Capítulo Cinquenta e Sete: A Menina que Olhava para as Costas do Pai
Hoje, apenas um capítulo. Tenho estado exausto ultimamente; depois de concluir o projeto de graduação, as atualizações serão muito mais intensas, mas agora estou realmente ocupado. Não haverá interrupção nas postagens, mas o estoque de capítulos está de fato um pouco escasso. Espero que todos compreendam.
Peço por favor que salvem e votem com o ticket vermelho, muito obrigado!
— Don Quixote está bem? —
O príncipe Hades fez uma pergunta que quase fez Morfeu saltar de susto! Ele jamais imaginou que, em uma situação e lugar como aquele, encontraria alguém que conhecia aquele velho, e mais ainda: esse alguém era um príncipe!
Antes que pudesse responder, o homem à sua frente fez um gesto com a mão e continuou:
— Deixe pra lá, é melhor não me contar. Por causa do assunto do "cetro", fiquei devendo favores a tanta gente. Depois de tantos anos, ele pode considerar tudo quitado.
Morfeu calou-se, mas seus olhos arderam. Não se importava com cetros ou favores, mas era impossível controlar a onda de sentimentos que o invadia.
— A vida é amarga e breve. —
O príncipe suspirou, como se não quisesse relembrar o passado.
Após algum tempo, lembrando-se de Lilith, ele falou suavemente:
— Neste mundo, nunca há heróis demais. Muitos querem estar no centro do palco e receber aplausos de multidões, mas eu desejo que Lilith seja alguém que possa aplaudir os heróis em silêncio. Que não se sacrifique pela glória ou pelo topo, que prefira ser uma mulher comum arrastada para a cama por um inútil, do que ser, como eu, o chamado herói que enfrenta milhares de inimigos.
A palavra "herói", vinda do príncipe Hades, membro do Conselho dos Cavaleiros da Távola Redonda, não seria contestada por ninguém.
O príncipe, normalmente reservado, raramente falava tanto; como comandante, era econômico nas palavras, mas hoje parecia ter muitas reflexões a compartilhar — não como desabafo, mas algo reprimido há muito tempo, liberado pela conversa com Morfeu sobre sua origem.
— Qual é o teu objetivo? —
Talvez percebendo que falava demais, o príncipe mudou de assunto.
— Talvez, para mim, basta ser um nobre capaz de sobreviver aos assassinos mais improváveis. —
Morfeu sorriu, seu rosto jovem mostrava certa melancolia.
A resposta pareceu lembrar o príncipe de algo; ele ergueu levemente a cabeça, olhando para o punhal na cintura de Morfeu, e refletiu por um momento.
— Vá e explique você mesmo para ela. Você é o primeiro e o último capaz de feri-la. —
O príncipe suspirou, pensativo.
— Ser nobre é carregar sempre um fardo mais pesado que o das pessoas comuns. Lembre-se disso: se alguém fizer Lilith sofrer novamente, não serei tão cortês como hoje.
Dito isso, o príncipe imperial levantou-se e saiu, deixando Morfeu boquiaberto encarando sua silhueta desaparecendo.
O jovem, desastrado em lidar com emoções, não percebeu a nuance profunda nas palavras do príncipe; achou que era apenas uma punição pelo excesso cometido — como se fosse incumbido de cuidar de Lilith, tal como Guevara cuidava dele.
Talvez.
O diálogo entre eles não teve qualquer traço de formalidade ou falsidade; Morfeu nem se lembrou de cumprimentar o príncipe, mas a atmosfera não era ruim. Aliviado, achando que escapara de um perigo, Morfeu dirigiu-se ao quarto, pensando nas palavras do príncipe, e entrou distraído.
Imediatamente foi surpreendido por uma chuva de objetos — punhal, faca, vaso, travesseiro e até um pequeno boneco — tudo voando em sua direção. O quarto estava mal iluminado, e Morfeu fez o possível para esquivar-se da confusão, acabando atingido apenas pelo boneco, que agarrou sem entender.
Morfeu havia esquecido uma regra do império: a menos que seja convidado, invadir o quarto de uma jovem é considerado extremamente rude. As palavras do príncipe ao sair criaram um padrão mental, e ele entrou sem pensar, resultando na reação apavorada e irada de Lilith.
Sentada na cama, Lilith vestia uma camisola de seda fina, popular entre a nobreza bizantina, o corpo delineado sem pudor. O rosto altivo do dia agora mostrava um olhar de quem foi profundamente injustiçada; os olhos vermelhos, ao ver Morfeu entrar, mudaram de expressão rapidamente. Depois de jogar tudo ao seu alcance, ela recuou para o canto da cama, fitando Morfeu silenciosa, com olhar sombrio.
A filha do príncipe, uma das raras cavaleiras admitidas na Academia de Cavaleiros de Cós, conhecida por nunca perder uma luta desde o início do ano letivo, agora mantinha-se calada.
— Eu... —
Morfeu tentou falar, mas percebeu que ela não estava disposta a ouvir. Engoliu em seco, coçou a cabeça, e os dois ficaram ali, num impasse constrangedor.
Depois de um tempo:
— Me desculpe, fui duro demais. —
Morfeu decidiu dizer o que precisava.
— Não sei se é teu hábito ou não, mas ser chutado sem motivo me deixa furioso, e quando estou com raiva não consigo ser racional... espero que me perdoe.
— Você veio pedir desculpas porque teme o poder do meu pai, não é? —
Lilith falou friamente, direta e sem perder o ímpeto.
— Sinceramente, se o príncipe quisesse, eu nem teria entrado neste quarto. —
Morfeu não percebeu qualquer significado oculto nas palavras dela.
— De qualquer forma, já pedi desculpas; se não há mais nada, vou sair.
Deu um passo atrás e, ao virar-se, lembrou-se de fazer a saudação nobre, mas ouviu a filha do príncipe exclamar, incrédula:
— Você... vai simplesmente embora?
— E por que não? —
Morfeu ergueu a sobrancelha, confuso.
— Está bem... ótimo... vou lembrar de você —
A jovem agitava a mão, irritada.
— Saia daqui imediatamente.
Morfeu saiu sem hesitar — na verdade, não se interessava por aquela garota, preferia meditar do que passar constrangimento ali.
Quanto às palavras do príncipe, Morfeu achava que, por ora, ninguém ousaria mexer com ela; melhor esperar até amanhã quando ela estivesse mais calma.
Pensando nisso, Morfeu, já fora do quarto, sentiu-se mais leve, caminhando até o dormitório como um tolo despreocupado.
No quarto de Lilith, a jovem, olhando pela janela, estava furiosa, mas também impotente — finalmente compreendia por que havia perdido para Morfeu: sua posição, status e beleza, que costumava intimidar outros, não tinham efeito sobre ele.
Nem mesmo sua força.
Seria isso um verdadeiro adversário?
Lilith massageou o ombro, ainda dolorido pelo chute de Morfeu, mas sentiu uma estranha determinação. Aos seis anos, admirou o pai, coberto de medalhas, atravessando o Arco do Triunfo de Constantinopla, ovacionado por multidões; desde então, decidiu ser o cavaleiro mais destacado, como ele. Porém, o pai, cavaleiro da Távola Redonda, conhecendo sua própria culpa e sangue derramado, nunca quis que a filha seguisse seu caminho. A teimosia, entretanto, era tradição na família de Longino, resultando em uma década de guerra fria entre pai e filha.
Morfeu não sabia que o príncipe, desde a tarde em que entrou naquele quarto até a conversa com ele, nunca conseguiu se comunicar com a filha, tamanha era a rigidez daquela relação.
Mais um lar de poder e sofrimento.
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O pouco hábil Morfeu foi ao refeitório, comeu rapidamente, não participando da “festa” de Hiddink e companhia, e depois voltou ao dormitório para praticar magia e meditação. Planejava pedir ao velho mordomo que enviasse seus livros na semana seguinte, pois, fora os fins de semana, a Academia de Cavaleiros proibia saídas, e Morfeu estava satisfeito em aprender a controlar o poder dos elementos.
A energia das fibras de cristal havia duplicado com o desaparecimento de um dos anéis de magia em seu corpo, mas ainda não tinha motivos para se orgulhar — duplicar uma moeda de cobre ou dez mil moedas de ouro são coisas bem diferentes, e Morfeu estava empenhado em aprimorar o fio cortante de sua varinha.
Seus colegas finalmente perceberam que o recém-chegado era, na verdade, um mago, e a varinha e a névoa cinzenta que emanava não eram truques de charlatão. Embora apenas um mago iniciante, também era cavaleiro, algo único na academia e no império, tornando-se assunto de conversa.
O ambiente noturno do dormitório era mais tranquilo que nos outros quartos: Buzeus recitava poesia em silêncio, Hiddink lia “Sobre Lívio”, fazendo anotações, e o grandalhão Coven contemplava suas plantas, perdido em pensamentos.
Morfeu meditou, e a noite passou rapidamente.
Na manhã seguinte, durante o treinamento de equitação, Morfeu e seus três colegas caminhavam juntos, em silêncio, quando perceberam que havia mais alguém atrás deles.
Hiddink, ao olhar para trás, mudou de expressão e acelerou, sem dizer uma palavra. Coven, curioso, virou-se, o rosto marcado pelo tempo contorcido, e junto com Buzeus correu atrás de Hiddink, enquanto Morfeu, impassível, viu seus colegas cavalgarem à frente e só então virou-se, encontrando o rosto esperado — Lilith, com expressão tão complexa quanto o círculo mágico atrás de Morfeu: raiva, mágoa, insatisfação, mas sem ódio.
Quanto ao motivo, nem Lilith parecia saber — vestindo armadura de couro, olhava Morfeu, que nem se surpreendeu, mordendo os lábios, hesitou e apenas o seguiu, fitando-o.
— Tem algum problema? —
Morfeu percebeu que todos à volta haviam se afastado, observando-o discretamente, enquanto seus colegas, nada solidários, olhavam de longe, surpresos por ele ainda não ter sido derrubado do cavalo.
— O que meu pai te disse? —
Lilith, tentando manter o ímpeto, perguntou após algum tempo.
Morfeu segurou as rédeas, irritado, e respondeu sem cerimônia:
— Por que eu deveria te contar?
— Você... —
Lilith ficou sem resposta. Sempre teve desavenças com o pai, mas não queria admiti-lo diante de outros. Sem mudar de temperamento, ergueu o pé para chutar Morfeu, mas ele antecipou-se e deu um tapa na garupa do cavalo dela, fazendo-a disparar à frente, quase explodindo de raiva.
— Que inconveniente —
Morfeu observou a figura tentando controlar o cavalo, a testa franzida, sem saber que seu gesto havia deixado todos em volta em absoluto silêncio.
Desde que aquela jovem chegou à academia, nem mesmo os instrutores ousaram tratá-la assim.
— Morfeu! Você vai ver só! —
Ao longe, Lilith, sem o controle do cavalo como Morfeu, gritou, atraindo olhares assustados dos estudantes ao redor.
No centro da tempestade, Morfeu conduziu o cavalo calmamente, como se nada tivesse acontecido.
— Droga, subestimei aquele garoto, é mesmo um fenômeno! —
Ao longe, o instrutor Brown, com o rosto tenso, e os outros instrutores, conhecendo a força de Lilith, olhavam surpresos para o jovem, sem saber como defini-lo.