em formação triangular. Morfeu, correndo num ritmo aparentemente lento, acelerou de repente a menos de dez metros dos inimigos, deixando uma sombra de seu corpo para trás, como uma flecha disparada.

Saltou, girou o corpo e atingiu o primeiro adversário com um chute lateral. O som seco de ossos se partindo foi seguido do impacto do corpo contra a parede! Antes que os outros dois pudessem erguer as espadas, Morfeu golpeou ambos nas costelas com socos certeiros. Seus punhos, ágeis a ponto de deixarem rastros invisíveis, mostravam uma técnica rápida e fluida, arremessando os inimigos como um tigre em meio a cordeiros.

A segunda leva de estudantes logo tentou cercá-lo pela frente e por trás, atacando sem hesitação com suas espadas.

Os golpes descendentes, sincronizados e vigorosos, denunciavam o treino árduo de todos.

“Clang!”

Morfeu sacou a adaga presenteada por Dom Quixote. Pela primeira vez, aquela lâmina revelou seu brilho peculiar nas pacatas terras de Constantinopla.

Com um corte horizontal, a afiadíssima adaga cortou nada menos que cinco espadas de uma só vez!

Mesmo sem fio, as espadas de treino da Academia de Talens eram obras de ferreiros de Constantinopla, fabricadas conforme padrões militares do exército imperial—bastava afiar na pedra para prontamente levá-las a combate.

E ainda assim, aquelas lâminas, valendo o salário de um mês de um trabalhador comum, foram cortadas como cana por Morfeu. O corte, limpo e preciso, partiu as cinco espadas ao meio, fazendo voar os fragmentos de metal. O barulho de suas quedas no chão foi suficiente para fazer todos os mais de vinte estudantes congelarem de espanto.

A força que testemunhavam ia muito além do que imaginavam—não apenas pela lâmina, mas porque qualquer espadachim sabe: não é a espada que faz o guerreiro, mas quem a empunha. O jovem, até então tido por frágil e indefeso, calou a todos com sua habilidade. Um segundo depois de cortar as cinco espadas, Morfeu já havia despachado três inimigos à sua volta com dois socos e um chute, abrindo caminho como um raio.

Dos vinte e três adversários, quatro caíram em um piscar de olhos. Os demais, tomados pelo medo, hesitaram em avançar. No centro do beco, Morfeu permanecia solitário, firme com sua espada em punho, exibindo uma aura de mestre espadachim—sereno, sem um traço de nervosismo, e nem mesmo o menor tremor nas mãos provocado pela adrenalina, apesar do cerco inimigo.